Casaram-se em maio, quando os lilases floresciam. A Inês e o Artur eram o par ideal: altos, esguios, com a mesma cor de olhos. No casamento, os convidados, a tilintar os copos, profetizavam-lhes «gémeos daqui a um ano». A Inês endireitava o véu e sorria envergonhada, encostando-se ao ombro do marido. Já imaginava o quarto com os brinquedos, o carrinho no corredor e as meias minúsculas.
Passou um ano. A Inês deixou de beber café de manhã, vigiava a alimentação. O Artur compreendia as suas manias. Começou a trazer flores para casa com mais frequência, como a pedir desculpa por algo de que não tinha culpa.
Passaram dois anos. As amigas da Inês, uma após outra, publicavam nas redes sociais fotografias de barrigas arredondadas e depois de embalos com os bebés. A Inês punha gostos, escrevia «que fofura!», e depois fechava o telemóvel e ficava muito tempo a olhar para o vazio. Os pais insinuavam delicadamente:
— Filha, já era altura de teres um filho, queremos netos.
Mas a Inês despistava:
— Ainda há tempo.
Na verdade, crescia dentro dela uma ansiedade surda. O pior não era sequer que algo pudesse não funcionar. O medo era ir ao hospital. A Inês pensava:
— E se for eu? E se eu sou o tal mecanismo avariado? E se o tratamento não resultar?
O Artur, a olhar para o rosto entristecido da mulher, pensava o mesmo. Era um homem habituado a resolver problemas, mas ali sentia-se impotente. Parecia-lhe que, se fosse fazer análises e se descobrisse «incapaz», perderia não só a hipótese de ser pai, mas também o respeito da Inês. Como olhar nos olhos de uma mulher se não podes dar-lhe um filho?
Viviam numa cidade com três centros privados de reprodução, de letreiros reluzentes. Mas desviavam-se deles, escolhendo outro caminho para os passeios. Um tabu silencioso pairava no ar. As conversas sobre crianças resumiram-se a falar de sobrinhos e filhos de amigos. Cada um temia não o diagnóstico, mas ser o culpado.
Só o amor os salvava. Um amor estranho, adulto, que, apesar dos medos, se tornava mais calmo e mais fundo. O Artur abraçava a Inês de noite, e ela sentia que ele tinha o mesmo medo que ela. Temiam confessar um ao outro que já pensavam nas hipóteses:
— E se for incurável? Conseguiremos ficar juntos se um de nós for a causa deste vazio?
Três anos. Era o seu aniversário pessoal do silêncio. Num dia de chuva, a Inês acordou e disse com firmeza:
— Artur, marquei. Amanhã às nove.
Ele estremeceu como se levasse um choque, mas assentiu. A boca secou-lhe.
— Vou contigo, — respondeu apenas.
Na clínica, a Inês sentou-se na cadeira a apertar a mala, e o Artur segurou-lhe a mão. Não se olhavam, com medo de ler o medo nos olhos. A médica, uma mulher jovem de olheiras, olhou para eles por cima dos óculos:
— Então, pombinhos, há três anos que se arrastam? Perderam tempo. Vamos a análises.
Duas semanas de espera foram as mais longas das suas vidas. Fingiam viver normalmente: iam ao cinema, comiam sushi, discutiam por causa da loiça por lavar. Mas todas as noites, quando o Artur saía do duche, via a Inês a olhar para o telemóvel, a verificar o email.
E o resultado chegou.
A Inês abriu a mensagem com dedos trémulos. O Artur estava atrás dela, com as mãos pesadas nos ombros, sem respirar. Ela percorreu os termos médicos secos, os números, os indicadores… Virou-se bruscamente na cadeira. Os olhos estavam molhados.
— Artur, — exalou, — nós… estamos saudáveis. Os dois.
Por um segundo, fez-se um silêncio retinido. Depois, o Artur fez o que nunca fizera naqueles três anos. Riu-se alto, a plenos pulmões, agarrou a Inês pela cintura, rodopiou-a pela sala e, ao pô-la no chão, apertou-a contra si.
— Ouviste? — sussurrou-lhe no alto da cabeça. — Não temos culpa. Ninguém tem. Só… só que ainda não era a altura.
A Inês desatou a chorar no peito dele. Chorava de alívio, de ternura, do absurdo da situação. Três anos a esconderem-se do medo, com receio de destruir a família, e afinal a família deles era uma rocha que nada partia, nem mesmo o vazio.
