**Diário do Tiago, 15 de Abril**
Não vejo culpa na Cleópatra. Pronto, não se conteve uma vez, disparou atrás de um gato, puxou a trela com mais força do que devia, e a dona caiu. Mas ela não o fez por mal – são instintos…
A vida passou-me a dar estalos: «Não te metas, aqui não é o teu lugar, encosta-te ao canto». E eu encostei-me. A vida tinha razão – mais vale não aparecer, fica-se mais saudável. A natureza descontou em mim: baixo, magro, fraco.
Na escola chamavam-me de «pintainho» e «fracote», e às vezes levava umas palmadas para não me esquecer. Amigos quase nenhuns, só o Paulo.
«Quando crescer, isto acaba», pensava eu. «Os adultos são sensatos. Não dão nomes parvos nem sovas à toa.»
Enganei-me redondamente.
*****
Quanto a sovas na idade adulta, até que melhorou. Não é hábito no mundo dos crescidos andar a distribuir estalos. Mas quanto a alcunhas…
Chamaram-me de tudo: «sombra», «carraça», «peixe-espada», «ratinho». Eu magoava-me, mas não sabia responder. A baixa estatura trazia uma timidez colossal.
Isso atrapalhava-me mais que a aparência. Não conseguia criar relações novas. Só me dava com o Paulo, antigo amigo da escola, e com a minha mãe, enquanto foi viva.
Os anos passaram, eu trabalhava como armazenista num supermercado, sem pensar em namoros, apesar de a equipa ser noventa por cento feminina.
As mulheres olhavam para mim como «o filho da tropa». Protegiam-me, ofereciam-me comida caseira. Coitadinho, tão pequenino.
Aos quarenta anos fiquei órfão. As mulheres de bom coração ainda me tratavam com pena…
Até ao dia em que conheci a Inês. A Inês era mulher com M grande. Não passava despercebida!
Altura, curvas, voz potente. Tudo nela era magnífico!
Eu apaixonei-me perdidamente, mas sem esperança. Quem era eu para ela? Uma pulga, uma traça, uma molécula! Mas a vida tem um sentido de humor estranho. E, guiada por ele, decidiu juntar o pequeno e tímido fracote com a enorme e sonora Inês.
O método foi batido, mas eficaz. Quantos casos de salvadores que se apaixonam por salvados? Muitos! E a Inês acabou por me salvar.
Aconteceu assim. Eu estava na fila da caixa. A Inês estava atrás do balcão, magnífica. Eu empalidecia, corava, nervoso, a mudar o pacote de leite de mão.
Dois marmelos apareceram atrás com garrafas de vinho, empurraram-me com o ombro:
— Ficas depois de nós, tio. Temos pressa.
Noutro dia, eu deixava-os passar. Mas não naquele dia. A Inês estava a olhar!
— Calma, malta. Há fila, o meu almoço também não é elástico — guinei.
— Não arranques! Dissemos que ficas atrás, ficas atrás! — Um deles já punha a garrafa no tapete.
O outro virou-se e empurrou-me de leve no peito:
— Mantém a distância, tio!
Eu fiquei vermelho, abri a boca, mas ela falou primeiro:
— Ordem na fila! — trovejou a Inês do balcão. — E mais, jovens, façam favor de mostrar os vossos documentos! Talvez eu nem possa vender-vos álcool!
Os meus agressores ficaram nervosos:
— Ó senhora, temos sete filhos em casa, e a senhora pede documentos! — tentou graça um.
— Olhem lá, «pais de família», não me enganem. Ou mostram que são maiores, ou vão para casa dos vossos pais — ordenou a Inês.
Atrás dela, o segurança Pedro já se preparava. Os marmelos, resmungando, foram-se embora.
— Que miúdos atrevidos! — disse a Inês, zangada.
Depois olhou para mim, mais doce:
— Anda, Tiago, passo-te as compras. Não vais comer a horas. Precisas de comer, és tão magrinho. Até os putos te atacam.
— Obrigado… — murmurei.
Queria sumir-me no chão.
«Pronto, já não tenho esperança nenhuma. Que vergonha, assustei-me com dois putos! Mas como é que eu sabia que eram putos, tão grandes!» — pensei.
Mas foi tudo ao contrário.
A partir desse dia, a Inês começou a tratar-me de outra forma. Sorria, fazia olhinhos, trazia almoço de casa. As outras mulheres afastaram-se. Nunca soube o que ela lhes disse. Mas ouvi um dia um cochicho:
— O nosso ratinho agora é troféu da Inês.
— Deixa, pode ser que o case, e depois o engorde bem.
Eu não me importei com o troféu.
«Então sou importante para ela! — decidi. — Ela dá valor. E daí ao amor é um passo. Para já, o meu amor chega para os dois.»
Isto deu-me coragem. Pisando a minha timidez, convidei a Inês para um café.
Ela aceitou. Conversa puxa conversa, encontro puxa encontro – começou um romance, e depois casámos.
Só que a vida de casado desiludiu-me. A Inês nomeou-se chefe de família. E, para ela, o chefe não só decidia e controlava, como tinha direito a castigar.
Quantas vezes levei por causa de nada! O lustre mal pendurado, o chão mal limpo, o prato por lavar…
Eu aguentava. Apesar de tudo, amava a minha salvadora. Queria ser amado também. Esperava que nos habituássemos um ao outro.
