A mãe chega esta noite. Para sempre. Já tratei disso.
A Inês levantou a cabeça do computador. Não percebeu logo o que ele dissera. Pediu confirmação com o olhar — apenas fitou o marido, que estava à porta da cozinha a olhar para o telemóvel como se tivesse acabado de comunicar algo banal. Que o pão tinha acabado. Que havia trânsito na Avenida da Liberdade.
— O que é que queres dizer com «para sempre»?
— Exactamente isso. — Ele finalmente guardou o telemóvel no bolso. — Ela tem dores nas articulações, sozinha é difícil. Vamos trazê-la para casa.
A Inês fechou o portátil. Devagar, com cuidado — como se fecha algo frágil para não partir. Trabalhava como analista financeira em casa, e a mesa da cozinha era o seu posto desde as nove da manhã. Eram seis e meia da tarde.
— António. Não discutimos isto.
— O que é que há para discutir? — Encolheu os ombros — aquele gesto que ela aprendera a odiar. Leve, descuidado, como se as palavras dela pesassem menos que ar. — Ela é a minha mãe. Queres que a abandone?
A Inês levantou-se. Foi até à janela, olhou para o pátio — miúdos a jogar à bola, a gritar, a cair e a levantar-se. Uma tarde normal. Só que dentro do peito algo se apertava e não largava.
— Temos um T2, — disse ela, com voz calma. — Onde é que ela vai viver?
— Na sala. O sofá é bom.
— Esse é o meu escritório, António.
— Tu trabalhas na cozinha. Qual é a diferença?
Ela virou-se. Olhou para ele — para aquele homem com quem vivera seis anos. Estava junto ao frigorífico, já o abrira e olhava lá para dentro com ar profissional, como se a conversa tivesse acabado. Decisão tomada, ponto final, pode-se jantar.
Era assim que funcionava com a Dona Amália. A mãe decidia — o filho cumpria. A Inês, naquele esquema, era um adereço. Cómodo, funcional, facilmente substituível.
A Dona Amália apareceu às oito da noite com duas malas e um saco grande cheio de tachos. A Inês não percebeu para que serviria levar tachos para casa de quem já os tinha. Mas calou-se.
— Cá estou eu! — A sogra entrou como quem volta a casa própria depois de longa ausência. Olhou à volta, franziu os lábios. — Antóniozinho, há pó na estante. Vês? Aqui.
— Mãe, acabaste de chegar…
— Só estou a dizer. — Tirou o casaco, atirou-o para o cabide de modo que metade caiu ao chão, e foi inspeccionar a casa. A Inês ficou no corredor a ver aquela mulher abrir a porta do quarto, espreitar a casa-de-banho, tocar nas cortinas da sala.
— O sofá é duro, — anunciou a Dona Amália, sem olhar para a Inês. — António, tens um colchão extra?
— Arranjamos, mãe.
— E está frio aqui. O radiador aquece mal?
— Aquece bem, — disse a Inês.
A sogra olhou para ela — pela primeira vez desde que atravessara a porta. Um olhar longo, avaliador, como no mercado se olha para um produto fora de prazo.
— Bom, talvez para ti esteja bem. Eu tenho frio.
O António já ia buscar um cobertor velho ao armário. A Inês foi para a cozinha. Sentou-se. Abriu o portátil, fechou-o. Abriu-o outra vez. Os números no ecrã não faziam sentido.
Do outro lado, a Dona Amália contava ao filho que a vizinha Cláudia finalmente vendera o terreno, e fez bem, e afinal agarrar-se a bens é parvoíce, ela, por exemplo, desfazia-se de tudo sem pena. A Inês pensou que a sogra nunca se desfizera de nada sem cobrar juros.
A primeira semana foi como uma cheia lenta. Primeiro a água subiu invisível — tornozelos, joelhos. Ainda se podia fingir que nada de especial se passava.
A Dona Amália não trabalhava — estava reformada e muito orgulhosa disso. Passava o dia no sofá com o telemóvel, a ver vídeos no volume máximo, às vezes a telefonar às amigas para relatar com pormenor a vida alheia. Não lavava a loiça. Não limpava migalhas. Um dia a Inês encontrou no lava-loiças uma frigideira por lavar, com cheiro a fritos do dia anterior.
— Dona Amália, pode lavar a sua loiça?
— Estou cansada. As articulações, — respondeu, sem tirar os olhos do telemóvel.
— Esteve meia hora a andar pela loja.
— Isso é diferente.
