– Deixa-me em paz, – insistia a Inês. Mas a gata não parava de segui-la.

**Diário: 12 de Novembro**

Não vivia. Sobrevivia.

Setenta e dois anos, um T2 num bairro esquecido de Coimbra, reforma que a vinte do mês já eram tostões. E o silêncio.

Há seis meses o Joaquim foi-se. Não para outra – foi-se mesmo. Em paz, durante o sono, nem um gemido. Acordei de manhã, ele já frio. A mão dele pousada na beira da cama, como se quisesse agarrar a minha e não tivesse chegado a tempo.

A filha, a Inês, veio de Lisboa para o funeral. Ficou três dias, deixou no frigorífico os comprimidos para a tensão e fugiu, a dizer: «Mãe, liga se precisares». Não liguei. Ela ligava. De duas em duas semanas, a horas certas.

– Mãe, como estás?
– Normal.
– Pronto, então está bem. Beijinhos.

Era a conversa inteira. Toda a ligação. Todo o sentido.

Ia ao supermercado. À farmácia. De vez em quando ao centro de saúde, onde mediam a tensão e diziam «não se preocupe». Não me preocupava. Não sentia nada. Era como um móvel. Como aquele armário velho no hall que o Joaquim sempre dizia para deitar fora, mas nunca deitou.

Naquele dia, normal, de Novembro, com o céu baixo e uma chuva miudinha, vinha do centro de saúde. A tensão tinha subido outra vez. A médica abanou a cabeça, passou outra receita. Meti o papel no bolso nem olhei.

Junto aos contentores do lixo, qualquer coisa mexeu-se.

Uma gata. Magra, tricolor, com uma orelha rasgada. Sentada no asfalto molhado, a olhar para mim. Não com pena, não a pedir. Era um olhar… de avaliação. Como se estivesse a pensar: «É esta ou não é?»

Passei por ela.

A gata levantou-se e seguiu-me. Sem um som. Não miou, não se meteu à frente, só vinha a três passos atrás, como uma sombra.

Virei-me à entrada do prédio.

– Larga-me.

Ela sentou-se. Piscou os olhos. Ficou.

Subi ao terceiro andar, fechei a porta, pus a chaleira ao lume. Fiquei à janela – lá em baixo, no banco do prédio, estava a gata.

Uma gata doida.

De manhã, abri a porta e quase tropecei. No capacho, enrolada, dormia a mesma gata. Não sei como subiu três andares. Mas estava ali, como se fosse o sítio dela.

– E agora o que é que eu te faço? – perguntei.

Ela abriu um olho. E fechou-o outra vez.

Como se a resposta fosse óbvia.

Não a deixei entrar. Bom, foi o que pensei.

Só pus um pires com leite. Só deixei a porta entreaberta porque estava muito calor – Novembro, mas os radiadores iam a todo o gás. E a gata entrou.

Fiquei no corredor a ver aquela cara magra e atrevida a cheirar o hall. Depois a cozinha. Depois a sala. E parou.

A poltrona do Joaquim. Velha, funda, com os braços gastos. A mesma onde ele se sentava todas as noites, a fazer zapping, a dizer: «Maria, olha o que eles andam a fazer». Durante seis meses andei aos rodeios àquela poltrona. Não podia sentar-me, não a conseguia deitar fora. Estava ali como um monumento. Como um buraco na sala.

A gata saltou para cima. Rodou na marca da almofada e deitou-se. Enrolou-se, meteu o nariz debaixo da cauda.

E começou a ronronar.

Os lábios tremeram-me. Quis gritar «Sai daí!» Mas a garganta fechou-se, e em vez de grito saiu um som rouco. Sentei-me no sofá e fiquei muito tempo a vê-la dormir na poltrona do meu marido.

– Só esta noite – disse eu, com a voz grossa. – Amanhã ponho-te fora.

Amanhã não a pus. Nem depois. A gata ficou.

Chamei-lhe Tita.

– Tita, vem comer – dizia eu, a pôr o pires no chão.