As ilusões, e o que restava do amor, desapareceram com um único estalo.
— Fracote, sombra, inútil! — gritou a Inês naquela noite. — Consegues fazer alguma coisa bem? Calas-te? E devias dizer-me onde arranjo outra chávena igual!
Era da avó, antiga, a minha preferida. Tens mãos de pedra, nem lavar a loiça sabes! Raios me partam!
Não respondi. Quando lhe faltaram as palavras, passou à ação. Tinha mão pesada.
Mas, quando me passou a tontura, percebi: «Está na hora de acabar. Já levei sovas que cheguem na infância!»
Divorciámo-nos entre berros. Eu desiludi-me outra vez com as pessoas e prometi nunca mais me apaixonar.
A Cleópatra também levou com a vida. Sem culpa nenhuma. Era um espectáculo: preta, comprida, grande. Doze quilos de felicidade!
Só que ninguém precisava de tanta felicidade. Andava de mão em mão.
O primeiro dono não gostou do aspecto:
— Isto é uma taxa de outra raça, ou supertaxa. Não serve. Nunca quis um rafeiro.
Passou-a a um amigo.
— Que raça é esta? Taxa gigante? — gozou o outro. — Grande! A mãe deve ter andado com um basset. E ladra que se desunha. Óptimo, vai guardar o quintal.
Mas guardar não resultou. A Cleópatra ladrava quando lhe apetecia, não quando via ladrões.
— Cão parvo, — ralhavam. — Ladra sem razão, come muito, não guarda. Ainda pisou as flores e cavou o relvado. Vai ter de encontrar outro dono.
Arranjaram-lhe uma dona idosa, muito simpática, mas lenta. A Cleópatra jurou portar-se bem. Mas não conseguiu.
Ela não se sentia culpada. Pois não, não se conteve, disparou atrás de um gato, puxou a trela, a senhora caiu. Não foi por mal – instintos. A senhora só se assustou. Mas as pessoas são esquisitas.
— Não dou conta! — queixava-se a senhora ao telefone. — A vida é mais importante. Arranja-lhe um lar, senão largo-a na rua.
Alguém se esforçou. A Cleópatra ganhou uma família: homem, mulher, criança.
— Cleópatra, não faças mal ao André! — mandou o homem. — Senão vais ver.
Ela não queria magoar o miúdo. Mas ele tinha outros planos:
— Vais ser o meu cavalinho! — dizia o André, de quatro anos, e tentava montá-la.
Ela esperneava e rosnavam. Era grande, mas cavalo não era.
O André chorava. A mulher ralhava. O homem pegava no cinto. A Cleópatra escondia-se. O homem gritava que a levava para o canil.
Não se sabe como acabaria, se um dia não viesse um amigo do dono. A Cleópatra saiu de debaixo da cama para ver quem era.
O amigo era um homenzinho magro chamado Tiago.
«Que magriço, — pensou ela. — O meu dono é mais forte. Este também deve ser defeito, como eu.»
— Olá, há séculos que não te via, Paulo! — abraçou o dono. — Vejo que tens novo inquilino. Cão? Eu é que me divorciei finalmente.
— Parabéns, já era tempo. Eu queria divorciar-me deste cão. Arrependi-me de o ter. — suspirou o Paulo. — Mal-educado, mau, rosna ao André, e quando ralho esconde-se. Vou entregá-lo.
— Para quê? — Tiago olhou para a Cleópatra com simpatia. — Mal-educado? Educaste-o? Ralhar e castigar não é educar.
Precisava de um treinador. Eu não sou de cães… Mas a mim também tentaram endireitar-me com palmadas – não resultou.
— Treinador, Tiago? Não tenho tempo para a família, trabalho que nem um cavalo! A mulher também não.
Ouve, já que és tão sabido, leva a Cleópatra para tua casa. — sugeriu o Paulo. — Agora estás sozinho. Educa-a à vontade. Fica bem para todos.
— Levo, mas ela quererá? Deve estar habituada a vocês.
«Este gajo até me agrada, — pensou ela. — Fala com sentido, não tem filhos, e ele próprio é fora do normal. Vai entender-me! Tenho de mostrar que quero!»
Abanaou o rabo duas vezes.
— Olha, ela não se importa! — alegrou-se o Paulo. — Espero que dês conta. Quem sabe, num parque canino encontras a tua sorte.
— Isso não quero. Já me chega. — recusou Tiago.
Ao anoitecer, foram os dois para casa.
Descobri que lidar com a Cleópatra era mais fácil que com a ex-mulher. Não fazia birras, não gritava, não dava estalos. Se não percebia à primeira, percebia à segunda. E amava-me! Era tudo para ela: amigo, dono, mundo.
Íamos à escola de obediência, passeávamos no parque, aprendíamos, brincávamos. Eu era feliz por ter ido visitar o Paulo naquela noite.
«Os cães são melhores que as pessoas, — pensava eu. — A Cleópatra prova isso. Inteligente, bonita, obediente. Quase.»
Mas não pensei assim muito tempo. Descobri que entre as pessoas também há exemplares bons: amáveis, sensíveis, atentos.
Só não sabia onde encontrá-los. Agora sei: nos parques caninos há muitos. Conheci vários graças à Cleópatra. Fiz amizades.
E, quem sabe, um dia posso apaixonar-me por uma dona de spitz ou de dogue. Não já. Mas não excluo.







