“Que Ela Vá Sozinha! Talvez Ali a Raptam!” — resmungou a sogra, franzindo o sobrolho Numa noite abafada antes das férias, o ar na casa de António e Alice estava carregado de tensão. No centro da sala, como um monumento à preocupação, erguia-se Dona Leonor, sogra, com o comando da TV em punho. — Eu não permito! Ficaram malucos?! — O tom de quem liderou gerações no liceu ecoava pelo apartamento. No ecrã, um apresentador soturno, diante de um mapa do Sudeste Asiático, desenhava setas vermelhas de perigo. Alice empacotava com calma surpreendente, já adivinhando o desfecho. António, resignado, tentava intervir. — Mãe, chega! São exageros… Vamos para um hotel normal, está tudo organizado. — Exageros?! — Dona Leonor quase atirou o comando — Abre os olhos, António! Vai acabar tudo mal! Na Tailândia… Aquilo é só traficantes! Vais ser mandado buscar cerveja e nunca mais apareces. Roubam-te rins, fígado e tudo! E ela… — Apontou para Alice como num teatro trágico — Vai dar a um bordel! Vi na televisão, não inventem. Alice parou de arrumar. Olhou fixamente a sogra e respondeu num tom calmo, de quem já enfrentou tudo isto. — Dona Leonor, acredita mesmo? Que todo o tailandês é mafioso e especialista em transplantes? — Não gozes comigo! Os factos lá estão! Mostram tudo no telejornal. Pessoas vão em busca de exotismo barato e as famílias recebem os órgãos em frascos! António suspirou. — Mãe, isso é coisa para assustar pensionistas. Milhões de turistas… — E milhares desaparecem! — replicou Dona Leonor. — E tu, Alice, já compraste bilhete?! Ainda podes cancelar? — Já comprei. Não cancelo. — disse Alice, serena. — Foram anos a poupar. Consultei opiniões, fóruns, escolhi agência de confiança. Não vamos passear por bairros manhosos. Vamos apanhar sol em Pattaya, explorar, provar tom yum… — Ainda vos envenenam! Deus sabe o que está naquela sopa — resmungou a sogra. — António, pensa bem. Que vá sozinha se está com tanta vontade. Os riscos são dela, tu ficas vivo e são. Coração de mãe sente o perigo. A sala mergulhou em silêncio. Alice finalmente falou: — Está bem, Dona Leonor. Concordo. O risco é meu. Vou sozinha. — Alice! Estás doida? — espantou-se António. — Ouvistes a tua mãe. Ela sente o perigo. Não posso arriscar a tua saúde nem te pôr à venda. Ficas aqui, a beber chá e ver conspirações no telejornal. E eu… — sorriu, gelada — vou enfrentar o inferno… sozinha. Dona Leonor ficou meio vitoriosa, meio atordoada. Ganhou, mas a decisão da nora baralhou-a. — Bem, assim é que é… — disse, menos enfática. António tentou convencê-la, mas Alice manteve-se firme. Na véspera do voo, dormiram costas com costas. — Ainda mudas de ideia? — perguntou António. — Não! ***** No aeroporto de Banguecoque, Alice foi envolvida pelo calor exótico. Medo? Nenhum, só cansaço e curiosidade. Seguia o plano: passear, maravilhar-se com templos, provar street food deliciosa. Ninguém tentou roubar-lhe nem a carteira, quanto mais os