Ó Tiago, preciso que me ajudes com o presente para a mãe.
Beatriz pousou o telemóvel em cima da mesa e virou-se para o marido, que estava estendido no sofá, com o comando da televisão dependurado na mão. Tiago mudava de canal devagar, os olhos colados ao ecrã, como quem espera que algo mude por magia.
Mas que presente? perguntou, sem tirar os olhos da TV.
Um fogão, daqueles bons. Daqui a duas semanas faz anos, já te esqueceste?
Tiago lá se dignou a encarar Beatriz. Foi um segundo de incerteza, logo varrido por aquele sorriso cansado de quem quer evitar problemas.
O antigo ainda funciona, não? Parece-me impecável.
Beatriz sentou-se no braço do sofá, ajeitando as pregas do robe cor de malva, como se o tecido pudesse alinhar as ideias.
Viste tu próprio, da última vez: o forno mal aquece, duas bocas mortas. A mãe está sempre a queixar-se… diz que os bolos já não saem como antes. Para ela, isto é mesmo importante. Sabes disso.
Dona Conceição era obcecada por pastéis e massas. Toda a casa cheirava a baunilha e canela, com tabuleiros de broas a arrefecer na varanda, e vizinhas a bater à porta só para beber um chazinho, certas de que nunca sairiam mãos a abanar. O fogão velho, comprado no tempo das escudos, parecia suspenso entre o mundo dos vivos e o dos objetos perdidos no tempo.
Está bem…, disse Tiago, tornando-se um pouco mais sério. Achas que faço o quê?
Escolhe um modelo decente. Tu percebes dessas máquinas, eu não tenho tempo para ir ver nada. Vais ao centro, vês as opções, tratas de tudo.
Beatriz puxa o porta-moedas e oferece-lhe um cartão reluzente, azul-escuro como o mar da Nazaré de inverno.
Já cá está o meu extra do trabalho: três mil e duzentos euros. Chega para um bom?
Tiago pega no cartão, roda-o entre os dedos. Faz um esgar resignado.
Chega à vontade. Não te preocupes, eu trato de tudo.
Beatriz assentiu, um gesto curto de confiança construída ao longo de seis anos de casamento. Tiago era mestre em negociar, arranjar promoções e bónus, sabia mexer-se Nisso, ninguém lhe tirava o chapéu.
E não deixes para o último dia. Quero garantir que chega a tempo.
Fica descansada, murmurou Tiago, metendo o cartão num bolso dos calções e voltando-se para a televisão.
Passou-se uma semana. Beatriz vinha de regresso da escola, entalada entre estranhos no autocarro apinhado, quando decide abrir a app do banco no telemóvel.
Movimento: 3 200 euros
Sorriu, só um instante. Tiago cumpriu. Uma quantia destas garantia um fogão dos bons, talvez já com grill, com temporizador, porta de correr tudo aquilo com que Dona Conceição sonhava. Ela podia finalmente fazer os seus napoleões sem o terror de ver o forno falhar no meio da receita.
Viu na mente o rosto da mãe ao receber o presente. As ruguinhas vão juntar-se nos olhos, um sorriso quase infantil vai apoderar-se dela, e logo a seguir ouvir-se-á o clássico Ó filhos, mas para quê gastar tanto dinheiro?! E já está a planear que bolo vai estrear primeiro.
Uma boa máquina é um investimento para décadas. Beatriz lembrava como a avó falava do seu Lisboa, que durou trinta anos sem avaria. Agora tudo é diferente, mas se não se poupar na qualidade, dura
O aniversário chegou num sábado, céu cinzento de Lisboa. Beatriz fazia um ramalhete na cozinha, embrulhava pequenas surpresas, enquanto Tiago vagueava pela casa, sempre a olhar o relógio.
Não te esqueças do envelope, avisou Beatriz, apertando as botas. Puseste lá os papéis do fogão?
Tudo pronto, está no bolso interior da jaqueta.
Chegaram a casa de Dona Conceição ao meio-dia. Cheiro a bolo quente por todo o T2, mesmo com a teimosia do fogão antigo ela lá se desenrascou. Parentes enchiam o hall, copos tilintavam, risos abafados espalhavam-se pela sala.
Beatriz abraçou a mãe com força.
Parabéns, mãezinha. É para ti.
Deu-lhe o envelope creme, sem nunca o abrir. Tiago organizou tudo, era só entregar.
Dona Conceição sorriu, num ar de ternura e surpresa.
Ó meninas, não sabem parar! Destapou com cuidado o envelope, um brilho de esperança nos olhos.
Beatriz olhou, enternecida. Uns segundos suspensos, e de repente a expressão da mãe mudou, de sorriso para confusão.
Isto o quê?
Beatriz aproximou-se, espreitou por cima do ombro.
Um vale de loja de cosméticos, no valor de cem euros.
Tiago! virou-se para ele, apanhando-o já quase na porta. Mas isto?
