– Outra vez chegaste tarde do trabalho? – questionou ele com ciúme e voz ríspida. – Já percebi tudo.

Chegaste outra vez tarde do trabalho? bradou ele com ciúmes, a voz soando como um ribombar estranho na noite enevoada. Já percebi tudo.

E de novo, as palavras cortaram ambíguo o ar húmido do corredor, antes sequer que ela tivesse tempo de tirar as botas encharcadas pela chuva miudinha que pairava naquela Lisboa de inverno. O cheiro a cebola frita e o silêncio amargo do lar apertavam-lhe o peito ou talvez fosse só o ar denso, a raiva a fazer-se vapor nas cortinas. Tudo nela tremia. Virgínia encostou-se à maçaneta gelada, tentando acalmar as mãos, olhando para o marido.

Lourenço estava à entrada da cozinha, braços cruzados. O velho robe aberto, mostrando uma t-shirt amarrotada do Benfica. O rosto que ela conhecia há vinte anos parecia deformado, como se tivesse apanhado um susto grotesco do próprio reflexo.

Lor, os autocarros ficaram presos na Rotunda do Marquês arriscou, sem esperança, a voz tonta, distante, como quem fala sob água. Choveu tanto e na 2ª Circular estava tudo parado

Basta! Lembrou-se que ele nunca gostara de esperar. Bateu com a palma na parede, estalando tinta velha no azulejo. Não penses que sou burro, Virgínia. Filas de trânsito? Às nove da noite? Para os subúrbios?

Avançou para ela, e ela recuou contra o cabide, o sobretudo molhado colando-se-lhe às costas.

Liguei para o teu trabalho. Cada palavra era uma pedra a cair. Às seis e um quarto. O António, o segurança, disse-me que tinhas saído às cinco. Onde estiveste estas três horas e meia, Virgínia?

O frio alojou-se-lhe no estômago, como um animal escondido. Antes, os seus pecados eram pequenos mentiras de quem não quer melindrar, de quem só inventa sossego. Mas esta mentira era escura e viva: precisava de carne, de sangue, de silêncio.

Fui à farmácia. Depois à minha mãe, levei-lhe os comprimidos dela Baixou os olhos, fingindo dedicar-se ao fecho das botas, cujos dentes caprichosos não corriam.

À tua mãe riu-se Lourenço. Liguei-lhe há meia hora. Disse-me que não te via há uma semana.

O ar parecia metalizado, rijo, vibrando entre as paredes estreitas do velho T3. Virgínia endireitou-se. Já não havia fuga. A exaustão pesava-lhe, como um fado antigo, cada noite uma travessia de campo minado, cada toque do telemóvel um sobressalto infantil.

Arranjaste alguém, não foi? O tom dele abateu-se, como chuva grossa, mais assustador assim, manso. Tens um caso? É o estagiário novo? Ou aquele amigo de infância, o Pedro, de quem falaste há meses?

Chegou-se mais perto. Cheirava a tabaco barato voltou a fumar, apesar do susto com o enfarte do pai.

Lor, não tenho ninguém. Acredita em mim.

Acreditar? Agarrando-a pelos ombros fê-la estremecer. Olha bem para ti! Emagreceste dez quilos. Tremes como um passarinho ao menor ruído. Mudaste a senha do telemóvel. Não me olhas nos olhos. Só as mulheres que arranjam um engate se comportam assim. Mas sabes o que me mete mais nojo?

Ela encarou-o, as lágrimas, presas o dia inteiro, queimando-lhe os olhos.

O mais revoltante ele deixou cair a voz é que nem finges que queres salvar a nossa casa. Entras aqui como se estivéssemos na prisão. Ignoras-me, ignoras este sítio. Vives algures, longe, com quem quer que seja.

Não é verdade murmurou ela. Amo-te. Faço tudo por nós. Pela família.

Pela família, vais-te deitar com outro? disparou.

Não te atrevas! explodiu ela, ronca, a voz de uma mulher maior do que ela mesma. Não sabes nada!

Num balbucio silencioso, a porta do quarto tilintou. Um rosto pálido apareceu por entre a luz baixa: Rafael, o filho, com dezanove anos e olheiras negras. Olhou, hesitante, de um para outro.

Mãe Pai Por favor, não gritem a voz quase não saiu, esganiçada.

Lourenço virou-se.

Vai para o teu quarto, Rafael! Não te metas. É assunto de adultos. Ou também sabes por onde anda a tua mãe?

O rapaz fugiu o olhar, fechou a porta com um estalo surdo.

O marido fitou-a de novo, agora com uma frieza nova:

Tens uma última chance, Virgínia. Aqui e agora. Diz a verdade. Quem é?