rins. Os vendedores eram tímidos mas amigáveis. Do outro lado do mundo, no grupo do WhatsApp com António e Dona Leonor (que fez questão de ser incluída), enviou foto: Alice sorridente com sumo de frutas diante do mar azul. Legenda: “Órgãos no sítio. Ninguém tentou comprar-me. Aguardem novidades!” António respondeu com corações. Dona Leonor só viu. E silenciou. Depois, Alice foi a Chiang Mai. Uma senhora local, Nok, ensinava-lhe a fazer pad thai no pequeno alojamento de família. A preocupação materna era igual: Nok tinha a filha a trabalhar em Seul. — Lá está sozinha, frio, comida estranha. Dizem que há radiação, vi na televisão! — lamentava, mexendo a massa. Alice riu às gargalhadas. Pela primeira vez, partilhou a história da Dona Leonor, dos órgãos e dos telejornais sensacionalistas. Nok arregalou os olhos e depois também se riu. — Oh, mães! São iguais em todo o lado! Têm medo do desconhecido. Televisão, aqui e aí, só diz disparates! Nessa noite, Alice ligou por vídeo a Dona Leonor. — Então? Viva? — perguntou logo a sogra. — Inteirinha, Dona Leonor. Quer ver? Mostrou a varanda, doces e chá, e apresentou Nok: — Não se preocupe. Aqui ninguém me vende nem me arranca nada. Até cozinho bem! — disse Nok, rindo, e abraçou Alice. Dona Leonor alternava entre o ecrã e a nora bronzeada. — E… os órgãos? — perguntou, hesitante. — Todos no sítio! E com apetite redobrado. Sabe, aqui dizem que na Coreia tudo é perigoso e frio — porque a televisão assim mostra. Seguiu-se um longo silêncio. — Dá-me essa tal… Nok! — pediu Dona Leonor. As duas falaram pelo vídeo. Não perceberam as palavras, mas entenderam o essencial. Riram-se, acenaram, e no fim, Dona Leonor até esboçou um sorriso torto. Mais tarde, António escreveu: “A mãe desligou a televisão e disse: ‘Chega de pânicos’. Perguntou quando voltas.” Alice, debaixo das estrelas, tirou foto com Nok, braços dados: “Encontrei aliada. Amanhã vou de parapente. Se algo correr mal, os rins continuam cá. Beijinhos!” Na chegada, António esperava-a. Dona Leonor, à parte, com um ramalhete de astrálias coloridas. Não a abraçou, nem fez escândalo. Só passou as flores. — Então, viva? — Como vê. E sem novos donos… — Pronto… — disse a sogra, acanhada. — Depois contas… E essa tua Nok? No caminho, Alice contava das aventuras e da simpatia das pessoas. Dona Leonor escutava, fazia perguntas. E a televisão… ficou muda. Nessa noite, Dona Leonor murmurou entre goles de chá: — Para o ano… se quiserem… eu até ia convosco. Mas não para sítios assim… muito selvagens. António e Alice sorriram à socapa, felizes pela mudança. Mas dias depois, voltou: — Afinal não vou! Alice, tiveste sorte! Vi agora nas notícias, muita gente a ser resgatada do cativeiro. Eu não vou! — Como quiser — respondeu Alice, indiferente. — António, também não tens que lá ir. Portugal tem tanto para ver! — rematou Dona Leonor, com ar de quem sabe tudo. O filho abanou a cabeça. Não valia a pena discutir.

