— Fique aqui um mês, não sou um monstro — disse o marido, indo embora para outra. Três anos depois, com mãos trêmulas, ele tirou o anel.

A mala já estava à porta, e no fogão ainda fervia o caldo verde. Com broa de milho. Como ele gostava.

Inês enxugava as mãos secas num pano — maquinalmente. Olhava para a nuca familiar, para o sinal atrás da orelha que beijara mil vezes. E não reconhecia.

— Vais em viagem de trabalho?
— Não, Inês. Vou-me embora.

A palavra pairou na cozinha como cheiro a queimado.

— Para onde?
— Para outra.

O pano caiu-lhe das mãos.

— Rui…
— Inês, vamos evitar cenas. Nós os dois sabemos que isto acabou há muito. Só que eu resolvi-me, e tu não.

— Acabou? — ela riu. Nervoso, assustador. — Amanhã é o nosso aniversário. Dezoito anos.

— Exactamente. Dezoito anos do mesmo caldo verde.

O golpe foi certeiro. Ela sufocou.

— Eu deixei o mestrado por ti. Eu podia ter sido…
— Não podias ter sido nada. — Ele sorriu. Aquele sorriso de quem tem pena. — Restauradora. Quem é que hoje precisa disso — ícones, pó… Eu dei-te a vida, aliás. O apartamento. O carro. O mar todos os anos.

— Tu deste?..
— Quem, se não eu? Pronto. O apartamento fica em meu nome, mas não sou um monstro. Fica mais um mês ou dois. Depois logo vemos.

Ela segurou-se às costas da cadeira. Os dedos brancos.

— Quem é ela?
— Que diferença faz.
— Quem?

Ele olhou para o relógio.

— Luísa. Trinta e dois. Ela é viva, Inês. Percebes? Vai ao teatro, esquia, ri-se. Tu há muito que te transformaste numa empregada. Sem dar por isso.

Inês calou-se. Tinha um nó na garganta.

Rui pegou na mala. À porta voltou-se — e nos olhos passou qualquer coisa. Não era arrependimento. Era aborrecimento. Como o dono que deixa o cão velho no canil.

— Não te preocupes. Trinta e oito não é uma sentença. Goza a liberdade, Inês. Mereces.

A porta fechou-se.

O caldo verde continuava a arrefecer no fogão.

Na primeira semana, ela não chorou. Andava pela casa como por um museu de uma vida alheia. As camisas dele. A escova de dentes dele. O copo a meio na mesa.

Ao oitavo dia, a Tânia ligou.

— Inês, estás viva?

E rebentou. Chorou ao telefone de tal maneira que a vizinha do rés-do-chão subiu para saber se estava tudo bem.

— Tânia… tenho trinta e oito anos. Sou um vazio. Dezoito anos a fazer caldo verde, já nem me lembro da última vez que peguei num pincel…
— E de que é que te lembras?
— O quê?
— Lembras-te porque é que foste para a restauração?

Inês parou. Veio-lhe à memória a sala do Museu Nacional de Arte Antiga, ela com dezanove anos, diante do «Painel dos Infantes» a chorar. Porque as pessoas eram capazes de criar aquilo. E de o preservar.

— Lembro.
— Então vai buscar as tuas tintas ao armário. Eu sei que estão lá. Vi-as há cinco anos.

As tintas encontraram-se. Numa caixa de sapatos, debaixo de uns cortinados velhos. Secas, metade irrecuperáveis. Mas os pincéis — os pincéis estavam inteiros. De marta, comprados outrora com a bolsa de estudo, a troco de saltar o almoço.

Inês sentou-se no chão do armário e chorou. Mas já de outra maneira. Em silêncio.

Na manhã seguinte, inscreveu-se num curso na Faculdade de Belas-Artes. Pago. O dinheiro — as últimas poupanças para umas férias que já não precisava.

Foi ao cabeleireiro. Cortou a trança que Rui lhe proibira de cortar durante vinte anos. Ao espelho, olhava-a uma mulher desconhecida. Com maçãs do rosto salientes, com olhos vivos e zangados.

— Olá. Há muito tempo.

Três meses de estudo. Museus, apontamentos. À noite desenhava — primeiro com timidez, depois com mais confiança. As mãos lembravam-se. As mãos não tinham esquecido.

