– Parabéns! Acabou de perder a noiva, o apartamento e os restos do meu respeito! – atirei a aliança de noivado pela janelaEla desapareceu no horizonte enquanto eu virava as costas sem olhar para trás.

– Fátima, assina aqui agora. Faltam vinte minutos para o registo.

Eu estava diante do espelho na pequena sala das noivas, onde cheirava a laca, a perfume alheio e a rosas frescas. Lá fora, a chuva de Julho batia nas janelas, finos fios escorriam pelo vidro, e no parapeito estavam dois alfinetes que eu ainda não conseguia pregar no véu.

A Dona Rita Alves segurava à minha frente uma folha de papel. Branca, grossa, com uma ponta dobrada com cuidado. Na outra mão, uma caneta de tampo dourado.

– O que é isto? – perguntei.

Ela sorriu como sorriem os vendedores quando sabem que o artigo tem defeito, mas o cliente já está quase convencido.

– Um simples acordo familiar. O Rui explicou-te.

O Rui estava à porta, num fato azul-escuro. Bonito, bem barbeado, com uma flor na lapela. Eu mesma a colara de manhã, a rir-me que ele tinha mais medo de se picar do que de casar.

Agora não se ria.

– Fátima, não comeces – disse ele. – Já falámos sobre isto.

– Falámos que depois do casamento te mudavas para minha casa – respondi. – E que a tua mãe não era maltratada. O resto falaste sem mim.

A Dona Rita ergueu ligeiramente as sobrancelhas.

– Que mau feitio. Rui, eu disse-te: devíamos ter posto as coisas no lugar mais cedo.

Ela pousou a folha na mesinha ao lado da caixa das alianças. Não era um documento de advogado a sério, mas antes uma trela com que me queriam prender mesmo antes do registo. O sentido cabia em poucas linhas: depois do casamento, eu venderia o meu apartamento, e o dinheiro iria para a compra de uma casa grande para a nossa “nova família”. A compra seria em nome do Rui. Porquê, não se explicava. Provavelmente, achava-se que eu devia sentir-me honrada.

Olhei para o meu reflexo. O vestido branco assentava na perfeição. Pois claro. Eu cosera-o sozinha, de noite, quando na oficina as máquinas se calavam e eu podia finalmente tratar de mim. A renda das mangas escolhera-a durante três semanas. A cintura refizera-a duas vezes. Naquele vestido não havia nada de acidental.

Excepto o noivo, como se viu.

– O apartamento foi comprado por mim antes de conhecer o Rui – disse eu. – Não tenciono vendê-lo.

O Rui afastou-se da porta e aproximou-se.

– Fátima, chega de te agarrares às tuas paredes. É um T1. Vamos viver ali a vida inteira, encolhidos?

– Não sou contra uma casa maior. Sou contra vender a minha para ficar em teu nome e ao som das ordens da tua mãe.

– A mãe quer o melhor.

– Para quem?

A Dona Rita suspirou.

– Para todos. Doem-me as pernas, é difícil viver sozinha. O Rui é filho único. Tu és esposa, logo, deves pensar mais além, não só nos teus linhas, panos e banco à janela.

Ao banco à janela chamava ela ao meu cantinho de trabalho. Ali estava a minha velha máquina de costura, pesada, de ferro, que me deram com a primeira encomenda a sério, da dona de uma oficina que fechara. Naquela máquina eu fiz bainhas em casacos alheios, cosei vestidos de escola, alterei fatos depois de compras desastradas, até que ajuntei para a entrada e comprei aquele apartamento.

Pequeno. Teimoso. Meu.

O Rui sabia tudo. Até dissera um dia:

– Gosto que faças tudo sozinha. Contigo não tenho medo.

Afinal, não ter medo não era comigo. Era à minha custa.

– Não vou assinar nada – disse eu.

A Dona Rita deixou de sorrir.

– Então para quê todo este espectáculo?

– Que espectáculo?

– O vestido branco, os convidados, o restaurante. Queres entrar na família, mas não dás nada à família?

