O marido decidiu descansar de mim e dos filhos e fugiu para casa da sogra. Quando voltou, ficou pasmado.

— Já arrumei a mala. Vou viver em casa da minha mãe. Estou farto desta confusão — declarou o Duarte, sem sequer olhar para a Inês e para o Tiago, que estavam parados no corredor.

Eles ali estavam com as mochilas, acabados de chegar da escola, e pela primeira vez na vida ouviram o pai chamar-lhes não filhos, mas um estorvo ao seu próprio descanso. A palavra «confusão» pairou no ar do hall — pesada, sonora e pegajosa, como xarope derramado no linóleo.

O Duarte estava no meio do corredor, com um enorme saco de desporto pendurado na perna, como se fosse a sua consciência estrangulada.

Na verdade, nos últimos meses o meu marido cansava-se de forma muito selectiva. Para afundar o sofá até parecer uma rede — energia tinha. Para folhear o feed de notícias durante horas — também. Para uma discussão feroz com um colega desconhecido na internet sobre o destino da economia mundial — claro, a energia jorrava. Mas verificar ao Tiago o problema da velocidade de dois comboios ou ouvir a Inês depois do seu grupo de dança — aí o «provedor» sofria um bloqueio energético repentino. Ele carregava o cansaço como uma coroa pesada, exigindo que se afastassem à sua passagem, falassem baixinho e servissem o jantar religiosamente a horas.

— Muito prazer, rei — disse eu calmamente, de braços cruzados. Não ia fazer um escândalo. — Só não te esqueças do berbequim.

O Duarte pestanejou. Esperava claramente que eu me atirasse ao pescoço, lhe tirasse o saco e jurasse que os filhos dali em diante andariam na linha, e que eu deixaria de lhe pedir para tirar o lixo.

— Eles já são crescidos — atirou ele, a vestir o casaco e a justificar a fuga. — Não lhes acontece nada se ficarem uns dias sem pai. E eu não sou de ferro.

— Claro que não és de ferro — acenei. — De ferro só temos a velha torre do computador debaixo da mesa, e ainda assim vibra. Boa viagem para o sanatório da mamã.

Quando a porta se fechou com estrondo, o apartamento ficou estranhamente silencioso. Fui à cozinha tirar sumo do frigorífico. O Tiago estava sentado à mesa, a roer o oleado com o dedo, distraído.

— Mãe, e se eu fizer barulho, o papá vai embora para sempre? — perguntou o filho, não a mim, mas para o tecto.

E então toda a minha ironia ficou presa na garganta por um segundo. As piadas acabaram. Uma coisa é guerrear com um homem adulto pelo direito ao descanso, outra é ver o teu filho a tentar encaixar-se nos limites do conforto do pai. Aproximei-me, abracei-o pelos ombros e disse firmemente:

— O papá não foi embora porque tu fazes barulho. Foi porque se esqueceu de como se é adulto. E nós vamos tratar disso.

Naquela noite, pedimos pizza. Não fiquei ao fogão a cozinhar um complicado bife à portuguesa. Não passei camisas para o dia seguinte nem ouvi o resmungo insatisfeito do sofá sobre como era impossível relaxar depois do trabalho. Acabei calmamente o meu trabalho no portátil, recebi a transferência no cartão e, de repente, percebi uma coisa paradoxal: sem a presença masculina que exige serviço constante, a casa respirava melhor. A estrutura do nosso dia a dia perdera uma peça importante, mas ficara mais direita.

Entretanto, a «expedição a Marte sem fato» — aka Duarte — chegou ao destino.

A dona Leonor, minha querida sogra, não chamara o filho por cega compaixão maternal. Era uma mulher extremamente prática. Se o filho se zangara com a mulher e estava «temporariamente livre da família», então podia ser usado para o que era preciso. A armadilha da dona Leonor fechou-se com a inevitabilidade de uma guilhotina logo na manhã seguinte.

