Eu quero tanto voltar para casa, meu filho
António saiu de mansinho para a varanda, acendeu um cigarro Português e sentou-se num banco baixo de madeira. Um nó amargo subiu à garganta, tentou recompor-se, mas as mãos traíam-no, tremendo como folhas ao vento de outono. Nunca imaginara António que chegaria o dia em que não teria lugar na própria casa
Pai! Não fiques chateado nem faças dramas! irrompeu de repente Leonor, a filha mais velha de António. Eu nem te peço quase nada… Basta deixares o teu quarto para nós! Se não te comovem os meus pedidos, pensa nos teus netos. Eles vão entrar na escola e ainda vivem todos apertados connosco no mesmo espaço…
Leonor, não vou para o lar respondeu o velho, calmo e sereno. Se vocês não cabem aqui, então que tal irem viver para a casa da mãe do Mário? Ela mora sozinha num T3, têm espaço para os miúdos e para ti.
Tu sabes que eu e ela nunca nos conseguimos entender! gritou a filha, batendo a porta da varanda com força.
António fez uma festinha ao velho cão, Fado, que durante anos foi fiel companheiro dele e da mulher. Ao pensar em sua querida Matilde, António deixou cair as lágrimas. Sempre que a recordava, os olhos enchiam-se de saudade. Matilde partiu cinco anos antes, deixando-lhe um tipo de orfandade absoluto. Foram juntos a vida inteira, como poderia ele suspeitar que, mesmo rodeado pela filha e netos, o esperava uma solidão tão dura?
Leonor foi criada com amor e bondade, António e a esposa esforçaram-se para lhe incutir os melhores valores. Mas algo falhou no caminho. A filha tornou-se fria, egoísta, sem piedade no olhar.
Fado gemeu baixinho e deitou-se aos pés do dono, sentindo o desespero e a tristeza que lhe toldavam a alma. O cão sofria também, porque António sofria.
Avô! Já não gostas de nós? entrou pela sala o neto, com oito anos.
Quem te disse tal disparate, rapaz? espantou-se António.
Então porque não queres mudar-te e deixar o quarto para mim e para o Manel? Porquê tanta mesquinhez? o miúdo olhava-o com desprezo e raiva.
António quis explicar, mas percebeu que era Leonor a semear aquelas palavras. Ela já tinha tempo de o manipular.
Está bem. Eu vou embora disse António, num tom apagado. Fica o quarto para vocês.
Não suportava mais aquela atmosfera. Via em cada canto o desprezo de toda a casa do genro, que há muito não lhe dirigia a palavra, até ao neto, convencido pela mãe de que o avô lhe roubara o quarto.
Pai! É mesmo verdade? entrou Leonor, radiante.
Sim respondeu António, baixinho. Promete-me só que não maltratas o Fado. Sinto-me traidor…
Ora essa! Nós cuidamos dele, passeamos todos os dias. Ao fim de semana, visitamos-te com o Fado prometeu a filha. Escolhi para ti o melhor lar, vais ver, vais gostar.
Passados dois dias, António foi para o lar de idosos. Descobriu que Leonor já havia tratado de tudo e só esperava pela rendição do pai. Ao entrar no quarto abafado, a cheirar a mofo e ácaros, António arrependeu-se imediatamente. Leonor mentira sobre as maravilhas do local. Não era lar privado, mas sim um lar público, absoluto na sua pobreza e tristeza.
Arrumando a roupa, desceu para o jardim. Sentou-se num banco e quase chorou. Viu os outros velhos, perdidos no silêncio, e imaginou que aquele destino o esperava.
É novo aqui? perguntou uma senhora amigável, sentando-se a seu lado.
Sou sim… suspirou António.
Não desespere. Eu, no início, também chorava todo o dia. Mas aprende-se. Chamo-me Benedita.
António respondeu o homem. Também foi a família que a deixou cá?
Foi o sobrinho. Deus não me deu filhos. Deixei-lhe o apartamento, mas apressou-se Tomou conta de tudo e mandou-me para cá. Ao menos não estou na rua.
Conversaram até ao fim do dia, partilhando memórias da juventude, dos amores perdidos. E no dia seguinte, logo após o pequeno almoço, foram passear outra vez.
Benedita trouxe algum consolo à vida de António. Ele mal conseguia permanecer no quarto, preferindo o jardim para descansar a alma. A comida da cantina era péssima, comia só o essencial para sobreviver.
António esperava a filha. Sonhava que Leonor se arrependia, ficava cheia de saudades, e o levava de volta a casa. Mas o tempo passava e ela não aparecia. Um dia, decidiu telefonar para saber de Fado, mas ninguém atendeu.