À noite, o António disse à Inês que ela podia ser mais branda. A mãe é idosa, doente, é preciso compreender. A Inês compreendeu — calou-se. Mas algo dentro dela registou aquele momento. Guardou-o, como se guarda um ficheiro importante.
Três dias depois, a Dona Amália mudou os móveis da sala. Simplesmente pegou e arrastou a poltrona para junto da janela, e a mesa de centro para o sofá. A Inês soube quando foi buscar a sua agenda e deu com tudo fora do sítio.
— Porque é que mudou os móveis?
— É mais prático. Preciso de luz para ler.
— Esta é uma sala comum.
— E daí? Não deitei nada fora. — A sogra nem se voltou. — O António não se importa.
O António, claro, não se importava. O António nunca se importava quando se tratava da mãe. Crescera numa casa onde a palavra da Dona Amália era lei natural — como a gravidade, como as estações. Discuti-la não fazia sentido.
A Inês ficou no meio da sala rearrumada a pensar que, seis meses antes, ela e o António tinham ido ver um T3 num prédio novo. Ela gostara — claro, com cozinha grande, vista para o parque. O António dissera que era caro, esperassem. Agora percebia que ele já sabia na altura. Só não dissera.
Não fora uma ideia de momento. Fora um plano.
Ao décimo dia, a Dona Amália encontrou no frigorífico o iogurte da Inês — caro, encomendado de propósito, sem açúcar, com probióticos, porque a Inês cuidava da alimentação — e comeu-o. Simplesmente pegou e comeu. E pôs a embalagem vazia de volta.
A Inês abriu o frigorífico de manhã, viu a embalagem, fechou-o. Parou um segundo. Abriu outra vez — talvez tivesse visto mal. Não. Vazia.
— Dona Amália, comeu o meu iogurte?
— Que iogurte? — A sogra olhou com ar inocente, quase espantado. Sabia fazer aquilo — uma cara de quem é acusado injustamente.
— O branco, num frasco pequeno. Estava na segunda prateleira.
— Pensei que era de todos.
— Aqui nada é «de todos» sem se perguntar.
— Oh, que disparate. — A Dona Amália fez um gesto de mão. — Um iogurte. Grande perda.
À noite, o António disse outra vez que a Inês se estava a apegar a pormenores. A mãe não fizera de propósito. Era preciso habituarem-se a viver juntos, demorava tempo. A Inês olhou para ele com um olhar comprido e não respondeu.
Já estava a pensar. A calcular. A fazer contas.
As travessuras da sogra não pararam por aí.
O perfume estava na mesa-de-cabeceira há um mês — francês, num frasco pesado cor de âmbar velho. A Inês comprara-o para o seu aniversário, escolhera com cuidado, cheirara amostras na loja, relera as descrições. Não era só perfume — era uma pequena alegria pessoal, daquelas que ultimamente rareavam.
Uma manhã, o frasco não estava na mesa.
A Inês encontrou-o no chão do corredor. Melhor, o que restava dele — cacos, poças âmbar no parqué, um cheiro intenso que empapou todo o corredor e não se foi embora.
A Dona Amália estava no sofá com o telemóvel.
— O que aconteceu ao meu perfume?
— Caiu. — Curto, sem entoação, como quem responde a uma pergunta sem importância.
— Como é que foi parar ao corredor?
— Peguei para ver. O frasco escorregou, caiu.
A Inês agachou-se, juntou os cacos num jornal. As mãos estavam calmas — ela própria se espantou com aquela calma. Lá dentro algo se apertava e pulsava, mas por fora — nem um movimento a mais.
— Pegou nas minhas coisas sem pedir.
— Peguei para ver, não foi roubar. — A Dona Amália finalmente tirou os olhos do telemóvel, e no seu olhar havia aquela expressão — leve irritação de quem é interrompido por ninharias. — Um dramalhão. Um perfume. Compra outro.
— Com o seu dinheiro?
A sogra calou-se. Voltou-se para o telemóvel.
À noite, o António disse que a mãe não fizera de propósito, que era preciso guardar as coisas de valor longe. A Inês gravou aquela conversa na mesma pasta interna que todos os dias pesava mais.
A fritadeira de ar comprara-a dois anos antes — lera imensas análises, comparara modelos, acabara por comprar uma boa, alemã, com temporizador e vários programas. Cozinhava nela quase todos os dias: asas de frango, legumes, peixe. O António dizia que era a melhor coisa que ela comprara para a cozinha.