Eh, pá, há cremes lá ótimos deixei de lado o fogão…
O fogão?!
Tiago escapou para a varanda, fechando-se num impulso desconcertante.
Beatriz correu atrás dele. Abriu a porta com tal força que as janelas estremeceram.
Explica-me tudo. Agora!
Tiago encolheu-se contra o gradeamento.
Ó Bea, a Leonor anda estafada, precisava de descansar… Não consegui…
Descansar? Que Leonor? O olhar de Beatriz queimava. Eu dei-te dinheiro para a minha mãe!
Apareceu uma promoção de última hora. Três mil euros, férias no Algarve, tudo incluído Ia perder-se. Sabes como é.
Beatriz desembainhou o telemóvel do bolso de Tiago antes que ele se mexesse. Deslizou no ecrã e abriu o chat. Mensagens de uma agência de viagens, datas, montantes, emojis de corações enviados por Leonor.
Mano, és o melhor! Obrigada! Vou sexta-feira!!!
Ergueu os olhos para Tiago, que parecia agora encolher-se até ao chão.
Ligou para a agência, a voz tensa. Dois toques.
Boa tarde, Agência Horizonte, falo com a Margarida, em que posso ajudar?
Boa tarde. Reserva em nome de Leonor Vieira, Algarve, partida sexta. Quero cancelar.
Pode identificar-se?
Sou titular do cartão usado para pagar. O débito só foi feito por engano.
Tiago tentou intervir, mas Beatriz travou-o com um gesto seco.
Um momento, disse a funcionária. Já vi a reserva. Neste caso terá de vir ao escritório. O reembolso ocorre em dez dias úteis.
Obrigada, vou amanhã.
Desligou e atirou-lhe o telefone.
Bea, vá lá, não sejas exagerada. Podemos conversar
Mas Beatriz saiu. Passou pela sala, onde a família já fingia não ouvir, e abordou a mãe, que ainda agarrava o vale desgraçado.
Mãezinha, vamos. Vais ter o teu presente.
Dona Conceição não protestou. Vestiu o casaco, pegou na carteira e seguiu a filha, esquecendo todas as visitas.
Na loja de eletrodomésticos, cheiro a plástico novo, engenhocas a piscar. O funcionário, Pedro, sorria enquanto apresentava modelos.
Esta é a melhor, Pedro apontou para um fogão branco, elegante. No ponto para bolos. Aquecimento uniforme, temporizador, grill embutido, ventoinha.
Dona Conceição passou os dedos na superfície de porcelana.
Que coisa linda murmurou.
É este, disse Beatriz. Entregam amanhã de manhã?
Sim, das nove ao meio-dia.
Em quinze minutos, estava tudo resolvido. Dona Conceição não falou no caminho, só no patamar agarrou o braço da filha:
Beatrizinha, obrigada, filha. Mas fico preocupada contigo.
Não te preocupes, mãe.
Ele Tiago Vocês
Beatriz abraçou-a com força.
Eu vou resolver. Hoje é para ti. Parabéns.
Voltou para casa já noite cerrada. Tiago estava à espera, numa penumbra silenciosa.
Precisamos conversar tentou ele, levantando-se.
Beatriz passou ao lado, abriu o armário e começou metodicamente a pôr as roupas dele numa mala.
O que fazes? Bea, para! Só quis ajudar a minha irmã, ela estava a cair de cansaço, era a última oportunidade!
Calças, camisas, t-shirts, tudo empilhado.
Vais deitar tudo fora por um fogão? És tu que destróis a nossa família!
Beatriz parou, virou-se, olhos duros.
Confiei-te dinheiro do meu esforço. Era presente para a minha mãe. Gastaste tudo na tua irmã!
Não gastei tentou Tiago.
Nem perguntaste. Decidiste sozinho! E mentiste!
Tiago tentou aproximar-se, suplicante. Beatriz pegou no seu casaco como quem ergue um escudo.
Não te chegues!
A Leonor estava em baixo, percebes?
Vai-te embora.
Um mês depois, Beatriz estava sentada à mesa da cozinha de Dona Conceição. O fogão branco brilhava, o forno operava a todo vapor, enchendo tudo de aroma a pão-de-ló.
Olha, inscrevi-me em cursos de pastelaria! Dona Conceição radiante. A vizinha Goreti recomendou, é um chef francês de verdade!
Beatriz provou o bolo. O creme derretia na boca.
Está divino, mãe. Perfeito.
O divórcio foi rápido, limpo, sem dramas. Tiago nunca percebeu por que não o perdoou. Leonor foi, ou não foi ao Algarve, Beatriz não quis saber.
Só via a mãe, feliz e entregue à nova paixão, junto ao fogão novo na luz da tarde, num lar sem mentiras nem traições sem alguém que tratasse confiança e dinheiro como se fossem só traços de lápis num papel.
Beatriz sorriu e serviu-se de outra fatia de bolo. Porque não? No sonho, podia tudo.







