O Tomás voltou da caça mais zangado que um ouriço. Largou as botas à entrada – uma para cada lado. Atirou o casaco ao cabide, falhou, nem se deu ao trabalho de o levantar. Foi para a cozinha e fez barulho com o bule.
A Maria do Carmo estava na sala, a mexer no telemóvel. Ouvia o marido andar – passos pesados, nervosos, cada um parecia uma acusação. O cão ruivo, o Faísca, estava deitado aos pés dela, com o focinho nas patas. Orelhas baixas, cauda parada. Ele sentia sempre quando o dono vinha naquele estado e tratava de não se meter no caminho.
– Então, – o Tomás parou na porta, mãos nas ancas, como fazia sempre que ia anunciar algo que, na cabeça dele, era definitivo. – Este cão não serve para a caça. É um atrapalho, não um cão. Treinei-o, treinei-o, e zero. Cai um pato, ele fica parado. Passa uma lebre, ele boceja. Tenho de me livrar dele.
A Maria do Carmo levantou os olhos. Olhou para o marido com calma, com atenção, como se olha para alguém que disse uma grande asneira mas ainda não se apercebeu.
– Livrar-te? – repetiu ela, como se saboreasse a palavra.
– E então? Vou alimentar um parasita? Um cão de caça tem de caçar. E este… – o Tomás fez um gesto na direção do Faísca, que se encostou ainda mais à perna da Maria do Carmo. – Amanhã levo-o ao Zé Manel, pode ser que o queira despachar. Se não, deito-o na beira da estrada.
«Deitá-lo na beira da estrada» – foi aí que alguma coisa se partiu cá dentro na Maria do Carmo.
Ela levantou-se em silêncio. O Faísca ergueu-se logo com ela, a olhar para cima, inquieto. A Maria do Carmo passou pelo marido, foi ao corredor, abriu o armário e tirou uma mala – grande, azul, de rodinhas. A mesma com que tinham ido ao Algarve, quando ainda iam a algum lado juntos.
O Tomás seguiu-a com o olhar, mas não disse nada. Achou que a mulher ia fazer a arrumação da roupa da estação.
Mas a Maria do Carmo abriu a parte do roupeiro do Tomás.
Camisas – uma, duas, três, quatro. Com cuidado. Cuécas, meias – para o bolso lateral. Calças de ganga – umas de fim de semana, outras de trabalho. Um camisola cinzenta, prenda da mãe dela. O barbeador da casa de banho. A escova de dentes.
O Tomás apareceu à porta do quarto e ficou a olhar uns segundos. Depois percebeu.
– O que é que estás a fazer?
– Estou a fazer-te a mala, – respondeu a Maria do Carmo com o mesmo tom com que dizia «o jantar está na mesa» ou «acabou-se o pão».
– Que mala? Para quê?
– Tu disseste que era preciso livrar-te de coisas. Então estou a livrar-me.
O Tomás piscou os olhos. Depois sentou-se devagar na borda da cama, como se as pernas lhe tivessem faltado.
– Por causa do cão?
– Não é por causa do cão. É por tua causa.
Ela fechou o fecho da mala e endireitou-se. O Faísca entrou devagar no quarto e deitou-se à porta, como que a fazer guarda.
– Vou-te dizer uma coisa, Tomás, já que a conversa veio. Tu chamas parasita ao Faísca. Não sabe caçar, não presta para nada. Então vamos ver quem é que aqui presta para alguma coisa.
– Maria do Carmo, não comeces.
– O Faísca não traz patos, é verdade. Mas ele todas as manhãs me recebe como se eu tivesse estado seis meses fora. Põe a pata no meu colo quando eu choro. E eu choro, Tomás, muitas vezes. Porque tu chegas do trabalho – e é para a televisão. Da caça – para o sofá. A última vez que falaste comigo como deve ser foi quando veio a conta da luz muito alta. Três frases seguidas foi um acontecimento.
O Tomás abriu a boca.
– Estás a comparar-me a um cão?
– Não estou a comparar. Estou a constatar. O Faísca é vivo. Sente. Ama. À toa, sem pedir nada em troca. Não precisa que eu seja magra nem que faça sopa. Precisa que eu exista. Tu, Tomás, quando foi a última vez que te alegraste por eu existir?
