Marido coloca ultimato: “Ou eu, ou os teus gatos”. Ajudei-o a fazer as malas e mostrou-lhe a porta – A história de Olga, os seus felinos e o adeus a um homem que nunca foi família

O meu querido pôs-me um ultimato: ou eu, ou os teus gatos. E olha, fui ajudá-lo a fazer as malas.

De novo pêlo! Olha só para este casaco, Matilde! Fui ontem buscá-lo à lavandaria, hoje já parece que dormi num gatil! Isto assim não dá!

O Tomás já falava com aquela irritação aguda que lhe dava há meses, por tudo e por nada. Eu estava na cozinha, a virar as panquecas, e dei um suspiro, desliguei o fogão e virei-me para ele. No corredor, o Tomás segurava o blazer azul como se fosse tóxico e mostrava, triunfante, uns fios brancos fininhos.

Oh Tomás, para quê tanto barulho? disse, calmamente, limpando as mãos ao avental. Já te pedi para não deixares o casaco na cadeira da sala, sabes que o Nero adora lá dormir. Vai logo para o roupeiro, ficas livre dos pelos. Dá cá, que eu limpo.

Peguei no rolinho da roupa que temos sempre na entrada, passei umas quantas vezes, e o casaco ficou novo em folha. Mas a cara dele nem por isso. Puxou a manga com nojo, como se eu lhe tivesse feito algum mal.

Não tem a ver com o roupeiro, Matilde! Tem a ver é com estes teus bichos. Não consigo relaxar em casa, está tudo cheio de pêlo, se não tropeço numa taça, é num arranhador. A nossa casa virou um zoo!

Guardei silêncio, engolindo aquela mágoa pesada que já conhecia tão bem. Nossa casa. Pois sim. O apartamento um T3 brutal, de pé direito alto, herança da avó era meu, e já era assim antes do Tomás aparecer na minha vida. Há cinco anos chegou com uma mala e um portátil. No namoro nunca lhe fez impressão terem gato: o Nero, gordo e cinzento, e a tímida de três cores, a Nina. Até dizia que os bichos traziam calor ao lar, fazia festas ao Nero, todo contente.

Mas o pós-lua-de-mel foi um reality check. O Tomás afinal era obcecado por limpeza, gostava de ter as atenções todas e zero paciência para partilhar espaço nem que fosse com animais.

Tomás, são só dois gatos lembrei eu, indo fazer-lhe café. E já cá estavam antes de ti. Fazem parte da família.

Família? bufou, sentando-se à mesa. São bichos, Matilde. Chupam dinheiro, dormem o dia todo. E já viste quanto gastas em ração? Vi ontem o talão em cima da mesa: noventa euros! Noventa! Só para os teus gatos! A mim dizes sempre que temos de poupar para férias.

É ração própria, o Nero está com problemas nos rins, sabes disso deitei-lhe o café. Pago isso com o meu ordenado, não te tiro nada.

O dinheiro é dos dois! gritou ele, batendo na mesa com força, a colher tilintou na chávena. Se gastas o teu nos gatos, então sobra menos para a casa, tenho eu de ir comprar carne, legumes. É matemática simples, Matilde!

Olhei para ele e custava-me acreditar que fosse o mesmo homem que era galante, que me dava flores, lia-me poesia. Agora via à minha frente um resmungão, sempre a apontar o dedo. Eu sabia que as coisas no trabalho dele andavam mal o departamento ia fechar mas quem pagava era eu, e, claro, os gatos.

Foi aí que entrou o Nero, pachorrento, olhos verdes, encostou-se às pernas, miou baixinho.

Sai daqui! berrou o Tomás, dando um pontapé no chão.

O gato, assustado, escapou a correr, mas prendeu a unha nas calças do Tomás e fez-se um buraco.

Por segundos só se ouviu o silêncio. O Tomás ficou a olhar o rasgão nos calções, cara vermelha de raiva.

Pronto, chega! sibilou, gelado. Isto foi a gota dágua.

Saltou da cadeira, chair passou a voar.

Aguentei cinco anos! Aguentei pêlo na sopa, cheiro do caixote, barulho à noite. Mas estragarem-me as roupas?! Matilde, ou eu ou eles.

