Hoje acordei com o telefone a tocar às sete da manhã. Era o Vítor, o capataz, e disse uma só palavra: «cão». Não percebi logo o que é que um cão tinha a ver com a demolição do barracão velho.
— Que cão, Vítor?
— Uma ruiva. De tamanho médio. Não nos deixa aproximar, rosna, está à porta. Nós, resumindo, não podemos trabalhar.
— Vocês são quatro homens de obra com pés-de-cabra.
— João, ela não sai. Gritámos, atirámos-lhe um pau, batemos os pés. Afasta-se cinco metros e volta. Deita-se mesmo à entrada.
Sentei-me na cama e esfreguei a cara com as palmas das mãos. Da janela vinha a humidade da primeira manhã de Maio, quando a terra ainda não largou o frio.
Comprei o terreno em Março. A casa é sólida, as paredes aguentam, mas o barracão estava encostado ao fundo como um dente podre: inclinado, com a tinta verde a descascar, o telhado a ceder e um cheiro pesado a madeira bolorenta que se sentia mesmo do outro lado do quintal.
A demolição estava marcada para sábado. Equipa, contentor, marreta. Tudo pago.
E agora um cão.
Vesti-me, deitei café numa caneca de viagem e meti-me no carro. Pelo caminho bebi um gole, queimei a língua e fiquei ainda mais irritado.
Nos arredores, os cães vadios não faltam: rondam os contentores do lixo, aquecem-se nas condutas de água quente, pedincham à porta do Pingo Doce. Mas que um rafeiro parasse quatro homens com ferramenta, aquilo parecia ridículo.
Quando me aproximava do terreno, liguei de novo.
— Não vão daí. Já chego, resolvo.
— Não saímos. Estamos aqui a fumar. O cão está deitado. A situação está estável.
A última palavra saiu com uma calma que me fez apertar o volante.
No terreno, o silêncio era absoluto. A marreta estava deitada na erva, o pé-de-cabra encostado à vedação. O Vítor sentado num balde virado ao contrário, a fumar, a abrigar a ponta do cigarro com a palma da mão. Dois operários mastigavam sandes na cabina da carrinha da obra, com um ar de quem está a receber para esperar.
— Ali está ela.
À porta do barracão, mesmo no limiar, estava a cadela ruiva. Nem grande nem pequena. Tinha um olho meio fechado, talvez pisado ou de nascença. O pelo embaraçado aqui e ali, as costelas a marcar-lhe os flancos. Não ladrava. Estava deitada, com o focinho pousado nas patas.
— Tentaram contornar? O outro lado da parede está podre, dava para entrar com o pé-de-cabra…
— Tentámos. Ela dá a volta e põe-se mesmo onde queremos entrar.
O café frio amargava-me a língua. Bebi-o até ao fim, pus a caneca em cima de um poste da vedação e fui para o barracão. A cada passo, o cheiro mudava. Primeiro erva e terra, depois madeira húmida, bolor. E mais qualquer coisa, leve e indefinida, que não conseguia identificar.
A cadela levantou a cabeça. Não rosnou. Apenas se pôs de pé e tensionou o corpo todo. O pelo ao longo do lombo eriçou-se devagar, e a cauda começou a abanar nervosamente.
— Vai-te embora!
Bati com o pé no chão, um som seco.
Ela recuou meio passo. Parou. E voltou. Ficou à porta, a tapar a fresta entre a porta e o batente. Não mostrava os dentes. Olhava.
Ajoelhei-me para ficar à altura dela. A metro e meio de distância. Olhos castanhos, escuros, com um brilho húmido, o esquerdo a lacrimejar um pouco. Não havia raiva neles. Havia outra coisa, para a qual na altura não encontrei palavra.
Um dos operários aproximou-se e estendeu-me um pau partido.
— Quer que a espante com mais força?
— Não.
— O Vítor diz que o canil só vem na terça-feira. E o contentor está pago até ao fim do dia.
— Eu sei.
Os joelhos estalaram quando me endireitei. O som pareceu demasiado alto para aquela manhã calada. A cadela não se mexeu.
— Vou entrar sozinho.
— E se morde?
— Não morde.
Disse-o por raiva, não por certeza. E avancei para a porta.
A cadela rosnou. Baixinho, quase para si mesma. Um som gutural que não mete medo, mete desconforto. A minha mão empurrou a porta. A madeira gemeu, o canto de baixo raspou no chão, as dobradiças chiaram de tal modo que o operário ao pé da carrinha se virou.
Passei de lado para dentro.
Dentro estava escuro. E quente. Não um calor de Verão, mas outra coisa: denso, húmido, como se o ar respirasse sozinho.
Fiquei imóvel à entrada. Aquele cheiro eu conhecia. A minha mãe trazia gatos da rua, punha-os numa caixa perto do aquecedor, e o quarto ficava com aquele mesmo odor.
Os olhos demoraram a habituar-se. Primeiro vi a bancada: latas de tinta vazias, um rolo de arame, uma pá sem cabo. Depois o chão. De terra batida, calcada, com restos de palha do ano passado. Teias de aranha iam da viga à parede, e numa delas brilhava uma gota solitária, redonda e pesada.
