O meu ex-marido passou três anos a dizer que tinha saudades. E depois eu simplesmente contei as datas das chamadas dele.

O ex-marido passou três anos a dizer que tinha saudades. Depois eu só contei as datas dos telefonemas dele.

A Inês estava sentada na cozinha, com as mãos à volta de uma chávena já fria. À sua frente, um caderno cheio de datas. Olhava para aqueles números há vinte minutos sem conseguir mexer-se.

Porque demasiadas coisas coincidiam.

Cada telefonema dele, cada mensagem, cada «vamos falar» repentino encaixava-se no mesmo padrão. A Inês não viu logo. Foram precisos o divórcio, quase dois anos e uma noite sem dormir com uma calculadora.

No início, nem lhe passou pela cabeça contar.

Viveram juntos nove anos. A Inês e o Rui conheceram-se no aniversário de uma amiga comum, quando ambos tinham vinte e seis anos. Ele trabalhava como gestor numa empresa de construção, ela tratava da contabilidade numa pequena firma. Na aparência, uma história normal. Na aparência, pessoas normais.

Casaram um ano depois. Sem grandezas, num restaurante para vinte pessoas. A Inês cosera o próprio vestido porque não gostava de nada nas lojas. O Rui ria-se e dizia que ela era uma perfeccionista.

E depois veio o dia a dia.

A filha Sofia nasceu no segundo ano de casamento. A Inês entrou de licença, o Rui foi promovido. Dinheiro havia, mas o tempo para a família diminuía. Atrasos no trabalho transformavam-se em ausências nocturnas. Os jantares de empresa estendiam-se até de manhã.

A Inês aguentava. Achava que era assim com toda a gente. A mãe dizia sempre: «O homem trabalha, sustenta a família. Que mais queres?»

Mas ao quinto ano, a Inês começou a notar coisas que antes lhe escapavam. Água-de-colónia nova. Palavra-passe no telemóvel que antes não existia. E aquele hábito de ir à varanda quando o telefone tocava.

Não fez cenas. Apenas, um dia, perguntou directamente.

O Rui fez uma pausa de cinco segundos. Depois disse: «Inês, tu estás a inventar.»

E ela acreditou nele. Por mais quatro anos.

O divórcio aconteceu quando a Sofia tinha sete anos e meio. Não por causa de uma traição, ou melhor, não directamente. A Inês encontrou a conversa por acaso, quando o Rui deixou o tablet na mesa da cozinha. Havia pouco: umas piadas, corações, uma foto de uma mulher de vestido vermelho com o mar ao fundo.

Mas chegou.

Não gritou. Não chorou à frente dele. Disse apenas: «Quero o divórcio.» E o Rui, para surpresa dela, não discutiu.

Mais tarde, a Inês percebeu: ele não discutiu porque respeitava a decisão dela. Simplesmente, naquela altura, tinha para onde ir.

Empacotou as coisas num fim-de-semana e alugou um apartamento no bairro ao lado.

Os primeiros meses foram os piores. A Sofia perguntava porque é que o pai já não vivia em casa. A Inês escolhia palavras que não magoassem a filha e que ao mesmo tempo não transformassem o Rui num herói que apenas «se cansou». Era como andar num campo minado no escuro.

Depois, foi ficando mais fácil. Aos poucos, sem se notar, como se alguém tirasse uma pedra de cada vez dos ombros dela. A Inês arranjou um novo trabalho, começou a ir à piscina às terças-feiras, ganhou o hábito de beber café no parapeito da janela de manhã.

A vida sem o Rui era calma. E isso assustava-a.

Porque, lá no fundo, a Inês esperava que sem ele tudo desabasse. Que não conseguisse sozinha. Que a Sofia sofresse. Mas a filha adaptou-se mais depressa do que a mãe. Fez amigas no prédio, inscreveu-se no desenho, deixou de perguntar pelo pai todas as noites.

O primeiro telefonema do Rui chegou quatro meses depois do divórcio. Voz baixa, um tom culpado, como se já tivesse ensaiado aquela entoação.

«Inês, andei a pensar. Será que decidimos tudo depressa demais?»

Ela ficou atrapalhada. Não esperava. Disse qualquer coisa como «agora não» e desligou. Passou a noite a andar pela casa, sem sossego.

Mas não retribuiu a chamada.

Uma semana depois, ele escreveu. Uma mensagem longa sobre como sentia saudades da Sofia, de casa, dos pastéis de nata que ela fazia. A Inês leu duas vezes. À terceira, não leu.

