— Se não deres dinheiro à tua irmã, não precisas de vir nas festas, — disse a mãe. Mas eu já não tencionava ir.

O telemóvel tocou às seis e meia da manhã, quando Leonor ainda estava no corredor com um sapato na mão. No ecrã — «Filipa». Ela não atendeu enquanto não calçou o segundo sapato e, mesmo assim, carregou e encaixou o telemóvel no ombro.

— Leonor, preciso mesmo de uns quatrocentos euros. O Diogo vai para o campo, aquele das línguas, e ainda tem o explicador de matemática; tu sabes como estão os preços.

Sem «olá», sem «como estás». Logo quatrocentos euros e o Diogo.

— Bom dia — disse Leonor.

— Sim, bom dia. Então, mandas hoje? Senão o lugar no campo foge.

***

Trouxeram-lhe o Diogo no inverno, quando o menino tinha dois anos e três meses. Filipa estava à porta, com um saco atravessado no ombro e um carrinho onde o sobrinho dormia. Falava depressa, como quem tem medo de ser interrompida.

— Leonor, é só por uns meses. Eu não posso mesmo com isto. O Sérgio foi-se embora, não tenho dinheiro, preciso de procurar trabalho; e com ele para onde é que eu vou? A mãe disse que tu és livre, que era mais fácil para ti.

Livre. Essa palavra tinha-se colado a Leonor como um selo que não saía. Trinta e um anos, um T1 em Marvila, contabilista numa construtora, solteira, sem filhos. Portanto, era livre. Portanto, era mais fácil.

— Filipa, eu tenho trabalho. Saio de casa às seis, volto às oito.

— Mas há um infantário, não há? Vou-te dando dinheiro, assim que me organizar. Ai, Leonor. Ai, querida.

A mãe telefonou na mesma noite.

— Estás a pensar pôr a tua irmã com o filho na rua? O marido fugiu-lhe, ela está fora de si. E tu estás sozinha, para ti não custa. Deus não te deu filhos — ao menos ajuda o teu sobrinho.

Deus não te deu filhos. Também foi dito, como quem fala do tempo.

Leonor ficou com o Diogo por uns meses.

Os meses multiplicaram-se até Leonor deixar de os contar. Primeiro, a Filipa «andava à procura de trabalho». Depois encontrou, mas «não se deu com o patrão». Depois foi para o Algarve «arejar, que eu quase fiquei maluca». Do Algarve mandou fotografias — num barco, com um homem bronzeado, num restaurante. Dinheiro, nunca o mandou.

O Diogo ficou no infantário perto de casa de Leonor. Ela acordava às cinco para o vestir, o levar, e ainda ir para o trabalho. Ele ficava doente muitas vezes, como todas as crianças do infantário, e Leonor tirava dias sem vencimento ou trabalhava de noite com os relatórios, para poder ficar com ele durante o dia. Comprou-lhe um berço; depois o berço ficou pequeno, e ela passou a abrir o sofá. Botas, casacos, chapéus — tudo se comprava sem fazer contas, porque não podia deixar uma criança andar em farrapos.

Filipa aparecia de dois em dois meses, às vezes três. Trazia um brinquedo, abraçava o Diogo, chorava «que saudades que tenho de ti, meu sol», e duas horas depois ia-se embora — tinha «coisas a tratar», «um encontro», «uma pessoa nova, nem imaginas».

— Ao menos deixavas dinheiro para as fraldas — disse uma vez Leonor.

— Leonor, eu estou mesmo mal. Assim que me organizar, devolvo tudo, cêntimo a cêntimo.

O Diogo chamava-lhe «mãe Leonor». Tinha aprendido sozinho, ninguém lhe ensinara. No princípio ela corrigia, dizia «sou a tua tia», mas ele não percebia, e ela deixou.

Adormecia no ombro dela quando ela lhe lia a história da Carochinha. Aos quatro anos conhecia todas as letras, porque Leonor as punha no frigorífico com ímanes. Chorava quando ela ia para o trabalho e esperava-a à porta quando ela voltava.

Cinco anos.