O silêncio no quarto pendurou-se como roupa no estendal – pesado, molhado, desconfortável.
O Tomás olhou para a mala. Depois para a mulher. O Faísca levantou a cabeça e olhou para ele sem mágoa, sem raiva. Só olhou. Os cães não guardam rancor, têm o coração demasiado grande para isso.
– Eu não estava a falar a sério, – disse o Tomás. – Exaltei-me. Os rapazes estavam a gozar.
– Os rapazes estavam a gozar. E tu, para não ficares mal visto, decidiste deitar fora um ser vivo. Que confia em ti. Que corre para ti quando chegas a casa. E ele não sabe que tu o ias deitar fora. Ele pensa que tu és boa pessoa.
O Tomás passou as mãos pela cara. A barba picava – não se barbeava há dois dias na caça.
– E então, a mala é a sério?
A Maria do Carmo calou-se. Lá fora, os pardais discutiam na oliveira. O frigorífico ligou e calou-se.
– É a sério, Tomás. A questão não é o Faísca. O Faísca foi a gota de água. Tu falas de um ser vivo – «livrar-me», «deitá-lo na estrada». E se amanhã eu não te agradar, também te livras de mim? Levas-me à minha mãe – já não presta, venham buscá-la?
– Estás a exagerar.
– Exagerado foste tu. Há muito tempo. Deixaste de ver que à tua volta há pessoas vivas. Eu sou viva. O Faísca é vivo. Não somos ferramentas. Não somos uma espingarda que se vende se não acertar. Somos uma família. E família não se deita fora.
O Tomás ficou sentado e sentiu-se como há muito não se sentia. Antes era assim – ele dizia, a mulher concordava. Não porque a Maria do Carmo fosse sem opinião. Ela sabia calar-se – com paciência, à moda antiga. Guardava. Suavizava. E ele habituou-se a poder dizer qualquer disparate – e não acontecia nada.
Pois acontecia.
O Faísca aproximou-se do Tomás e encostou-lhe o focinho molhado à mão. Apenas se aproximou, porque via que o homem estava mal. E quando se está mal, é preciso estar perto. O Faísca sabia isso não com a cabeça – sabia com o corpo, com todo aquele pelo ruivo.
O Tomás olhou para o cão. Para o focinho molhado, os olhos castanhos, para a cauda que abanou timidamente – tipo, então, está tudo bem?
E ali, ele sentiu qualquer coisa. Não ao ponto de chorar – ainda era homem. Mas qualquer coisa virou-se cá dentro, como um barco numa onda – zás, e tu já estás do outro lado.
– Maria do Carmo. Guarda a mala.
– Para quê?
– Porque, – fez uma festa na cabeça do Faísca, – sou um parvo.
– Isso já eu sei. A questão é: és um parvo que ainda aprende, ou um parvo a quem não há nada que entre?
O Tomás sorriu. Mesmo naquela altura – ela tinha sempre uma resposta.
– Aprende. Desculpa. Pelo Faísca. E por tudo.
A Maria do Carmo aproximou-se da mala, abriu-a. Tirou o barbeador, a escova de dentes, pô-las na cômoda.
– As camisas penduras tu.
O Tomás assentiu. Inclinou-se para o Faísca e coçou-lhe atrás da orelha.
– Então, ó parasita, – a voz tremia-lhe um pouco. – Vamos em frente?
O Faísca abanou a cauda com tanta força que quase derrubou o candeeiro. Saltou, lambeu-lhe o nariz. Sentou-se e olhou para os dois com aquela expressão que só os cães têm: de uma felicidade absoluta, sem razão nem merecimento.
Na caça seguinte, o Tomás foi sem o Faísca. Voltou com dois patos e um saco de ossos de açúcar do mercado.
– Isso é para quem? – perguntou a Maria do Carmo, embora já soubesse.
– Para o parasita, – resmungou o Tomás. E sorriu.
Quanto à mala, a Maria do Carmo guardou-a outra vez no armário. Mas não muito ao fundo. Assim, que se pudesse tirar à pressa.
Para o que desse e viesse.