Fechou os olhos. Imagens saltaram-lhe à cabeça: o alcatrão húmido e brilhante, os faróis rasgando a noite, uma figura miúda num casaco cor-de-rosa, o embate seco, o guinchar dos travões que virara no grito estridente do Rafael três semanas antes, naquela noite impossível de apagar.

Mãe, não queria! Ela correu Não ligues para a polícia, tenho medo, vão prender-me, pá vai matar-me

E ela protegeu-o. Pelo menos, tentou.

Não há ninguém, Lourenço disse ela, abrindo os olhos, já de dentro de outro mundo, donde a verdade parecia impossível. Estou só cansada. No trabalho cortaram pessoal, tenho medo de te preocupar.

Ele olhou-a de cima a baixo, antes de largar os seus ombros com repugnância.

Mentes-me, olhos nos olhos. Encontrei uma coisa. Um talão no teu sobretudo, ontem à noite do penhor. Vendeste a pulseira de ouro que te ofereci nos vinte anos.

O chão fugiu-lhe dos pés. Esquecera-se do maldito talão. Corrida, pânico, outro empréstimo

O dinheiro era para o teu amante? Lourenço virou a boca, amarga. Precisa de pagar dívidas? E tu fazes de Maria das Dores?

Era para tratamentos mentiu sem pensar. Uma colega tem cancro. Estamos a angariar

Pelo penhor?! cortou ele. Basta, Virgínia. Vai-te embora.

Como?…

Vai. Para tua mãe, para uma amiga, ou para o inferno. Hoje não te quero cá. Preciso decidir se meto já os papéis do divórcio ou te deixo confessar-te.

Lor, é de noite sussurrou ela.

Vai! bramiu, e os pratos tilintaram.

Virgínia entendeu: era o fim. Se ficasse, ele esmagava-a; ou Rafael, ouvindo cada palavra, desabava e então tudo pelo que lutara estas três semanas se dissolvia.

Pegou nas chaves e saiu, nunca tirando as botas molhadas. No bolso, tremia o telemóvel: nova mensagem, não de Lourenço.

É amanhã. Se a quantia não aparecer, vou à polícia. Diga um olá ao seu filho.

Escorregou e sentou-se no chão, chorando, a mão tapando a boca para não acordar os vizinhos.

Lá fora, a chuva parecia açúcar sobre Lisboa, engolindo avenidas até a noite não ter fim. Para casa da mãe não podia ir Lourenço ia saber. Amigas iriam perguntar. Restava-lhe o café da estação do Oriente, aberto toda a noite, onde poderia esconder-se atrás de um chá barato.

Sentada no canto pegajoso do balcão, olhou para o telefone: o fundo era uma foto da família, na praia, sorridentes, bronzeados, no Algarve. Rafael sorria para o pai, Lourenço retribuía olhando-a com amor.

Como tudo se podia desmoronar sem aviso.

Lembrava-se bem daquela noite. Rafael levou o carro do pai, às escondidas Vou dar uma volta com a Rita. Nem carta tinha, mas, nos verões na Ericeira, sempre guiara. Lourenço estava de plantão. O filho voltou pálido, a tremer, com o farol partido.

Chorou aos pés da mãe, jurando que fora no escuro, na berma, que a menina saltou para o meio da estrada. Fugira, assustado.

Virgínia decidiu num instante. O instinto materno queimou a razão, a justiça, tudo. Conhecia bem o carácter inflexível do marido, médico dos bombeiros chamaria a polícia sem hesitar. O que fizeres, assume, dizia ele.

Escondeu o carro na garagem. Mandou Rafael calar-se. No dia seguinte, procurou o pai da rapariga.

Gonçalo.

Chegou à sua rua por contactos no trânsito, inventando estar ali só porque queria ajudar. O prédio cheirava a tristeza e aguardente. Ele estava sentado na cozinha, copo na mão, a olhar para uma fotografia.

Pouco conseguiu mentir. Acabou por dizer-lhe: fora o filho. Era novo, parvo, e ela faria tudo para não o destruir.

Gonçalo não gritou. Não bateu. Disse só um número tremendo de zeros. É para o jazigo, disse. E para que eu vá daqui e esqueça Lisboa. E quero que o vosso filho oiça cada sílaba enquanto pagam.

Agora ali estava, no café, pulseira penhorada, sobretudo vendido, endividada por todo o lado, e ainda assim faltava dinheiro.

De manhã, não foi trabalhar. Fingiu-se doente. Precisava de juntar mais dez mil euros até ao fim do dia.

