Consegui que o meu filho se divorciasse e agora arrependo-me profundamente disso…

– A minha nora veio cá ontem outra vez deixar a neta para passar o fim de semana queixava-se-me a vizinha Leonor, ali no patamar das escadas. Nunca consigo dar de comer à miúda em condições! A mamã disse-me que as princesas não comem muito!, diz ela, come duas colherzinhas e pronto! Já está mais verde que o electricista de tão fraquinha!

A Leonor, mal olhou pela primeira vez para a companheira do filho, Vera, não gostou nada dela. Só porque era SETE anos mais velha que o Jorge. E ele ainda um rapaz, acabado de sair da escola secundária.

Aquilo nunca tinha visto mulher na vida antes dela! indignava-se a Leonor. Não admira que se tenha deixado encantar! Enfeiticou-o com aquele jeito de mulher sabida, pronto!

Ora, a Vera era, de facto, uma mulher bonita e chamativa. Pintava-se, vestia-se com pinta, sempre preocupada com a carreira. Não via nada de estranho em o filho da Leonor andar caidinho por ela. Os homens, como se sabe, também comem com os olhos, e a Vera era toda um banquete visual.

Vivia de dieta e com preocupações saudáveis. Por isso incutiu logo o hábito à filha: comer pouco, sem excessos, atenta à linha e à saúde.

Passaram-se uns meses e Vera engravidou. Não se sabe se só para agradar à sogra que sempre tentou boicotar o namoro ou porque queria casar à força, ou se foi mesmo por acaso. Mas pronto: o Jorge decidiu logo que ia casar com a Vera. Ele com 18 anos acabados de fazer, ela com 25.

Quando terminou o secundário, o Jorge entrou para o politécnico. Trabalhava e estudava ao mesmo tempo era preciso pagar contas: começaram por alugar uma casa, depois compraram um quartinho numa residência.

Felizes à sua maneira, mas a sogra nunca largou guerra: uma coisa era a sopa, outra a blusa que não estava passada, ora a menina ia mal vestida Para ela, a Vera não tinha qualidades, só defeitos. Ralhava-lhe, picava-a, e ao filho também.

Eventualmente, a Vera começou a evitar a sogra ao máximo. Levava a filha ao infantário, à ginástica, às aulas de xadrez. Sempre numa roda viva entre o trabalho, as actividades da miúda, ainda tinha de arranjar tempo para o ginásio, manicure, cabeleireiro… Estava menos tempo em casa do que desejava.

O Jorge chegava a casa e era o vazio: filha nas actividades, mulher fora de casa ou ocupada com as suas coisas.

Numa dessas noites, bateu-lhe à porta a vizinha do lado, Manuela uma viúva de 38 anos, com dois filhos adolescentes. Tinha rebentado a torneira da cozinha comum da residência, e ela pediu ao Jorge que desse ali uma ajuda antes que os do piso de baixo ficassem com uma cascata na sala.

O Jorge, que era jeitoso com ferramentas, resolveu aquilo num instante. Enquanto ele trabalhava, a Manuela fazia o jantar massa com bifes de cebolada. Em agradecimento, ofereceu-lhe um prato, e ele aceitou sem pestanejar a Vera já não lhe fazia comida caseira há séculos, nem tempo tinha para isso.

A partir desse dia, a Manuela começou a chamar o Jorge para jantar muitas vezes enquanto mulher e filha não estavam em casa, faziam companhia um ao outro na cozinha da residência, entre conversas, rissóis caseiros e tartes de maçã. De conversa em conversa, acendeu-se ali uma faísca, e aquilo cresceu de tal forma que não conseguiam já passar sem estes serões juntos.

A vida numa residência é o que é tudo à mostra, tudo à escuta, paredes de papel. Alguém avisa a Vera de que o Jorge anda muito numa de visitas à vizinha Manuela. E que não é para jogar damas, certamente.

O escândalo foi tal que até o senhorio ficou a saber. A Vera, orgulhosa como só ela, pôs o Jorge fora de casa no instante, mal empacotou as tralhas dele e atirou-as ao corredor.

Com os pais já era tarde demais para ir, e alternativas não havia só mesmo a casa da Manuela, que o recebeu de braços abertos.

A filha deles tinha seis anos quando isto aconteceu. O Jorge tinha 25, a Vera 32 e a Manuela já contava 39 primaveras.

A vizinha Leonor, ao saber do divórcio, ficou num contentamento tal que foi buscar um pastel de nata para celebrar. Mas bastou saber que o Jorge trocou a mulher por uma vizinha catorze anos mais velha e com filhos, e de repente silêncio. Ficou que nem um rato. Tantos anos a remoer porque a Vera era mais velha, e agora? Tudo sereninho, tudo aceite. Ou caiu-lhe a ficha do ridículo da chatice toda?

Esta história não é do outro dia já lá vão uns quinze anos. O Jorge nunca mais largou a Manuela. Não tiveram filhos em comum. Mas vivem um para o outro. Hoje, ele tem 40, ela já vai nos 54. A Leonor recebe-os sem azedume nem mágoa, tudo muito pacífico, tudo de bem. E vê-se que o Jorge é feliz.

E vocês, acham possível ser-se feliz quando ela é mais velha?

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Consegui que o meu filho se divorciasse e agora arrependo-me profundamente disso…
Na terça-feira passada, estive prestes a pedir o divórcio.