Graciete Vieira estava à janela a ver como a geada desenhava arabescos no vidro. O termómetro marcava quase zero graus, e prometia mais frio para a noite. Talvez ainda mais.
Ela escutou.
Lá em baixo – vozes. Depois um berro:
– Até à noite! Ouviram?! Até à noite o gato tem de desaparecer!
O senhor Pedro Antunes. O síndico.
Graciete afastou-se da janela, enfiou o xaile e saiu para o patamar. Desceu ao primeiro andar. Já ali estavam os vizinhos – uns de chinelos, outros com o casaco aberto. Todos calados a olhar para o senhor Pedro, que estava no meio do hall, vermelho, excitado, a apontar para um canto.
Ali, encostado ao radiador, estava um gato ruivo.
Magro. Com a orelha rasgada. A tremer.
– Olhem! – berrou o síndico. – Olhem o vadio! Pêlos por todo o lado! Mau cheiro! Eu sou responsável pela ordem, e vocês aqui fazem um abrigo!
– Senhor Pedro – disse baixinho a tia Zita do terceiro andar – ele não incomoda ninguém.
– Não incomoda?! – O senhor Pedro virou-se para ela tão depressa que a senhora recuou. – E quem se queixou dos pêlos?! Quem disse que ele tinha pulgas?! Eu estou aqui para brincar?!
A tia Zita desviou o olhar.
Graciete apertou os punhos.
Quis dizer qualquer coisa. Quis. Mas a garganta apertou-se-lhe e as palavras ficaram entaladas.
– Resumindo – cortou o síndico – às seis da tarde – quero que ele não se veja mais. Se não o tirarem, eu atiro-o para a rua. Percebido?
Olhou para todos. Ninguém respondeu.
– Percebido, disse?!
– Percebido – resmungou um dos homens.
O senhor Pedro assentiu, bateu com a porta e foi-se.
Os vizinhos foram-se afastando devagar, a suspirar.
E o gato ficou no radiador – uma bolinha ruiva que nem sabia que iam deitá-lo ao frio.
Graciete subiu ao seu quarto andar. Fechou a porta. Sentou-se na cozinha e ficou a olhar para a parede.
À noite ia fazer ainda mais frio.
Ele ia morrer congelado.
Sabia-o bem.
Porque um inverno encontrara debaixo da escada um pardal – pequeno, gelado, com as asas coladas ao corpo. Levara-o para casa, aquecera-o, mas já era tarde. Demasiado tarde.
Graciete levantou-se, foi à janela.
– Meu Deus – murmurou baixinho – o que hei-de fazer.
Voltou a sentar-se. As mãos tremiam.
Tinha medo. Medo do escândalo. Medo que o senhor Pedro começasse a gritar. Que os vizinhos se afastassem. Que a chamassem maluca.
Mas mais do que isso, tinha medo de imaginar a bolinha ruiva estendida num passeio – rija, de olhos abertos.
Graciete desceu ao fim da tarde.
O gato continuava no radiador. Levantou a cabeça quando ela se aproximou. Olhou-a – com olhos amarelos, desconfiados.
– Então – murmurou ela – não tens para onde ir?
O gato calou-se.
Graciete estendeu a mão – acariciou-lhe o lombo esfolado. Ele estremeceu, mas não fugiu. Começou a ronronar baixinho.
Ela subiu outra vez.
Perto das seis da tarde ouviram-se vozes no hall. Graciete espreitou pelo corredor – entreabriu a porta.
O senhor Pedro estava lá em baixo. Ao lado, dois homens do prédio ao lado. Um segurava um saco.
– Ali está o malandro – disse o síndico, apontando para o gato. – Apanhem-no.
O homem do saco deu um passo.
E, como se não bastasse, a vizinha Zita saiu do prédio. Viu, parou.
– O que é que estão a fazer?
– Não vês? – rosnou o senhor Pedro. – Estamos a limpar, como combinámos.
– Senhor Pedro, será que não dá para evitar? – disse a tia Zita baixinho. – Alguém pode ficar com ele.
– Quem é que fica?! – berrou ele. – Tu?! Ou estes todos que moram aqui e se calam?! Não! Sou eu que limpo a porcaria!
A tia Zita desviou o olhar.
– Pois – cuspiu o síndico.
Graciete ficou lá em cima a ouvir. O coração batia tão forte que parecia saltar.