Que vá sozinha. Pode ser que lá lhe aconteça alguma coisa! resmungou a minha sogra, de cenho franzido.

A noite abafada que antecedia as férias devia estar cheia de leveza e excitação, daqueles pequenos nervosismos felizes que acompanham as malas abertas e os últimos preparativos. Mas na nossa casa, em Lisboa, o ar estava pesado. No centro da sala, a Dona Emília Martins, minha sogra, parecia uma estátua feita de pura tensão. Nas mãos apertava o comando da televisão.

Eu não consinto! Vocês perderam o juízo?! a voz dela, treinada a dar ordens numa sala cheia de miúdos, brilhava de autoridade. Reformada do ensino, mas ainda mandona.

No ecrã, uma reportagem sensacionalista pausava num apresentador carregado, com o mapa do Brasil ao fundo coberto de setas vermelhas e sons alarmistas.

A Vera, minha mulher, fazia a mala com uma calma quase provocatória para o clima que se vivia ali.

Eu bem tentei intervir, com todo o cansaço do mundo estampado na cara.

Oh mãe, já chega! Isso são só disparates! Nós vamos para um hotel de jeito, tudo organizado

Disparates?! Dona Emília levantou as mãos, o comando quase a voar pela sala. Ó Pedro, tu vê lá se abres os olhos! Ela só te leva à ruína! No Brasil Toda a gente lá é bandido! Mandam-te buscar uma cerveja a um beco e nunca mais te vejo! Raptam-te, tiram-te o que tens dentro e vendem-te para peças! E ela apontou para a Vera num gesto trágico vendem-na para uma casa qualquer de meninas! Eu vi na televisão!

A Vera parou por momentos de dobrar a roupa e olhou para a minha mãe, calma e com uma pausa que eu nunca seria capaz de manter.

Dona Emília, disse, com voz baixa mas bem firme acredita mesmo que cada brasileiro é um criminoso com formação em tráfico de órgãos e, ao fim de semana, um proxeneta?

Não gozes! Não tens argumentos, não é? Isto passa na televisão! O pessoal que já não tem nada a perder vai para lá só porque é barato e depois a família só recebe uma mensagem: venham buscar as peças dos vossos!

Passei a mão pela cara, já exasperado.

Mãe, isto são programas feitos para quem não tem grande emoção na vida. Enchem as pessoas de medo para não mudarem de canal. Vão lá milhões de turistas

E milhares desaparecem! atalhou-se logo a Dona Emília. E tu, Vera, já compraste os bilhetes? Não vais devolver?

Já comprei. Não vou devolver, respondeu a Vera sem emoções. Andámos dois anos a poupar para isto. Li testemunhos, fóruns, organizei tudo com uma agência de viagens de confiança. Não vamos andar metidos em becos; vamos passear, apanhar sol na praia, comer moqueca…

Ainda te envenenam lá, que nunca se sabe o que põem nessas comidas replicou a sogra, carrancuda. Pedro, meu filho, escuta a tua mãe. Que vá ela sozinha, que o risco é dela. Tu ficas são e salvo. O coração de mãe nunca engana.

De repente ficou tudo em silêncio. E a Vera, talvez com algo guardado há tempos, disse:

Está bem, Dona Emília. O risco é, de facto, coisa de quem ousa. Vou sozinha.

Vera! O quê?! fiquei de boca aberta.

Ouviste a tua mãe. Ela sente o perigo. Não posso ser responsável pelos teus rins, pelo teu fígado nem te por em risco de ser vendido. Ficas em casa, a beber chá com a tua mãe e a ver documentários de teorias da conspiração. Eu vou para esse inferno. Mas vou sozinha.

Dona Emília ficou entre o triunfo e o espanto. Venceu, mas a frieza com que Vera aceitou desmontou-a.

Assim mesmo, murmurou, mas sem a força de antes. Foste tu que o quiseste.

Tentei protestar, desistir, negociar. Mas a decisão estava tomada. Na noite antes do voo, deitaram-se costas voltadas, em silêncio.

Ainda vais mudar de ideias? perguntei, voz baixa.

Não. respondeu, curta e fria.

*****

O avião aterrou no Rio de Janeiro. O calor húmido abraçou a Vera assim que saiu do aeroporto.

Medo? Não. Só cansaço e uma curiosidade que queimava. Nos primeiros dias, seguiu o plano: percorreu ruas cheias de sorrisos, deslumbrou-se com igrejas e mercados, provou comida de rua deliciosa.

Ninguém tentou roubar, sequer olhar de lado. Os vendedores sorriam, tentavam negociar uns reais a menos.

Vera enviou ao grupo do WhatsApp comigo e… Dona Emília (ela fez questão!) uma selfie de sorriso largo, sumo de fruta na mão e mar azul ao fundo. Legenda: Orgãos no sítio. Ainda não me aliciaram para nada. Aguardem novidades.

Respondi com corações. Dona Emília apenas leu. E ficou calada.

Pouco depois, Vera foi para o norte, para Salvador. Num pequeno hostel familiar, gerido por Dona Joana, uma baiana idosa, aprendeu a cozinhar acarajé a sério. E foi lá que tudo mudou.

