Hoje cheguei à quinta, quinze de Setembro. O carro parou à porta e o meu coração batia como se fosse parar. O Vítor pôs a mala no chão, eu fiquei imóvel a olhar para o portão. O Rex estava sentado junto ao alpendre, grande, ruivo, com o focinho grisalho. Olhava para mim sem alegria, sem reconhecimento. Apenas olhava.
— Rex — chamei, hesitante. — Rapaz, somos nós.
O cão não se mexeu. Só as orelhas tremeram ligeiramente.
— Ele não nos reconhece — disse o Vítor, pousando a mala ao lado da minha. — Rex, anda.
Mas o cão virou a cabeça para a casa, como se guardasse qualquer coisa invisível.
Há cinco anos, o Vítor recebeu uma proposta do irmão dele: mudarmo-nos para França. Trabalho, salário em euros, escola para os miúdos. Na altura parecia que perdíamos a oportunidade, jamais nos perdoaríamos.
O Rex já não era cachorro. Oito anos, artrite nas patas traseiras, focinho grisalho. O Vítor olhava para ele e calculava: vacinas, quarentena, viagem no porão do avião. Um cão velho numa jaula de metal, no escuro, entre cheiros estranhos.
— Ele não aguenta a viagem — disse o Vítor à mulher, sem acreditar bem.
— Pois não — concordei eu, desviando o olhar.
Combinámos com uma prima afastada, a Dona Júlia. Deixámos dinheiro para a ração, a chave do portão, o número de telefone. A Dona Júlia acenou, prometeu ir a cada dois dias.
— É só por pouco tempo — disse o Vítor, coçando o Rex atrás da orelha na despedida. — Um ano, no máximo dois.
O cão lambeu-lhe a mão. Não sabia que era a última vez que recebia carinho durante anos.
Em França, tudo foi diferente do que o irmão prometera. Havia trabalho, mas temporário. O apartamento era alugado, apertado. Os miúdos aprendiam francês a chorar, nós, o Vítor e eu, a desesperar. Cada dia era um exame.
Nos primeiros meses, liguei para a Dona Júlia. Ela respondia animada: «Está tudo bem, dou-lhe de comer, o cão está vivo e saudável». Depois passou a falar mais curto, mais seco. Ao fim de seis meses, deixou de atender o telefone.
— Deve ter-se zangado — disse o Vítor. — Ou mudou de número.
Eu concordei, mas de noite fiquei muito tempo de olhos abertos.
Passaram-se cinco anos. O Vítor perdeu o emprego, os vistos expiraram, não havia dinheiro para renovar. Fizemos as malas e comprámos bilhetes de regresso.
— O Rex já deve ter morrido — murmurei eu no avião.
O Vítor calou-se. Também pensava o mesmo.
Mas quando chegámos à quinta, a primeira coisa que vimos foi o Rex. Vivo. Mais velho, com o focinho ainda mais grisalho, mas vivo.
E à volta.
A cerca pintada. O portão nas dobradiças, direito. Os caminhos limpos, as hortas com batatas e tomates — fileiras direitas, regadas. As macieiras podadas como mandam as regras. Uma casota nova de tábuas, forrada, com telhado de feltro. Ao lado, uma tigela com papas frescas.
— Alguém vive aqui? — sussurrei.
O Vítor empurrou o portão. Abriu-se sem ranger. Fomos até à casa. A porta estava aberta.
Dentro, limpo. No fogão, uma panela com sopa fria. Um colchão no canto, com uma manta dobrada. Na mesa, frascos de compota, um pão inteiro. E um bilhete debaixo de uma chávena.
O Vítor encontrou o bilhete no terreno: «O Rex é vosso, mas merece outros donos» — Gregório.
Levei as mãos ao rosto.
— Quem é Gregório?
— Não sei — disse o Vítor, sentando-se, a amarfanhar o papel.
O Rex nunca se aproximou de nós nessa noite. Dormiu na casota. Quando eu tentei chamá-lo, levantou-se e foi para o canto mais afastado do quintal.
De manhã, o Vítor foi falar com a vizinha, a Dona Esperança.
— Gregório? — repetiu ela. — O que vive no meio do pinhal? Tipo esquisito. Não fala com ninguém. Só andava metido com o vosso cão todos estes anos.
— Onde o encontramos?
— Pelos terrenos, se forem até à fonte. Lá há uma casa velha.
Fomos ao fim da tarde. O caminho estreito, cheio de silvas, mas batido. Chegámos a uma cabana inclinada com o pátio limpo.
Da porta saiu um homem de uns cinquenta anos. Barba grisalha, olhos cinzentos, mãos calejadas.
— Encontraram o bilhete — disse sem pergunta.
— Queremos agradecer — comecei eu. — E perceber porque fez isto.
