Miguel regressava a casa do trabalho num frio entardecer de inverno. Tudo parecia envolto por uma névoa de tédio, tão típica das tardes lisboetas em Janeiro. Ao passar junto ao minimercado do bairro, deparou-se com um cão. Rafeiro, de pêlo avermelhado e despenteado. Os olhos lembravam os de uma criança perdida.
O que fazes aí, pá? murmurou Miguel, mas acabou por parar.
O cão ergueu a cabeça, olhou-o. Não pedia nada. Apenas olhava.
Deve estar à espera do dono, com certeza, pensou Miguel, continuando o seu caminho.
No entanto, no dia seguinte, lá estava o cão outra vez. E no outro também. Tinha-se tornado parte da paisagem. Miguel começou a notar: as pessoas passavam, alguns atiravam-lhe um pedaço de pão, outros uma fatia de chouriço.
Mas afinal, porque ficas aqui? perguntou Miguel um dia, ajoelhando-se ao lado do animal. Onde estão os teus donos?
O cão aproximou-se com cautela e encostou o focinho à perna de Miguel.
Miguel ficou sem reação. Quando é que tinha sido a última vez que acarinhara alguém? Fazia três anos desde o divórcio. O apartamento permanecia vazio. Só o trabalho, a televisão e o frigorífico lhe faziam companhia.
Ó minha Estrela, sussurrou, sem perceber de onde lhe saiu o nome.
No dia seguinte, levou-lhe salsichas.
Ao fim de uma semana, publicou um anúncio na internet: Cão encontrado. Procura-se dono.
Ninguém respondeu.
Um mês depois, Miguel regressava de um turno longo era engenheiro e, por vezes, passava noites inteiras em obras. Viu uma agitação em frente ao minimercado.
Que se passa? perguntou à Dona Teresa, vizinha de prédio.
O cão foi atropelado. O mesmo que aqui estava há um mês.
O coração de Miguel bateu forte.
Onde está ele?
Levaram-no à clínica veterinária no Largo Luís de Camões. Mas, olhe, pedem lá uma fortuna… E quem é que vai pagar por um rafeiro?
Miguel não vacilou. Virou costas e desatou a correr.
Na clínica, o veterinário abanou a cabeça:
Fraturas, hemorragia interna. O tratamento é caro e nem sabemos se sobreviverá.
Trate-o, respondeu Miguel de imediato. Pago o que for preciso.
Quando ela teve alta, levou-a para casa.
Pela primeira vez em três anos, o apartamento encheu-se de vida.
Tudo mudou. Radicalmente.
Miguel já não acordava ao som do despertador. Era Estrela que, com o focinho, lhe tocava a mão a pedir que se levantasse. Já é hora, patrão. Ele erguia-se sempre de sorriso feito.
Antes, o seu dia começava com café e notícias. Agora, era uma caminhada pelo jardim.
Vamos apanhar ar fresco, menina? dizia, e Estrela abanava a cauda, feliz.
Trataram-lhe dos documentos na clínica. Passaporte, vacinas, tudo em ordem. Agora, Estrela era sua, de forma oficial. Miguel até fotografava cada papel, por precaução.
Os colegas admiravam-se:
Miguel, andas rejuvenescido ou quê? Estás com outro ânimo.
E era verdade sentia-se necessário. Depois de anos, finalmente não era apenas mais um.
Estrela revelou-se esperta. Muito esperta. Percebia-o meia-palavra. Quando Miguel se atrasava no trabalho, ela ficava à porta com aquele olhar transparente: Preocupei-me contigo.
À noite, passeavam durante horas pelo jardim. Miguel falava do trabalho, da vida. Podia parecer estranho, mas ela ouvia com atenção e, por vezes, respondia com um leve ganido.
Sabes, Estrelinha, eu pensava que era mais fácil estar sozinho. Ninguém incomoda, ninguém magoa. Afinal, acariciava-lhe a cabeça. Afinal, era só o medo de voltar a amar alguém.
Os vizinhos habituaram-se aos dois. Dona Teresa, do rés-do-chão, ia sempre guardando um ossinho.
Que linda cadela, dizia ela. Nota-se que é querida.