Dona Joana, com o português arranhado e meias frases em sotaque, parecia-se mais com Dona Emília do que eu esperava.

A senhora preocupava-se com a filha, emigrada em Paris.

Ela está sozinha, lá faz frio… as pessoas não olham nos olhos, a comida é estranha! resmungava, mexendo feijão com destreza Na televisão falam que lá é perigoso, que há terrorismo, gente má!

Vera olhou-a, e desatou a rir a bom rir, até chorar. Dona Joana ficou na dúvida. Vera, então, explicou-lhe, em gestos, fotografias no telemóvel e palavras simples, sobre Dona Emília, os órgãos, os perigos inventados.

Dona Joana arregalou os olhos e também se riu. Um riso cristalino.

Ai estas mães! exclamou. São todas iguais! Morrem de medo do que não conhecem. Aquilo que a TV mostra é só para assustar!

Nessa noite, sentadas na varanda sob estrelas mais próximas do que nunca, Vera ligou à Dona Emília, por videochamada.

A sogra apareceu no ecrã, cansada e na defensiva.

Então? Estás viva? atirou, sem rodeios.

Inteirinha e com todos os órgãos, Dona Emília. Olhe bem.

Vera apontou a câmara para um tabuleiro de chá e frutas, Dona Joana sorriu e acenou à portuguesa no ecrã.

Olá! Dona Joana gritou, alegre A sua nora é muito prendada! Não se preocupe, eu tomo conta dela! Nada de negócios esquisitos! E abraçou-se à Vera.

Dona Emília calou-se. Olhava da Dona Joana para a Vera, entre o espanto e algo mais.

E… órgãos? conseguiu balbuciar.

No sítio. Até já recuperei o apetite sorriu Vera Aqui é tão bonito, e as pessoas são um encanto. Dona Joana também teme pela filha em Paris, porque a TV lhe meter medo.

Veio então um longo silêncio.

Dá-me aí o telefone, quero falar com essa senhora! pediu subitamente Dona Emília.

O telemóvel passou para a Dona Joana. Não entendiam quase nada do que a outra dizia, mas sorriam, murmuravam, acenavam. Riram-se ambas, partilharam a única linguagem universal das mães preocupadas.

No final, até tentou sorrir, muito desajeitada, mas era já outra expressão que lhe vi.

Assim que desligaram, recebi mensagem: “A mãe acabou de apagar a televisão. Disse: Já não aguento mais estes dramas. E quando voltas?”

Demorei a responder. Fiquei a olhar as estrelas. Depois, fotografei-me com Dona Joana, braços dados, com aquele sorriso cúmplice, e enviei.

Legenda: Encontrei aliada. Amanhã vamos andar de jangada. Se acontecer alguma coisa, ainda tenho os rins. Beijos!

O regresso foi leve. No aeroporto do Porto esperavam-me tu, Pedro, e Dona Emília, com um ramo de astras coloridas estranhamente feliz.

Não me veio abraçar, mas estendeu-me as flores, pouco à vontade.

Então, ainda és a mesma?

Como pode ver, sem donos novos

Pronto, está bem resmungou. Conta-me lá… E aquela Joana, que tal?

No carro, a Vera foi descrevendo as igrejas, a comida, o carinho das pessoas e as peripécias engraçadas.

Dona Emília ouvia, pontuando aqui e ali com perguntas. A televisão da sala ficou muda.

No reflexo negro do ecrã, via-se uma família: marido, mulher e a mãe dele agora disposta enfim a olhar para o mundo com os olhos de quem o viu a sério, e percebeu que o medo não cabe na bagagem de um viajante feliz.

Ao jantar, Dona Emília, a medo, largou:

Para o ano… se calhar… irei convosco. Mas nada de aventuras malucas!

Eu e Vera trocámos olhares e sorrisos. Não esperávamos mudança tão depressa.

Mas, passado pouco, Dona Emília chegou lá a casa, vermelha, ainda transpirada de emoção.

Afinal, não vou a lado nenhum convosco! E tu, Vera, tiveste foi sorte! Ainda ontem vi que resgataram um monte de gente de cativeiro… Não quero isso para mim!

