— Vais beijar os pés da minha mãe! Percebeste? Ela agora é para ti a dona, a senhora e a tua deusa pessoal! E se teimares, eu mando-te para a batalha!

— Inês, faz um café mais forte, está bem? Para me dar logo energia.

A voz de Tiago, ainda rouca do sono, chegou do quarto e espalhou-se pela cozinha pequena como um mel quente e aconchegante. Inês sorriu. Esta primeira semana de vida conjunta depois do casamento parecia um anúncio perfeito: despertares preguiçosos, pequenos-almoços sem pressa, beijos leves à porta quando ele saía para o trabalho. Ela colocou na cafeteira duas colheres a mais do pó aromático e escuro do que o habitual. Tudo por ele. Todo aquele mundo, que cheirava a café acabado de fazer e ao seu perfume, passava a ser dos dois. A palma da mão deslizou pela superfície lisa da bancada nova e, por dentro, tudo vibrou com uma felicidade quase infantil. Já tinha planeado o sábado: ficar na cama até ao almoço com o portátil e uma série parva, depois cozinhar qualquer coisa complicada e deliciosa, e à noite abrir a garrafa de vinho que lhes tinham oferecido no casamento. Simplesmente ficarem os dois. Absorverem-se um ao outro.

Tiago saiu para a cozinha, já vestido com jeans e t-shirt. Abraçou-a por trás, enterrando o nariz no topo da cabeça dela. Cheirava a frescura de gel de banho e a confiança.

— Vai-te arranjar — disse ele, beijando-lhe a têmpora. — Vamos a casa da minha mãe, temos de a ajudar a mudar os móveis. Ela resolveu fazer uma mudança e não dá conta sozinha.

As palavras caíram na idílica manhã como pedras em água calma, deixando círculos a alargar-se de estranheza. Inês voltou-se devagar no abraço dele. Olhou para o rosto dele — o mesmo, querido, amado, com uma pequena sinal perto do canto dos lábios. Mas havia algo no tom, uma naturalidade indiscutível, que a pôs em alerta.

— Tiago, não podemos ficar para o próximo fim de semana? — tentou ela, com a voz o mais suave possível, não como recusa, mas como sugestão. — Estou tão cansada desta semana, pensei que ficássemos em casa a descansar. Talvez amanhã ou no próximo sábado?

Ele ficou imóvel. As mãos, pousadas na cintura dela, não se soltaram, mas o calor desapareceu. Ficaram apenas pesadas, a segurar. O sorriso desfez-se tão depressa como se o tivessem apagado com uma borracha. No lugar dele não apareceu nada — nem aborrecimento, nem ofensa. Apenas vazio. Olhava para ela, e Inês viu pela primeira vez aquele olhar. O noivo democrático, compreensivo, sempre pronto para um compromisso, que durante o último ano a tinha levado ao cinema e lhe oferecido flores, desaparecera. No lugar dele estava um completo estranho com olhos frios e incolores.

Devagar, com uma graça predadora, afastou-se, deu um passo atrás, como se a avaliasse de um novo ângulo. Depois aproximou-se dela. A mão ergueu-se e os dedos, que um momento antes tinham afagado o cabelo dela, agarraram-lhe o queixo. Apertaram sem força excessiva, mas com autoridade, humilhante, obrigando-a a levantar a cabeça e a olhá-lo frente a frente.

— O que disseste?

Não gritou. Sibilou. O som vinha do fundo do peito, baixo e vibrante, como um rosnar de animal que foi acordado de repente. Inês ficou calada, paralisada não tanto pela pressão, mas por aquela mudança monstruosa e súbita. Via, nos olhos gelados dele, o seu próprio rosto assustado. E então, olhando-a diretamente nos olhos, sem piscar, ele disse as palavras que dividiram a vida dela em antes e depois.

— Estou a dizer que estou cansada e quero descansar contigo, só nós os dois. E os móveis da tua mãe… bom… podem esperar, para ser sincera, não lhes vai acontecer nada. Não quero ir hoje a lado nenhum nem fazer nada para a tua mãe ou para outra pessoa qualquer.

— Vais beijar os pés da minha mãe! Percebeste? Ela agora é a tua dona, a tua senhora e a tua deusa pessoal! E se te armares em difícil, mando-te para o hospital!

Largou-lhe o queixo com a mesma brusquidão com que o agarrara. Ficaram marcas vermelhas dos dedos na pele. E no rosto dele abriu-se um sorriso maligno, triunfante. Viu o choque, o rosto petrificado dela, e aquilo deu-lhe um prazer visível. Ele vencera. Estabelecera as regras. E ela, Inês, estava ali no meio da sua nova cozinha que cheirava a café, com uma clareza absoluta e ensurdecedora: a sua vida de casada feliz acabara de terminar, sem sequer ter começado.

