Vou ter de viver convosco por enquanto declarou a minha sogra. O que Leonor respondeu deixou-a sem palavras.
Ouve, Leonor passei nervosamente a mão pelo cabelo a minha mãe está mesmo a passar uma fase difícil.
Difícil como? Leonor sentou-se na poltrona, olhando-me fixamente. Há uma semana ela tinha casa própria, trabalho, até projetos para o futuro. E, num instante, precisa desesperadamente de nós?
Suspirei fundo. Sabia que era inevitável contar toda a verdade. Mas como explicar à minha mulher que a minha mãe voltou a meter-se em sarilhos?
Tudo começou com aquele telefonema fatídico há três dias.
Dona Fernanda ligou-me cedo, num sábado. O tom estava estranho, pouco habitual, meio inseguro:
Rodrigo, filho… aconteceu uma coisa complicada.
O que foi, mãe?
Lembras-te do senhor Manuel Duarte? O meu vizinho?
Fiquei logo em alerta. O Manuel Duarte era aquele reformado aventureiro que, há uns meses, andava a fazer-se à minha mãe. Já tinha avisado que achava o homem duvidoso, mas ela não me quis ouvir.
O que aconteceu com ele?
Era um vigarista a voz dela tremeu. Emprestei-lhe dinheiro. Bastante dinheiro. Com recibo, claro. E agora desapareceu. E o recibo, pelos vistos, não serve de nada.
Senti um frio interior.
Quanto dinheiro, mãe?
Quase todas as minhas poupanças murmurou Dona Fernanda. E ainda pus a casa como garantia. Achei que devolvia rápido, mas agora O banco quer que pague o empréstimo inteiro de imediato e eu não tenho nada.
Mãe, então como foste capaz?
Disse que ia abrir um negócio! Prometeu devolver tudo com juros começou a chorar. Achei que íamos casar, queria ajudar-lhe
Agora acalma-te. E agora, o que vamos fazer?
Já pensei no que fazer, Rodrigo disse, já mais firme. Vendo logo a casa, pago ao banco, depois mudo-me para a vossa casa. Não falta espaço aí, é um T3 grande.
Começou-me a doer a cabeça.
Mãe, mas a casa é da Leonor.
Rodrigo! indignou-se Dona Fernanda. Esqueceste tudo o que fiz por ti? Agora vens dizer que uma conteve-se que a tua mulher pode deixar uma mãe na rua?
Mãe, ninguém te põe na rua.
Ainda bem! respondeu, com voz decidida. Então, está tudo tratado. Já falei com a imobiliária. Quarta-feira está vendido e quinta chegam as minhas coisas. Reservem-me um quarto, não preciso de muito espaço.
Mãe, preciso de conversar com a Leonor.
Conversar sobre quê? a voz dela já vinha dura. Não és o homem da casa? É tua família! O teu dever é cuidar da mãe!
Tecnicamente, a casa é da Leonor tentei explicar.
Ah, então tu vives à conta dela? És um dependente? Que vergonha, Rodrigo!
Não é isso, mãe
Já percebi cortou ela, fria. Amanhã de manhã decido tudo. Vais-me ajudar com a mudança!
Ela desligou.
Olhei para o telemóvel e gemi. Como é que vou explicar isto à Leonor?
Leonor chegou da aula de pilates às sete, bem-disposta, relaxada, com um sorriso. Eu estava na cozinha, claramente com algo grave para dizer.
O que se passou? perguntou logo, pendurando o casaco.
A minha mãe ligou.
O sorriso dela desvaneceu. Nunca tiveram uma relação fácil.
E o que queria?
Teve um problema.
Que problema?
Contei-lhe tudo sobre Manuel Duarte e o esquema. Ela ouviu em silêncio, abanando a cabeça.
Então e agora?
Ela quer mudar-se para cá.
Percebo. Leonor sentou-se à mesa. E tu achas bem?
Acho que não tem outra saída.
Não? Leonor ergueu as sobrancelhas. E alugar casa? E ficar com família? E apoio social para idosos?
Leonor, é a minha mãe.
E por isso pode mandar na nossa vida? Leonor inclinou-se para trás. Rodrigo, faz-me um favor e admite: a tua mãe não me suporta. Em quatro anos de casamento sempre me fez sentir que sou uma esposa inútil.
Assenti. Era verdade e não valia a pena negar.
Lembras o que disse no aniversário da Vera? continuou Leonor. Uma boa dona de casa faz os rissóis ela própria, nunca compra feitos. Isto depois de eu chegar do trabalho às nove da noite!
Não foi por mal.
Achas? Leonor soltou um riso amargo. E as insinuações sobre mulher de verdade tem filhos logo nos dois primeiros anos? E a mania de mexer nas minhas coisas e pôr no sítio certo?
Massageei a testa. Tantas pequenas coisas, que juntas davam uma imagem pesada.
Leonor, ela é assim. Gosta de mandar.
Pois é! Leonor levantou-se. E queres que mande cá em casa? Na nossa vida?
Mas para onde vai?
É adulta. Que arranje solução para o que fez disse firme. Vai ter dinheiro da venda da casa, que alugue. Ou compre uma mais pequena.
Não vai sobrar quase nada, mãe tem que pagar ao banco.
Então que procure apoio social. Ou um part-time. Aos setenta ainda há quem trabalhe.
Leonor, estás a ser dura.