Em Fevereiro, a Tânia ligou.

— Inês, há uma coisa. Lembras-te do Artur Lopes, com quem o Miguel trabalha? Morreu-lhe a avó, ficou uma casa no Alentejo. Antiga. E lá dentro há ícones, uma prateleira inteira. Queria deitar fora…
— Não deixes! — Inês saltou. — Diz-lhe para não mexer!
— Pois, pensei que talvez fosses ver? Ele paga.
— Vou. Amanhã.

Os ícones estavam num estado horrível. Oito peças — enegrecidas, com o gesso a descolar, rachadas. Inês inclinou-se sobre elas — e o coração bateu tão forte que o ouvia nos ouvidos.

— Senhor Artur — disse ela com a voz rouca. — Este… preciso de ver com uma lâmpada, mas estou quase certa. Século XVII. Pintura do Norte. Muito valioso.

Ele ergueu uma sobrancelha incrédula.

— Quanto vale?
— Restaurar — não sei dizer ao certo. Mas depois vendê-lo — muito.
— E tu consegues restaurá-lo?
Inês olhou para as tábuas. Para as faces mal visíveis por entre a fuligem. Percebeu: era a oportunidade. A única.

— Consigo.

O trabalho levou seis meses. Arrendou um pequeno atelier nos arredores — o cheiro a solventes no apartamento era insuportável. Comeu pão com manteiga. Perdeu doze quilos. Chorou duas vezes de desespero, quando quase estragou o trabalho. Uma vez ligou à professora às quatro da manhã — ela, santa mulher, chegou uma hora depois com um termo.

Depois veio o primeiro ícone. Libertado. Brilhante.

Artur Lopes ficou muito tempo calado.

— Inês. Isto é um milagre.
— Não é milagre. É trabalho.

Pagou o dobro. Uma semana depois, ligou um conhecido dele. Depois um conhecido do conhecido. Depois um galerista da Rua do Alecrim.

O passa-palavra é a mais rápida das comunicações.

Passou um ano. Depois outro.

Agora Inês vivia noutro apartamento — alugado, mas seu. Com tectos altos. Atelier no Chiado, lista de encomendas para seis meses. Trabalhos para dois mosteiros e uma colecção privada de um conhecido empresário, cujo apelido os jornais de economia escreviam com reverência.

Chamava-se Dinis da Costa.

Ele vinha ao atelier pessoalmente. Não mandava estafetas. Sentava-se na cadeira junto à janela e via-a trabalhar. Às vezes trazia café. Outras vezes, nada.

— É um cliente estranho, senhor Dinis.
— Sou uma pessoa estranha. Importa-se que fique um pouco?
— Não.

Quarenta e cinco anos. Viúvo. Olhos inteligentes e cansados, mãos de pianista — embora ele não tocasse piano, mas sim no mercado de fusões.

Não havia nada entre eles. Ainda. Mas Inês apanhava-se às vezes à espera das suas visitas.

Naquela noite, ela não queria ir a lado nenhum.

Mas a Tânia insistiu — aniversário da galeria na Avenida da Liberdade, toda a gente de Lisboa, não podia faltar, os teus clientes estão lá, chega de te enfiares na tua cela.

Inês vestiu um vestido preto — simples, o primeiro vestido de bom costureiro que comprara na vida, um mês antes. Brincos de pérola — oferta de um cliente agradecido. Saltos a que já se tinha desabituado.

Dinis da Costa foi buscá-la ele próprio, sem motorista.

— A senhora está hoje…
— O quê?
— A brilhar.

Ela riu. A sério. Pela primeira vez em muito tempo.

Na sala, ouvia-se o burburinho da conversa, o champanhe a correr. Inês parou diante de um quadro de Columbano — fingia que o observava. Só para recuperar o fôlego.

— Inês?..

Voltou-se.

À sua frente estava Rui.

Mais velho. Cinzento. Olheiras. Um copo na mão, e a mão a tremer um pouco. Ao lado, uma mulher nova, magrinha, com ar insatisfeito. Pendurada no braço dele como num cabide, a resmungar:

— Rui, vamos embora, que seca…
— Espera, Luísa.

Ele olhava para Inês e não a reconhecia.

— Tu? És tu?
— Olá, Rui.
— Tu… como mudaste.
— O tempo passa.