Olhei para o Rui. Esperei que ele dissesse ao menos: “Mãe, chega.” Ou que lhe tirasse a folha.

Ele calou-se.

Do lado de fora da porta, alguém passou, riu-se, tilintaram copos. Deviam estar a servir champanhe aos convidados. A minha amiga Luísa mandou uma mensagem: “Onde estás? O registador está nervoso.” Não respondi. O telemóvel estava ao lado do ramo de peónias brancas, que de repente pareciam cabeças de couve.

– Rui – disse eu baixinho. – Sabias deste papel?

Ele ajeitou o punho.

– Para que te agarras às palavras? O papel é só para ficarmos todos descansados. Depois tu mudavas de ideias, começavas a adiar. E nós já temos um acordo com uns conhecidos.

– Que conhecidos?

A Dona Rita olhou depressa para o filho. Aí foi a primeira vez que tive medo a sério. Não do papel. Não da conversa. Mas de que a resposta já existisse e fosse pior do que imaginava.

O Rui torceu o nariz.

– Mostrei o teu apartamento a um amigo. Ele está disposto a esperar. Bom preço. Não faças de conta que é um crime.

– Mostraste o meu apartamento a um comprador?

– Não dramatizes. Eu lá estive. Tenho as chaves.

Senti o peito vazio e frio. As chaves. Aquelas chaves que lhe dera na Primavera, quando fiquei doente e lhe pedi que trouxesse os medicamentos. Ele ficou com o chaveiro.

– Levaste um estranho ao meu apartamento?

– Ao nosso futuro apartamento – cortou ele. – E pára de falar nesse tom.

A Dona Rita empurrou a caneta na minha direcção.

– Fátima, uma mulher inteligente não se agarra a uma caixa com varanda quando lhe oferecem uma vida normal.

Naquele momento, lembrei-me de como a Glória, a minha primeira mestra na oficina, me ensinara a descoser uma costura torta.

– Não tenhas pena do fio, Fátima. Se a primeira malha saiu torta, a peça toda vai puxar. Mais vale descoser já do que chorar depois sobre o tecido estragado.

Eu pensei que ela falava de saias.

O Rui abriu a caixa das alianças, tirou a minha e rodou-a entre os dedos.

– Vamos acabar com isto. Agora sais, sorris, assinamos, e em casa conversamos descansados.

– Em casa? – repeti. – Em que casa?

– Na tua. Por enquanto.

Aquele “por enquanto” foi o último fio.

Peguei na aliança da mão dele. Pequena, lisa, de ouro. Escolhêmo-la juntos. Na verdade, o Rui escolheu, e eu concordei porque estava cansada de discutir. Ele disse:

– Fica-te bem a simplicidade.

E eu só queria que ele, ao menos uma vez, perguntasse o que eu gostava.

Aproximei-me da janela. Estava entreaberta, porque a sala abafava. Lá em baixo, debaixo do toldo, estavam os carros dos convidados, molhados da chuva. No parapeito tremia uma gota de água.

A Dona Rita deu um passo.

– O que estás a fazer?

Virei-me para os dois. Para a mulher que já mentalmente arrumara os seus móveis no meu apartamento. Para o homem que decidira que depois do carimbo no documento eu me tornaria mais cómoda, mais suave e mais calada.

– Parabéns! Acabaram de perder a noiva, o apartamento e o resto do meu respeito! – atirei a aliança pela janela.

Bateu na chapa do beiral, tilintou e desapareceu algures na verdura molhada por baixo das janelas.

A Dona Rita gritou como se eu tivesse atirado não a aliança, mas os seus planos para uma velhice sossegada.

O Rui empalideceu.

– Enlouqueceste?

– Não. Finalmente caí em mim.

Levantei a bainha do vestido para não pisar a renda e dirigi-me à porta.

– Fátima! – O Rui agarrou-me o braço. – Estão lá convidados. Os meus colegas. A tua mãe veio. Vais envergonhar toda a gente.

Olhei para os dedos dele no meu pulso.

– Larga.

– Vamos falar.

– Tu já disseste tudo.

