Então, olha, tenho de te contar o que aconteceu. Levei a Inês à piscina do resort no dia em que fez seis anos, querendo dar-lhe um dia feliz depois do ano mais difícil das nossas vidas. Depois apareceu uma estranha a olhar para mim no fato de banho e a perguntar se não tinha vergonha de me mostrar naquela idade. Eu só queria ir embora, mas a Inês tinha outra ideia.
Um ano depois de a minha filha e o marido dela terem morrido num acidente de carro, ainda me estava a habituar a dizer coisas que nunca pensei dizer aos sessenta e cinco. “Acaba o pequeno-almoço.” “Onde estão os sapatos?” “Lava os dentes outra vez.” Depois do acidente, fiquei eu com a Inês. Ela tinha cinco anos. Eu não era só a avó; era quem fazia os lanches, assinava os papéis da escola e ficava sentada na beira da cama quando o luto a acordava no meio da noite. Então, quando chegou o sexto aniversário, eu queria dar-lhe uma coisa que brilhasse. O dinheiro estava curto. A reforma não chegava, por isso fazia turnos extra na loja. Poupei cada euro que conseguia, e disse não a mim mesma muitas mais vezes do que dizia a ela.
“Queres uma festa?” perguntei. “Um bolo? Balões? Os amigos da escola?” “Avó, só quero um dia contigo.” “Só comigo?” Ela sorriu. “Só nós as duas. A fazer uma coisa divertida.” Quase que desisti de marcar o resort. Era mais do que costumava gastar, mas tinha poupado para aquilo e queria que ela tivesse um dia que se sentisse leve. Eu precisava de um dia que não cheirasse a lixívia, a caixa registadora e a preocupação. Um dia em que ela pudesse sentir-se como as outras meninas, cujo maior problema era escolher entre bolo e gelado.
Paguei as espreguiçadeiras, fiz a mala e prometi a mim mesma que não ia passar o dia cheia de culpa. A Inês perguntou: “Podemos ter fatos de banho iguais?” Rimo-nos. “Fatos de banho iguais?” “Para parecermos uma equipa.” Aquilo tocou-me. Na manhã do aniversário, ela ajudou-me a arrumar as toalhas, o protetor solar e dois pacotes de sumo a que chamava “sumo de emergência”. Mandei vir dois fatos de banho azuis simples com remate branco. O dela tinha uma folhita no ombro. O meu era liso e tapava tudo. Quando chegaram, a Inês pegou neles e disse: “Perfeitos.” “Perfeitos para quê?” “Para as pessoas saberem que somos uma equipa.”
Quando chegámos ao resort, ela quase saltitava. Sombrinhas brancas. Espreguiçadeiras impecáveis. Mulheres em pareos elegantes e malas de marca. A Inês apertou-me a mão. “Nós também pertencemos aqui”, disse. Durante um bocado, estava tudo perfeito. A Inês chapinhava. Eu chapinhava de volta. Ela abraçou-me o pescoço e sussurrou: “Melhor aniversário de sempre.”
Depois saímos da piscina. Uma mulher atrás de nós disse em voz alta: “Meu Deus.” Voltei-me. Devia ter uns trinta anos. Chapéu elegante, lábios brilhantes, óculos de sol caros empurrados no cabelo. Duas mulheres estavam sentadas atrás dela com bebidas geladas e malas iguais. “Aquele fato de banho. Nesta idade?” Mediu-me de cima a baixo. “Não tem vergonha?” Pisquei. “Como?” Ela riu-se, curto. As amigas ciciaram. Olhei para mim. Estava completamente tapada. Sem decote. Nada chamativo. Só um fato de banho normal numa mulher normal que tentava ter um dia feliz com a neta. “Há aqui uma piscina”, disse em voz baixa. “Há crianças aqui.” “Algumas coisas simplesmente não são agradáveis para toda a gente.” Senti o rosto a arder. “Estou tapada”, disse. Ela sorriu, o que tornou tudo pior. Eu queria ir embora. Não porque ela tivesse razão. Mas porque não queria que o aniversário da Inês passasse a ser sobre a avó gozada em público. A Inês olhou para mim. “Avó?” Forcei um sorriso. “Estou bem, meu amor.” Não estava.
A Inês ficou um momento a olhar para a mulher. Depois inclinou-se e sussurrou: “Tenho de ir à casa de banho.” “Vou contigo.” “Ela pode levar-me”, disse, apontando para o posto de toalhas, onde uma jovem funcionária de polo vermelho dobrava toalhas limpas. Antes de eu responder, a Inês foi ter com ela e perguntou: “Pode mostrar-me onde é?” A funcionária sorriu. “Claro.” Atrás de mim, a mulher disse para as amigas: “Há pessoas que precisam mesmo de um espelho.” A Inês ouviu. Passado um bocado, voltou de mão dada com a funcionária. Ao lado delas vinha um homem com uma polo azul-marinho do resort e um crachá. A Inês apontou diretamente para a mulher. “É aquela”, disse. “Fez a minha avó querer ir embora no meu aniversário.”