Passaram-se meses. Miguel pensava até em abrir uma página nas redes sociais. Estrela era fotogénica o pêlo ruivo brilhava ao sol como ouro.
Mas um dia, tudo mudou.
Era um passeio trivial. Estrela farejava arbustos, Miguel sentado num banco a navegar no telemóvel.
Flor! Flor!
Miguel ergueu o olhar. Uma mulher de uns trinta e cinco anos, loira, bem vestida de roupa de marca e maquilhada, aproximava-se.
Estrela encolheu-se, as orelhas para trás.
Desculpe, disse Miguel. Enganou-se. Esta cadela é minha.
A mulher bateu com as mãos nas ancas.
Como minha? Eu sei bem que é a minha Flor! Perdi-a há meio ano!
O quê?
Assim mesmo! Fugiu-me do prédio, procurei-a por todo o lado! E você roubou-a!
Miguel ficou tonto.
Espere. Como escapou? Encontrei-a à porta do minimercado. Estava lá há um mês sem rumo!
Claro, estava lá porque se perdeu! Ela era adorada! Eu e o meu marido comprámo-la de raça!
De raça? Miguel olhou para Estrela. É só uma rafeira.
É mestiça! Muito cara!
Miguel levantou-se. Estrela colou-se-lhe nas pernas.
Está bem. Se é mesmo sua, mostre os documentos.
Que documentos?
Passaporte veterinário. Vacinas. O que quiser.
A mulher hesitou:
Deixei-os em casa. Mas não interessa! Reconheço a Flor! Flor, anda cá!
Estrela não se mexeu.
Flor! Já!
A cadela encolheu-se ainda mais junto a Miguel.
Vê? disse Miguel em voz baixa. Ela não a conhece.
Está só magoada por eu a ter perdido! gritou a mulher. Mas é a minha cadela! Exijo que ma devolva!
Tenho todos os papéis, respondeu Miguel calmamente. Comprovativo da clínica, passaporte, facturas de comida e brinquedos.
Não quero saber! Isso é roubo!
As pessoas começaram a olhar.
Sabe que mais? Miguel sacou do telemóvel. Vamos chamar a polícia.
Chame! resmungou a mulher. Tenho testemunhas!
Que testemunhas?
Os meus vizinhos viram-na fugir!
O coração de Miguel disparou. E se ela tinha razão? E se Estrela era mesmo dela?
Mas então, porque ficara tanto tempo junto ao minimercado, sem procurar o caminho para casa?
E, principalmente, porquê esconder-se agora atrás dele?
Alô? Polícia? Preciso de ajuda aqui…
A mulher sorriu, ácida:
A justiça vai ser feita. Devolva o meu cão!
Estrela continuava encostada a Miguel.
E nesse momento, Miguel soube: ia lutar por ela. Até ao fim.
Porquê? Não era mais só um cão. Estrela era, agora, família.
O agente Borges chegou meia hora depois. Um homem sereno, com ar experiente. Miguel conhecia-o de questões do condomínio.
Então, expliquem lá, pediu, sacando de um bloco.
A mulher falou primeiro, apressada, nervosa:
É a minha cadela! A Flor! Paguei mil euros por ela! Fugiu há meio ano! E este senhor roubou-a!
Não roubei, acolhi, corrigiu Miguel. Estava no minimercado, esfomeada há um mês.
Porque estava lá? Porque se perdeu, claro!
Borges olhou para Estrela, que continuava enroscada a Miguel.
Alguém tem documentos?
Tenho, disse Miguel, tirando da mochila a pasta com todos os papéis da última ida à clínica veterinária.
Aqui está: relatório da clínica, ficou internada após ser atropelada, passaporte em nome meu, todas as vacinas feitas.
O agente examinou os papéis.
A senhora, tem algum documento?
Estão em casa! Não interessa, digo-lhe que é minha!
Pode explicar com detalhes como a perdeu? questionou Borges.
Estava a passear, soltou-se da trela e fugiu. Procurei-a, coloquei anúncios.
Onde a perdeu?
No jardim aqui ao lado.
E onde mora?
No Largo Luís de Camões.
Miguel estremeceu:
Espere. Isso fica a dois quilómetros do minimercado onde a encontrei. Como foi lá parar?