Fiquei ali parada. O Nero desatou a esconder-se debaixo do sofá, e a Nina, que estava a dormir no parapeito, acordou logo.

O que queres dizer com isso, Tomás? perguntei, quase sem voz.

Ou eu, ou esses animais disse, cravando os olhos nos meus. Dou-te até à noite para decidires. Quando voltar do trabalho, não quero cá gatos. Dá-os à tua mãe, põe-nos na rua, para mim é igual. Eu recuso-me a partilhar casa com gatos. Sou homem, e exijo respeito!

Estás a falar a sério? Estás-me a dar um ultimato? Por causa das calças?

Não é só as calças! É a tua atitude! Gostas mais desses gatos do que de mim. Prova que não é verdade. Logo à noite quero ver.

Pegou na pasta, deixou o café a meio e bateu com a porta. O barulho do calendário a cair da parede ecoou pela casa.

Fiquei de pé no meio da cozinha, cabeça a zunir. Pus o calendário de volta. Sentei-me e chorei. Não foi por ele, foi pela injustiça e impotência. Como é que alguém pode exigir que se abandone um animal velho e doente? O Nero tem 12 anos, precisa de cuidados. A Nina, tão medricas, na rua não durava um dia.

O Nero apareceu passado um bocado, espreitou, viu que já não havia gritos, veio ter comigo, subiu-me para o colo, ronronou, forte, como quem diz: calma, estou aqui. Afundei a cara no pelo dele.

Vosso ninguém vos tira murmurava eu. Que disparate.

O resto do dia foi um vago, não me concentrei em nada. Liguei ao escritório, tirei o dia de baixa, inventando que estava mal disposta. Fui de divisão em divisão, sem conseguir pensar noutra coisa.

Lembrei-me de quando o Tomás, há uns meses, deu pontapé à Nina, e depois disse que nem a tinha visto. Lembrei-me de como passou a proibir os gatos no quarto, a fechar a porta, e eles ficavam ali a pedir, sem entender. Lembrei-me das discussões por dinheiro, quando se eu também pagava contas, e a casa era minha.

Por volta do almoço, de repente, tudo ficou claro. O ultimato do Tomás não era só um ataque de zanga. Era o teste final. Quem é capaz de te pôr a escolher entre lealdade e egoísmo… amanhã seriam os gatos, depois a minha mãe, um dia, eu própria, se ficasse doente. Não se faz.

Olhei para o relógio. Eram quatro da tarde, ele chegava às sete. Tinha tempo.

Fui ao quarto, abri o roupeiro e resgatei a mala de viagem grande das férias na Madeira. Tirei-lhe o pó, abri o fecho, ficou à espera.

Fui empacotando as coisas dele com método. Fatos, calças, camisas. Depois camisolas, jeans.

Ao dobrar a roupa, hesitei. Estava a fazer bem? Era só uma crise? Mas lembrei-me da frieza dele de manhã: parasitas inúteis. Não, não há volta a dar. Quem quer mandar, não quer amar.

Mesmo a acabar, bateram à porta. Fiquei tensa, mas não podia ser ele tem chave. Era a vizinha, dona Alice.

Olá, Matilde, tudo bem? Olha, vi o teu Tomás a sair disparado de manhã, pensei que tinha havido confusão. Está tudo bem?

Está sim, dona Alice, estamos só a acertar umas coisas em casa.

Pronto, pronto. Se precisares desabafar, aparece. Fiz um bolo, passa depois.

Voltei às malas. No fim, estavam duas no corredor e uma sacola do ginásio. Pegos pessoais da casa de banho, sapatos. Espreitei à volta parecia tudo maior, mas ao mesmo tempo mais vazio. Ou, na verdade, mais limpo.

Fiz-me um chá de lúcia-lima, enchi a taça dos gatos, sentei-me na sala. O Nero ficou aos meus pés e a Nina veio para o braço do sofá.

Às 19h15, ouvi o ruído da chave. Fiquei onde estava. Ele entrou, respirando fundo (vá-se lá saber o elevador devia estar estragado).

Então? Já escolheste? Onde estão as pestes dos gatos? Espero que tenham ido para o contentor.

Veio para a sala, sem sequer se descalçar e congelou.

