Julgávamos Sempre a Mãe dos Cães: Só Descobri o Que Ela Carregava Quando a Vi Chorar na Igreja – Uma História Real de Julgamento, Solidão e o Sonho de Ter uma Família

TODOS NÓS A JULGÁVAMOS

Beatriz estava parada na Sé de Lisboa e chorava. Já fazia uns bons quinze minutos. Aquilo parecia tão estranho. “O que faz aqui esta betinha?” pensava eu. Dela é que eu não imaginava cruzar-me neste lugar de silêncio e velas.

Não éramos amigas, mas via a Beatriz volta e meia, pois morávamos no mesmo prédio em Campo de Ourique e dávamos as nossas voltas no Jardim da Estrela. Eu sempre a correr atrás dos meus quatro filhos, ela passeando com os seus três cães.

Nós, todas, julgávamos Beatriz sem piedade. “Nós” sendo eu, as outras mães com os seus pequenos, as senhoras idosas nos bancos do jardim, vizinhas, e até acredito que alguns dos passantes.

Beatriz era lindíssima, sempre com roupas de última moda, uma postura leve e confiante que parecia dizer “a vida é minha”.

Olha, já mudou outra vez de namorado, resmungava a Dona Ermelinda, encostada ao muro do prédio.

Já vai no terceiro, essa menina!
É rica, pode tudo Que inveja, dizia a Dona Lurdes, a olhar, meio amarga, para Beatriz entrar no seu carro importado ao lado de mais um galã.

O filho da Dona Lurdes, o Joaquim, já com quarenta e oito anos, ainda andava de Metro e não tinha conseguido sequer comprar um Opel Corsa.

Era melhor ter filhos, já está quase nos quarenta, atirava o Senhor Manel, o opositor habitual das idosas, mas naquele caso, estavam todos de acordo.

Mais tarde, o banco do jardim era palco de risinhos e boatos. “Até esse fugiu! Pois claro, mulher fácil! E aposto que a casa dela cheira a cão molhado!”

Mas as que menos gostavam da Beatriz éramos nós as mães suadas atrás dos nossos meninos.

Enquanto nos debatíamos pelas sombras, descendo escorregas, limpando ranhos e deitamos a correr para evitar mais um joelho esfolado, ela lá ia, passeio calmo com os seus “cãezinhos”, um ar de paz e ainda nos mirava de lado, entre sorridente e condescendente. Como quem diz: “Vocês quiseram, agora aguentem”. E nós a pensar se chegará o ordenado para sapatilhas e casaco à mais nova.

Notas logo: aquelas são as que não querem filhos. São todas assim, murmurava a minha amiga Benedita, mãe de três.

Ricos têm sempre destas manias: cãezinhos, gatinhos, pássaros! concordava a Ana Margarida, barrigão de gémeos e já com duas miúdas a trepar ao plátano.

Só pensa nela mesma, quer é ir a Paris e a Ibiza. Eu já nem me lembro do cheiro a mar, suspirava a Maria Amália, mãe de cinco.

Verdade, verdade, concordava eu com todas. E lá ia enxugar as lágrimas da Leonor, caída com estrondo perto do lago.

Parecia melhor era se tivesse um filho a cuidar e não tantos cães! gritou um dia uma velha senhora, de mão dada com o neto.

Não é da sua conta! respondeu Beatriz, mudando o tom, quase a gritar, mas calou-se e seguiu caminho, os cães atrás.

Malcriada! retorquiu a senhora.

Fiquei a olhar mais uns instantes para a Beatriz, dobrada em choro na penumbra da Sé. E saí.

Espere aí, ouvi uma voz. Espere, faça favor!

Beatriz alcançou-me no adro.

É sempre a senhora que anda pelo jardim com quatro meninas, não é?

Eu sim. E a Beatriz com os três cães.

Exacto. Posso falar um bocado consigo? Sabe, admiro tanto quando vejo as famílias, as mães com os filhos disse ela, corando intensamente.

Você?! não contive o espanto, quase me saiu um “mas você nem gosta de crianças, só pensa nos cães!” E lembrei-me do olhar altivo dela para nós.

Sentámo-nos num banco. Beatriz falava sem parar, lágrimas no rosto. Vinha dali uma solidão densa, como se a apertasse por dentro anos a fio.

Beatriz crescera numa casa cheia e alegre. Sempre sonhara com uma família grande. Casou-se apaixonadíssima, mas perdeu dois bebés e ouviu dos médicos um veredito implacável: infertilidade. O marido evaporou-se como fumo.

O segundo, igual. Entre tratamentos, quase morreu de gravidez ectópica.

Houve um terceiro, mas foi só ouvir a hipótese de bebé que sumiu. Gostava era mesmo do carro de Beatriz e do seu salário gordo filhos, nem pensar.