Ele não largou logo. Primeiro apertou mais, como se quisesse ver quanto restava da antiga Fátima obediente. Depois abriu os dedos. Na pele ficaram marcas vermelhas.

No corredor, a Luísa interceptou-me. Estava de vestido lilás e a máscara um pouco derretida da humidade.

– Onde te meteste? Toda a gente espera. Oh… O que se passou?

– Não há casamento.

Ela olhou por cima do meu ombro, viu o Rui, a Dona Rita com o papel na mão, e percebeu tudo, não por palavras, mas pelas caras.

– Vamos – disse ela.

– Espera. Diz à minha mãe que não se preocupe.

– Dizes-lhe tu. Ela está no guarda-roupa, já desconfia.

A minha mãe estava mesmo ao pé do bengaleiro. Baixinha, de fato azul-escuro, com a mala segura nas duas mãos à frente do corpo. Quando me viu, não perguntou: “Como pudeste?” Não perguntou: “O que vão dizer as pessoas?” Só se aproximou e ajeitou uma madeixa que me escapava.

– Ele ofendeu-te?

Assenti.

– Vai mudar de roupa. Eu falo com os convidados.

– Mãe, é complicado.

– Complicado é quando o molde não encaixa e a encomenda é para amanhã. Isto é só não ser o teu homem.

Tirei o vestido na arrecadação do restaurante, onde a Luísa me trouxe o meu vestido de linho e umas sandálias. O fecho encravou, a renda prendeu-se no cabelo. Puxei, e um fio fino da manga partiu-se.

– Cuidado – disse a Luísa.

– Que se rasgue.

– É pena. Coseste tanto.

Olhei para o tecido branco, para as costuras direitas, para a fila de botõezinhos cosidos à mão.

– Não tenho pena. O vestido não tem culpa.

A Luísa pendurou-o num cabide. Balançou, como se suspirasse.

Na entrada do restaurante, os convidados faziam barulho. Uns queixavam-se, outros cochichavam, outros tentavam chamar um táxi. A Dona Rita falava alto:

– A miúda está nervosa. Nós resolvemos tudo.

A minha mãe respondeu-lhe tão calma que eu ouvi mesmo através da porta:

– A miúda tem um apartamento. E cabeça. Agora, o seu filho tem um problema de respeito.

Saí pela porta dos fundos. A chuva quase parara. O ar cheirava a alcatrão molhado e a tília. A Luísa quis vir comigo, mas pedi:

– Não. Quero ir sozinha.

– Tens a certeza de que aguentas?

– Já aguentei.

Chamei um táxi no pátio ao lado. O motorista olhou-me ao espelho: vestido de linho, penteado de casamento, ramo de peónias brancas ao colo.

– A festa não correu bem? – perguntou com cuidado.

– Pelo contrário, acabou a tempo.

Ele não perguntou mais.

Em casa, primeiro fui buscar à porteira a chave suplente que deixara para emergências, e subi. A porta abriu-se sem ruído. O apartamento estava como eu gostava: em cima da mesa, ao pé da janela, uma fita métrica; nas costas da cadeira, um casaco por acabar; no parapeito, um vaso de manjericão. A minha vida. Pequena, apertada em alguns sítios, mas não alheia.

Tirei o cilindro da fechadura e pus-lhe na palma da mão. Um vizinho do terceiro andar ensinara-me a mudá-lo quando a chave encravara. Eu rira-me:

– Para mim é coser vestidos, não desatarraxar fechaduras.

Ele respondera:

– Uma mulher num apartamento faz bem em saber as duas coisas.

O novo cilindro estava na gaveta da cómoda. Comprara-o depois de o Rui um dia ter entrado sem aviso, de manhã, abriu a porta com as chaves dele e disse:

– Surpresa.

Na altura calei-me. Apenas escondi a caixa debaixo da roupa. Parece que a minha cabeça já sabia tudo, só o coração estava atrasado.

Demorei a mudar a fechadura. Num vestido teria sido mais rápida a ajustar a cintura, mas com o ferro lutei como uma aprendiza. A chave de fendas escorregava, o parafuso caía, os dedos doíam. Mas quando a nova chave rodou no novo cilindro, sorri pela primeira vez naquele dia.