Luísa puxou-lhe a manga.

— Quem é?
— É… a minha ex-mulher.

Luísa percorreu Inês com um olhar feminino rápido. Dos sapatos aos brincos. O rosto alongou-se ligeiramente.

— Muito prazer. Vou ao bar.

E foi, a tiquetaquear nos saltos.

Ficaram os dois. No meio da sala, no meio da multidão — mas sós.

— Tu aqui, como?
— Trabalho. Sou restauradora. Tenho clientes.
— Restauradora? — ele pestanejou. — A sério?
— A sério.

— Inês… — aproximou-se. Cheirava a conhaque. — Tenho de te dizer. Fui um idiota.

Ela calou-se.

— Esta Luísa é um pesadelo. Vazia. Nem sabe fazer um ovo estrelado. Só quer discotecas, férias, restaurantes. Estou farto, Inês.

— Calculo.
— Vou divorciar-me. Já pedi. — Agarrou-lhe a mão. — Vamos tentar outra vez. Tu gostaste de mim. Sempre gostaste.

Inês olhou para os dedos dele. Alheios. Outrora os mais queridos. Agora apenas alheios.

Retirou a mão com suavidade.

— Rui. Lembras-te do que me disseste quando te foste embora?

Franziu a testa.

— Disseste: goza a liberdade.

— Inês, eu não quis…
— Espera. Quero agradecer-te. Sem ironia.

Ele olhava sem perceber.

— Deste-me realmente a liberdade. Demorei a desembrulhá-la — como um presente com medo de abrir. Depois abri. Lá dentro estava eu. A que enterrei durante dezoito anos.

— Inês…
— Portanto, obrigada. E — não. Não volto.

— Mas porquê? Tenho o apartamento, dinheiro, posso dar-te…
— Rui. Eu sustento-me sozinha. Há muito tempo.

Nesse momento, aproximou-se Dinis da Costa. Calmo, discreto, com dois copos.

— Inês, está pronta? O coleccionador do Porto espera por si.
— Sim, senhor Dinis. Claro.

Ele estendeu a mão. Ela aceitou.

Rui ficou a olhar para eles. As costas direitas dela. O respeito com que aquele homem de fato caro se inclinava.

Ao balcão, Luísa resmungava. Ele não ouvia.

Inês, à porta, voltou-se um segundo. E — não, não era triunfo. Apenas acenou. Como se acena a um conhecido de quem nos separámos há muito, sem ressentimentos.

O coleccionador era um homem grisalho e corpulento, com olhos azuis de criança. Bento Nunes. Beijava a mão à moda antiga, com uma vénia, tratava-a por «minha senhora» — sem ironia.

— O senhor Dinis falou-me maravilhas. Não acreditei. Agora vejo que não mentiu.
— Ainda não viu os meus trabalhos.
— Já vi. Há três meses. «Nossa Senhora da Piedade», século XVIII. Lembra-se?

Inês lembrava-se. Seis meses de trabalho.

— Foi o senhor que a comprou?
— Fui. E quero mais. Tenho uma coisa delicada. Podemos falar?

Foram para a janela. Dinis da Costa ficou junto a uma coluna — discreto, ao lado, mas perto. Inês sentia-o nas costas, e isso dava-lhe um calor estranho.

De soslaio, viu Rui ainda diante do quadro de Columbano. Sozinho. Luísa tinha ido embora — com escândalo, decerto. Ele olhava na direcção dela, mas Inês já não se voltou.

— Tenho um ícone — disse Bento Nunes em voz baixa. — De Braga. Século XVI. O problema é que a história dele não é clara.

Inês apertou-se.

— Roubado?
— Não, não, que ideia. Saído nos anos vinte. Depois Paris, Nova Iorque. Comprei-o em leilão há dois anos, legal. Mas quero trazê-lo para casa. No seu estado original. No século XIX foi muito repintado. Por baixo das camadas, estou convencido, há uma obra-prima.

— E para que quer isso?

Bento Nunes calou-se um momento.

— A minha avó era de Braga. Partimos em 1924. O pai dela, padre, foi fuzilado em 1937. Procurei este ícone quarenta anos. E encontrei-o.

Inês sentiu um ardor nos olhos.

— Aceito.

