— Ó Dona Alzira! — exclamou Mateus. — Quem lhe deu permissão para criar um lobo aqui na aldeia?

Ó Avó Alzira! gritou Martinho. Quem lhe deu autorização para guardar um lobo cá na aldeia?

Alzira Fernandes chorava amargamente ao ver o portão destruído. Já mais de uma vez o tinha escorado com tábuas, tentando remendar os postes podres, sempre com a esperança de que o cercado aguentasse até ela juntar dinheiro suficiente da sua pequena reforma. Mas não teve sorte! O portão caiu mesmo.

Já se passaram dez anos desde que Alzira ficou sozinha na quinta, desde que o seu querido marido, António Fernandes, partira deste mundo. Ele tinha mãos de ouro. Enquanto esteve vivo, nunca lhe faltou nada: António era carpinteiro de excelência, fazia tudo por si mesmo. Nunca precisaram de chamar mestres, e na aldeia todos lhe tinham estima, não só pela habilidade, mas também pela bondade e pela dedicação ao trabalho. Viviam juntos há quarenta anos, apenas um dia lhes faltou para celebrarem as bodas. A casa era sempre asseada, a horta dava fartura e o gado estava bem tratado tudo fruto do trabalho conjunto.

Tinham um só filho: Gaspar, orgulho e alegria do casal. Desde pequeno, não foi preciso ensinar-lhe o valor do trabalho: ajudava por iniciativa própria. Sempre que a mãe regressava cansada da lavoura, já o filho tinha partido lenha, acendido a lareira, trazido água e tratado dos animais.

Quando o pai voltava do trabalho, lavava-se no tanque e sentava-se na varanda a fumar um cigarro, enquanto a mulher preparava o jantar. À noite, a família reunia-se na mesa, partilhavam as novidades do dia. Eram felizes assim.

O tempo corre e só as memórias vão ficando. Gaspar cresceu, partiu para a cidade grande, estudou, licenciou-se e casou-se com uma lisboeta, Custódia. Fixaram-se na capital. No início, Gaspar ainda vinha à aldeia nas férias, mas depois, por insistência da mulher, começaram a viajar para o estrangeiro em todas as ocasiões. António não compreendia o filho.

Que cansaço tem o nosso Gaspar? Isto são ideias da Custódia, de certeza. Para quê tantas viagens?

O pai sentia saudades, a mãe chorava. Só lhes restava esperar por notícias do filho. Um dia, António adoeceu. Recusava-se a comer, fraquejava de dia para dia. Os médicos passaram-lhe comprimidos, mas acabaram por mandá-lo para casa, dizendo à família que o deixassem em paz. Na primavera, enquanto os rouxinóis cantavam nos bosques, António partiu tranquilamente.

Gaspar veio ao funeral, chorou, desgostoso por não chegar a tempo de dar um último adeus ao pai. Ficou uma semana com a mãe e depois voltou para Lisboa. Em dez anos, escreveu-lhe apenas três cartas. Alzira ficou entregue a si própria. Vendeu a vaca e as ovelhas aos vizinhos.

Para quê animais agora? Até a vaca permaneceu dias junto à cerca, ouvindo os soluços da velha dona. Alzira fechava-se no quarto mais distante e chorava sozinha.

Sem mãos masculinas, a quinta ia-se degradando. Ora o telhado começava a pingar, ora as tábuas do alpendre cediam, ora o poço inundava Ela tentava tudo o que podia. Poupava da reforma para pagar aos homens da aldeia, às vezes tratava de pequenas coisas sozinha sempre cresceu no campo, conhecia bem a casa.

Assim foi vivendo, mal chegando para as despesas, até que lhe sucedeu mais um infortúnio. A Alzira começou-lhe a faltar a vista, nunca antes tivera tamanhas dificuldades. Foi ao mercado e mal conseguiu distinguir os preços. Uns meses depois, já quase não conseguia ver as letras na fachada do comércio.

Um dia, a enfermeira passou em casa, olhou-a e insistiu:

D. Alzira, quer mesmo ficar cega? Se fizer uma operação tudo se resolve e volta a ver!

Mas ela temia médicos e operações, recusando-se a ir ao hospital. Em menos de um ano, quase não via. Estranhamente, não lhe custava por aí além.

Para que é preciso luz? Televisão já nem vejo, só vou ouvindo as notícias pelo rádio. A casa conheço de cor, não preciso dos olhos.

