Assinaturas no Prédio: Quando o Barulho da Noite Revela o Peso dos Silêncios e a Força de uma Comunidade Dividida

Assinaturas no prédio

Carlos parou diante das caixas do correio porque, no quadro do átrio onde normalmente apareciam anúncios de leitura de contadores ou de gatos perdidos, havia agora uma nova folha. Foi pregada com alfinetes tortos, como se tivessem pressa. Em cima, letras grandes: Coleta de assinaturas. Tomar medidas. Por baixo, o apelido de uma vizinha do 5.º andar e uma lista breve de queixas: barulho noturno, pancadas, gritos, violações da lei do silêncio, ameaça à segurança. Por baixo, já havia assinaturas, umas certinhas, outras com letras longas e soltas.

Leu duas vezes, embora tudo estivesse claro logo à primeira. A mão já começava a procurar a caneta no bolso do casaco, mas Carlos parou. Não por discordar. Apenas não gostava que o empurrassem para nada. Vivendo naquele prédio há doze anos, já aprendera a manter-se longe de guerras de vizinhos, como se fossem correntes de ar. A vida já lhe dava suficiente: o emprego na oficina, os turnos, a mãe acamada noutro bairro, o filho adolescente, que ora não dizia palavra durante dias, ora explodia por coisas pequenas.

Na escada, estava tudo silencioso. Só se ouviu o elevador lá em cima bater com força. Carlos subiu ao seu quarto andar, tirou as chaves, mas antes de abrir, espreitou para a escada acima. No quinto morava a Dona Benedita Marques. Tinha pouco mais de cinquenta, mas parecia feita de ferro, seca, sempre de cabelo curto e olhar pesado. Raramente cumprimentava e, quando o fazia, parecia um incómodo. Carlos via-a quase só com sacos do Pingo Doce ou com o balde, quando lavava a entrada da porta. Às vezes, altas horas, ouviam-se ruídos do seu apartamento: quedas, gritos curtos, parecia arrastar algo pelo chão.

No grupo do prédio só ia quando era indispensável. A maior parte do tempo era só discussão sobre estacionamento e lixo. Ultimamente, o grupo só tinha um tema.

Outra vez barulho às duas da manhã! A minha miúda ficou cheia de medo!

Eu estou de turno às seis, ando feito zombie. Isto não pode ser!

Não é só barulho, ela anda lá a mudar móveis, ouvi.

Chamar a polícia. Há lei!

Carlos lia sem responder. Não era nenhum santo. Quando o barulho lhe batia à porta às três da manhã também acordava, irritado, sentindo a raiva crescer-lhe no peito. Nesses momentos, desejava que alguém resolvesse aquilo e, de manhã, só lhe apetecia ler: Assunto resolvido.

À noite, acabou por escrever no grupo: Quem está a recolher as assinaturas? Onde está a folha?

Respondeu a D. Alzira Lopes, do terceiro esquerdo. No painel do rés-do-chão. Amanhã às sete discutimos tudo na minha casa. Não podemos deixar isto andar.

Carlos desligou o telefone. Sentiu-se inquieto, aquela sensação de reunião, quando já tudo está decidido e nos chamam só para pôr o visto.

No dia seguinte, cruzou-se com Dona Benedita nas escadas. Subia com os sacos pesados, respirando entrecortado, mas teimava em não pedir ajuda. Mesmo assim, Carlos pegou num dos sacos sem perguntar.

Não vale a pena, atirou ela, ríspida.

Eu levo, respondeu Carlos, acompanhando-a.

Ela só falou à porta do apartamento, tirando-lhe o saco à força.

Obrigada, mas agradeceu como quem cumpre uma obrigação.

Carlos já ia a sair, mas ouviu dentro da casa um som estranho uma respiração pesada, gemidos abafados. Dona Benedita ficou imóvel, a chave a tremelicar na mão.

Está tudo bem consigo? perguntou Carlos, sem saber bem porquê.

Está, respondeu secamente e fechou-se rapidamente.

Desceu, mas o som ficou-lhe na cabeça. Não era barulho, nem música; era algo humano, difícil.

Dois dias depois, apareceu um papel na porta de Dona Benedita, colado com fita. Carlos viu-o de manhã, quando ia despejar o lixo: BASTA DE BARULHO NOCTURNO! NÃO TEMOS DE AGUENTAR MAIS! As letras, feitas a marcador, grossas e furiosas.