O silêncio que se seguiu às palavras dele não era vazio. Era denso, pesado, como um vácuo que aspirava da cozinha não apenas o som, mas o próprio ar. Inês olhava para ele, para aquele sorriso maligno e triunfante, e sentia qualquer coisa a partir-se lá dentro e a cair com estrondo no abismo. Não era medo. O medo tinha vindo antes, no instante em que os dedos lhe apertaram o queixo. Agora era outra coisa. Frio, nítido, quase matemático: percebeu que o jogo em que estava a jogar, acreditando ingenuamente conhecer as regras, tinha acabado. Começara um novo, e as regras eram definidas por ele.

Ela respirou fundo, quase impercetível. Parecia que gelo corria nas veias em vez de sangue. Baixou os olhos, olhou para a cafeteira que arrefecia, com o café que fora para uma manhã feliz a dois. Depois pegou nela, foi ao lava-loiça e, com um movimento preciso e controlado, deitou o líquido escuro e aromático pelo ralo. Nem uma gota caiu ao lado.

— Está bem — disse ela. A voz estava firme, sem uma única nota a tremer. Apenas uma voz que constata um facto. — Vou-me arranjar já.

Tiago, que esperara lágrimas, gritos, súplicas, qualquer coisa que confirmasse a sua vitória total e incondicional, perdeu-se. Aquela submissão calma e prática tirou-lhe o chão. O sorriso triunfante ficou hesitante, até um pouco estúpido diante da frieza dela. Ele ficou a observá-la em silêncio enquanto ela se virou e saiu da cozinha. Sem pressa, sem raiva, sem ofensa. Movia-se como um mecanismo que recebeu um novo programa e o executa com precisão impecável.

No quarto, abriu o armário. A mão, sem hesitar, saltou o querido hoodie confortável e puxou uma blusa azul-escura sóbria e umas calças clássicas. Não era roupa para ajudar numa mudança. Era um uniforme. Uma armadura. Vestiu-se depressa, sem um gesto desnecessário; o reflexo no espelho era o de uma mulher desconhecida, concentrada e muito perigosa. Enquanto penteava o cabelo, o olhar prendeu-se na fotografia de casamento na cómoda. Duas caras felizes, sorridentes. Olhou para elas um segundo, dois, e depois desviou-se simplesmente. Era uma foto de outra vida, de outro mundo. Já não lhe dizia respeito.

Quando voltou ao corredor, já calçada, com o saco ao ombro, Tiago ainda estava lá, encostado ao caixilho da porta. Tentava recuperar a expressão dominadora, mas no olhar lia-se a confusão.

— Já estás pronta tão depressa? — perguntou, tentando que soasse a gozo.

— Sim. Vamos?

A resposta foi tão neutra como a de uma máquina automática. Ela retirou-lhe as emoções de que ele se poderia alimentar. Retirou-lhe a oportunidade de saborear a humilhação dela. Todo o caminho até casa da mãe dele decorreu naquele silêncio denso, pegajoso. Não era aquele silêncio confortável em que as palavras não são precisas. Era uma guerra. Sem som, mas ainda mais cruel por isso. Tiago apertava o volante com força, os nós dos dedos brancos. Abriu a boca várias vezes para dizer qualquer coisa, para atirar outro insulto, mas ao ver o perfil impenetrável dela, não se atreveu. Ela não olhava pela janela para os prédios que passavam. Olhava em frente. Mas o cérebro trabalhava a uma velocidade furiosa. Não lamentava o mundo que ruíra. Estudava o inimigo. Lembrava-se de cada palavra, cada gesto, cada entoação. Analisava, arrumava, construía cadeias lógicas. O Tiago amoroso era uma ilusão. O verdadeiro era aquele — frio, cruel, manipulador. E para sobreviver ao lado dele, precisava de perceber como ele funcionava. Já não era a mulher dele. Tornara-se uma entomologista que, com curiosidade fria, disseca um inseto repugnante, mas muito interessante.

Quando o carro parou junto do conhecido prédio cinzento, ela expirou quase sem se notar. A primeira fase estava ultrapassada. Aguentara. Agora vinha a toca daquela que lhe tinham ordenado que considerasse a sua deusa. E Inês sabia: o exame estava apenas a começar.