Numa tarde, viu junto ao portão o vizinho Joaquim. O rapaz quis falar com ele.
Ena! Então é aqui que está! disse Joaquim. Porque é que a Leonor disse que foste viver para o campo? Não me cheirou bem. E o teu Fado? Vi-o sentado junto ao prédio, à tua espera. Fui perguntar a Leonor, ela disse que te mudaste para o campo, que vai vender a casa e mudar-se. Quanto ao cão, que já está velho e não querem tratar dele António, o que se passa?
António explicou tudo, dizendo que faria tudo para voltar atrás, que a filha o afastara da própria casa e por cima pôs Fado na rua.
Quero muito voltar para casa, meu filho… sussurrou António.
Ora, eu sou advogado. Ajudo muita gente idosa nestas situações. Vamos resolver isto! Não estás legalmente fora da casa, pois não?
Não A não ser que a Leonor trate de tudo sozinha. Já nem sei o que esperar.
Então prepara as tuas coisas, espero por ti no carro disse Joaquim. Isto não pode ser! Ela não tem esse direito.
António subiu, arrumou a roupa à pressa e desceu. Encontrou Benedita à porta.
Benedita, tenho de ir. O meu vizinho diz que a filha vende a casa e pôs o Fado fora. Vê só
Que coisa horrível E eu?
Não te preocupes. Assim que resolver tudo, venho buscar-te prometeu António.
Dizias tu Quem é que vai querer saber de mim? murmurou ela, magoada.
Tem calma. Não fiques triste, eu cumpro o prometido.
António não conseguiu voltar à sua casa. A porta estava trancada, não tinha chaves. Joaquim levou-o para casa dele. Souberam que Leonor já não vivia ali, estava instalada com a sogra, e arrendara a casa a desconhecidos.
Com a ajuda de Joaquim, António recuperou o direito ao lar.
Só posso agradecer disse António. Mas o que faço agora? Ela não vai desistir até me tirar tudo…
Só há uma solução garantiu Joaquim. Vendes a casa, dás uma parte à Leonor e com o resto compras uma casinha na aldeia.
Que maravilha! António sorriu. É perfeito.
Três meses depois, António mudava-se para o novo lar, uma casinha rústica na serra. Joaquim ajudou-o em tudo, até levou Fado consigo.
Mas primeiro temos de ir a um sítio pediu António.
De longe avistou Benedita, sentada no banco deles, a olhar perdida para o horizonte.
Benedita! chamou. Eu e Fado viemos aqui por ti. Agora temos casa nova na aldeia! Ar puro, pesca, amoras, cogumelos, tudo por perto. Vamos?
Mas como vou eu? gaguejou a mulher.
Só tens de levantar-te e vir connosco! riu António. Anda! Aqui não temos nada para fazer…
Esperas dez minutos? chorava, sorrindo Benedita.
Claro que sim! António sorriu.
Contra todas as maldades, os dois conseguiram proteger o próprio direito à felicidade. Cada um deles entendeu que ainda há gente boa no mundo e, apesar de tudo, são em maior número que os maus. António e Benedita descobriram isso pelo próprio caminho. Conseguiram lutar até ao fim, e finalmente encontraram paz e alegria na vidaBenedita deu meia volta, despediu-se dos rostos que conhecera e, com passos vacilantes, segurou na mão de António. Fado saltou feliz à frente, como se soubesse que a liberdade afinal é possível.
No caminho até à aldeia, Benedita emocionou-se com a luz dourada entre as árvores, com o cheiro a terra e a promessa de um lugar só deles. António parou várias vezes para mostrar-lhe cantos antigos, as ruínas de um moinho, o riacho onde sonhara em menino.
Na porta da pequena casa, António entregou-lhe uma chave.
Agora somos vizinhos, companheiros, família disse ele, com a voz trémula, mas cheia de esperança.
Benedita abraçou-o. O futuro não era uma repetição de perdas, mas um convite a recomeçar. Os dias seguiram tranquilos: Fado dormia no sol, António inventava receitas com amoras, Benedita plantava flores e, aos domingos, Joaquim trazia pão fresco e ria das histórias velhas.
Certa tarde, sentados à sombra da figueira, Benedita olhou para António e, devagarinho, murmurou:
Afinal, nunca é tarde para voltar para casa.
António sorriu, sentindo que ali, rodeado pela paz e amizade, podia enfim repousar o coração. O passado magoava, mas a esperança era sólida como pedra. E naquele fim de tarde, a aldeia ganhou dois habitantes novos e uma ternura que ninguém mais podia tirar.