Ficou a olhar para o papel. A fita brilhava como ferida aberta. Lembrou-se de quando, em pequeno, também lhe colaram recados na porta por causa do pai, que bebia e gritava. Então, Carlos nem odiava o pai tanto quanto os vizinhos, que fingiam não ver nada, até começarem os cochichos.

Subiu ao quinto, escutando. Silêncio. Não tocou à campainha. Tirou cuidadosamente o papel, dobrou e meteu ao bolso. Deitou-o fora lá fora, no contentor da rua, não no do prédio.

O grupo, entretanto, fervia.

Ela faz de propósito. Não liga às pessoas.

Era pôr esta gente toda na rua. Casa isolada resolvia.

A polícia precisa de uma queixa coletiva.

Carlos reparou como ruído e desrespeito depressa davam origem a gente assim, como se o problema já não fosse só o barulho, mas a pessoa.

No sábado chegou tarde do trabalho. O elevador cheirava a ambientador barato e a tabaco. No quarto andar ouviu um baque forte vindo de cima, depois outro. Não parecia obra de obras, mas uma queda. Uma voz de mulher soou abafada, mas clara:

Aguenta já vou

Subiu ao quinto. Pela felpa da porta de Dona Benedita passava luz forte. Bateu à porta.

Quem é? A voz soou tensa.

Carlos, do quarto. Está tudo

A porta entreabriu-se, presa pela corrente. Dona Benedita estava de robe, na face uma mancha vermelha, como se tivesse acabado de se lavar à pressa.

Não é nada. Pode ir, respondeu.

De dentro, ouviu-se um lamento rouco.

Carlos não se conteve:

Precisa de ajuda?

Ela olhou-o como quem rejeita esmolas.

Não preciso. Está tudo sob controlo.

Está lá alguém

O meu irmão. Imobilizado. Disse, depressa, como a cortar perguntas. Pode ir.

A porta fechou-se de rompante.

Carlos ficou parado, a sentir os dois impulsos a lutar dentro de si. Um para ir-se embora, como ela queria. Outro para ficar, porque já sabia demasiado para fazer de conta.

Desceu, sem conseguir dormir. Na cabeça, a palavra: imobilizado. Imaginou alguém em queda, alguém a puxar, a ambulância chamada à noite, o arrastar do leito, a água, a cama. E os vizinhos em baixo, a escutar, enraivecidos.

Foi à reunião em casa da Dona Alzira, não por curiosidade, mas porque sabia que não ir seria uma vergonha. Às sete já lá estavam pessoas. Uns de chinelos, outros de casaco, como quem só vai um instante. Falavam baixo, mas o ambiente era pesado.

Dona Alzira mandou-os sentar-se na pequena cozinha. Na mesa, a folha de assinaturas, ao lado, um folheto sobre horário de silêncio e o contato da polícia.

Não podemos continuar assim, começou ela. Há crianças, há trabalho, eu própria tomo comprimidos todos os dias para a tensão, porque nem durmo. Nós não somos contra ninguém, mas tem de haver regras.

Carlos notou como ela disse não somos contra a pessoa e isso pareceu aliviar alguns.

Eu, às duas da manhã, acordei, contou a mulher do sexto, nova, com ar cansado. O meu bebé acabou de adormecer e de repente um estrondo, como um armário a cair. Passei a noite a embalá-lo.

O meu pai fez operação, disse um homem de fato de treino. Não pode stressar. Com aqueles barulhos pensa que é incêndio.

É ligar sempre à polícia, atirou alguém. Assim registam.

Carlos ouvia e sabia que não era invenção. Estavam cansados e era justo sentir aquilo.

Alguém tentou falar com ela? perguntou Carlos.

Eu já tentei, respondeu Dona Alzira. Ela responde mal. Diz que quem não gosta que se mude, depois bateu-me com a porta.

Sempre foi assim, reforçou a mulher do sexto. Parece que lhe devemos alguma coisa.

Carlos pensou em dizer que era por causa do irmão, mas calou-se. Não tinha certeza se era justo contar o que soubera. E também o silêncio era uma escolha.

Talvez ela tenha começou ele.

Todos temos problemas, cortou Dona Alzira. E não fazemos barulho.