Depois, ele desapareceu. Dois meses. Nem um telefonema, nem uma mensagem. Silêncio.

E, de repente, no final de Novembro, outra vez: «Olá. Como está a Sofia? Posso ir lá?»

Mais tarde, a Inês viu no telemóvel da Sara um print: o Rui tinha-se zangado com aquela rapariga loira do parque. Não tinha terminado de vez, mas durante uma semana as fotos dela desapareceram.

A Inês autorizou. Ele chegou com um urso gigante de peluche, uma caixa de bombons e aquela cara que a Inês chamava para si «modo de pai perfeito». Ficou uma hora, brincou com a Sofia, demorou-se à porta.

«Tenho saudades tuas, Inês. A sério.»

Ela fechou a porta e encostou-se. O coração batia forte. Mas alguma coisa a impedia de se alegrar com aquelas palavras.

A segunda tentativa foi em Fevereiro. Ele ligou tarde, perto das onze. A voz diferente, tensa.

«Inês, preciso de falar contigo. A sério.»

Encontraram-se num café perto do metro. O Rui pediu dois caffè americanos e começou a dizer que tinha cometido um erro. Que aquela mulher não significava nada. Que percebera que a família era o mais importante.

A Inês ouvia. Acenava. Pensava: será que tento outra vez?

Mas três dias depois, a amiga Sara enviou-lhe um print. O Rui tinha actualizado o perfil numa rede social. Estado: «numa relação». Fotografia com uma loira no gelo.

A conversa de Fevereiro perdeu o sentido. A Inês apagou o número dele dos favoritos.

Em Maio, ele apareceu outra vez. Flores, desculpas, promessas, tudo o mesmo pacote, só o ramo era diferente.

A quarta, em Setembro. Uma mensagem de voz de seis minutos: «Mudei mesmo, acredita.»

A quinta, no Natal. Um postal para a Sofia e um bilhete para a Inês: «Foste o melhor da minha vida.»

Ela até guardou o bilhete na gaveta dos documentos. Não porque acreditasse totalmente. Porque uma parte dela ainda queria ter a prova de que tinha sido importante para ele.

E sempre, entre as aparições dele, havia um intervalo de dois a três meses.

A Inês não ligava. Ou melhor, não queria ligar. Até que uma noite abriu o caderno.

Foi na Primavera seguinte, em Março. A Sofia adormecera cedo, a casa estava em silêncio. A Inês folheava mensagens antigas e, de repente, começou a anotar as datas. Só por curiosidade.

Primeiro telefonema: 12 de Outubro.

Segunda tentativa: fim de Novembro.

Terceira: 13 de Fevereiro. Não, não Dia dos Namorados. Um dia antes.

Quarta: 8 de Maio.

Quinta: 22 de Setembro.

Sexta: 28 de Dezembro.

Olhou para as datas a tentar encontrar um padrão. Feriados? Quase. Aniversários? Também não.

E então lembrou-se de um detalhe.

Em Outubro, a Sara contara que vira o Rui sozinho num bar. Tristonho. Em Fevereiro, ele queixara-se de «um período difícil». Em Maio, escrevera que «estava farto de tudo». Em Setembro, pedira conselhos sobre «como seguir em frente».

A Inês abriu o perfil dele na rede social. Percorreu as publicações. E começou a comparar.

Outubro. Fotografia com a rapariga loira no parque. Última publicação com ela: início de Outubro. Telefonema à Inês: 12 de Outubro.

Fevereiro. Loirinha do gelo. Última foto juntos: 10 de Fevereiro. Encontro com a Inês: 13 de Fevereiro.

Maio. Nenhuma foto com mulheres. Mas um amigo do Rui publicou uma história com a legenda «Rui está solteiro outra vez». Data: 5 de Maio. Flores do Rui: 8 de Maio.

Setembro. Nova rapariga, morena. Fotos juntos desde meados do Verão. Última: 18 de Setembro. Mensagem de voz do Rui: 22 de Setembro.

Dezembro. Nenhuma foto com ninguém desde Novembro. Postal para a Sofia: 28 de Dezembro.

A Inês pousou a caneta.

Seis vezes. Seis regressos depois de separações, discussões ou fracassos alheios. Seis telefonemas para ela. A diferença entre os acontecimentos: de dois a vários dias.

Ele não a escolhia. Lembrava-se dela quando os outros deixavam de o escolher.

Ficou na cozinha até às duas da manhã. O chá já estava frio. Lá fora, os carros zumbiam e, ao longe, um cão ladrava.