Naquela noite compraram champanhe, encomendaram pizza e fizeram planos. Planos grandiosos: daí a um mês, férias no Algarve; depois, mudar de emprego para algo mais calmo; depois, comprar um berço, passeios no parque, escolher o nome. Parecia-lhes que, agora que a barreira caíra, tudo aconteceria por si. Num estalar de dedos.
Mas passou um mês. Depois três. Depois seis meses, e o tempo continuou a fluir, os meses a escorrer.
O optimismo desfez-se como nevoeiro matinal. Agora sabiam que podiam, mas por alguma razão esse conhecimento não aproximava o milagre. Era como saber a palavra-passe do cofre, mas o cofre estar vazio.
— Talvez tenhamos de deixar de pensar nisto, — sugeriu o Artur uma noite, ao ver a Inês novamente a olhar para o vazio.
— É fácil dizer, — sorriu ela com tristeza. — Tenta tu não pensar…
Deixaram de falar do assunto. Cautelosamente, como porcelana frágil, guardaram as conversas sobre crianças na gaveta mais longínqua. A vida seguia o seu curso: trabalho, jantares, séries, raros fins-de-semana. E a cada ano tornava-se mais cinzenta. Não preta, ainda se amavam. Mas cinzenta, como o céu de Novembro chuvoso. As cores desapareceram, restaram apenas contornos.
Chegou o sétimo ano de casamento. Certa tarde, o Artur voltou do trabalho acompanhado. Debaixo do casaco, algo se mexia, ganindo e espreitando com o nariz húmido pelo fecho.
— Inês, — disse ele envergonhado, tirando um novelo de pêlo a tremer. — O Miguel deu-mo. A cadela dele teve cachorros, ninguém queria o último. Olhei para aqueles olhos… não podia deixá-lo lá. Que fique cá por uns tempos, sim?
A Inês recuou. Não gostava de animais em casa. Desde miúda que achava que os cães deviam viver na rua, em canis, e os gatos caçar ratos nas caves. Pêlo, chichi, cheiro, para quê naquele ninho acolhedor, ainda que demasiado silencioso?
— Artur, a sério? — perguntou friamente. — Nós já…
Ia dizer «já temos tanto vazio», mas calou-se. Olhou para o cachorro. Era minúsculo, com olhos enormes e húmidos cor de caramelo. Tremia e olhava para ela com tanta esperança como ela própria olhara para os testes. Procurava um lar.
A Inês abriu a boca para dizer «leva-o de volta», mas as palavras ficaram-lhe na garganta. Olhou para o Artur, e nos olhos dele estava a mesma súplica que a do cão. Pareceu-lhe que, se dissesse «não», partiria algo muito importante na família. Algo que ainda os mantinha à tona.
— Está bem, — suspirou. — Fica. Mas limpas tu o que ele sujar.
O Artur iluminou-se como um miúdo e apertou o cachorro ao peito.
— Bolinhas! — disse. — Vais chamar-te Bolinhas!
Bolinhas abanava o rabo, olhava para ela com adoração. Aquelas palavras marcaram o início de uma nova vida. A Inês nem deu por ela a envolver-se. Primeiro, começou a dar-lhe de comer a horas porque o Artur se atrasava no trabalho. Depois, começou a passeá-lo no parque porque estava a chover e o Artur constipado. Depois, comprou-lhe uma caminha, uma tigela com a inscrição «Melhor Amigo», uma coleira de cabedal, um impermeável, um fato de Inverno.
Bolinhas olhava para ela com devoção, abanava o rabo tão depressa que parecia que ia desprender-se, e seguia-a por todo o lado. Esperava à porta quando ela voltava do trabalho e saltava de alegria, entornando tudo. Trazia-lhe os chinelos, metia a cabeça debaixo da mão dela, esfregava-lhe o focinho na palma.
Um dia, ao ver o Bolinhas a correr atrás de uma bola pelo corredor, a Inês apercebeu-se de que estava a sorrir. Sorria sinceramente, pela primeira vez em muitos meses. Percebeu que amava aquela criatura peluda. Amava o andar desengonçado, os olhos leais, a língua quente que lhe lambia as mãos. Comprava-lhe brinquedos, mais do que numa loja de crianças. Comprava-lhe roupa e lavava-lhe a cama.