Nesse instante, tocaram à porta. Dona Alzira foi abrir. Na cozinha entrou Dona Benedita. Trazia casaco escuro, cabelos lisos, uma pasta e o telemóvel na mão. O rosto tenso, mas sem medo.

Vim porque percebi que falam de mim, disse.

Na cozinha ficou-se sem ar.

Falamos da situação, corrigiu Dona Alzira. Está a prejudicar os outros.

Estou, repetiu Dona Benedita, assentindo como quem já aceitou. Muito bem. Ouçam.

Pousou a pasta na mesa, abriu-a. Tirou folhas, relatórios, uns papéis médicos. Colocou o telemóvel do lado.

O meu irmão é inválido, após AVC. Não anda, não se senta. À noite tem ataques. Fica sem respirar, cai da cama se eu não o seguro. Viro-o a cada duas horas, senão ganha escaras. Não é andar a mover móveis. É levantar um homem que pesa mais do que eu.

Falava firme mas a fadiga vibrava-lhe na voz. Nos braços, Carlos viu manchas, como nódoas escuras de tanto esforço.

Chamei a ambulância três vezes este mês. Vejam, mostrou o telemóvel. Estas são as chamadas. Este o relatório. O médico. Não sou obrigada a mostrar, mas resolveram juntar-se para assinar contra mim como se isto fosse uma discoteca.

Um tossiu. A mulher do sexto baixou os olhos.

Não sabíamos, murmurou.

Não sabiam porque não perguntaram, retorquiu Benedita. Escreveram-me na porta. Falaram mal no grupo. Queriam medidas. Quais? Que eu o deixasse nas escadas para poderem dormir descansados?

Ninguém disse isso! disparou Dona Alzira. Mas há lei. Depois das onze, silêncio.

A lei Benedita sorriu, azeda. Querem lei? Faço chamadas à ambulância e à polícia, registo tudo. Assinam todas as vezes como testemunhas?

E nós, temos de nos sujeitar? perguntou o homem de fato de treino, voz quase a falhar. Tenho o meu pai doente, não aguento isto noite após noite.

E eu? fitou-o ela. Acha que me dá prazer? Que não queria dormir como todos?

Ficaram calados. Carlos sentiu vontade de dizer algo simples, acalmar o ambiente, mas não havia frase certa.

Dona Alzira suspirou, já mais pacífica:

Dona Benedita, percebe que para todos é difícil. Se tivesse avisado

Avisasse o quê? Que o meu irmão pode morrer de noite? Fechou a pasta. Não sei pedir ajuda. E a quem pediria?

Carlos deu-se conta de que era mesmo verdade. Viviam paredes meias, mas tão distantes. Eram mais portas do que vizinhos.

Vamos com calma, acabou por dizer, rouco. Ou encontramos uma maneira, ou isto rebenta.

Todos o olharam. Carlos detestava ser foco, mas agora não dava para recuar.

Não assinei folha nenhuma, continuou. Nem vou assinar. Porque não resolve nada, só cria hostilidade. Mas também não se pode ignorar o barulho. As pessoas têm mesmo saúde em jogo.

Dona Alzira franziu o sobrolho.

Então? Sugere o quê?

Carlos lembrou-se da noite na escada, ouvindo os lamentos.

Primeiro, que haja comunicação. Dona Benedita, se à noite alguma coisa acontecer e vai ser barulhento, pode colocar no grupo: Ambulância, Emergência. Não precisa explicar; só para os outros saberem o motivo.

Não tenho obrigação, retorquiu ela. Mas olhou para Carlos. Se conseguir, faço.

Segundo, em vez de correr para a polícia ao primeiro baque, alguém toca-lhe à porta. Para perguntar se é preciso ajuda. Se não responder, aí sim, chamem quem precisam.

E se ela responder mal outra vez? perguntou a do sexto.

Fica com a consciência tranquila, respondeu Carlos. Pelo menos tentou.

Dona Alzira não insistiu.

Mais uma coisa, Carlos olhou Benedita. Talvez possam pôr tapetes, borracha debaixo dos móveis, ou afastar a cama da parede. Eu posso ajudar, se for preciso.

Benedita hesitou, voz mais baixa:

A cama não mexe. O elevador ali é artesanal, está preso à estrutura. Mas tapetes pode ser. Outra coisa engoliu seco Se alguém puder ficar uma hora à tarde, para eu ir à farmácia, era uma ajuda…

Ficou por dizer o resto. Houve um mexer na cozinha.