Filipa levou-o no verão, antes de entrar para a escola.

Chegou outra — mais cheia, num bom casaco, com o novo marido, Vasco, que esperava no carro.

— Pronto, Leonor, estou pronta. O Vasco ganha bem, temos casa, ponho o Diogo numa boa escola; ali ao lado há um colégio. Obrigada, claro, tu ajudaste-me mesmo muito.

— Filipa, ele tem sete anos. Viveu aqui a vida toda.

— Mas ele é meu filho. Não sejas estranha. Uma criança tem de estar com a mãe.

O Diogo não queria ir. Agarrou-se à camisola de Leonor e chorou tanto que os vizinhos espreitaram. Filipa puxava-lhe os dedos, irritada.

— Diogo, chega de fazeres figuras. Vamos para casa da mãe; vai ver como é bom, vais ter o teu quarto.

Leonor ficou sentada no chão do corredor enquanto eles desciam. Ouviu o Diogo a chorar escada abaixo. Depois bateu a porta do prédio, e ficou um silêncio.

Guardou os ímanes dele do frigorífico numa caixa de sapatos. Pô-los no armário, na prateleira de cima.

Durante três anos, Filipa quase não ligou. No fim do ano, um «boas festas» de circunstância; no aniversário de Leonor, às vezes lembrava-se, às vezes não. Não levava o Diogo a casa dela. «Leonor, é tão chato, atravessar Lisboa inteira, e ele não tem tempo, tem os treinos».

Leonor ia ela própria. Levava presentes, passeava com ele no parque perto de casa deles aos fins de semana, quando a Filipa deixava. Diogo tinha crescido, tinha vergonha de se abraçar a ela na rua, mas no parque, quando ninguém via, ainda lhe pegava na mão.

Depois, esses encontros também foram desaparecendo. Um dia, a Filipa «tinha ido para a casa de campo com o Vasco»; outro, «o Diogo tinha explicações»; outro, simplesmente não atendia.

E agora — seis e meia da manhã. Quatrocentos euros.

— Filipa, espera. Que quatrocentos euros?

— Já te disse: o campo, as explicações, e ainda o uniforme, ele cresceu todo. Eu agora estou apertada; o Vasco está a reestruturar o negócio, está tudo empatado. Mas tu gostas dele. Tu criaste-o. Para ti não custa.

Foi a primeira vez em três anos que Leonor ouviu «tu criaste-o». Antes era «ele é meu filho», «uma criança tem de estar com a mãe». Agora, que precisava de dinheiro, já era ela que o tinha criado.

— E o Vasco? Não disseste que ganhava bem?

— Já te expliquei — ele tem tudo no negócio. E, além disso, o que é que o Vasco tem a ver? Não é filho dele. É do Sérgio. Quer dizer, é meu.

— E o Sérgio? É o pai. Que pague a pensão de alimentos.

— Leonor, estás a gozar? Há uma eternidade que não vejo o Sérgio, onde é que o vou encontrar? Estou a pedir-te, pela humanidade. Pela tua irmã. Tu tens salário, tens carreira, vives sozinha, gastas só contigo. E eu sou mãe, tenho um filho.

— Tu tens um filho há dez anos. O Diogo não nasceu ontem.

— E então? Os filhos exigem dinheiro a toda a hora! Tu não sabes, porque não tens filhos teus!

Ali estava. Leonor nem se admirou. Sabia que aquilo ia sair, esperava, e mesmo assim foi como se lhe deitassem água a ferver.

— Não tenho filhos meus — repetiu Leonor. — Foi por isso que criei o teu durante cinco anos.

— Lá vens com a mesma conversa! Já passou cem anos! Estás sempre com «criei-o, criei-o». Eu obriguei-te? Foste tu que o levaste!

Leonor chegou atrasada ao trabalho nessa manhã. Esteve sentada no corredor num banco, de sapatos, de casaco, a fazer contas.

Nunca tinha feito aquelas contas. Não queria. Mas ali pegou num papel onde estava escrita a receita do médico de família, virou-o e começou a escrever no verso.