Talvez se tenha perdido! respondeu a mulher.
Os cães normalmente conseguem regressar a casa.
A mulher corou:
O senhor percebe lá alguma coisa de cães!
Percebo, murmurou Miguel. Um cão amado não fica um mês à porta de um supermercado à espera. Procura os seus donos.
Desculpe, intrometeu-se Borges. Disse que colocou anúncios. E porquê não contactou a polícia?
À polícia? Nem pensei nisso.
Meio ano sem procurar a polícia, depois de perder um cão caro?
Achei que ia aparecer sozinha!
Borges franziu o sobrolho:
Posso ver o seu bilhete de identidade?
O quê?
O BI. E já agora, a sua morada.
A mulher remexeu nervosamente na mala.
Aqui está.
Borges conferiu.
Correto, mora mesmo no Largo Luís de Camões, nº 15. Que apartamento?
3º esquerdo.
Obrigado. E a data exata em que se perdeu?
Por volta de 20 de Janeiro.
Miguel olhou o telemóvel:
Eu recolhi a Estrela a 23 de Janeiro. E já lá estava quase há um mês.
Afinal, o abandono era mais antigo.
Se calhar, enganei-me na data! começou a mulher a tremer.
E de repente, quebrou:
Pronto! Que fique com ela! Mas eu adorava-a, a sério!
Silêncio.
Como pôde? perguntou Miguel.
O meu marido quis mudar e, no novo apartamento, não aceitavam animais. Não a consegui vender porque ninguém queria um rafeiro. Deixei-a junto ao minimercado achei que alguém a levava.
Miguel sentiu-se gelar por dentro.
Abandonou-a?
Não abandonei! Deixei-a… achei que alguém seria bom para ela.
Porque a quer de volta?
Os olhos dela encheram-se de lágrimas:
Separámo-nos… Ele foi-se embora. Fiquei sozinha. Apeteceu-me ter a Flor de volta. Eu adorava-a…
Miguel não queria acreditar.
Amar é não abandonar.
Borges fechou o bloco.
Tudo claro. Em papel, o cão pertence ao cidadão… olhou os papéis Martins. Tratou-a, fez registos e sustenta-a. Sem discussão legal.
A mulher choramingou:
Quero-a de volta!
Tarde demais, minha senhora, respondeu Borges. Abandonou-a, perdeu todos os direitos.
Miguel ajoelhou junto de Estrela, abraçou-a:
Pronto, pequenina. Já passou.
Posso ao menos fazer-lhe uma festa? pediu a mulher, em voz embargada.
Miguel olhou para Estrela. Encostou-se ainda mais a ele, com medo.
Vê? Tem medo de si.
Não foi de propósito. Foi a vida.
Sabe, respondeu Miguel a vida faz-se das decisões que tomamos, não de acasos. Decidiu deixá-la. Agora quer tê-la quando lhe convém.
A mulher chorou mais alto:
Eu percebo. Mas sinto-me tão sozinha.
E o que achava que ela sentiu, sozinha à espera um mês?
Silêncio.
Flor, chamou baixinho, pela última vez.
O cão nem pestanejou.
Ela virou costas. Partiu apressada, sem olhar para trás.
Borges deu uma palmada no ombro de Miguel:
Fez bem. Ela está ligada a si.
Obrigado por compreender.
Eu também tenho cães. Sei o que é.
Quando ficou só, Miguel olhou Estrela nos olhos.
Agora ninguém nos separa, prometo.
Estrela olhou-o com um brilho impossível de descrever. Mais forte que gratidão. Amor puro, de quem nunca esquece quem estendeu a mão.
O amor.
Vamos para casa?
Ela saltitava alegre ao seu lado.
No caminho, Miguel pensava: aquela mulher tinha razão numa coisa. As circunstâncias mudam. Podemos perder emprego, casa, dinheiro.
Mas há coisas que não se devem perder: responsabilidade, compaixão, amor.
Em casa, Estrela deitou-se no tapete favorito. Miguel fez chá, sentou-se ao lado.
Sabes, Estrelinha, murmurou ele. Talvez tudo tenha acontecido por uma razão. Agora sabemos, sem dúvida, que precisamos um do outro.
Estrela suspirou, feliz.