Quarta posso, disse num sopro a mulher do sexto. Corou, como quem pede desculpa. A minha mãe pode ficar com o bebé, vou eu.

E eu também dou uma mão, murmurou o homem do fato de treino. Só durante o dia, para ajudar a levantar.

Carlos sentiu o ambiente aliviar um pouco, mas nunca completamente. Só mudava de tom.

Dona Alzira pegou na folha das assinaturas.

E isto?

Carlos olhou os nomes familiares, incluindo o vizinho sempre sorridente do elevador.

Acho que deve sair do painel. Quem quiser mesmo fazer queixa, que o faça em nome próprio, com datas. Não é assim, tomar medidas em grupo.

Então é contra a ordem? Dona Alzira, a testar.

Sou pela ordem, respondeu Carlos. Mas a ordem não pode ser um cacete.

Benedita ergueu o olhar.

Tire isso, pediu. Não quero ver todos os dias quem me julga.

Dona Alzira dobrou a folha e guardou-a. Carlos não percebeu se foi respeito ou receio.

No fim, todos saíram calados. Na escada, alguém tentou brincar, mas morreu ali mesmo. Carlos saiu para o átrio, cruzou-se com Benedita. Desceram juntos.

Não devia ter-se metido, disse ela.

Talvez, respondeu Carlos. Só não queria isto a acabar em polícia e barulho.

Vai acabar, respondeu baixinho. Quando ele piorar.

Ele quis perguntar o nome do irmão, não se atreveu. Só disse:

Se uma noite precisar de ajuda para o levantar bata. Estou aqui.

Ela assentiu, sem o olhar.

No dia seguinte, o papel já não estava no painel. No grupo, havia nova mensagem de Dona Alzira: Combinado: Dona Benedita avisa se for emergência. Peço que não discutam isto de noite. Quem puder ajudar de dia, diga-me.

Carlos estranhou a palavra escala. Parecia coisa para outro prédio, não o seu. Mas uma hora depois, já havia mensagens a ocupar horários: um vinha à segunda, outro à sexta. Outros, silêncio.

Na primeira noite, voltou o barulho. Carlos acordou sobressaltado com um estrondo, olhou o relógio: 2h17. No grupo, mensagem breve de Dona Benedita: Emergência. Ambulância a caminho. Sem sorrisos, sem pedidos.

Ficou deitado a ouvir portas a bater, passos a correr nas escadas. Imaginou Dona Benedita a segurar o irmão, lutando para não o deixar sufocar. A irritação não passou, mas junto dela cresceu outra coisa, pesada e muda.

De manhã, encontrou Dona Alzira no elevador. Via-se pelo rosto que estava esgotada.

Outra vez barulho ontem.

Era emergência, respondeu Carlos.

Eu vi Não sabia que era assim. Mas mesmo assim Carlos, eu não durmo. O meu coração…

Carlos acenou. Não podia curar-lhe o coração.

E se fosse com tampões para os ouvidos? arriscou, sabendo como soava patético.

Tampões ela riu-se, sem azedume. Chegámos a isto.

Uma semana depois, Carlos subiu ao quinto, de dia, como prometera. Levava um saco com borrachas para cadeiras e um tapete. Tocou, abriu-se logo, como se o esperasse.

Lá dentro, cheiro a medicamentos e ácido, de internamento. No quarto, uma cama colada à parede. Um homem deitado, magro, com o olhar perdido. No lado, um elevador artesanal feito de tubos e cintas. Carlos percebeu porque não mexia a cama.

Trouxe, mostrou o tapete. Podemos pôr para amortecer. E borrachas no banco, para não dar batidas.

O banco bate quando lhe levo o alguidar, explicou Benedita. Tento, mas as mãos…

Não acabou. Olhou as mãos, cheias de gretas.

Carlos ajudou a pôr o tapete, mexendo-se devagar para não estragar nada. Benedita seguia cada gesto, atenta.

Obrigada, disse por fim, agora num outro tom.

Carlos acenou. Ia sair, quando soou o telefone. Benedita atendeu. A cara ensombrou-se.

Não, não posso agora, disse. Tenho de ficar, sim. Não posso.

Desligou e olhou para Carlos.