O Bolinhas tornou-se mesmo o filho deles. Falavam com ele, ralhavam-lhe por roer as pernas das cadeiras, elogiavam-no pelas ordens aprendidas. No Natal, vestiram-no de rena e encheram-no de presentes. No aniversário do Bolinhas, cozeram um bolo de carne e arroz. A vida voltara a ter cores – cores vivas, quentes, de cachorro.
Mas as cores, afinal, podem ser enganosas. Tudo começou quando o Bolinhas deixou de comer. Ficava deitado na caminha, com o focinho sobre as patas, e olhava para eles com olhos tristes. A Inês foi a primeira a entrar em pânico. Telefonava para clínicas veterinárias, implorava que os atendessem fora de horas.
— Não é nada de grave, — tranquilizava-a o Artur. — Deve ter comido alguma coisa na rua.
Mas o Bolinhas emagrecia a olhos vistos. O pelo brilhante empalideceu, o nariz ficou seco e quente. Quando tentou levantar-se para receber a Inês à porta e não conseguiu, ela desatou a chorar. Na clínica, era claro e estéril. O veterinário, um homem idoso de barba grisalha, examinou o Bolinhas, apalpou-lhe a barriga, abanou a cabeça.
— Parece uma infecção, apanhou-a algures. Não descarto tumor, mas vamos começar com tratamento. Injeções, dieta rigorosa, soro.
Punham injeções no Bolinhas todos os dias. A Inês aprendeu a segurar a seringa com mão firme, embora por dentro tremesse toda. Sentava-se com ele de noite, acariciava-lhe a cabeça e sussurrava:
— Agüenta, meu querido, agüenta. — O Bolinhas abanava o rabo fraco em resposta, mas quase não tinha forças.
Numa manhã, ao acordar, a Inês viu que o Bolinhas não respirava. Estava deitado na caminha, enrolado, como no primeiro dia em que o trouxeram. Parecia a dormir, mas o peito não se movia. Ela tocou-lhe, estava já frio.
Não gritou. Sentou-se no chão ao lado da caminha e uivou. Baixinho, prolongado, como uma loba que perdeu a cria. O Artur saiu do quarto, percebeu tudo sem palavras e caiu de joelhos ao lado dela. Abraçou-a juntamente com o Bolinhas, e ficaram assim muito tempo, até amanhecer.
Enterraram o Bolinhas no campo, fora da cidade.
— Meu Deus, — sussurrava ela à noite, encostada ao ombro do Artur. — Que vazio. Nem imaginava que se pudesse amar tanto um cão. E perdê-lo assim.
O Artur calava-se. Acariciava-lhe o cabelo e olhava para o tecto. Tinha um nó na garganta que não conseguia engolir. O Bolinhas fora o seu pequeno milagre peludo, que lhes dera três anos felizes. Três anos em que se esqueceram do vazio. Mas agora o vazio regressara. E era duas vezes maior.
A Inês perdeu o apetite. Forçava-se a engolir umas colheres de sopa e começava a enjoar. Sobretudo de manhã. Atribuía aquilo a um colapso nervoso, diz-se que o stress pode dar náuseas. No trabalho, sentia-se sufocar. Sentava-se à secretária, olhava para o monitor, e parecia-lhe que as paredes se fechavam, roubando-lhe o oxigénio. Saía a correr para a rua, aspirava o ar frio, encostava-se à parede do prédio e fechava os olhos.
— Inês, o que tens? Estás tão pálida, — perguntou a colega Carla. — Deve ser infecção ou intoxicação.
— Deve ser infecção, — respondeu a Inês a esquivar-se. — Do Bolinhas. Ele tinha qualquer coisa… não sei, um vírus qualquer.
A ideia de uma infecção fixou-se-lhe na cabeça. Até se alegrou com aquela explicação: tudo lógico, o cão teve uma inflamação, podia ter-lhe passado. O corpo enfraquecido pela dor, e ele apanhara alguma coisa. Tinha de ir ao médico de família, fazer análises, descobrir o que era.
Marcou consulta no centro de saúde, pediu uma folga no trabalho. Esperou na fila, de braços cruzados, sentindo o estômago a revirar-se com mais uma onda de náusea. A médica, uma mulher já de idade, de olheiras, ouviu as queixas, abanou a cabeça e disse:
— Vamos lá ver. Primeiro, análises gerais. Mas sabe que mais, por precaução… — franziu o sobrolho, olhou para a Inês por cima dos óculos — vou passar-lhe uma ecografia.
