Querido diário,
Cheguei ao hospital sozinha, eu, Inês Vasconcelos, com o coração apertado e sem ninguém para me segurar a mão. O Tomás, meu marido, tinha ido embora meses antes, logo depois de lhe contar que estava grávida. Não quis saber de mim nem do filho que trazia comigo.
O parto arrastou-se durante horas, mas quando o primeiro choro do meu bebé encheu a sala, tudo ganhou sentido. Ele estava perfeito, saudável, e eu senti uma alegria tão grande que quase não cabia em mim. Ainda assim, ali, sozinha naquela cama, não tinha quem partilhasse o momento comigo.
O médico que me assistiu, o Dr. Afonso Castelo Branco, pegou no menino com um cuidado imenso. Mas, ao virar-se para mo entregar, estacou. As mãos tremiam-lhe ligeiramente. Olhou para o rosto do recém-nascido, depois para mim, e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Doutor, está tudo bem? — perguntei, com o coração aos pulos.
Ele engoliu em seco e, com a voz quebrada, contou-me que o meu filho tinha uma pequena mancha de nascença no braço. Era idêntica à do filho dele, que desaparecera há anos e com quem perdera todo o contacto. A mancha era igualzinha à do Tomás. Percebi, num instante, que o Dr. Afonso era o avô do meu bebé.
O mundo à minha volta pareceu abanar. Toda a solidão que senti durante o parto desapareceu, substituída por um aperto no peito tão forte que me deixou sem palavras. Apertei o meu filho contra mim, enquanto o médico, comovido, percebia que aquele pequeno ser acabava de reatar um vínculo perdido há muito tempo.
Nunca mais estaremos sozinhos.