Ela comia. E olhava para mim de baixo para cima com aquele olhar. Avaliador. Calmo. O olhar de quem sabe qualquer coisa que tu ainda não percebeste.

Passada uma semana, comprei ração. A mais barata, num pacote amarelo, em promoção. Estive na loja de animais a sentir-me parva. A menina da loja, vinte anos, unhas cor-de-rosa, perguntou:

– Que raça é?
– Sem raça. Apareceu-me – resmunguei, e saí sem dizer adeus.

Depois comprei uma caixa de areia. Depois uma tigela. A sério, de cerâmica, porque do pires ela entornava tudo. Depois um arranhador por dezanove euros, porque a gata começou a rasgar o canto do sofá, e o sofá era a única coisa que eu tinha em bom estado.

«É temporário», repetia para mim. «Tudo isto é temporário.»

Mas a vida já estava a mudar. Devagar, às escondidas, como a água que desgasta a pedra.

Antes acordava às nove, ficava a olhar para o tecto. Agora, às sete e meia, a Tita sentava-se ao lado da almofada, olhava-me na cara e esperava. Não miava. Só se sentava e esperava. E daquela espera silenciosa não dava para não me levantar.

Levantava-me. Ia à cozinha. Punha a ração. Ligava a chaleira. E de repente dava por mim a olhar pela janela para o pátio, dez minutos. Sem pensar na tensão, sem pensar na reforma, sem pensar no Joaquim.

À noite, ainda mais interessante. Antes ligava a televisão – não para ver, mas para não ter aquele silêncio de morte. As vozes do ecrã enchiam o vazio, e parecia que não estava sozinha. Agora a Tita deitava-se ao lado no sofá, encostada à minha perna, e ronronava. Baixinho, direitinho, como um motor. E eu, pela primeira vez em seis meses, desliguei a televisão.

O silêncio não era assustador. Silêncio com ronronar é um silêncio diferente.

Apanhei-me a falar com a gata. Não a fazer-lhe festas, não – nunca fui de pieguices, nem com a Inês pequena. Só falava. Como com uma pessoa.

– Outra vez a tensão a 16. Aquela médica, a Doutora Graça, olha para mim como se já estivesse morta. E eu, se calhar, ainda hei-de viver. Para lhes fazer a vontade, não.

A Tita pestanejou.

– A Inês ligou. Outra vez o mesmo: «Mãe, como estás?» Como é que hei-de estar? Não estou. Antes não estava nada. Agora… agora não sei.

A gata esfregou a cabeça na minha mão. Calei-me, porque a garganta ficou apertada.

A vizinha, a Dona Palmira, veio tomar café, viu a Tita e bateu palmas:

– Maria! Tu que dizias que nunca, jamais!
– E continuo a dizer – é temporário.
– Temporário, sim – riu-se a Palmira, a ver a gata a roçar-se nas minhas pernas. – Tens ração em três sítios, tigela de cerâmica e arranhador. Muito temporário.

Virei-me para a janela para ela não ver que estava a sorrir. Primeira vez em seis meses.

Depois a Inês telefonou. Nem sei porque lhe contei da gata. Saiu-me. Talvez quisesse partilhar – pela primeira vez em muito tempo tinha alguma coisa para partilhar.

– Apanhaste uma gata? – repetiu ela. – Bom, ao menos tens ocupação, mãe.

Ocupação.

Desliguei e senti raiva. Raiva a sério, quente, viva. Não mágoa – a mágoa era habitual, amorfa, de algodão. Raiva. Daquela que dá vontade de bater com o punho na mesa e dizer: «Tu nem imaginas!»

Em Dezembro, tudo se desfez.

A Tita começou a comer menos. A princípio não reparei – não comeu tudo, acontece. Depois não tocou mesmo. A tigela ficou cheia de manhã à noite, a ração a secar. A Tita ficava na poltrona do Joaquim, quase sem se mexer. Só respirava – depressa, curto, como se faltasse ar.

– Então? – ajoelhei-me ao pé dela, olhei-lhe nos olhos. – O que é que tens?