O trabalho sobre o ícone de Braga devia começar dentro de um mês — depois das autorizações documentais. Entretanto, a vida seguia.

Na segunda-feira de manhã, Inês chegou ao atelier e encontrou um envelope debaixo da porta. Sem selo. Um bilhete com a letra trémula e familiar:

«Inês, preciso falar contigo. Não por telefone. Estarei quarta às sete perto do teu atelier, no café da esquina. Se não vieres, compreendo. Mas peço muito. R.»

Ficou muito tempo a olhar para o papel. Amarrotou-o. Alisou-o. Amarrotou outra vez.

Na quarta às sete, foi.

Nem ela sabia porquê. Talvez quisesse pôr um ponto final — não aquele bonito da galeria, mas o verdadeiro. O caseiro. O definitivo.

Rui esperava na mesa de canto. Diante dele, um chá, intocado. Levantou-se quando ela chegou, desajeitado.

— Obrigado por teres vindo.
— Tenho vinte minutos.
— É rápido. — Agarrou a chávena. — Inês, sem a Luísa, sem público… Não disse bem o que queria na galeria. Ou melhor, não disse como devia.

— E como devia?

Ele ergueu os olhos. Inês viu de repente: neles nadava um medo genuíno. Aquele medo que aparece quando alguém percebe que fez o irreparável.

— Fiz asneira tão grande que ainda estou a tentar resolver.
— Pois.
— O quê, pois?
— Pois fizeste. — Ela disse-o sem raiva. Como uma constatação. — Para que é que me chamaste?

Calou-se. Tirou do bolso uma caixinha de veludo gasta. Inês reconheceu-a de imediato.

— O anel da avó — disse baixinho.

— Lembras-te?

O anel da avó dele, com uma pequena esmeralda. Dezoito anos antes, Rui oferecera-o a Inês no noivado. Uns anos depois, pediu-o de volta — «para guardar», para os futuros filhos. Filhos não vieram. O anel ficou com ele.

— Quero devolver-to. É teu. Por direito.
— Não posso.
— Fica com ele. Não é uma proposta. Percebi tudo na galeria. Vi como tu e esse Dinis… — a voz tremeu. — Gostas dele?

Inês fez silêncio. Escutou-se a si própria com honestidade.

— Ainda não sei. Mas poderia. Se o tempo permitir.

Rui acenou com a cabeça. Pesadamente.

— Ainda bem. A sério. Ele é boa pessoa, informei-me.
— Informaste-te?
— Claro. Dezoito anos fui teu marido. Tenho direito.

Inês olhava para ele e via — pela primeira vez, talvez, em toda a vida — não o dono, não o agressor, não o traidor. Apenas um homem cansado, já não novo, que perdera a partida mais importante. E que agora o entendia.

Não doía. Antes uma pena humana.

— Rui. O anel não fico. Dá-o… sei lá, à tua sobrinha, a filha da Luísa está a crescer. Ou à igreja.
— Uma coisa só. Sim?
— Sim.
— Obrigada por te teres ido embora.

Ele olhou sem compreender.

— Se não te tivesses ido, eu estaria a fazer caldo verde até aos sessenta. E odiar-te-ia em silêncio, escondido de mim própria. E odiar-me-ia também. Agora não odeio ninguém. Nem a ti, nem a mim. É coisa rara.

Ele ficou calado. Uma lágrima escorreu-lhe devagar pela face. Não a limpou.

— Passa bem — disse Inês. — E cuida de ti.

Levantou-se. Vestiu o casaco. À porta, voltou-se — ele estava sentado de cabeça baixa. Os ombros tremiam ligeiramente.

Inês saiu para a rua. O vento bateu-lhe na cara — frio, a cheirar a folhas e um pouco a fumo.

Caminhou pela avenida a chorar. Baixinho, sem soluços. Não de tristeza. Não de despeito. Apenas — um grande capítulo doloroso se fechava. Sem arestas, sem farpas. Libertava.

E só lá dentro, uma pequena farpa ficava. Não era pena. Era dúvida. E se fosse um erro? E se dezoito anos não fossem vazios, e se devesse ter dado mais uma oportunidade?

Inês chegou ao metro. Parou. Ficou uns segundos.

E percebeu: não. Não era erro.

Desceu pela escada rolante.