Primeiro, encheu-o de bolinhos, a lastimar a sua «magreza», e depois tirou uma folha de papel. A lista de tarefas.

O Duarte ligou-me na quarta-feira. Pelo eco, estava num chão de cimento.

— Ana… — a voz dele parecia a de uma garça ferida. — Ela obrigou-me a refazer o chão da varanda. E amanhã vamos para a quinta. Deu-lhe na cabeça arrancar um velho toco e levar o lixo do sótão.

— Mudar de actividade é o melhor descanso! — respondi alegremente. — Não foste à procura de sossego? Aproveita o silêncio e o trabalho físico.

Ele fugiu ao terceiro dia.

Entrou no hall na sexta-feira à noite — amarrotado, a cheirar a pó, a tábuas velhas e a derrota total. Atirou o saco ao chão com um baque pesado, como se trouxesse tijolos da quinta.

— Estou faminto como um lobo — anunciou, a tirar os ténis. — O que há para jantar?

Esperava que o castigo tivesse acabado. Que eu corresse alegremente para o fogão aquecer a sopa, esquecesse todas as ofensas, e que os filhos viessem aos gritos de felicidade.

Saí da cozinha, a enxugar as mãos no pano de cozinha devagar. Atrás de mim, surgiu silenciosamente a Inês.

— Olá, pai — disse a filha, com uma voz fria e pausada. — Já descansaste de nós?

O Duarte engasgou-se de surpresa. O sorriso preparado de patrão cansado mas magnânimo murchou e perdeu-se algures na gola.

— Não foste por causa do barulho, Duarte — disse eu, olhando-o nos olhos. — Foste por causa da responsabilidade. E voltaste não para a família, mas para o jantar. Por isso, hoje não há jantar para ti.

Ele abriu a boca para protestar, mas o meu telemóvel, em cima da cómoda, tocou. No ecrã apareceu: «Dona Leonor». Sem hesitar, carreguei no altifalante.

— Aninhas! — gorjeou a sogra, animada. — O meu fugitivo já voltou? Não o mimes! No domingo que venha cá outra vez, o armário do corredor ainda não está montado, as portas estão penduradas por um triz!

Desliguei a chamada em silêncio.

O Duarte empalideceu como se tivesse recebido uma segunda convocatória para obras. A percepção de que na casa da mãe não era o filho amado e cansado, mas sim mão-de-obra gratuita com desconto familiar, reflectiu-se no rosto dele em toda a gama de uma genuína tristeza.

— Afinal vim para casa! — tentou recuperar a coroa perdida, a erguer a voz e a aproximar-se de mim. — Tenho o direito de me deitar e descansar no meu próprio apartamento!

— O apartamento era meu antes de casarmos — lembrei, com suavidade, mas com tanto aço que parecia tilintar as chaves na fechadura.

E as palavras dele «vim para casa» pairaram no ar como uma piada sem graça. Parece que o Duarte, pela primeira vez em anos de casamento, se lembrou daquele facto não por causa das facturas, mas pelo meu tom. A arrogância caiu-lhe de vez. Ele estava ali no meio do corredor — um descansado de que ninguém precisava, e de quem todos já tinham descansado.

— Hoje não dormes aqui, Duarte — pronunciei, cada palavra marcada. — E não reinas no sofá. Se queres voltar para a família, não começas pelo jantar. Começas por falar com os filhos, com desculpas e com um psicólogo familiar.

A Inês virou-se em silêncio e foi para o quarto. O clique da fechadura soou no silêncio do corredor mais alto do que qualquer discussão. Foi um golpe contra o qual nenhum saco de roupa protege.

O Duarte olhou para mim, confuso, como se esperasse que eu me risse e dissesse que era uma brincadeira. Mas eu não sorri.

— As chaves para a mesa-de-cabeceira, Duarte — disse. — E fecha bem a porta. A corrente de ar aqui não começou no prédio, mas sim no momento em que chamaste aos filhos «confusão».

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

two + fourteen =