– Então, Ruivo, vamos lá… – resmungou o Valter, ajeitando a trela improvisada com uma corda velha.
Apertou o casaco até ao pescoço e encolheu-se. Fevereiro este ano estava especialmente cruel – chuva e vento, que trespassava os ossos.
O Ruivo – cão vadio, de pelo avermelhado desbotado e um olho cego – aparecera na sua vida há um ano. O Valter voltava do turno da noite na fábrica quando o vira junto aos contentores. O cão estava espancado, faminto, e o olho esquerdo coberto por uma catarata.
– Eh, homem! Para onde vais com esse rafeiro?
A voz cortou-lhe os nervos. O Valter reconheceu quem falava: o Zé Torto, o “patrão” local, com uns vinte e cinco anos. Junto dele, amontoavam-se três rapazolas – a sua “equipa”.
– A passear, – respondeu o Valter, breve, sem levantar os olhos.
– E tu, tio, pagas imposto para passear esse cão? – riu-se um dos miúdos. – Olha que feio – o olho torto!
Uma pedra voou. Atingiu o Ruivo no flanco. O cão ganizou, encostou-se à perna do dono.
– Deixem-me em paz, – disse o Valter, baixinho, mas a voz soou a aço.
– Olha! O ti’zinho falou! – o Zé Torto aproximou-se. – Não te lembras que aqui é o meu bairro? E os cães só passeiam com a minha permissão.
O Valter tensou-se. No exército ensinaram-no a resolver problemas depressa e com força. Mas isso fora há trinta anos. Agora era apenas um serralheiro reformado, cansado, que não queria complicações.
– Anda, Ruivo, – voltou-se para casa.
– Isso mesmo! – gritou o Zé Torto. – Para a próxima, mato o teu amigo!
Em casa, o Valter não conseguiu dormir a noite inteira, a remoer a cena na cabeça.
No dia seguinte, caiu uma chuva gelada. O Valter adiou o passeio o mais que pôde, mas o Ruivo ficou à porta, a olhar com tanta lealdade que ele acabou por ceder.
– Pronto, pronto. Só um bocadinho.
Foram com cuidado, evitando os sítios habituais dos “grupinhos”. Mas a turma do Zé Torto não se via – deviam ter-se escondido da intempérie.
O Valter já se acalmara quando o Ruivo parou de repente junto a uma caldeira abandonada. Fincou a única orelha, farejou.
– Que foi, velhote?
O cão ganizou, puxou para as ruínas. De lá vinham sons estranhos – choro ou gemidos.
– Eh! Quem está aí? – gritou o Valter.
Não houve resposta. Apenas o silêncio, cortado pelo uivo do vento.
O Ruivo puxava a trela com insistência. No seu único olho, lia-se inquietação.
– Que tens? – o Valter inclinou-se para o cão. – O que é?
E então ouviu claramente – uma voz de criança:
– Ajudem!
O coração deu um salto. O Valter soltou a trela e seguiu o Ruivo para as ruínas.
No compartimento semi-destruído da caldeira, atrás de um monte de tijolos, estava um rapaz de uns doze anos. Rosto pisado, lábio rasgado, roupa rasgada.
– Meu Deus! – o Valter ajoelhou-se. – O que te aconteceu?
– Tio Valter? – o miúdo abriu os olhos com dificuldade. – É o senhor?
O Valter olhou melhor e reconheceu-o: o André Martins, filho da vizinha do quinto andar. Um miúdo calado, tímido.
– André! O que se passou?
– O Zé Torto e o bando dele, – o rapaz soluçou. – Exigiram dinheiro à minha mãe. Eu disse que ia contar ao polícia de bairro. Eles apanharam-me…
– Há quanto tempo estás aqui?
– Desde de manhã. Muito frio.
O Valter tirou o casaco, cobriu o miúdo. O Ruivo aproximou-se, deitou-se ao lado, a aquecê-lo com o corpo.
– André, consegues levantar-te?
– A perna dói. Parece partida.
O Valter apalpou a perna com cuidado. Sim, fratura. E ainda não se sabia o estado dos órgãos internos depois daquela “sova”.
– Tens telemóvel?
– Tiraram-mo.
O Valter tirou o seu velho telemóvel e ligou para o 112. A ambulância prometeu chegar em meia hora.
– Aguenta, miúdo. Os médicos já vêm.
– E se o Zé Torto souber que estou vivo? – a voz do André tremia de pavor. – Ele disse que me matava.
– Não mata, – disse o Valter, firme. – Nunca mais te toca.
O rapaz olhou-o, admirado:
– Tio Valter, ontem o senhor fugiu deles.
– Isso é diferente. Ali era só eu e o Ruivo. Agora…
Não terminou. O que havia de dizer? Que há trinta anos fizera um juramento de proteger os fracos? Que na Guerra Colonial lhe ensinaram – um homem a sério nunca abandona uma criança em perigo?
A ambulância chegou mais depressa do que o prometido. Levaram o André para o hospital. O Valter ficou junto à caldeira com o Ruivo, a pensar.
À noite, a mãe do André – a Dona Inês Martins – foi a casa dele. A mulher chorava, agradecia, jurava que nunca esqueceria.
– Valter, – disse ela entre lágrimas, – os médicos disseram que se tivesse ficado mais uma hora ao relento… O senhor salvou-lhe a vida!
– Não fui eu, – o Valter fez uma festa ao Ruivo. – Foi ele que encontrou o seu filho.
– E agora? – a Dona Inês olhou para a porta, assustada. – O Zé Torto não vai desistir. O polícia de bairro diz que não há provas, que o testemunho de uma criança não conta.