Não disse com convicção. Não aceito viver sob o mesmo teto com alguém que me menospreza. Não é por ser a minha casa. É porque não vou transformar o nosso lar num campo de guerra.
Talvez só temporário? tentei. Até ela arranjar outra coisa?
Temporário? Leonor olhou-me com pena. Achas mesmo que ela vai procurar alternativa? Ela criou esta situação para não ter escolha.
Achas que foi intenção dela?
E tu achas? Leonor encostou-se à janela. Uma mulher de setenta anos que sempre foi contabilista não percebe que não se empresta poupanças a um estranho? Ela foi esperta queria era mudar-se para cá!
Fiquei em silêncio. No fundo, sabia que talvez Leonor tivesse razão.
Rodrigo disse suavemente, voltando-se para mim Amo-te. Mas não permito que ninguém, nem tua mãe, destrua o nosso casamento.
Abracei-a.
O que faço então?
O que cabe a um homem adulto respondeu. Explica que tens família. Que a amas, mas que tens que viver por ti.
Não vai perceber.
Se não quiser perceber, é problema dela.
No dia seguinte telefonei à minha mãe. Conversa difícil.
Como assim não estão prontos? Dona Fernanda indignou-se. Já vendi a casa!
Mãe, podemos ajudar com dinheiro. Ajudar-te a encontrar casa, pagar os primeiros meses
Dinheiro? disse ela, desdenhosa. Eu tenho filho e família! Que faço com ajuda de estranhos?
Não são estranhos, mãe. Sou eu.
Tua decisão? o tom dela ferido. Dei-te toda a vida! E é isto que recebo?
Mãe, agradeço-te muito. Mas sou adulto. Tenho família.
Família? gritou Dona Fernanda. A família sou eu!
Chega, mãe.
Chega? a voz gelou. Fizeste a tua escolha. Vive como quiseres. Quando precisares, nem te atendo o telefone!
Desligou.
Contei tudo à Leonor.
Disse que a traí suspirei.
Só está a tentar manipular respondeu Leonor, calma. Vai passar. Sabes, depois do meu pai falecer, a minha mãe também quis vir para cá. Ficou ofendida quando disse não. Hoje agradece tem a vida dela, os amigos dela.
E se ficar mesmo doente?
Ajudamos, claro. Mas não significa viver connosco.
Passou uma semana tensa. A minha mãe não dava notícias. Depois, ligou-me a minha irmã, Teresa.
Rodrigo disse aflita mãe está no hospital. Teve um enfarte.
O quê?! Como foi?
Os médicos dizem que foi stress. Estava nervosa com a casa e depois a discussão contigo.
Senti-me culpado.
Como está ela?
Deitada, cheia de queixas. Só quer saber de ti. Diz que só terás pena quando eu morrer.
Teresa
Eu sei que está a exagerar disse cansada. Mas preocupa-me.
Ao fim do dia contei tudo à Leonor.
Vamos vê-la sugeriu subitamente.
A sério?
Claro. Assim ela sabe que nos interessa.
No hospital, Dona Fernanda parecia frágil e pequena. Quando nos viu, virou-se para a parede.
Mãe disse baixinho. Estás melhor?
Agora interessa-te? resmungou, sem se virar.
Dona Fernanda Leonor interveio. Falamos um pouco?
A minha mãe voltou-se devagar:
Falar de quê?
Da situação difícil em que está. E de como podemos ajudar. Não do modo que quer, mas como podemos.
Não quero pena de ninguém.
Não é pena respondeu Leonor, com paciência. É carinho. Ajudamos a encontrar boa casa. Pagamos a renda. Visitamos. Convidamos para almoços. Mas morar todos juntos não dá.
Porquê? perguntou Dona Fernanda, sem agressividade.
Porque precisamos do nosso espaço. E você, também. Sempre teve a sua casa, os seus horários.
E se eu piorar?
Vamos. A qualquer hora. Mas não precisamos de viver juntos.
Ela ficou calada, depois perguntou baixinho:
Vão mesmo ajudar a encontrar boa casa?
Claro acenou Leonor.
E vêm visitar?
Sempre. E convidada para festas. É avó dos nossos futuros filhos.
Os olhos da Dona Fernanda brilharam:
Futuros filhos?
Estamos a pensar nisso sorriu Leonor.
Pensei que já nem queriam saber de mim.
Claro que queremos.
Um mês depois ajudámos Dona Fernanda a arrendar um T2 acolhedor junto ao Jardim da Estrela, em Lisboa. Ajudámos a instalar-se, apresentar-se aos vizinhos. Inscreveu-se num clube de costura, fez amizade com outra senhora reformada cheia de energia.
Passou a ir lá a casa todas as semanas. E quando, um ano depois, Leonor teve a nossa filha, Dona Fernanda foi a melhor avó do mundo.
Sabes disse um dia à Leonor ainda bem que não aceitou que eu fosse morar convosco. Perdia tudo o que hoje tenho. Agora até tenho novas paixões e amigas!
Leonor sorriu:
Fizemos bem.
Enquanto embalava a minha filha, pensei como é importante saber dizer não até a quem mais amamos. Às vezes, esse não salva o amor.
Aprendi que proteger a nossa família imediata não é falta de generosidade, é maturidade. Só assim há espaço para cuidar de todos, sem perder quem somos.