A Tita pestanejou. E virou a cabeça para a parede.

Dentro de mim, qualquer coisa se partiu.

Nunca tinha ido ao veterinário. O Joaquim teve um cão em miúdo, mas eu nunca – nem percebia as pessoas que levam animais ao médico, gastam dinheiro, gastam nervos. «Para os humanos é que não chega», dizia eu. Ainda há tão pouco tempo.

Agora estava no hall com a caixa de transporte na mão. Comprei-a ontem. Quarenta euros em saldo – de plástico, com a grade lascada. Meti lá a Tita, e ela não resistiu. Isso foi o pior. Antes tinha arranhado, esperneado, bufado – agora estava como um trapo, a olhar.

A clínica veterinária «Santa Bárbara» na Baixa de Coimbra. Pequena, apertada, cheira a remédios e a pêlo molhado. Sentei-me numa cadeira de plástico, com a caixa ao colo, a sentir-me deslocada. À volta, gente nova, com cães de raça, gatos de pelo fofo em sacos caros. E eu, reformada num casaco velho, com uma caixa esquisita, lá dentro uma gata sem raça com a orelha rasgada.

O veterinário era novo. Um rapaz, trinta anos, de óculos e bata azul. Chamava-se Artur, e ele próprio disse: «Pode tratar-me por Artur». Examinou a Tita, apalpou-lhe a barriga e calou-se. A cara mudou.

– O quê? – perguntei.
– É preciso fazer uma ecografia.

Fez. Passou muito tempo com o aparelho na barriga da Tita, a clicar, a franzir a testa. Depois virou-se para mim e falou devagar, como se fala a quem se tem pena:

– Tem uma neoplasia na cavidade abdominal. Precisa de cirurgia. Se não for feita, dois ou três meses, talvez mais.
– Quanto custa? – perguntei.
– Mil e duzentos euros. Com anestesia e cuidados pós-operatórios.

Apertei a caixa, levantei-me e saí.

Mil e duzentos euros. A minha reforma. Inteira. Sem sobras.

Sentei-me num banco mesmo ao pé da clínica. Dezembro, um frio de rachar. A Tita na caixa, quieta, imóvel, só os olhos a brilhar através da grade. Olhava. Não pedia, não se queixava, só olhava.

Tirei o telemóvel e liguei à Inês. Um toque, dois, três.

– Mãe, estou a trabalhar, despacha-te.
– Inês, preciso de ajuda. A gata precisa de uma operação. Mil e duzentos euros.

Silêncio. Depois um suspiro. E uma voz que me fez mais frio que o vento de Dezembro:

– Mãe, estás a falar a sério? Mil e duzentos euros por uma gata sem dono?
– Não é sem dono. É minha.
– Mãe. É uma gata. Só uma gata. Se morrer, arranjas outra. Há tantas na rua.

Fechei os olhos. De repente vi uma fotografia – o Joaquim na poltrona. A fazer zapping e a dizer: «Maria, tu és a pessoa mais teimosa da terra. Quando decides, viras montanhas». Dizia isto tantas vezes que eu me zangava. Agora dava tudo para ouvir outra vez.

– Mãe? Estás aí?
– Estou – disse eu. – Obrigada, Inês.

E desliguei.

Três dias pensei. Três dias é muito tempo quando alguém está a morrer ao teu lado.

A Tita ficava na poltrona e derretia. Como uma vela. Comia uma colher de chá. Bebia pouco. Deixou de ronronar. Eu sentava-me ao lado, no chão, em cima de uma manta velha, e passava-lhe a mão pela cabeça – de leve, com a ponta dos dedos.

– Disse que eras minha. És minha.

Ao quarto dia, levantei-me às seis da manhã. Vestime. Fui à caixa multibanco. Levantei a reforma – três velhotas à minha frente, todas com os seus papéis, todas lentas, todas eternas.

As notas no bolso do casaco, e eu a andar na rua com a mão apertada contra o corpo, como se levasse qualquer coisa frágil. De certa maneira, era o caso.