O telemóvel não parava. Rui. Dona Rita. Números desconhecidos. Depois mensagens.

“Não te envergonhes, volta.”

“Os convidados perguntam o que hão-de dizer.”

“Vou aí, abre.”

“Deves explicações.”

Desliguei o som.

Já não tinha a quem explicar.

O Rui chegou quando o pátio molhado começava a escurecer. Primeiro tocou ao interfone. Depois bateu. Depois falou através da porta.

– Fátima, abre. Somos adultos. Temos de resolver.

Eu estava sentada no chão, ao pé da máquina de costura, a descoser a bainha do vestido de noiva. Não porque não ouvisse. Mas porque, pela primeira vez naquele dia, as minhas mãos faziam uma coisa que entendia.

– Sei que estás em casa – disse ele. – Não faças circo.

Continuei a descoser a costura com a tesourinha, devagar, para não estragar o tecido.

– As minhas chaves não servem – a voz dele mudou. – Mudaste a fechadura?

Calei-me.

– Fátima, isto já não tem graça.

A tesoura fez clique. O fio cedeu.

– Abre ao menos para falarmos!

Aproximei-me da porta, mas não tirei a corrente.

– Fala.

– Tu sabes o que fizeste? Vieram pessoas, a minha mãe quase caiu. Fizeste de mim um palhaço.

– Tu conseguiste isso sozinho.

– Por causa de um papel? Por causa de um apartamento qualquer?

– Não é por causa do apartamento, Rui. É porque já decidiste quanto vale a minha vida.

Do outro lado da porta, ele inspirou com força.

– Eu queria uma família.

– Não. Querias uma troca cómoda: o meu apartamento pela tua tranquilidade.

– Estás a distorcer tudo.

– Vai-te embora.

– Não vou enquanto não nos entendermos.

– Então chamo a polícia.

Ele calou-se. Depois bateu com a palma na porta. Não com força, mas o suficiente para o espelho do corredor tremer.

– Vais-te arrepender.

– Já não.

Os passos afastaram-se, mas não logo. Ainda parou, à espera que eu me assustasse com a minha própria decisão. Depois o elevador bateu com as portas, e no apartamento fez-se silêncio.

Voltei para o vestido. Cortei a cauda comprida. Depois tirei a renda das mangas, dobrei-a à parte. O tecido branco estendeu-se sobre a mesa, obediente e limpo. Podia fazer-se dele qualquer coisa: um vestido de miúda, um forro para um casaco, uma capa para o manequim. Nem todo o material tem culpa de quererem usá-lo para o que não serve.

Quando acenderam a primeira luz na oficina, eu já estava diante da mesa de corte com um saco nas mãos. A Glória estava sentada à janela a beber chá num copo com porta-copos.

– Então? – perguntou ela, sem levantar os olhos.

– Não houve casamento.

– Vejo. As noivas que casam têm outro passo. O teu passo é de quem salvou a máquina de costura de um celeiro a arder.

Pousei o saco na mesa.

– Posso desmontá-lo aqui?

– Tens de o fazer.

Ela aproximou-se, tocou no tecido.

– Bom trabalho.

– Era.

– O trabalho bom continua. O erro não foi a costura, Fátima. Foi o homem que achou que o vestido já fazia de ti propriedade dele.

Sentámo-nos lado a lado. Ela descosia a costura lateral, eu tirava os botões. Nada de conversas altas. Apenas o estalar macio dos fios e o bater da chuva no toldo de zinco.

A minha mãe telefonou quando eu enrolava a renda num carretel perfeito.

– Como estás?

– Viva. Zangada. Mas bem.

– Ele veio?

– Veio. Não entrou.

– Ainda bem.

– Mãe, tens vergonha de mim?

Ela até se zangou.

– Tenho vergonha de não ter perguntado antes se eras feliz. O resto não é vergonha.