Lá em baixo, o homem enfiou o saco no gato. Ele miou – um miado desesperado, rasgado. Arranhou. Mas enfiaram-no e ataram.
– Já está – disse o senhor Pedro. – Levem-no ao caixote do lixo. Se for esperto, safa-se sozinho.
Os homens levaram o saco para a rua.
A porta bateu.
Graciete largou a maçaneta. As mãos tremiam. As pernas fraquejavam.
Voltou à cozinha. Sentou-se. Ficou a olhar para a parede.
Mas um minuto depois – levantou-se.
Agarrou no casaco. Calçou as botas. Atirou o xaile aos ombros.
Correu para as escadas.
Desceu tão depressa que quase caiu na curva.
Abriu a porta da rua.
Graciete correu para o caixote do lixo.
O saco estava num monte de lixo, encostado ao contentor.
Desatou-o. As mãos tremiam – o nó não cedia.
O saco abriu-se.
– Estás vivo – suspirou Graciete. – Estás vivo, graças a Deus.
Apanhou o gato – ele era leve, quase sem peso. Apertou-o contra o peito, escondeu-o debaixo do casaco.
Correu de volta.
No hall – outra vez vozes.
O senhor Pedro estava junto das caixas de correio. A fumar. Viu-a – com o gato nos braços – e a cara torceu-se-lhe.
– O que é que estás a fazer?! – berrou ele.
Graciete parou. Recuperou o fôlego.
– Vou levá-lo para minha casa – disse ela. A voz tremia, mas as palavras saíram nítidas.
– Para onde?! – O senhor Pedro aproximou-se. – Eu disse que não queria vê-lo!
– O senhor disse que não queria vê-lo no hall – Graciete ergueu o queixo. – Por isso levo-o. Para minha casa. Para dentro.
– Estás varrida?! – apontou-lhe o dedo ao peito.
Graciete subiu ao quarto andar.
Entrou em casa. Fechou a porta.
Sentou-se no chão – ainda de casaco, de botas.
O gato ficou-lhe no colo. Abriu um olho – olhou para ela.
– Pronto – murmurou Graciete. – Pronto. Agora estás em casa.
As mãos tremiam. Lágrimas corriam-lhe pelas faces.
Mas por dentro – pela primeira vez em muitos anos – sentiu-se quente e tranquila.
Uma semana depois, o senhor Pedro apareceu à porta de Graciete.
Bateu – baixinho, quase tímido.
Ela abriu. Surpreendeu-se.
– O senhor? Aconteceu alguma coisa?
Ele estava no patamar – sem casaco, num pulôver velho.
– Posso? – perguntou.
Graciete assentiu. Deixou-o entrar.
O senhor Pedro foi à cozinha. Sentou-se. O gato saltou do parapeito, cheirou-lhe os sapatos e foi para a sala.
– Chá? – ofereceu Graciete.
– Não precisa.
Ele calou-se. Depois suspirou.
– Não vim pedir desculpa – o senhor Pedro suspirou. – Só queria dizer. Que fez bem.
Levantou-se. Foi para a porta.
– Senhor Pedro – chamou Graciete.
Ele virou-se.
– Então, aceita o chá?
Ele parou. Depois assentiu.
– Aceito.
Ficaram na cozinha – a beber chá, calados. O gato saltou para o colo de Graciete. Ronronou.
– Como lhe chamou? – perguntou o síndico.
– Ruivo – sorriu Graciete. – Só Ruivo.
O senhor Pedro assentiu. Acabou o chá. Levantou-se.
– Vou andando.
– Senhor Pedro – chamou-o outra vez Graciete. – Se quiser, apareça. Para um chá.
Ele olhou para ela. Esboçou um sorriso.
– Apareço.
Passou um mês. Depois outro.
O Ruivo engordou. O pêlo brilhou. A orelha sarou. Dormia no parapeito – onde o sol batia de manhã.
Os vizinhos habituaram-se. A tia Zita às vezes trazia restos de peixe. A Noélia – uma lata de sardinhas. Até o homem do quinto andar trouxe um arranhador um dia.
– Encontrei no lixo – disse ele. – Parece que está inteiro.
Graciete aceitava as ofertas – e espantava-se sempre.
Lá fora caía geada. O frio desenhava arabescos nos vidros.
Mas dentro de casa estava quente.
E no coração também.