Teria dado tudo para ter um filho! murmurou.

Pensei que só gostasse de cães balbuciei, meio tola.

E gosto, sorriu, mas quem gosta de animais também pode amar crianças.

Para não se sentir tão sozinha, Beatriz acolheu o Tobias. Depois, pediram-lhe que ficasse temporariamente com o Mike, enquanto faziam obras na casa. Nunca mais tiraram o cão dali. A Fénix era uma cadelinha perdida, choramingando numa tarde de inverno. Deu-lhe pena, ficou com ela.

“Lá está, melhor era ter tido uma criança”, ecoavam-me na cabeça as vozes do parque. “O relógio não pára”, insistia o Senhor Manel.

Beatriz já ia nos quarenta e um, mas bem podia parecer trinta.

Foi então que decidiu: ia adoptar. Não importava a idade. Conheceu então o Diogo, seis aninhos e um olhar maior que ele. Não foi ela que o escolheu; foi ele que lhe perguntou imediatamente: “Vais ser minha mãe?” Disse logo: “Vou!”

“É egoísta, não quer complicações”, suspirava a Maria Amália ao longe, ecoando outros julgamentos.

Mas não lhe deixaram o Diogo. A mãe, doente, mas sem perder oficialmente a guarda, travou tudo.

Fiquei destroçada, dizia Beatriz. Não compreendia o miúdo precisava de colo!

Depois conheceu a Leninha, uma miúda de quatro, já “devolvida” duas vezes por dois casais diferentes. O que contavam é que, ao ser levada de volta, Leninha ia atrás, agarrada à saia, soluçando: “Não me deixes, mamã, prometo que me porto bem!”

Quando se encontrou com a Beatriz, a Leninha lançou, desconfiada, a pergunta: “Também me vais trocar?” “Nunca na vida!”, respondeu Beatriz, quase a engasgar-se com as lágrimas.

Complicações legais travaram o processo, mas Beatriz já nem contava: “Será minha filha e não vou desistir!”

Naquele dia, estava na Sé pela primeira vez, sem saber mais para onde ir.

Veio o Senhor Padre, falaram muito tempo, e ela saiu de lá com um papel na mão e um sorriso que foi crescendo como a luz das velas.

Fizemos o caminho juntas.

Deve pensar que sou convencida, disse ela. Mas cansei de explicar tudo ouvi tanta coisa feia deste bairro.

Fiquei calada.

Beatriz convidou-me a ir lá a casa um dia destes, com as meninas, brincar com os seus cães. Prometi que sim. Vou mesmo. Mas não já.

Por agora, o que sinto mesmo é vergonha.

E penso: “Como é possível termos tanto veneno cá dentro? Porque julgamos tão fácil quem não conhecemos?”

Só quero que a Beatriz, esta mulher extraordinária a quem todos apressaram a condenação, seja feliz. Que a Leninha a abrace sem mais lágrimas, que lhe chame “Mamã!” e saiba, finalmente, que nunca mais será devolvida. E que ao lado delas saltem alegres o Tobias, o Mike e a Fénix

Quem sabe, se não acontecerá também um milagre? Talvez um marido amigo, irmãos para a Leninha. Sim, às vezes acontecem milagres, verdade?

E que mais ninguém, nesta rua, nesta praça ou neste país, ouse apontar-lhe mais um dedoDe volta ao bairro, vejo Beatriz de longe, já sorrindo de novo, os cães a saltar em roda, o sol a pôr-se devagarinho por trás das árvores do Jardim da Estrela. E pela primeira vez pergunto-me: e se cada uma de nós carregasse a sua dor, os seus sonhos partidos, tão bem arrumados por baixo das roupas do dia-a-dia, que só sobram os sorrisos ou as máscaras? E se, em vez de julgarmos, aprendêssemos a sentar no mesmo banco nem que fosse uma só vez e a ouvir?

Pela janela aberta, chegam risos novos. Beatriz e Leninha desenham arcos no ar com bolhas de sabão e enchem a rua de uma leveza inesperada. Digo às minhas meninas: Vamos; hoje vamos brincar com a Beatriz e conhecer os cães. Elas pulam, agarram nas bolas e saem a correr, curiosas e felizes, sem saber do passado nem das vozes velhas do bairro.

Eu, vou atrás, sentindo-me leve como há muitos anos não sentia. Talvez perdoada. Talvez a começar também de novo. E, sem querer, sorrio para todos que encontro, como quem pede desculpa, como quem agradece: porque todos nós, por dentro, só temos mesmo é vontade de sermos aceites, de sermos amados, tal como somos.

E então, quando uma criança gritou: Já viste, a Beatriz agora tem filha!, ninguém respondeu nada. Só se ouviu o riso das duas, a correrem juntas, misturando-se a tudo o resto mais forte do que qualquer julgamento do bairro inteiro.

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