Matilde, não percebi. Estás parva? Eu disse-te: escolhe ou eu, ou eles. Queres arranjar chatices?

Ouvi-te perfeitamente, Tomás. E já escolhi.

Onde está o teu escolhido? Porque é que os bichos ainda cá estão?

Porque esta é a casa deles. O teu lugar está no corredor.

Tomás ficou branco, foi até ao hall, tropeçou nas malas.

Mas mas tu arrumaste-me as coisas?! Vais pôr-me na rua por causa de gatos?!

Não é pelos gatos, Tomás. É por teres achado que tinhas o direito de mandar em mim. Quem ama não põe condições. Quem ama, resolve. Tu só querias mandar, controlar, vencer. Não resulta.

Estás doida! começou a berrar, agitando os braços. Acabas de fazer quarenta anos, quem te vai querer com esse extra de gatos? Eu aturei-te, sustentei-te! Vais arrepender-te, vais rastejar para eu voltar, tu sozinha não te aguentas!

O apartamento é meu, tenho trabalho, pago as minhas contas enumerei eu. Não preciso de ninguém que me trate mal. Finalmente vou poder descansar.

Ele lançou-se na minha direção, mas o Nero, pela primeira vez na vida, fez um arqueado de costas e rosnou tão forte que o Tomás parou em seco.

Podes ir, Tomás. Fecha a porta, ok?

Saiu disparado, ainda me perguntou pelo portátil (está na mala), pelos documentos (na pasta, por cima). Ainda resmungou qualquer coisa com as malas no corredor, como se à espera que eu recuasse ou implorasse. Mas nem me mexi.

Por fim, a porta de entrada fechou-se. Desta vez mesmo a sério. O silêncio ficou na casa toda. Só se ouviu o rodar das rodas da mala pelo soalho.

Fiquei sentada, à espera de sentir angústia ou solidão. Em vez disso senti alívio. Como quem tira uma mochila cheia de pedras das costas, depois de uma caminhada.

O Nero veio de novo, meteu a cabeça debaixo das minhas mãos. Fiz-lhe festas.

É isso, meu herói, não se volta a ouvir maus espíritos.

A Nina, mais valente, saltou-me para o colo e adormeceu ali.

Passou uma hora e o telemóvel tocou Amor no visor. Carreguei logo em bloquear, mudei para Tomás Ex, depois até apaguei o número.

Fui à cozinha, abri uma garrafa de vinho verde que tinha guardada desde Natal, fiz uma tosta com queijo. Senti-me serena. Sabia bem que os dramas iam recomeçar ele a ligar, a fazer cenas, a querer brigar por coisas das quais nem sequer era dono. Mas isso deixava para amanhã.

Hoje era o meu lar. Onde podia pendurar o casaco onde quisesse, onde não tinha de ter medo de estragar nada, onde ninguém dava pontapés em gatos a pedir mimo.

Tocaram de novo à campainha. Era toquezinho leve, nada daquele alarde do Tomás.

Abri. Lá estava a dona Alice, com um prato tapado.

Matilde, trouxe-te aqui um bolo de couve à moda antiga. Ouvi o barulho das malas. Foi ele de viagem?

Olhei para a vizinha, cheirei o bolo caseiro, voltei-me para os gatos curiosos à porta.

Não foi viagem, não, dona Alice. Mudou-se de vez. Entre, vamos lanchar. Agora já há silêncio nesta casa.

A noite passou bem. Chá, bolinho, gatos a ronronar. E pela primeira vez em anos senti-me completa. Percebi que solidão não é estar sozinha com gatos. Solidão é viver ao lado de alguém que não te respeita, e ter de trair quem tu és para merecer um sorriso.

E os gatos? No dia seguinte marquei banho e tosquia para eles. Ao menos ficam bonitos. Bem merecem: foram eles que me ajudaram a livrar do lixo maior da minha vida.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

five + 7 =

Marido coloca ultimato: “Ou eu, ou os teus gatos”. Ajudei-o a fazer as malas e mostrou-lhe a porta – A história de Olga, os seus felinos e o adeus a um homem que nunca foi família
Prítomnosť manželovho brata priniesla do ich domu chaos a napätie, čo nakoniec vyústilo do tragického incidentu.