O que a afligia era outra coisa. A aldeia enchia-se de gente estranha, bandidos até, que saqueavam as casas abandonadas. Sem um bom cão para guardar a propriedade, ficava inquieta.

Perguntou ao caçador, Simão:

Não sabes de cachorrinhos, Simão? Apaixonava-me por sequer um pequenino. Criava-o eu

O Simão olhou-a com bonomia:

Para que quer cachorros rafeiros, D. Alzira? São cães para monte. Trago-lhe da cidade um verdadeiro pastor de raça.

Deve ser caríssimo

Nem por isso, D. Alzira.

Se assim é, traga-me então.

Alzira contou os tostões poupados pelos cantos e achou que, bem esticando, dava para um cão bom. Mas Simão, homem sempre cheio de promessas, nunca cumpria o que dizia. Alzira ralhava-lhe por tantas palavras vãs, mas tinha pena dele: era desgraçado, sem família, sem filhos, e só tinha por companhia o vinho.

O Simão, que era quase da idade de Gaspar, nunca saíra daquela terra, não tinha vida de cidade. A paixão dele era a caça desaparecia dias inteiros na serra.

Quando a época de caça acabava, fazia trabalhos diversos nos quintais: cavava terras, carpinteiro de ocasião, arranjos nalguma ferramenta. O dinheiro que ganhava das velhotas gastava logo no taberneiro.

Depois dos excessos, Simão metia-se à serra, doente e cheio de remorsos. Dias depois, voltava com cestos de cogumelos, fruta brava, peixes e pinhões. Vendia tudo por uns euricos e voltava ao mesmo. Também ajudava D. Alzira em troca de refeição e uns trocos. Agora, com o portão no chão, dela dependia novamente.

Parece que o cão terá de esperar, suspirou Alzira. Primeiro o dinheiro vai para pagar ao Simão pelo portão, já nem sobra nada.

Simão não veio de mãos vazias: dentro da mochila, além de ferramentas, algo se mexia. Sorrindo, chamou Alzira.

Veja lá o que lhe trouxe… abriu a mochila.

Ela apalpou e sentiu uma cabeça redonda, macia e quente.

Simão, trouxeste-me mesmo um cachorro? admirou-se.

Dos melhores, um pastor puro, minha senhora.

O cachorrinho, ansioso, quis saltar da mochila. A dona preocupou-se:

Mas nem tenho dinheiro para te pagar! Só conto com o que basta para o portão

Devolvê-lo não há como! exclamou Simão. Houvesse dinheiro que pague este bicho, minha senhora!

Que remédio: Alzira correu ao comércio da aldeia, onde a mulher da mercearia lhe fiou cinco garrafas de bagaço, anotando-lhe a dívida no caderno.

Ao final do dia, Simão remendou o portão. Alzira serviu-lhe bom almocinho, com direito a aguardente. O homem, mais animado, aconselhou-a, apontando para o cachorro, já enroladinho ao lado do fogão.

Deve alimentá-lo duas vezes ao dia. E compre-lhe uma corrente resistente vai crescer forte como um touro. Eu percebo de cães.

Assim Alzira passou a ter novo morador o Tobias. A velha apegou-se ao cachorro, que lhe devolvia carinho e lealdade. Sempre que Alzira descia ao quintal para alimentá-lo, ele saltava de alegria e tentava lamber-lhe a cara. Só havia um porém: o cão crescia descomunalmente, mas nunca aprendera a ladrar, o que inquietava a dona.

Ó Simão! Que burlão me saíste! Vendeste-me um cão falhado…

Mas não era justo enxotar tão boa criatura. Para ladrar já lhe bastava o seu porte: os cães dos vizinhos não ousavam meter-lhe medo, que o Tobias em poucos meses já passava da cintura da dona.

Num desses dias, Martinho, dos caçadores locais, veio à aldeia comprar sal, fósforos e produtos antes do tempo de caça ao javali. Passando pela casa de Alzira, não acreditou no que via:

Ó Avó Alzira! exclamou. Quem lhe permitiu ter um lobo entre nós?

Alzira levou as mãos ao peito.

Meu Deus! Que tola fui! O Simão aldrabou-me… disse que era pastor de raça!

Martinho advertiu com seriedade:

Avó, tem de o soltar na serra. Senão, acontece desgraça.