Numa sexta-feira, a Inês voltou do escritório — ia uma vez por semana a reuniões — e encontrou na cozinha aquele cheiro característico de plástico queimado. A fritadeira estava em cima da mesa com a tampa aberta. Lá dentro, qualquer coisa preta e irreconhecível.
— O que é que cozinhou nela?
— Batatas. — A Dona Amália estava ao fogão com ar independente. — Pus e esqueci-me. Acontece.
— Pôs na temperatura máxima?
— Não percebo nada desses aparelhos. Em casa tenho fogão normal.
A Inês pegou na fritadeira, levou-a à casa-de-banho, examinou-a. A resistência estava queimada. O corpo derretido de um lado. Irreparável.
— Dona Amália, este aparelho custou oitenta euros.
— E o que é que queres que eu faça? Que pague? — Na voz da sogra surgiu uma nota nova — não só irritação, mas algo mais afiado. Quase um desafio. — Sou reformada. Doente. Não tenho esse dinheiro.
— Quero que não mexa nas minhas coisas.
— Estou na minha família! — A Dona Amália elevou a voz — pela primeira vez tão abertamente, e a Inês sentiu que ali estava a cara verdadeira. Aquela que a sogra até então escondera. — O António é meu filho! Esta casa é dele!
— Esta casa é nossa. Propriedade conjunta, se quer saber.
A Dona Amália calou-se. Outra vez aquele ar inocente — de mulher idosa ofendida, incompreendida, cansada. Sabia mudar num instante, como quem muda de canal.
O António, quando soube, explicou longamente à Inês que a mãe só queria ajudar, que não estava habituada à tecnologia, que ela devia ter guardado a fritadeira. A Inês ouviu-o, olhou para a cara conhecida e pensou: ele acredita mesmo nisto? Ou só diz o que é mais fácil?
Nunca percebeu. Provavelmente era a mesma coisa.
A cortina do quarto era de linho, cinzento-azulada, com um pequeno padrão geométrico. A Inês encomendara-a de propósito — para combinar com as paredes, com a colcha. Pendurara-a ela própria, direita, com argolas que deslizavam suavemente na calha.
Encontrou o rasgão no sábado de manhã — comprido, enviesado, do topo quase até ao meio. Como se alguém tivesse puxado com força e brusquidão.
A Dona Amália tomava o pequeno-almoço na cozinha — comia bolachas de água e sal que trouxera, bebia chá, olhava para o telemóvel. À pergunta sobre a cortina, não respondeu logo.
— Embatei na calha. A cortina prendeu-se.
— O que é que estava a fazer no nosso quarto?
— Passei, espreitei. Não se pode?
— É o nosso quarto.
— Oh, que segredos. — A Dona Amália afastou a mão com uma bolacha. — Uma cortina. Coserás.
A Inês saiu da cozinha. Foi para o quarto, fechou a porta, sentou-se na cama. Olhou para a cortina rasgada, que pendia torta e deixava entrar luz a mais.
Três semanas. Em três semanas — perfume, fritadeira, cortina. E só o que se via logo. Quantas pequenas coisas invisíveis — mudadas, mexidas, tocadas por mãos alheias sem licença?
A Inês pegou no telemóvel, abriu as notas. Já tinha uma lista — começara a fazê-la na segunda semana, sem saber bem para quê. Apenas registava. Data, o que acontecera, reacção do António. Metodicamente, como um relatório de trabalho.
Acrescentou três linhas novas.
Depois abriu outra aplicação — o motor de busca. Escreveu: preço de arrendamento T1, freguesia de Alcântara. Olhou para os números. Fechou. Abriu outra vez.
Do outro lado da porta, a Dona Amália ligou mais um vídeo no volume máximo. A voz do telemóvel gritava alegremente sobre descontos numa loja. O António, na sala, ria-se com a mãe.
A Inês estava sentada no quarto com a cortina rasgada e fazia contas. Não só de dinheiro — embora também. Contava os dias. Contava-se a si mesma.
E algo dentro dela, muito tempo calado, começava a falar cada vez mais claro.
Tudo aconteceu num domingo.
A Inês foi de manhã ao centro comercial — precisava de cortinas novas para o quarto e queria comprá-las sozinha, escolher sossegada, sem comentários alheios. No centro comercial estava claro e barulhento, cheirava a café e a pastéis da padaria ao lado. Andou entre as estantes de tecidos, tocou nos materiais, olhou as cores.