O infantário — pagava ela, sem benefícios, porque o Estado não lhe reconhecia a criança. Isto é um. Roupa e sapatos, todas as estações. Dois. Brinquedos, livros, jogos educativos. Remédios — o Diogo esteve com uma pneumonia aos seis anos, e ela tirou dias sem vencimento. Os dentes — levou-o ao dentista particular, porque no centro de saúde a espera era de um mês. O berço, o sofá, a roupa de cama, a loiça infantil.

Ao todo, em cinco anos, tinha tirado do próprio bolso dinheiro que dava para ficar um ano inteiro sem trabalhar.

E Filipa não dera um cêntimo. Nem uma vez. Nem para fraldas, nem para um casaco, nem para os medicamentos.

E agora pedia quatrocentos euros. Hoje. Para não perder o lugar no campo.

Leonor dobrou o papel em quatro e guardou-o na mala.

À noite, Filipa ligou outra vez. Desta vez mais calma, a começar de longe.

— Leonor, já pensaste? Não estou a fazer questão dos quatrocentos. Ao menos trezentos. Ao menos duzentos e cinquenta, só para o campo.

— Não dou, Filipa.

— Como assim, não dás?

— No sentido direto. Não dou nem quatrocentos nem duzentos e cinquenta. Tu és a mãe dele. Levaste-o quando te deu jeito. Agora sustenta-o tu.

— Leonor! — a voz subiu. — Como é que tens coragem? É o Diogo! Tu carregaste-o ao colo!

— Carreguei. Cinco anos. De graça. E tu, nessa altura, andavas de barco no Algarve. Pedi-te que ao menos deixasses dinheiro para as fraldas — lembras-te do que respondeste? «Assim que me organizar, devolvo». Onde está o meu dinheiro, Filipa? Cêntimo a cêntimo, tu prometeste.

— Tu… tu estás-me a deitar na cara o passado? Eu não tinha cabeça para aquilo! A minha vida estava a ruir-se!

— E a minha não estava? Eu levantava-me às cinco da manhã. Acabava relatórios de madrugada para poder ficar com ele durante o dia. Fiquei três anos sem me casar, porque qual é o homem que quer uma mulher com o filho dos outros, que nem sequer pode ser adotado, porque a mãe está viva e boa e anda de barco no mar.

Do outro lado, puseram-se a chorar. A sério ou não, Leonor já não distinguia.

— Julguei que tu gostavas dele — disse Filipa, numa voz fina.

— Gosto. Por isso é que não te dou o dinheiro. Porque ele não vai para o campo. Eu sei como são os teus campos. Encontra o Sérgio, pede-lhe a pensão de alimentos — é legal, é o que deve ser. Ou pede ao Vasco, já que estás casada. Mas eu não sou uma caixa de Multibanco que se liga quando tu tens tudo «empatado».

A mãe telefonou dois dias depois. Leonor sabia que havia de telefonar.

— Leonor, o que é que eu ouço? Recusaste dinheiro à tua irmã?

— Olá, mãe.

— Não me digas «olá», responde! A Filipa está em lágrimas, o filho fica sem o campo, e tu, que és tia, reparas em cêntimos! Devias ter vergonha!

— Mãe. Eu criei o Diogo durante cinco anos. Onde é que a Filipa estava?

— Teve uma fase difícil! Pareces uma procuradora, a fazer contas a tudo! É sangue do teu sangue, e és como uma estranha.

— Sangue do meu sangue. E quando já era tarde para eu ter filhos, e eu fiquei com o filho dos outros, em vez de viver a minha vida — esse sangue, o que era?

A mãe hesitou um segundo.

— Mas tu aceitaste por tua vontade. Ninguém te obrigou.

— Aceitei. Porque tu disseste «Deus não te deu filhos, ajuda ao menos o teu sobrinho». Lembras-te? Ajuda. Ajudava. Cinco anos. E agora a Filipa exige mais, e eu volto a ser a má.

— Ela não exige, ela pede!

— Exige, mãe. Com «tu deves» e «tu não tens filhos teus». Isso não é um pedido.