A Inês saiu do consultório com a requisição na mão.
O ecografista calou-se, passou o aparelho, franziu o sobrolho, clicou no ecrã. A Inês estava deitada a olhar para o tecto, a contar os azulejos para não olhar para o ecrã e não criar esperanças.
— Bem, que surpresa. Sabia que tem um bebé aí dentro?
— O quê? — repetiu a Inês, incrédula.
— Gravidez, — disse claramente o médico. — Umas oito semanas. Está tudo bem, sem anomalias.
A Inês olhava para o ecrã, nem sabia que se podia chorar tão silenciosamente. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces, entravam-lhe nos ouvidos, pingavam na marquesa do hospital.
— Como… como é possível? — sussurrou. — Nós há nove anos, o Artur e eu…
— Acontece, — sorriu suavemente o médico. — Às vezes a natureza espera. Quando o corpo deixa de se focar nisso. Pelo visto, o seu corpo finalmente relaxou e decidiu que estava na hora. Um enigma da natureza.
A Inês saiu do centro de saúde com pernas de algodão. Oito semanas. Oito semanas em que dentro dela vivia uma nova vida, e ela nem desconfiava. Andava de luto pelo Bolinhas, e já lá batia outro coraçãozinho.
Queria esperar pelo Artur em casa. Queria dizer-lhe de forma bonita, acender velas, preparar o jantar, fazer uma surpresa. Mas não aguentou. Estava na paragem do autocarro, a segurar o telemóvel. Os dedos tremiam quando marcou o número.
— Artur, — disse ela, com a voz a falhar. — Podes falar?
— Inês? O que tens, estás com uma voz… estás doente? — a preocupação soou na voz dele.
— Não, — exalou ela. — Fui ao centro de saúde. Artur… não sei como dizer… eu… vamos ter um filho.
Silêncio no telefone. Tão longo que a Inês receou que a chamada tivesse caído.
— O quê? — repetiu o Artur tão baixinho que ela mal ouviu. — Inês, não gozes com isto. Por favor. Não tem piada.
— Não estou a gozar, — chorou ela já abertamente, sem se importar com os transeuntes. — Oito semanas. Artur… o nosso filho vive dentro de mim há dois meses e eu nem sabia. Pensei que era uma infecção, e é… é o nosso menino.
— Já vou, — disse ele por fim. — Já. Espera por mim. Em casa. Senta-te e não te mexas. Já chego.
Ela chegou a casa, o Artur meia hora depois. Entrou no apartamento sem tirar os sapatos, com um enorme ramo de rosas brancas numa mão e um bolo na outra. As rosas eram tão grandes que mal cabiam na porta, e o bolo tinha escrito: «Feliz Aniversário», provavelmente comprou o primeiro que viu, só para não vir de mãos vazias.
O Artur apertou-a tão forte que parecia ter medo que ela se evaporasse, se desfizesse no ar como uma miragem.
— Tive medo de acreditar, — sussurrou-lhe no cabelo. — Estava no escritório e pensava: é um sonho. Beliscava-me, Inês. Imagina? Os colegas viram-me, julgaram que enlouqueci. Não conseguia acreditar que, depois de tudo, depois de nove anos, depois do Bolinhas, depois de termos desistido… aconteceu.
— Eu também não acredito, — soluçava a Inês, enterrada no ombro dele. — Deixei de esperar. Apenas… vivi.
Ele afastou-se, segurou-lhe o rosto entre as mãos, olhou-a nos olhos. Os olhos dele estavam vermelhos e molhados, e nos lábios tremia um sorriso largo, feliz, um pouco louco.
— Então, só precisávamos de deixar de esperar, — disse ele. — Arranjar um cão, perdê-lo, sofrer, queimar-nos… e aí a vida encontrou o seu caminho. Acabaste de me dar o maior milagre. Não sei como te agradecer. Vou ser o melhor pai do mundo, juro pelo Bolinhas. Agora tenho um propósito.
A Inês passou-lhe a mão pelo cabelo e, de repente, sentiu que as náuseas que a atormentavam tinham desaparecido. Ou talvez ela apenas tivesse deixado de lhes dar importância. Porque dentro dela já não havia vazio. Dentro dela batia agora um coração. Deles, pequenino, futuro.