Ao lado, um casal jovem — escolhiam juntos, discutiam baixinho, riam-se. A rapariga dizia: «Estas, olha, são perfeitas». O rapaz fazia uma careta, depois concordava, e os dois riam-se outra vez.
A Inês olhou para eles mais tempo do que devia. Depois pegou no tecido que queria, foi para a caixa.
O telemóvel vibrou no bolso. António.
— Quando é que voltas?
— Daqui a uma hora. Porquê?
— A mãe quer que passes no supermercado. Diz que precisa dos bombons favoritos dela. Aponta o nome.
A Inês parou no meio do corredor. À volta, gente a andar, alguém lhe bateu com um carrinho, pediu desculpa. Ela não se mexeu.
— António, — disse, muito calma. — Não vou fazer isso.
— Inês, ela não pode, as articulações…
— António. Não.
Guardou o telemóvel na mala e foi para a caixa. Pagou, saiu para a rua. Parou um segundo, a cara virada para o sol. Depois voltou a pegar no telemóvel e abriu as notas.
A lista era comprida.
Chegou a casa pelas duas e meia. Na cozinha cheirava a fritos — a Dona Amália estava ao fogão a mexer não sei quê, a falar alto ao telemóvel com uma amiga. Na mesa estavam as tábuas de cortar da Inês — as três, embora para uma frigideira bastasse uma.
— São as minhas tábuas, — disse a Inês ao entrar.
— Estou a usar, — respondeu a sogra para o telefone, referindo-se à Inês embora falasse com a amiga. Do outro lado, alguém se riu.
A Inês guardou as cortinas no quarto. Voltou à cozinha, pôs a chaleira ao lume. O António estava na sala com o portátil, a fingir que trabalhava, mas pelo som percebia-se que via futebol.
A Dona Amália acabou a conversa, virou-se para a Inês.
— Estive a pensar. O sofá da sala é pequeno. Era preciso comprar outro. O António disse que vocês podem.
— O António disse.
— Sim. Na Leroy Merlin há bons. Vi no telemóvel.
A Inês olhou para a sogra. Para aquela cara — segura, habituada a ver os desejos satisfeitos. Lembrou-se do perfume no chão. Da fritadeira queimada. Da cortina rasgada. Da lista no telemóvel.
— Dona Amália, — disse, — quero que perceba uma coisa. Não vou comprar um sofá.
— Porquê?
— Porque não sou obrigada.
A sogra abriu a boca, mas a Inês já ia para a sala.
— António, precisamos de falar.
Ele fechou o portátil — era futebol, ela acertara — e olhou para ela com a expressão de quem já está cansado antes da conversa.
— Inês, se é sobre o sofá…
— É sobre tudo. — Sentou-se em frente a ele, mãos nos joelhos. — Quero que me respondas com sinceridade a uma pergunta.
— Diz.
— Tens intenção de mudar alguma coisa?
Ele calou-se. Muito tempo — mais do que o necessário para uma resposta honesta. Depois disse:
— A mãe está doente. Não a posso pôr na rua.
— Não te peço que a ponhas na rua. Peço que sejas meu marido primeiro, e filho dela depois.
— Ela é minha mãe, Inês. Percebes o que isso significa?
— E eu sou tua esposa. Percebes o que isso significa?
Ele desviou o olhar. Voltou a abrir o portátil.
Pronto. Era a resposta.
Ela arrumou as coisas dele metodicamente, sem pressa, como quem faz algo há muito decidido. Tirou do armário — camisas, calças, fatos de treino — empilhou na cama. Depois foi buscar a mala grande ao arrumo, aquela com que tinham ido a Barcelona três anos antes. Abriu-a, começou a meter as pilhas.
O António apareceu à porta do quarto, viu e parou.
— O que é que estás a fazer?
— A arrumar as tuas coisas.
— Como assim?
— Exactamente assim. — Tirou o casaco do cabide, dobrou-o com cuidado. — Queres viver com a mãe? Vive. Mas não aqui.
— Inês, estás a falar a sério?
— Absolutamente.
Ele ficou a vê-la meter as coisas na mala. Ela não se apressava, não atirava — arrumava direitinho, como sabia fazer. A certa altura ele deu um passo em frente, mas ela olhou para ele de um modo que o fez parar.
— Esta casa é nossa, — disse por fim. — Não vou sair daqui.
— Então sai ela. Escolhe.
Do outro lado, a Dona Amália ligou a televisão. Alta, como sempre. Um programa de debate onde toda a gente gritava e se interrompia.