Os olhos da pobre encheram-se de lágrimas. Custava-lhe a alma separar-se de Tobias! Era manso e dócil, mesmo sendo lobo. Mas há tempos andava inquieto, puxava o ferro, sonhava com a liberdade. Os da aldeia olhavam-no com temor. Não havia alternativa.

Martinho levou o lobo à serra. Tobias acenou com a cauda e desapareceu entre os pinheiros. Nunca mais se viu.

Alzira sofreu com saudades do seu amigo e maldizia Simão. E este, arrependido, ficou triste pois queria ajudar. Um dia, perdido na serra, Simão deu de caras com pegadas de urso. Ao longe, ouviu choramingar. Preparava-se para fugir, pois perto de filhotes anda sempre a ursa, mas o som não era de ursinho.

Abriu os arbustos e achou uma toca. Ali, morta, estava uma loba, e à volta, filhotes mortos por ursos. Só escapara um, escondido muito fundo.

Simão, com pena, levou-o consigo, decidido a entregá-lo à velha, para que ao crescer partisse sozinho para o monte. Prometeu arranjar-lhe outro cão. Martinho estragou-lhe os planos.

Simão andou dias de roda da casa, sem coragem para bater. O inverno rugia. Alzira aquecia a casa para não morrer de frio.

Subitamente, bateram-lhe à porta. A velha apressou-se a abrir. Lá fora, um homem parado.

Boa noite, avó. Posso abrigar-me aqui? Ia para a aldeia do lado… mas perdi-me à tempestade.

E como te chamas, rapaz? Não vejo bem.

Bento.

Alzira franziu o sobrolho.

Aqui, não conheço Bentos…

Sou de fora, avó. Comprei casa há pouco. Quis vir ver, o carro ficou atolado, tive de vir a pé… Nem sequer sabia desta ventania!

Compraste a casa do velho Domingos?

O homem acenou.

Foi sim, senhora.

Alzira recebeu o homem, pôs-lhe água ao lume. Mal sabia ela que ele olhava, cobiçoso, para o armário antigo onde o povo costuma guardar os trocos e os anéis antigos.

Quando ela lhe virou costas junto ao fogão, ele começou a vasculhar na cristaleira. Alzira ouviu as portas a ranger.

Que fazes aí, Bento?

Ora, com esta mudança do dinheiro, ajudo a tratar das economias!

A velha desconfiou.

Mentiroso. Não houve reforma nenhuma! Quem és tu?

O homem puxou de uma navalha, encostando-a ao queixo dela.

Calada, velha. Dá-me o dinheiro, ouro, comida!

Alzira ficou aterrorizada: tinha diante de si um ladrão que fugia da justiça. Agora tudo estava decidido…

De súbito, a porta foi escancarada. Um lobo enorme irrompeu e saltou sobre o criminoso. Este gritou, salvo apenas pelo cachecol grosso, do pior. Ainda tentou golpear o lobo, que ficou magoado num ombro, e fugiu da casa.

Nessa altura, Simão vinha para pedir desculpa. Ao chegar, viu um tipo com navalha a correr pela rua, praguejando, e percebeu logo tudo. Correu a casa de Alzira: no chão, jazia o Tobias, ferido. Simão correu à Guarda.

O assaltante foi apanhado e preso. Tobias tornou-se herói da aldeia. Todos lhe traziam comida, e cumprimentavam-no como gente. Solto, agora andava livre, ao lado de Simão e da dona, sempre que regressava das caçadas.

Um dia, viram junto à casa um jipe preto. No quintal, alguém rachava lenha. Era Gaspar, o filho da Alzira. Vendo o velho amigo, abriu-lhe os braços.

Ao anoitecer, sentaram-se todos juntos à mesa. Alzira irradiava felicidade. O filho prometeu levá-la à cidade para operar os olhos.

Se é para ver o neto este verão, está decidido. Simão, toma conta da casa… e do Tobias, combinado?

Simão acenou. Tobias instalou-se junto ao fogão, deitado de olhos fechados sabia bem qual era o seu lugar: perto dos amigos.

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— Ó Dona Alzira! — exclamou Mateus. — Quem lhe deu permissão para criar um lobo aqui na aldeia?
Hosťov bolo doma stále veľa – fľaše na stole, jedla nikde, iba ohorky a prázdna konzerva od rybičiek…