– Vai ficar tudo bem, – prometeu o Valter, sem saber bem como.
À noite, não conseguiu dormir. Pensamentos a rodar na cabeça – o que fazer? Como proteger o miúdo? E não só ele – quantas crianças no bairro sofriam com aquela quadrilha?
Pela manhã, a decisão chegou por si mesma.
O Valter vestiu a sua farda velha do exército – a de gala, com as condecorações. Tirou as medalhas do armário. Olhou-se ao espelho – um soldado, sim. Embora já não fosse novo.
– Anda, Ruivo. Temos trabalho.
A quadrilha do Zé Torto, como de costume, “fazia plantão” junto ao supermercado. Ao verem o Valter aproximar-se, caíram na risada.
– Olha! O avô foi a um desfile! – gritou um dos rapazes. – Olhem que herói!
O Zé Torto levantou-se do banco, a sorrir:
– Então, reformado, baza daqui. O teu tempo já passou.
– O meu tempo é que está a começar, – respondeu o Valter, calmo, a aproximar-se.
– Que é que vens aqui fazer com essa farda?
– Servir a Pátria. Defender os fracos de tipos como tu.
O Zé Torto desatou a rir:
– Enlouqueceste, velho? Que Pátria? Que fracos?
– O André Martins – lembras-te dele?
O sorriso desapareceu da cara do Zé Torto.
– E eu é que tenho de me lembrar de todos os pindéricos?
– Tens. Porque ele é a última criança neste bairro a sofrer às tuas mãos.
– Estás a ameaçar-me, velhote?
– Estou a avisar.
O Zé Torto deu um passo em frente. Um estilete brilhou-lhe na mão.
– Agora vou-te mostrar quem manda aqui!
O Valter nem se mexeu. Os anos tinham passado, mas a disciplina militar ficara.
– Quem manda aqui é a lei.
– Qual lei? – o Zé Torto brandia o estilete. – Quem te nomeou?
– Nomeou-me a consciência.
E então aconteceu o que ninguém esperava.
O Ruivo, que estivera quieto ao lado, ergueu-se. O pelo do dorso eriçou-se. Um rosnado feroz saiu-lhe da garganta.
– E o teu cão, – começou o Zé Torto.
– O meu cão combateu, – interrompeu o Valter. – Na Guerra Colonial. Unidade de deteção de minas. Fareja bandidos à distância.
Não era verdade – o Ruivo era apenas um vadio. Mas a convicção do Valter era tamanha que todos acreditaram. Até o próprio Ruivo acreditou – endireitou-se, arreganhou os dentes.
– Encontrou vinte guerrilheiros. Levou todos vivos. – continuou o Valter. – Achas que não dá conta de um traficante?
O Zé Torto recuou. Os miúdos atrás dele congelaram.
– Ouve com atenção, – o Valter deu um passo em frente. – A partir de hoje, este bairro é seguro. Todos os dias vou percorrer as ruas. E o meu cão vai farejar malandros. E então…
Não acabou a frase. Mas todos perceberam.
– Pensas que me assustas? – o Zé Torto tentou recuperar a arrogância. – Eu faço um telefonema e…
– Faz, – acenou o Valter. – Mas não te esqueças – tenho ligações melhores que as tuas. Conheço muitos presos. Muitos devedores.
Também isso era mentira. Mas dito com tal segurança que o Zé Torto acreditou.
– Chamam-me o Valter do Ultramar, – disse o Valter por fim. – Não te esqueças. E não mexe mais com crianças.
Virou costas e foi-se embora. O Ruivo trotava ao lado, rabo erguido, orgulhoso.
Atrás, fez-se silêncio.
Passaram três dias. O Zé Torto e o bando quase não apareceram no bairro.
E o Valter começou mesmo a percorrer as ruas todos os dias. E o Ruivo ia ao lado – importante, sério.
O André saiu do hospital ao fim de uma semana. A perna ainda doía, mas já andava. Nesse mesmo dia, foi visitar o Valter.
– Tio Valter, – disse ele, – posso ajudar o senhor? – perguntou o miúdo. – Quer dizer, nas rondas.
– Podes. Mas primeiro fala com os teus pais.
A Dona Inês não se opôs. Até ficou contente por o filho ter encontrado um exemplo tão digno.
E agora, todos os fins de tarde, via-se um grupo estranho – um homem de idade com farda, um rapaz e um cão ruivo velho.
O Ruivo agradava a todos. Até as mães deixavam as crianças fazer-lhe festas, embora soubessem que era cão vadio. Mas havia nele qualquer coisa de especial – dignidade, talvez.
E o Valter contava aos miúdos histórias do exército, de amizade verdadeira. E eles ouviam, boquiabertos.
Uma tarde, quando voltavam de mais uma “ronda”, o André perguntou:
– Tio Valter, o senhor alguma vez teve medo?
– Tive, – respondeu o Valter, honesto. – E ainda tenho, às vezes.
– De quê?
– De não chegar a tempo. De me faltarem as forças.
O André fez uma festa ao cão:
– Quando crescer, vou ajudá-lo. E também vou ter um cão. Igual a este, esperto.
– Vais, – sorriu o Valter. – Claro que vais.
O Ruivo abanava a cauda.
E no bairro toda a gente o conhecia. Diziam: “É o cão do Valter do Ultramar. Diz-que distingue heróis de malandros.”
E o Ruivo cumpria a sua missão com orgulho, sabendo que já não era apenas um vadio. Era um protetor.