O António calou-se.
A Inês fechou a mala, encostou-a à parede. Pegou no casaco dele do banco, pendurou-o por cima. Depois passou por ele no corredor, calçou os sapatos e abriu a porta da entrada.
De par em par.
— António, — chamou do corredor. — Abri a porta.
Ele saiu do quarto. Viu a mala aos pés dela, a porta aberta, a cara dela — calma, sem lágrimas, sem tremor na voz. Aquilo, pareceu, assustou-o mais que tudo.
Da sala, a Dona Amália espreitou. Olhou para a mala, para a porta aberta, para a Inês.
— Antóniozinho, — disse com a entoação que se usa com crianças: não dês ouvidos a estranhos, vem para aqui.
E ele deu um passo. Na direcção dela.
A Inês observou aquele passo — pequeno, quase imperceptível. Mas que dizia tudo.
— Muito bem, — disse baixinho. — Então saiam os dois.
O António voltou-se — nos olhos qualquer coisa que parecia medo ou compreensão que chegava tarde demais.
— Inês…
— A mala está no corredor. O resto podes buscar noutro dia, quando eu não estiver. — Tirou o telemóvel, sem o olhar. — Telefono-te para tratar dos papéis.
A Dona Amália abriu a boca — e fechou-a. Havia qualquer coisa na voz da Inês, na sua postura, no modo como estava à porta aberta, que não deixava espaço para negociação. A sogra sabia sentir onde a pressão funcionava e onde não. Ali não funcionava.
O António pegou na mala. Devagar, como num sonho. A Dona Amália vestiu o casaco — calada, de lábios franzidos, com ar de pessoa profundamente ofendida.
Saíram.
A Inês fechou a porta. Rodou a chave. Ficou um segundo no silêncio do corredor — silêncio verdadeiro, sem televisão, sem vozes alheias, sem cheiro de comida dos outros.
Depois foi para a cozinha, pôs a chaleira ao lume, abriu o portátil.
Lá fora, a cidade de domingo vivia a sua vida normal. Crianças gritavam, carros passavam, alguém se ria na escada do prédio ao lado.
A Inês serviu o chá, segurou a caneca com as duas mãos e olhou pela janela.
Pela primeira vez em um mês, sentia-se em paz.
Passaram três semanas.
A Inês voltou a pôr a secretária da sala junto à janela — onde estava antes de tudo aquilo. Pendurou cortinas novas no quarto. Comprou outro perfume — diferente, mais leve, com notas de chá branco e cedro. Pô-lo na mesa-de-cabeceira.
O António escreveu-lhe uma vez — curto, sem maiúsculas, como escrevem pessoas envergonhadas: podemos falar? Ela não respondeu logo. Depois escreveu: Pelo advogado. Ele não escreveu mais.
A Dona Amália telefonou uma vez. Começou pela queixa, passou para as dores nas articulações, depois disse que a Inês destruíra a família e que lhe seria cobrado. A Inês ouviu um minuto, depois disse: Dona Amália, não me ligue mais. E desligou.
O telemóvel calou-se.
À noite, trabalhava na secretária junto à janela — em silêncio, com uma chávena de chá, música baixinha. Às vezes ficava até tarde — não porque fosse preciso, mas porque queria. Porque era a sua noite, a sua secretária, o seu silêncio.
Numa sexta-feira, um colega, o Diogo, escreveu no chat do trabalho: Há um café fixe na Rua da Rosa, costumas ir? Ela pensou um segundo e respondeu: Não. Mas posso experimentar. Encontraram-se no sábado, estiveram duas horas a falar de trabalho e de cidades, de onde gostariam de viver. Nada de especial — e por isso mesmo foi leve.
Voltou para casa ao anoitecer. Abriu a porta, entrou, acendeu a luz.
Tudo estava no seu lugar.
No lugar dela.
Tirou o casaco, pendurou-o no cabide da direita — porque era mais prático para ela, não porque alguém decidisse por ela. Foi à cozinha, abriu o frigorífico. Lá estava o iogurte — branco, no frasco pequeno, na segunda prateleira.
Intocado.
A Inês pegou nele, abriu-o, ficou junto à janela. Do outro lado, as luzes acendiam-se nos prédios em frente, a cidade entrava no modo nocturno, calmo e regular.
Comeu o iogurte até ao fim. Devagar, com prazer.
E sorriu — sem razão nenhuma, ou com todas as razões do mundo.