Segurança social. Só dão apoio de duas horas por semana, e mesmo assim em lista de espera. Eu precisava todos os dias.

Carlos não encontrou resposta. Sabia bem: a escala do prédio era um remendo, não solução.

Ao fim da tarde, alguém no grupo escreveu: E por que temos de ajudar? O problema é deles. Que trate com as autoridades. Muitos responderam, nem todos maus: explicavam filas de espera, exigiam justiça, pontuavam.

Carlos leu sem discutir. Sentia de novo aquela exaustão interior. Não de Benedita, mas de como tudo virava debate sobre justiça ao menor passo de empatia.

Uns dias depois, viu no rés-do-chão nova folha: não tomar medidas mas uma tabela: dias, horas, nomes. Por baixo, o contacto de Dona Benedita e uma nota: Se de noite for urgente, aviso no grupo. Quem puder ajudar, ligue. O papel estava direito.

Carlos percebeu que ver aquele papel doía como o outro. Só que agora era diferente: sentiam-se obrigados a admitir que a desgraça também se agenda.

Numa dessas noites, saiu da cama e subiu. O estrondo fora grande, ouviu Benedita praguejar baixinho, cansada do corpo do irmão, não das pessoas. Bateu à porta. Ela abriu sem corrente.

Ajuda-me, pediu, curto.

Carlos entrou, tirou os sapatos à entrada. No quarto, o irmão no chão, respirando com esforço. Juntos, tornaram a deitá-lo. As mãos de Carlos tremiam. Ela não chorou nem agradeceu. Só ajeitou a almofada e verificou se o irmão respirava.

Ao sair, ouviu uma porta abrir no andar de baixo, alguém espreitou. Silêncio. A porta fechou. Ninguém volto para ajudar; ninguém comentou. O prédio ficou suspenso.

De manhã, Carlos cruzou-se com o vizinho dos sorrisos, Manuel. Olhou para o lado.

Olha assinei aquilo já não aguentava. Mas não sabia. Se soubesse

Não faz mal, disse Carlos. Agora o que interessa é o que fazemos daqui para a frente.

Manuel assentiu. Mas manteve o ar teimoso e contrariado, como quem não gosta de admitir erros.

O compromisso funcionava. Não perfeito, mas servia. Durante a noite, no grupo, apareciam mensagens secas: Ambulância, Caiu. Havia menos insultos a meio da noite, mais mensagens ao amanhecer, quando já passara a zanga. De dia, às vezes entravam na casa de Benedita, outros só uma vez e nunca mais. Dona Alzira controla a tabela, mas surgem buracos.

Carlos reparou que na entrada se falava menos com leveza. As pessoas cumprimentavam-se, mas com mais cuidado, como se cada frase pudesse ser o início de nova discórdia. Na escada já não havia ameaças, mas também não voltara o tempo do à-vontade. Até quando discutiam a lâmpada do patamar, ouvia-se: Só espero que não volte a confusão.

Uma noite, encontrou Dona Benedita junto ao elevador, com sacos de medicamentos e um pequeno termo. O rosto cinzento de cansaço.

Como está ele? perguntou Carlos.

Vai aguentando. Por agora, calmo.

Subiram juntos. No quarto, Carlos parou.

Qualquer coisa, já sabe, bata.

Ela acenou, depois murmurou:

Na reunião não queria não queria mesmo…

Calou-se.

Eu entendi, disse Carlos.

A porta fechou-se. Carlos foi para casa, pendurou o casaco, alinhou os sapatos. Em casa, tudo sossegado. O filho nos auscultadores, a mãe ao telefone.

Olhou para o ecrã, depois para a porta e as escadas. Pensou que folhas de papel podem mudar as pessoas: uma para assinar contra, outra a juntar nomes de quem fica um ciclo da tarde. E que, entre ambas, a distância é menor do que entre vizinhos separados por uma parede.

No grupo, nessa noite, alguém escreveu: Obrigado a quem ajudou hoje. E, por favor: não discutam assuntos pessoais aqui. Dúvidas, mandem mensagem privada. Depressa se perdeu nas conversas do lixo e do elevador.

Carlos desligou o telemóvel e foi pôr água para o chá. Sabia que naquela noite podia voltar a acordar com um ruído forte. E sabia que, se acontecesse, já não pensava só no seu próprio sono. Não o fazia melhor. Apenas o tornava parte da história.

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