Voltei a casa já com uma chuva fina. À porta do prédio, estava a Dona Rita. Sem guarda-chuva. O cabelo escapava-se-lhe do penteado, a cara parecia cinzenta.

– Fátima – disse ela. – Precisamos de falar.

– Não precisamos.

– És nova, és fogosa. Não percebes o que fazes. O Rui está a sofrer.

– Que se habitue.

Ela franziu os lábios.

– O apartamento não te vai fazer feliz.

– Talvez não. Mas também não me vai pedir que me venda para o conforto dos outros.

– És cruel.

– Não. É a primeira vez que ouvem um não e acham que é crueldade.

Ela aproximou-se.

– O Rui é bom rapaz.

– Então que seja bom sem o meu apartamento.

A Dona Rita virou-se. Parecia que queria dizer uma coisa agressiva, habitual, cortante. Mas o pátio estava vazio, sem plateia, e as palavras perderam metade da força.

– Ele amava-te – disse por fim.

– O amor não vem com um papel para assinar antes do registo.

Contornei-a e entrei no prédio.

Nunca mais vieram. Ainda tocaram algumas vezes, depois pararam. Do restaurante e dos convidados trataram sem mim. O Rui mandou buscar as suas caixas da varanda através do vizinho, sem sequer subir. Devolveu as chaves, que de qualquer maneira já não abriam nada.

Pensei que doeria mais. Mas a dor foi como um picar de alfinete: agudo, irritante, mas logo se percebe de onde tirar.

O apartamento, aos poucos, esqueceu o Rui. Desapareceu a caneca dele com “o chefe aqui”. Deitei fora os chinelos que ele comprara e deixara à porta como sinal da futura mudança. Tirei da parede o calendário onde ele marcara a data do casamento a vermelho. No lugar, pendurei um carretel de madeira de fios antigos, encontrado na oficina. Grande, escurecido, com uma lasca de lado. Por qualquer razão, ficava melhor na minha parede do que qualquer calendário.

O vestido não o deitei fora. Do cetim grosso fiz uma capa para a máquina de costura. Da renda, uma cortina para a janelinha do cantinho de trabalho. Os botões guardei-os num frasco de vidro. A cauda ficou muito tempo de parte, até que me lembrei do que fazer com ela.

Num dia sem encomendas, levei para a janela um banco estreito de madeira. Aquele mesmo onde o Rui se sentava a folhear o telemóvel e a dizer:

– Fátima, para que é que serves estas adaptações? Mais valia arranjares um trabalho a sério.

O banco era rijo, só o assento estava gasto. Forrei-o com o tecido da cauda do vestido. O cetim branco esticou sem rugas. Na borda, passei uma costura fina. Nem rosas, nem rendas, nem laços. Apenas uma superfície clara e limpa.

Quando o banco ficou pronto, coloquei-o ao lado da máquina de costura. Sentei-me, pisei o pedal e ouvi o ruído regular do mecanismo. A máquina começou a coser com confiança, como se também esperasse que levassem o barulho extra para fora de casa.

Em cima da mesa estava uma nova encomenda – um vestido azul simples para uma mulher que dissera na prova:

– Queria um que me fizesse sentir eu mesma.

Sorri. Essa era uma tarefa que eu percebia.

Lá fora, depois da chuva, os telhados clareavam. Algures na relva, perto do restaurante, devia estar a minha aliança. Talvez um varredor a tivesse encontrado. Talvez tivesse rolado para debaixo de um arbusto. Já não me importava. A aliança era sobre uma promessa que nunca existiu. Mas o banco à janela era sobre o lugar que eu guardara para mim.

Baixei o calcador sobre o tecido e comecei a primeira costura.

Nunca mais me moldei ao risco dos outros.

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– Parabéns! Acabou de perder a noiva, o apartamento e os restos do meu respeito! – atirei a aliança de noivado pela janelaEla desapareceu no horizonte enquanto eu virava as costas sem olhar para trás.
Dve kolónky: Rok dobrých skutkov, ktoré ma viedli k zabúdaniu na seba – až kým som si do zoznamu nezačala zapisovať aj svoje vlastné malé víťazstvá