O ícone de Braga revelou-se mais complicado do que pensava. Três camadas de repintura. A inferior — século XVI, como prometera Bento Nunes. Entre ela e a superfície, mais duas: uma do século XVIII e outra do final do XIX. Cada uma retirava-se milímetro a milímetro.

Trabalhou quase um ano.

Nesse ano, muitas coisas mudaram.

Dinis da Costa pediu-a em casamento em Abril. Não num restaurante, não com um anel — era demasiado inteligente para isso. Estavam sentados na cozinha dela, a beber chá.

— Inês. E se casássemos?
— Assim, de repente?
— Para quê complicar? Nenhum de nós tem vinte anos. Sabemos o que queremos.
— E o que é que o senhor quer, Dinis da Costa?
— A si. Para o resto da vida. Se não estiver pronta, espero. Sou paciente.

— Deixe até ao Outono.
— Até ao Outono, até ao Outono.

Não se ofendeu. Era realmente paciente.

Em Maio, a Tânia contou: Rui mudara-se para a periferia. Vendeu o apartamento em Lisboa, comprou uma casa na vila. Divorciou-se da Luísa rapidamente, sem escândalos. Agora tinha uma vizinha. Viúva. Fazia-lhe sopas. Calada.

Inês, ao saber, sorriu por qualquer razão. Que seja. Ao menos que ele tenha alguma paz.

Em Agosto aconteceu o principal. Retirou a última camada de repintura do ícone de Braga.

E por baixo apareceu o rosto.

Inês estava sozinha no atelier, às duas da manhã, a olhar para a face do Salvador — serena, austera, pintada pela mão de um mestre desconhecido quinhentos anos antes. Que atravessara guerras, revoluções, emigração, o oceano, leilões. E voltara — para casa. Para o neto daquele padre fuzilado em 1937.

Telefonou a Bento Nunes. Acordou-o.

— Bento Nunes, desculpe… Ela abriu-se.

Do outro lado, silêncio. Um silêncio muito longo. Depois ouviu o velho chorar — ao longe, na sua casa em Sintra.

— Minha senhora — disse ele por fim, com a voz a tremer. — Vou já para aí. Não posso esperar pela manhã.

Chegou às sete da manhã, por barbear, de fato amarrotado, com uma caixa de bombons — ridícula, engraçada, como quem vai ao infantário.

Entrou no atelier. Viu o ícone. E ajoelhou-se.

Inês desviou o olhar. Deixou-o a sós. Com ele. Com a avó. Com o bisavô. Com toda aquela grande história terrível e luminosa que confluíra num ponto — no atelier dela, no Chiado.

Em Setembro, Inês casou-se.

O casamento foi discreto. Umas vinte pessoas. A Tânia e o marido. A professora da Faculdade de Belas-Artes. Bento Nunes, que viera do Porto de propósito. Alguns frades do mosteiro para quem trabalhava — sentados num canto, a beber sumo envergonhados.

Vestido creme, simples. Uma rosa branca no cabelo. Não usou véu. Segunda vez — não fazia sentido.

Dinis da Costa colocou-lhe a aliança — fina, de ouro branco. Sem pedras. Sabia que ela não gostava de brilho.

Inês tinha quarenta e dois anos.

À noite, quando os convidados se foram, sentaram-se na varanda do novo apartamento, a beber vinho. Calados.

— Dinis. Só agora percebi uma coisa.
— O quê?
— Quando o Rui se foi, disse: goza a liberdade. Em tom de gozo. Mas acabou por ser como uma bênção.

Dinis da Costa pegou-lhe na mão. Beijou-lhe a palma. Não respondeu. É bom quando alguém não responde a cada frase com uma frase bonita.

Inês acabou o vinho. Pousou o copo.

Amanhã ia para o atelier. Lá estava um novo trabalho — nada de especial, um ícone do século XIX duma igreja de aldeia perto de Santarém. Pequeno, simples, sem documentos de arquivo, sem lenda. Apenas um ícone que um padre local trouxera, num saco de lona, de autocarro.

Inês pensava nele com prazer.

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— Fique aqui um mês, não sou um monstro — disse o marido, indo embora para outra. Três anos depois, com mãos trêmulas, ele tirou o anel.
Vrátil sa ako milionár… a zistil, že jeho rodičia spia na zemi s dieťaťom, ktoré nemalo existovať