O Gregório fez-nos sinal para entrarmos. Pôs chá em chávenas velhas.
— Eu vivia na cidade — começou, a olhar pela janela. — Era engenheiro. Tinha mulher, apartamento. Vida normal. Depois o divórcio, os tribunais. Ela ficou com o apartamento. Só me sobrou esta cabana do meu avô. Mudei-me para cá. Há cinco anos.
Calou-se, bebeu o chá.
— Conheci o Rex por acaso. Dois meses depois de vocês terem partido. Fui à procura de cogumelos, ouvi um ganido. Olho, está o cão à vossa porta. Magro. Tigela vazia, sem água. Perguntei aos vizinhos — disseram que os donos estavam no estrangeiro, que a prima prometera alimentá-lo, mas deixou de aparecer.
Apertei os punhos.
— Então comecei a levar-lhe comida — continuou o Gregório. — Primeiro só a dar de comer. Depois pensei — o inverno, ele congela. Fiz uma casota. Na primavera decidi plantar a horta — a terra estava a perder-se. O Rex andava ao lado, guardava. Com ele… sentia-me melhor.
— Cinco anos, todos os dias? — o Vítor não acreditava.
— Quase todos. Acostumei-me. E ele precisava de alguém.
— Nós pagamos-lhe — disse eu, firme. — O que quiser.
— Não — sacudiu a cabeça o Gregório. — Não foi por dinheiro. E vocês, pelo que vejo, também não estão com facilidades.
O Vítor baixou o olhar.
— Então ao menos venha jantar connosco.
— Receio que o Rex não me deixe.
— Porquê?
— Porque eu trouxe-vos de volta a ele. E ele queria-me a mim, não a vocês. Para ele, isto é uma traição.
As palavras pairaram no ar. Solucei.
— Pensámos que era melhor — disse o Vítor, a voz surda. — Que ele não aguentava a viagem.
— Não aguentava a viagem — repetiu Gregório. — Mas esperar cinco anos à porta, isso aguentava bem, não é?
Silêncio.
— O que devemos fazer? — perguntei.
— Não o abandonarem mais. Só isso. Perdoar ou não, ele decide. Os cães têm memória comprida.
Nas semanas seguintes, o Rex manteve-se à distância. Comia da tigela, mas não entrava em casa. Dormia na casota do Gregório. Saía sozinho para passear, voltava ao escurecer.
O Vítor ia todas as manhãs sentar-se na erva ao pé da casota. Falava. De França, de como foi difícil, como se lembrava do cão ruivo todas as noites. O Rex ficava deitado, virado de costas, mas não fugia.
Eu cozinhava o que ele gostava antigamente. Ossos de vaca, pescoços de frango, panquecas de fígado. Punha a tigela e afastava-me para não o envergonhar.
Passou um mês.
Numa manhã, o Rex não se virou. Olhou para o Vítor e ladrou baixinho.
— Rex?
O cão levantou-se. Deu um passo. Parou. Outro passo. Chegou perto e encostou o focinho frio à palma da mão.
— Perdoaste, rapaz?
O Rex não respondeu. Deitou-se ao lado, pôs o focinho nas patas. A cauda mexeu-se ligeiramente — não abanou de alegria, mas era um começo.
O Gregório começou a vir cada vez mais. Primeiro para o chá, depois para o jantar. O Rex recebia-o com entusiasmo, saltava, ganía, lambia-lhe as mãos. Com o Vítor e comigo estava mais contido, mas aos poucos foi aquecendo.
— Sabem — disse um dia o Gregório —, a minha cabana é velha, no inverno faz frio. Talvez eu pudesse fazer um barracão aqui no vosso terreno. Vinha nas épocas, ajudava na horta.
O Vítor e eu olhámo-nos.
— Gregório — comecei devagar —, não queria antes vir morar connosco? Há um quarto livre.
Ele olhou, surpreendido.
— Para quê?
— Porque cuidou do nosso cão durante cinco anos — disse o Vítor. — E porque o Rex gosta de si. E também porque nos envergonhamos. Muito. E queremos reparar.
O Gregório ficou calado. Depois assentiu.
— Tentamos. Se não der, vou-me embora.
O Rex levantou a cabeça, olhou para nós três. E pela primeira vez em dois meses, abanou a cauda a sério.
Agora, de manhã, acordo com o Rex a pousar o focinho no meu peito. O cão dorme em casa, num tapete velho ao pé da lareira. O Gregório vive no quarto ao lado; ao serão, os três sentamo-nos no alpendre, a beber chá. O Rex fica deitado aos nossos pés, às vezes suspira a dormir.
O perdão é coisa estranha. Não vem de repente, não chega com estrondo, com fanfarras. Vem devagar, de manhã, quando um cão velho põe o focinho nos nossos joelhos e fecha os olhos. Confia de novo. Por mais difícil que tenha sido.
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