O pior não era que o Rui mentisse. A isso já se habituara. O pior era que ela, de cada vez, acreditava. Pensava: «E se desta vez é verdade?»

Porque ele sabia que palavras usar. Sabia que «tenho saudades do cheiro dos teus pastéis de nata» acertava em cheio. Que uma mensagem de voz de seis minutos, quase a chorar, a enternecia. Que a Sofia era o trunfo que funcionava quase sempre.

E ele usava isso. Talvez não se sentasse de propósito a fazer um plano. Mas o hábito é, por vezes, mais duro que a má intenção. Como alguém que sabe que há sempre sopa no frigorífico. Não porque a valorize. Mas porque está habituado.

A Inês lembrou-se de a mãe dizer uma vez: «O homem volta para onde o esperam.» Na altura, soou a sabedoria. Agora, soava a sentença.

Porque, às vezes, esperar é tornar-se num aeroporto secundário. Num sítio onde se aterra quando já não há para onde voar.

De manhã, ligou à Sara.

«Sara, percebi uma coisa. Sobre o Rui.»

A Sara ouviu em silêncio. Depois disse: «Inês, eu vi isso há um ano. Mas tu não acreditavas em mim.»

E a Inês não discutiu. Porque a Sara tinha razão. Há um ano, não teria acreditado. Há um ano, ainda tinha esperança.

Agora, ao olhar para o caderno com as datas, sentia uma calma estranha. Não raiva, nem mágoa. Uma calma. Como se alguém tivesse finalmente ligado a luz num quarto onde ela estivera sentada, com medo de olhar para os cantos.

Via tudo com clareza. Sem ilusões, sem esperança, sem aquele nojo de «e se».

O Rui ligou em Abril. Quase como num relógio.

«Inês, olá. Olha, andei a pensar…»

Ela não o deixou acabar.

«Rui, eu contei as datas. De todos os teus telefonemas para mim. E comparei com os teus términos. Sabes o que deu?»

Silêncio no telefone. Um segundo. Dois. Cinco.

«Do que estás a falar?»

«De que tu ligas-me sempre dois ou três dias depois de cada uma delas te deixar. Cinco em cinco, Rui. Não é coincidência.»

Ele começou a dizer que «ela estava a interpretar mal» e que «tinha mesmo saudades». A Inês ouvia a voz dele e pensava como, dantes, aquelas entoações funcionavam sem falha. Aquele tremor ligeiro, a pausa antes de «a sério», o suspiro baixo.

Sorriu.

«Rui, não me ligues mais. Com a Sofia, fala, isso é convosco. Mas a mim, não me ligues.»

«Para assuntos dela, escreve no WhatsApp. Curto e objectivo.»

E desligou.

O telemóvel caiu na mesa. A Inês olhou para ele como se o visse pela primeira vez. Um pequeno rectângulo preto que a mantivera presa durante três anos.

A Sofia saiu do quarto, sonolenta, de pijama com dinossauros.

«Mãe, estavas a falar com quem?»

«Com o pai. Mas já acabámos.»

Agarrou na filha ao colo, e a Sofia abraçou-a pelo pescoço. Cheirava a champô infantil e a qualquer coisa quente, caseira.

Lá fora, começava Abril. As árvores já verdejavam. A Inês ficou no meio da cozinha com a filha ao colo e pensou: coisa estranha. Durante todo este tempo, esperara que o Rui voltasse. Afinal, só precisava de ter contado.

Não deitou o caderno fora. Guardou-o na gaveta de cima da cómoda, debaixo de uma pilha de toalhas. Não como lembrança da dor. Como prova de que os números, às vezes, são mais honestos que as palavras.

E quando, um mês depois, a colega Joana perguntou se a Inês não queria conhecer «um tipo óptimo, divorciado, dois filhos», a Inês riu-se.

«Joana, dá-me ao menos seis meses. Só agora aprendi a contar não as promessas dos outros, mas as minhas perdas.»

Ia para casa pelo parque, passando pelo parque infantil onde a Sofia balançava no baloiço. O sol punha-se atrás dos telhados dos prédios, e as sombras das árvores estendiam-se no alcatrão em riscas compridas.

A Inês tirou o telemóvel. Abriu os contactos. Encontrou «Rui» e carregou em «bloquear» para chamadas particulares. Depois, abriu o WhatsApp e deixou apenas a conversa sobre a Sofia.

O dedo não tremeu.

Foi a melhor coisa que fez desde o divórcio.

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