A porta abriu-se: Dona Rosa. Uma mulher baixa, seca, com um penteado impecável, rígido de laca, e um batom demasiado vivo para a idade. O apartamento atrás dela não cheirava a aconchego, mas a esterilidade: uma mistura acre de lustra-móveis, ambientador com aroma a “brisa alpina” e algo indefinidamente a farmácia, como cânfora. Não era uma casa, era um museu onde cada peça — desde a pastorinha de porcelana na cómoda até à pilha perfeitamente alinhada de revistas na mesa — sabia o seu lugar.

— Inês, meu amor! Já estava à vossa espera! — a voz era doce como pêssego maduro, mas os olhos, pequenos e atentos, não sorriam. Escaneavam, avaliavam, pesavam. Puxou Inês para um beijo na face, e ela sentiu a gola engomada da blusa da sogra a arranhar-lhe a pele.

Tiago entrou como um dono, atirou o casaco para o puff. Toda a raiva matinal se evaporara, substituída por uma máscara de filho respeitoso. Estava no seu território, sob a proteção da sua “deusa”.

— Mãe, então, onde é o trabalho? Mostra lá o que é preciso mudar.

A mudança era uma farsa. Não se tratava de libertar espaço ou tornar o quarto mais confortável. Tratava-se de demonstrar poder. O primeiro alvo foi um pesado aparador lacado, daqueles antigos, cheio de cristais que pareciam nunca ter sido tirados do lugar.

— Aqui, meus queridos, quero-o ali, contra aquela parede — apontou Dona Rosa para o lado oposto da sala. — O Tiaguinho ajuda de um lado, e a Inês do outro. Ela é uma rapariga forte, aguenta.

Não era um pedido. Era uma ordem, embalada em doçura. Inês aproximou-se do aparador sem dizer nada. A superfície escura e polida refletia-lhe o rosto como um espelho torcido. Agarrou a borda lavrada. Tiago ficou à frente, e ela sentiu sobre si o olhar pesado e avaliador. Ele esperava. Esperava que ela dissesse que era demasiado pesado, que começasse a protestar. Mas ela ficou calada.

Empurraram o monstro. Ouviu-se um arranhar dos pés no parquet. Inês tensionou todos os músculos, os dedos cravados na madeira. Movia-o sem fazer um único som, a respiração firme, o rosto absolutamente sereno. Arrastaram-no lentamente através da sala.

— Pára! — ordenou Dona Rosa, quando o aparador estava a um centímetro da parede. Entortou o pescoço, como um pintor a avaliar uma pincelada. — Não… Sabem que mais? Não fica bem. Voltem a pô-lo no sítio. Mas dez centímetros mais para a esquerda do que estava.

Tiago soltou um som parecido com uma risada. Olhou para Inês com triunfo. Ali estava: trabalho inútil e humilhante. Mas o rosto de Inês não mudou. Apenas acenou com a cabeça e voltou a pegar na madeira fria e envernizada. Arrastaram o aparador para trás. Depois, sob ordem, empurraram-no novamente. E mais uma vez. Dona Rosa saboreava o processo. Era a encenadora daquele pequeno teatro do absurdo, e o papel principal — o de executante submissa — estava reservado a Inês.

— Inês, meu amor, limpa aí o pó, debaixo dos pés — disse ela, quando o aparador parou no meio da sala pela quarta vez. — Eu vou pôr a chaleira ao lume.

Era o ato seguinte. A humilhação. Inês olhou para ela, depois para Tiago. Ele estava encostado à parede, de braços cruzados, a observar. Nos olhos dele nadava um prazer puro, sem mácula. Inês aproximou-se de Dona Rosa, pegou no pano húmido. E ajoelhou-se no parquet velho e que rangia. Não sentiu dor nos joelhos, nem humilhação. Sentiu o aço a solidificar-se por dentro. Metodicamente, centímetro a centímetro, limpou o chão onde o aparador estivera, sentindo dois pares de olhos nas costas. Esperavam que ela se partisse. Que rebentassem em lágrimas de ofensa. Mas não houve lágrimas.

Terminou, levantou-se, levou o pano à cozinha. Quando voltou, Dona Rosa olhava para ela sem sombra de sorriso. Nos olhos havia uma fúria fria e nua. Não obtivera o que queria. O espetáculo falhara. A atriz não dera as emoções esperadas.

— Ouve lá, menina — a voz da sogra perdera todo o doce, ficara dura e crocante como dobradiças por untar. — Aquelas duas tábuas do parquet. Vês? Estão um pouco levantadas. Incomodam-me. Vai buscar um martelo e prega-as. Agora mesmo.