Na clínica, pus o dinheiro em cima do balcão. As mãos tremiam – de frio ou de medo, não sabia.

– Trouxe a gata para a operação.

O Artur olhou para o dinheiro, depois para mim, depois outra vez para o dinheiro. Acenou que sim. Não disse nada a mais. Só:

– O prognóstico é bom. Se aguentar a anestesia, fica bem.

Se.

Sentei-me no corredor. Cadeira de plástico, parede branca, cheiro a antissético.

Tentei lembrar-me da última vez que esperei assim. Lembrei-me. Há vinte anos, na maternidade. A Inês a nascer. Eu sentada no corredor – exactamente igual, numa cadeira, com o saco ao colo, à espera. Naquele momento, tudo acabou bem. A criança chorou, e o mundo mudou.

A porta abriu. Saiu uma enfermeira, nova, de verde, com olhos cansados.

– É a dona da tricolor?
– Sim – levantei-me. As pernas dormentes, os joelhos a estalar.
– Correu bem. A operação foi um sucesso. A sua gata é uma guerreira.

Acenei. Não consegui falar – a garganta fechou. Fiquei só a acenar, e a enfermeira tocou-me no braço:

– Então, está bem?
– Estou. Estou bem.

Trouxeram a Tita – enrolada em panos, sonolenta, com a barriga rapada e um fiozinho de pontos. Peguei na caixa com as duas mãos, apertei-a contra mim e fui para casa.

Em casa, pela primeira vez, deitei a gata na minha cama. No lado onde antes dormia o Joaquim. A Tita deitou-se de lado, a respirar fundo, o risco dos pontos a brilhar. Deitei-me ao lado dela, pus a mão sobre o corpo quente e sussurrei:

– És minha.

A Tita recuperou devagar. No primeiro dia, só esteve deitada, comeu à conta-gotas, olhos baços. Depois começou a levantar a cabeça. Ao fim de uma semana, foi sozinha à tigela e comeu tudo. Fiquei à porta da cozinha a vê-la lamber o fundo de cerâmica e pensei: é isto, a felicidade. Uma parvoice, quase sem valor, em quatro patas.

Em Fevereiro, a Tita já era a mesma. Corria pela casa como doida, derrubava o saleiro da mesa, afiava as unhas no arranhador – e logo a seguir no sofá, porque tem mau feitio. Eu ralhava, abanava o pano, gritava: «Mas que bicho!»

Eu vivia quase só de massa e batatas. A Dona Palmira trazia de dois em dois dias sopa num frasco, ou um saco de maçãs – «ficou a mais, toma lá». Eu sabia que não havia nada a mais. Que ela também conta os cêntimos. Mas aceitava. Porque o orgulho é bom, mas comer ainda é preciso.

No fim de Fevereiro, a Inês ligou.

– Mãe, vê o teu multibanco. Transferi-te. Mil e duzentos euros.

Fiquei calada. Depois:

– Para quê?
– Para isso. – Pausa. Longa, pesada. – Tu deste a reforma toda pela gata. E não me disseste. A Dona Palmira telefonou-me.
– A Palmira… – fechei os olhos.
– Mãe, não devia saber disto pela vizinha.

Calei-me. Não por estar magoada – porque não conseguia escolher a palavra certa entre mil. Escolhi a mais simples:

– Vem cá, Inês. Sem razão. Só vem.

Silêncio. Um segundo, dois.

– Vou, mãe. No sábado.

Desliguei. Fiquei parada. Depois sentei-me na poltrona do Joaquim – pela primeira vez em todo este tempo. Simplesmente sentei. E não aconteceu nada. Só a marca no assento que me ficava um bocado grande.

A Tita saltou para o meu colo, enterrou a cabeça na minha mão e começou a ronronar – alto, a fazer vibrar tudo lá dentro.

Lá fora, nevava. Fiquei a olhar. Não porque antes não houvesse neve. Mas porque antes eu não reparava.

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– Deixa-me em paz, – insistia a Inês. Mas a gata não parava de segui-la.
Smiali sa jej za lacný kabát, až kým nezistili pravdu 😱