Fez malabarismos: pediu empréstimos à pressa, vendeu o portátil, mentiu à antiga colega. Ao final da tarde tinha o maço de notas no envelope castanho.

Telefonou a Lourenço: rejeitou. Escreveu ao filho: Vai correr tudo bem. Aguenta. O pai nada sabe. Sem resposta.

Rume ao bairro desbotado de Chelas, ao velho prédio que parecia cair. O interior do apartamento de Gonçalo era um caos, pronto a partir.

Trouxeste? rosnou ele, áspero.

Sim. Pousou o envelope. Está aqui tudo. Prometeu que nos deixava em paz. Vai-se embora, apaga tudo.

Gonçalo pesou o envelope, riu-se sem vontade.

Achas que dinheiro tapa buracos no coração?

Não acho nada sussurrou ela. Só quero salvar o meu filho. Prometeste.

Prometi pela primeira vez, hesitou. Mudei de ideias.

Virgínia gelou.

Como assim?

Pouco. Aproximou-se, o cheiro a álcool cortando-lhe o ar. Estive a olhar para o teu marido ontem. Carrão novo, ar de quem nada falta. Só me dás esmola, vais ao penhor.

Ele não sabe! O carro é o único bem, vivemos do ordenado!

Então que saiba! berrou Gonçalo. Veja o que o seu menininho fez! A minha filha está na fria, o teu anda bem protegido entre mantas?!

Por favor as mãos dela suplicavam. Dou-lhe mais, vendo o carro, só me dê tempo!

Não há mais tempo! apertou-lhe o pulso. Ou ligas já ao Lourenço e pedes meio milhão mais, ou ligo à PJ!

De repente, o eco de passos encheu o corredor: a porta rangeu, Lourenço surgiu no limiar, pálido, o telemóvel na mão, a tela exibindo a localização compartilhada.

Eu sabia disse ele, a respiração dando-lhe ecos de outro mundo. Localização partilhada. Até isso esqueceste, idiota.

Olhou para Gonçalo, para o envelope.

Então? Quanto custa uma noite com a minha mulher?

Virgínia soltou-se.

Lourenço, não é isso

Cala-te! rugiu, nem ouvindo-se. Eu vi-te entrar. Aqui. Para este antro. Achei que tinhas melhor gosto Secretamente desejei que fosse alguém melhor. Mas este

Gonçalo riu, feio, a cabeça a bater na sombra.

Amante dela? chiou. Pensas que alguém quer saber de mim?

Cala-te! Ela foi tapar-lhe a boca. Lourenço, vai Explico-te em casa!

Ele afastou-a, impaciente.

Não. Quero ouvir.

O outro limpou a boca.

Homem, és cego? Ela não dorme comigo. Compra-me.

O quê? Lourenço franzia a testa.

Compra o teu sono, compra a tua paz Gonçalo enfiou-lhe à cara a fotografia com a fita preta. Reconheces?

Lourenço estudou a imagem. Os olhos arregalaram-se.

É aquela rapariga. Da TV. Foi atropelada em Odivelas. O condutor fugiu.

Tiro ao lado, acertaste disse Gonçalo. Pergunta à tua santinha quem guiava. E de quem era o carro.

O silêncio tornou-se sólido, lençol húmido nas paredes. Lourenço olhou-a, olhos agora estilhaçados.

Virgínia? O carro estava na garagem. Disseste que estava avariado, levaste a chave

Ela caiu de joelhos, pernas desconectadas.

Perdoa gemeu ela. Foi o Rafael. Pegou nas chaves Foi acidente É o nosso filho!

Lourenço não gritou, nem mexeu. Apenas olhou para a mulher desfeita a seus pés, enquanto o outro, entre luto e prazer sádico, sorria.

O rosto dele obscureceu. Um médico vê morte, mas nunca assim: a morte sentada à sua mesa, com a cara do filho.

Rafael? a voz era de cemitério. O meu filho matou uma criança?

Não matou! gritou ela. Foi acidente!

E fugiu cravou Gonçalo. Abandonou-a ali. A ambulância chegou tarde. Se tivesse parado, talvez ainda vivesse.

Lourenço cambaleou até ao portal.

E tu sabias? sussurrou, de cima.

Eu protegi-o! ela chorava. É o meu filho! Ia para a prisão! Tem só dezanove! Eu tentei, tentei

Pagaste? apontando ao envelope. A vida de uma criança por dez mil euros?

Dei tudo! respondeu Gonçalo. Mas quero prisão para ele. Quero que pague.

Lourenço foi até à mesa, pegou no dinheiro e lançou-o no rosto de Gonçalo. As notas espalharam-se pelo chão sujo.