Aquela frase, dita com desprezo frio, foi o último elemento que faltava. Agora o quadro estava completo. Não era uma simples mudança, nem uma limpeza. Era um ritual de iniciação à escravidão. Inês ergueu os olhos. No olhar de Dona Rosa já não havia doçura nem fúria. Havia apenas a vazia e fria certeza do próprio poder. Olhava para Inês como se olha para uma coisa, para um objeto inanimado que deve cumprir a sua função.

Inês acenou. Um aceno curto, quase impercetível.

— Onde está? — a voz saiu igualmente neutra e incolor.

— Na despensa, na caixa das ferramentas — atirou Tiago, sem se desencostar da parede. Já antecipava o espetáculo: a mulher jovem e bonita, de joelhos, com um martelo na mão, a pregar tábuas no apartamento da mãe. Seria o ponto final perfeito para aquele dia. A afirmação definitiva do seu poder.

Inês virou-se e foi para o corredor. A despensa era minúscula, entulhada de coisas velhas que cheiravam a naftalina e pó. Encontrou facilmente a caixa vermelha de metal. Abriu-a. As ferramentas estavam amontoadas: alicates enferrujados, chaves de fendas com cabos de plástico rachados, rolos de fita isoladora. E o martelo. Velho, pesado, com a cabeça maciça e o cabo de madeira polido pelo tempo. Pegou nele. Era pesado, verdadeiro, o peso assentava-lhe bem na palma. Apertou o cabo, sentindo cada arranhão na madeira. Era a sensação de algo real naquele mundo de mentiras açucaradas e crueldade disfarçada.

Voltou à sala. Tiago sorriu com presunção ao vê-la com o martelo. Dona Rosa estava na pose de juíza, de braços cruzados. Esperavam que ela se ajoelhasse. Inês deu uns passos em frente, os saltos a baterem no parquet. Parou no meio da sala, olhou para as duas tábuas levantadas. Depois, lentamente, muito lentamente, ergueu a cabeça.

O olhar passou por Tiago, pela mãe dele. Deteve-se na parede em frente. No santuário. No altar daquela casa. Ali, sob vidro, em filas perfeitamente alinhadas, estavam as relíquias de Dona Rosa. A sua vida, o seu orgulho, a sua essência divina. Um certificado de mérito de não sei que aniversário, um diploma de um curso com relevo dourado, o cartão de “Sócia Fundadora” de uma associação qualquer, algumas fotografias desbotadas onde ela, jovem e séria, apertava a mão a um presidente de junta. Tudo isto estava enquadrado em molduras escuras e formava uma composição para a qual Tiago olhava com reverência desde criança. Era o iconóstase da mãe.

— O que é que estás a fazer? — a voz de Tiago já não era tão segura. Viu para onde ela olhava.

Inês não respondeu. Deu mais três passos até à parede. Chegou junto àquele memorial de vaidade. Depois, com a mesma expressão calma e distante, ergueu o martelo. Não foi um movimento brusco, raivoso. Foi uma ação suave, medida, quase elegante.

E bateu.

O primeiro a voar foi o diploma. O som do vidro a partir foi ensurdecedor naquela atmosfera tensa. Mas não parou. O segundo golpe acertou no certificado. A moldura de madeira rachou, o vidro caía no chão em pequenos cacos brilhantes. Terceiro golpe. Quarto. Não destruía tudo sem critério. Agia metodicamente, como um cirurgião. Golpe após golpe, destruía cada peça, cada símbolo da grandeza de Dona Rosa. Não partia apenas vidro e madeira. Partia o mito. Profanava o santuário deles mesmo diante dos olhos deles.

— Basta! — guinchou Dona Rosa, o rosto contorcido de horror e incredulidade.

Tiago avançou para Inês, mas parou a meio, como se tivesse levado um choque. Olhava para os cacos, para o cartão rasgado, para as fotografias mutiladas. Via o seu mundo, o seu sistema de coordenadas, onde a mãe era uma deusa, a desmoronar-se sob os golpes do martelo nas mãos da mulher. Ficou paralisado pela blasfémia do que acontecia.

Quando a última moldura foi partida, Inês baixou o braço. Olhou para o resultado do seu trabalho — para o monte miserável de lixo aos pés da parede. Depois abriu os dedos, e o martelo pesado caiu com um baque surdo no parquet. Voltou-se.

Eles estavam ali, a olhá-la. Não havia raiva nos seus rostos. Havia algo pior. Uma incompreensão total, atordoada. Como se diante deles não estivesse um ser humano, mas uma força desconhecida que acabara de varrer a cidade deles do mapa. Inês olhou nos olhos de Tiago, depois desviou o olhar para a mãe dele. A sua missão estava cumprida. Não se limitara a recusar beijar os pés. Partira a martelo o próprio pedestal onde a “deusa” deles se mantinha.

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