O olhar escorregou para o canto mais fundo. Ali onde o telhado ainda se aguentava e por uma fresta entre as tábuas caía uma fina linha de luz.
Lá estava uma manta.
Cinzenta, gasta, com franjas nas bordas. Eu tinha-a visto em Março, quando vim ver o terreno antes de comprar. Pensei: algum sem-abrigo dormiu aqui. Ou o antigo dono a deixou. Bati-lhe com o pé para ver o chão e esqueci-me.
Agora a manta estava amontoada como um ninho. Em cima dela estavam os cachorros.
Quatro. Muito pequenos, com duas semanas no máximo. Olhos fechados, orelhas coladas à cabeça como pétalas. Mexiam-se uns sobre os outros, a enfiar os focinhos cegos na manta, e guinchavam fininho, numa só nota. Um, o mais pequeno, com uma mancha escura no lombo, tinha-se metido debaixo da orla da manta e abanava a pata traseira a dormir. A linha de luz batia-lhes de través, e o pelo parecia não ruivo, mas dourado.
Os joelhos cederam sozinhos. Ajoelhei-me, as mãos caídas. Não me mexia.
Depois os dedos estenderam-se por si e tocaram uma costas minúsculas. Quentes.
O cachorro não acordou. Abanou a pata e encostou-se mais aos irmãos.
Um rumor atrás de mim.
Fiquei parado. A cadela entrou sem fazer barulho, rodeou-me e deitou-se ao lado dos filhotes. Esperei pelo focinho arreganhado, pelo rosnado, por qualquer som. Mas ela apenas se deitou e começou a lambê-los. Metodicamente, com calma, a língua da cabeça à cauda. Como se o homem nem ali estivesse. Como se no mundo todo só existisse aquilo que estava estendido na manta cinzenta.
O mais pequeno encontrou a mãe primeiro. Apegou-se e começou a mover as patas. Os outros juntaram-se, e o barracão encheu-se de um som baixo de leite a ser chupado. A cadela fechou o olho meio cerrado e pousou a cabeça nas patas. Exactamente como estava na soleira meia hora antes. Só que o focinho era diferente. Não tenso. Macio.
Fiquei ali sentado muito tempo. Não contei os minutos. Os joelhos adormeceram, as costas ficaram húmidas com a terra do chão.
Depois levantei-me e saí.
O Vítor estava junto à vedação a acabar o chá de uma garrafa térmica. Da cabina da carrinha vinha o murmúrio da meteorologia.
— Então, o que é? Ratos?
— Cachorros.
O capataz parou com a garrafa na mão. Olhou para o barracão, depois para mim.
— Como?
— Exactamente. A cadela teve crias no canto, em cima da manta. Quatro. Ainda cegos.
O Vítor calou-se. Coçou a cicatriz no pulso esquerdo. Um hábito que lhe aparecia sempre que a situação não cabia no orçamento.
— Então, demole-se ou não?
A porta do barracão tinha ficado entreaberta, e pela fresta via-se o flanco ruivo. A cadela estava deitada sossegada, não levantava a cabeça. Sabia que eu tinha saído e não se mexeu.
Veio-me isto à cabeça. A cadela não mordia, não atacava, não fugia. Ficava. Não tinha maneira de parar quatro homens com pés-de-cabra. Só teimosia. E uma soleira atrás da qual estavam os que não conseguiam abrir os olhos, nem fugir, nem pedir.
— Não. Não se demole.
— Então quando?
— Quando eles crescerem.
O Vítor encolheu os ombros, assobiou para a equipa, e começou a algazarra normal de arrumar as ferramentas. O pé-de-cabra tilintou contra a marreta. A garrafa térmica bateu no tabuleiro. A porta da cabina bateu.
O telemóvel apareceu na minha mão antes de eu ter tempo de pensar.
— Inês, tenho uma coisa. Precisamos de comida para cão. E uma tigela. Não, duas.
A minha mulher começou a fazer perguntas, mas eu olhava para o focinho ruivo que espreitava pela fresta e seguia a carrinha que dava a volta no portão. O vento trazia cheiro a erva fresca, a gasolina e a qualquer coisa florida do terreno ao lado. O olho meio fechado da cadela pestanejou uma vez.
Guardei o telemóvel e fui ao carro. Na bagageira havia uma garrafa de água e as sandes que a Inês me metia todas as manhãs «para o caso de». Tirei primeiro a água. Olhei à volta. Ao lado da porta do barracão, do lado direito, estava uma tigela de lata. Velha, enferrujada, amolgada, com riscos secos no fundo.
A água da garrafa caiu no fundo ferrugento. A cadela não saiu. Só o nariz tremeu na fresta da porta, húmido e brilhante.
Sentei-me no degrau da casa e desembrulhei a sandes. Fiambre com pão, nada de especial. Dei uma dentada, mastiguei.
Um pássaro no outro lado da vedação repetia a mesma nota, como se estivesse a ver se alguém o ouvia.
O barracão continuava de pé. A tinta continuava a descascar, o telhado a ceder do lado direito. Mas pela porta entreaberta vinha um cheiro a calor e a leite.
A manta cinzenta no canto já não era lixo. Era o primeiro ninho de quatro pequenos que ainda não viam nada.