Fica com o teu dinheiro manchado. Não compro consciência.

Pegou no braço de Virgínia, erguendo-a.

Vens comigo. Vamos para casa.

Lourenço, por favor

Cala-te. E cala-te até casa. Não me faças perder o que me resta.

Desceram e Gonçalo apenas olhou, calado.

No carro, o caminho era um filme mudo. Lourenço guiava duro, acelerando. Ela, encostada à porta, quase não respirava; via-lhe os dedos ósseos no volante, brancos de raiva.

Chegaram. Rafael estava sentado à mesa, uma chávena intocada à frente. Ao ver o pai, pôs-se em pé.

Pai? Já estão bem?

Lourenço aproximou-se. Rafael era mais alto mas parecia um boneco de trapos.

Veste o casaco disse o pai.

Para onde? O filho olhou a mãe. Virgínia chorava, colada à parede.

À polícia.

Rafael desfez-se, sentando-se de novo.

Pai, não! A mãe tratou de tudo! Por favor!

A mãe? sorriu Lourenço. A mãe comprou-te um bilhete para o inferno. Vives há três semanas a saber que mataste alguém e continuas a jogar Playstation?

Não durmo! Rafael soluçou, olhos em fogo. Vejo-a em sonhos! Tenho medo!

Medo? Lourenço agarrou-o pela roupa. E ela, deitada sozinha no chão? E o pai dela? Não têm medo?

Basta, Lourenço! soltou Virgínia. É só um rapaz!

Ele já é homem! bradou Lourenço. Cometeu um crime, escondeu-se atrás de ti. E tu voltou-se para a mulher, magoado até ao osso traíste-me. Não por outro homem. Por me fazeres de tolo, por achares que não aguentava a verdade. Vendeste a honra da casa por dez mil euros.

Tive medo que o entregasses! ela gritou.

Eu entregava aceitou ele. Mas ia com ele. Defendê-lo-ia com tudo. Pagávamos, enfrentávamos. Olhávamos as pessoas de frente. Agora? Somos uma família de covardes e criminosos.

Rafael murchou no chão, cabeça escondida nos braços. O uivo era de animal ferido.

Lourenço ajoelhou-se a seu lado.

Olha para mim, Rafael.

O filho ergueu os olhos vermelhos.

Se não formos agora, nunca serás livre murmurou o pai. Isso come-te por dentro. Vais sempre saltar com o som da sirene. Esperar que Gonçalo venha atrás de ti. É essa vida que queres?

Rafael abanou a cabeça.

Não aguento mais, pai

Então levanta-te. Vou contigo. Estarei lá. Mas tens de assumir.

O rapaz levantou-se, limpou a cara. Agora era outro, com uma espécie de resignação nova.

Vamos, disse ele.

Lourenço assentiu. Voltou-se para Virgínia.

Ficas aqui.

Vou convosco! tentou ela pegar no casaco.

Não fez ele um gesto. Já fizeste a tua parte. Compraste-lhe a alma. Deixa-me tentar salvá-la.

Perdoas-me, Lourenço? perguntou, quase inaudível.

Ele olhou demoradamente, tentando fixar o rosto da mulher que amara metade da vida.

Uma traição carnal perdoava. Somos todos fracos. O que tu fizeste Tantos dias a ver-me sofrer ciúmes, a enlouquecer tudo para esconderes o teu erro.

Abriu a porta para o filho.

Não sei viver com isto. Não sei se conseguirei deitar-me ao teu lado, sabendo do que és capaz.

A porta bateu, ela ficou sozinha naquela casa tão cheia de vozes e de sombra.

Na entrada, um talão do penhor escapara do bolso do marido.

Virgínia foi até à janela. Lá em baixo, sob a luz amarela dos candeeiros, duas figuras uma larga e firme, outra magra e curvada atravessavam a madrugada. Não se tocavam, mas iam lado a lado.

Encostou a testa ao vidro gelado. A verdade veio ao cimo. Era bem pior do que Lourenço temia. Não destruiu só o passado queimou todo o futuro. Mas ali em baixo, pai e filho iam tentar conquistar o direito a um presente limpo.

Deslizou pela parede e, pela primeira vez em três semanas, chorou. Não de medo, mas de saber que não havia retorno. O julgamento seria longo. A sentença, de ferro. Mas o mais terrível já fora dito ali, minutos antes. Sem apelo, nem recurso.

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– Outra vez chegaste tarde do trabalho? – questionou ele com ciúme e voz ríspida. – Já percebi tudo.
Съпругът ми закъсня за погребението на баща ми. Същия ден разбрах къде всъщност е бил.