— Vou-te dizer uma coisa, Leonor — a mãe baixou a voz, e Leonor percebeu que ia sair a sentença. — Se não deres o dinheiro, mais vale não apareceres nas festas. Já que és estranha à família.

— Está bem — disse Leonor. — Não apareço.

Foi ela quem desligou primeiro. Antes, esperava sempre que a mãe acabasse de falar.

Filipa jogou o último trunfo uma semana depois. Mandou uma mensagem longa, de meio ecrã.

O conteúdo era simples: «Já que és assim, vou contar a toda a gente que a tia se recusou a ajudar uma criança. Que o abandonaste quando deixou de ser preciso. Vamos ver como as pessoas ficam a olhar para ti.»

Leonor leu, junto ao fogão. Leu duas vezes. Depois respondeu devagar, escolhendo cada palavra.

«Conta. E eu mostro os recibos. Guardei-os — do infantário, dos médicos, de tudo. Cinco anos. E conto como não podias deixar dinheiro para fraldas enquanto andavas no Algarve. E como levaste o Diogo quando te deu jeito e depois, durante três anos, não mo deixaste ver. Vamos ver, Filipa, quem é que as pessoas condenam.»

Leonor, claro, não tinha todos os recibos. Mas tinha ficado uma coisa ou outra — relatórios da clínica particular, o contrato com o infantário. E Filipa não sabia disso. E Filipa calou-se.

De vez.

Passou a primavera, chegou o verão. No aniversário da mãe — fez sessenta e cinco anos — não convidaram Leonor. Ela só soube quando a prima publicou fotografias da mesa: estavam todos lá, a Filipa, o Diogo numa camisa nova, a mãe à cabeceira. Sem ela.

Leonor olhou para o Diogo na fotografia. Tinha crescido, andava desajeitado, como todos os adolescentes, mas os olhos eram os mesmos — reconhecê-los-ia entre mil. Aqueles olhos que olhavam para ela de baixo para cima quando ela lhe lia a Carochinha.

A chamada chegou em junho, tarde, de um número desconhecido.

— Mãe Leonor? — a voz estava a mudar, a saltar entre graves e agudos. — Sou eu, o Diogo. Estou a ligar do telemóvel de um amigo. A mãe não me deixa falar contigo, diz que tu nos abandonaste.

Leonor sentou-se no banco.

— Dioguinho. Eu não te abandonei. Estás a ouvir? Nunca.

— Eu sei — disse ele, baixinho. — Eu lembro-me de como punhas as letras no frigorífico. Lembro-me de tudo. Só que a mãe diz outra coisa.

Falaram uns dez minutos. Da escola, de ele andar agora entusiasmado com robótica, a soldar qualquer coisa. Leonor ouvia com medo de respirar, para não o assustar. No final, ele disse:

— Ainda te ligo. Só não contes à mãe, sim? Senão tira-me o telemóvel.

— Não conto — prometeu Leonor. — Liga, meu sol. Quando quiseres.

A chamada caiu.

Ainda ligou mais duas vezes. Depois deixou — ou o telemóvel do amigo acabou, ou a Filipa desconfiou. Leonor nunca soube. O número de onde ele ligava deixou de responder.

Ela tirou da prateleira de cima do armário a caixa de sapatos. Abriu-a. Os ímanes — o A azul, o B vermelho, o C amarelo. Todas as letras por onde ele aprendera a ler, deitado no ombro dela.

Leonor pô-los no frigorífico. Um por um, como antigamente. D, I, O, G, O. Ficou parada, a olhar.

Depois pegou no telemóvel, encontrou o último número de onde ele ligara e guardou-o. Deu-lhe o nome «Diogo». E pôs o telemóvel em cima da mesa, com o ecrã para cima, para ver se acendia.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

15 − 13 =

— Se não deres dinheiro à tua irmã, não precisas de vir nas festas, — disse a mãe. Mas eu já não tencionava ir.
Mama ostala s tromi deťmi na ulici! Náš otec zobral peniaze z predaja bytu, ktoré patrili našej mame, a utiekol.