Tudo parecia ter parado. Levantei-me, embora os joelhos não estivessem firmes. O homem avançou. “Sou o Nuno, o gestor da piscina.” A mulher soltou uma risada curta. “Anda lá. Isto é ridículo.” O Nuno olhou para ela com calma. “A menina diz que falou mal da avó. Quero saber o que se passou.” A mulher cruzou os braços. “Estava só a brincar. As pessoas são demasiado sensíveis.” “Disse que eu devia ter vergonha de usar um fato de banho na minha idade”, disse eu. “Disse que havia crianças aqui.” Uma das amigas murmurou: “Constança…” Então era esse o nome. A Constança revirou os olhos. “Não foi nada do que ela está a dizer.” Nesse momento, uma mulher na fila ao lado levantou-se. “Eu também ouvi”, disse. “A avó está a dizer a verdade.” A Constança respondeu: “Você não sabe do que está a falar.” A testemunha não recuou. “Sei o que ouvi.” O Nuno acenou e olhou para o terraço, onde as mulheres com crachás estavam reunidas. “Por favor, fique aqui”, disse. Fez sinal a uma mulher de blazer que vinha do terraço. Assim que a Constança a viu, a postura mudou. A mulher de blazer parou. “Algum problema?” O Nuno respondeu: “Esta convidada falou com falta de respeito para outra convidada à frente de uma criança.” A mulher de blazer olhou para a Constança e depois para a mala de marca ao lado da cadeira. “Constança”, disse com calma, “isto é verdade?” A Constança tentou sorrir. “Mafalda, isto é um exagero.” Então a Mafalda era a coordenadora. “Fui chamada aqui porque o resort e a nossa marca estão a preparar material sobre famílias e mulheres de todas as gerações que se sentem bem-vindas. Percebes como representaste isso mal?” A Constança disse: “Estava a brincar.” A Mafalda não mudou de expressão. “Não teve piada. Deixas de fazer parte do evento. Por favor, reúne as tuas coisas.”
A Constança olhou para as amigas. Elas tinham deixado de sorrir. “A sério?” “A sério.” Antes de ela dizer mais alguma coisa, ouvi a minha própria voz. “Viste uma mulher mais velha e decidiste que eu devia ter vergonha. A minha neta viu alguém que ama. Isso é o que importa.” O rosto da Constança endureceu. Por um momento, pensei que ia dizer algo pior. Mas não disse. Apanhou a mala. Uma amiga seguiu-a logo. A outra olhou para mim como se fosse pedir desculpa, mas não pediu. Limitou-se a ir atrás delas.
Só depois de elas saírem é que percebi que estava a tremer. O Nuno voltou-se para mim. “Peço imensa desculpa por isto ter acontecido.” A primeira coisa que o orgulho me fez dizer foi: “Não precisamos de tratamento especial.” A expressão dele amoleceu. “Não estou a oferecer pena. Estou a oferecer o almoço, porque nenhuma criança devia ter o aniversário interrompido assim.” Quase recusei. A Inês puxou-me a mão. “Por favor, fica. Não quero ir para casa por causa dela.” Então respirei fundo e disse: “Está bem. Ficamos.”
A Mafalda voltou mais tarde. “Queria pedir-lhe uma coisa, mas só se se sentir à vontade. Vamos fazer um pequeno painel de fotografias no átrio do resort. Famílias verdadeiras, não modelos. Só uma fotografia de hoje. Se preferir não, percebo perfeitamente.” O meu primeiro instinto foi dizer que não. Depois a Inês olhou para mim. Não a implorar. Só com esperança. E percebi naquele momento: se dissesse que não por causa da Constança, a Constança continuava a decidir como as pessoas me viam. Então levantei-me. Antes de irmos para a piscina, dobrei o pareo e deixei-o na espreguiçadeira. Percebi que ficar não era para provar nada à Constança. Era para ensinar à Inês que a vergonha nunca devia fazer aquilo. Não devia mandar-nos para casa. Não devia encolher o nosso corpo. Não devia roubar uma memória que conquistámos com amor. O fotógrafo não nos pôs muito a posar. Só pediu que andássemos de mão dada na direção da água. A meio caminho, a Inês sussurrou-me qualquer coisa que me fez rir, e foi essa a fotografia que escolheram.
Mais tarde, a Mafalda mandou-nos uma cópia. Na fotografia, eu não parecia jovem. Não parecia glamorosa. Parecia feliz. E ao meu lado, a Inês parecia segura. Aquilo chegava. Durante o almoço, a Inês comeu batatas fritas, bebeu limonada e comeu o bolinho de aniversário com uma vela. Ao mesmo tempo, tirou um dos pacotes de sumo da nossa mala e empurrou-o para mim na mesa. “Emergência”, disse. Rimo-nos tanto que quase chorei. À noite, depois de chegarmos a casa, a Inês aconchegou-se a mim no sofá em pijama, ainda com um cheirinho a cloro e protetor solar. “Gostaste do teu aniversário?” perguntou. Sorri. “Gostei.” “Qual foi a tua parte preferida?” “Teres ficado do meu lado.” Pensou por um momento. Depois encostou-se a mim e disse: “Tu ajudas-me sempre. Hoje fui eu que te ajudei.” A Constança queria que nos fôssemos embora. A Inês lembrou-me de que continuávamos a ser uma equipa.
Pronto, era isto. O que achas? Escreve a tua opinião nos comentários e partilha esta história! Se pudesses dar um conselho a alguma das personagens, qual seria? Vamos falar disso nos comentários do Facebook.