Como desejar respondeu Vera, encolhendo os ombros.

Pedro, tu também não tens nada que ir para longe. Em Portugal há tanto para ver! sentenciou.

Sorri, já sem discussões. Já percebi: cada um viaja o quanto pode e às vezes onde mais custa partir é mesmo do sofá de casa. E aprendi, naquele verão, que há medos que só se curam saindo pelo mundo, mas outros que ficam mesmo depois de tudo correr bem. O importante é regressar melhor do que se partiu.

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“Que Ela Vá Sozinha! Talvez Ali a Raptam!” — resmungou a sogra, franzindo o sobrolho Numa noite abafada antes das férias, o ar na casa de António e Alice estava carregado de tensão. No centro da sala, como um monumento à preocupação, erguia-se Dona Leonor, sogra, com o comando da TV em punho. — Eu não permito! Ficaram malucos?! — O tom de quem liderou gerações no liceu ecoava pelo apartamento. No ecrã, um apresentador soturno, diante de um mapa do Sudeste Asiático, desenhava setas vermelhas de perigo. Alice empacotava com calma surpreendente, já adivinhando o desfecho. António, resignado, tentava intervir. — Mãe, chega! São exageros… Vamos para um hotel normal, está tudo organizado. — Exageros?! — Dona Leonor quase atirou o comando — Abre os olhos, António! Vai acabar tudo mal! Na Tailândia… Aquilo é só traficantes! Vais ser mandado buscar cerveja e nunca mais apareces. Roubam-te rins, fígado e tudo! E ela… — Apontou para Alice como num teatro trágico — Vai dar a um bordel! Vi na televisão, não inventem. Alice parou de arrumar. Olhou fixamente a sogra e respondeu num tom calmo, de quem já enfrentou tudo isto. — Dona Leonor, acredita mesmo? Que todo o tailandês é mafioso e especialista em transplantes? — Não gozes comigo! Os factos lá estão! Mostram tudo no telejornal. Pessoas vão em busca de exotismo barato e as famílias recebem os órgãos em frascos! António suspirou. — Mãe, isso é coisa para assustar pensionistas. Milhões de turistas… — E milhares desaparecem! — replicou Dona Leonor. — E tu, Alice, já compraste bilhete?! Ainda podes cancelar? — Já comprei. Não cancelo. — disse Alice, serena. — Foram anos a poupar. Consultei opiniões, fóruns, escolhi agência de confiança. Não vamos passear por bairros manhosos. Vamos apanhar sol em Pattaya, explorar, provar tom yum… — Ainda vos envenenam! Deus sabe o que está naquela sopa — resmungou a sogra. — António, pensa bem. Que vá sozinha se está com tanta vontade. Os riscos são dela, tu ficas vivo e são. Coração de mãe sente o perigo. A sala mergulhou em silêncio. Alice finalmente falou: — Está bem, Dona Leonor. Concordo. O risco é meu. Vou sozinha. — Alice! Estás doida? — espantou-se António. — Ouvistes a tua mãe. Ela sente o perigo. Não posso arriscar a tua saúde nem te pôr à venda. Ficas aqui, a beber chá e ver conspirações no telejornal. E eu… — sorriu, gelada — vou enfrentar o inferno… sozinha. Dona Leonor ficou meio vitoriosa, meio atordoada. Ganhou, mas a decisão da nora baralhou-a. — Bem, assim é que é… — disse, menos enfática. António tentou convencê-la, mas Alice manteve-se firme. Na véspera do voo, dormiram costas com costas. — Ainda mudas de ideia? — perguntou António. — Não! ***** No aeroporto de Banguecoque, Alice foi envolvida pelo calor exótico. Medo? Nenhum, só cansaço e curiosidade. Seguia o plano: passear, maravilhar-se com templos, provar street food deliciosa. Ninguém tentou roubar-lhe nem a carteira, quanto mais os rins. Os vendedores eram tímidos mas amigáveis. Do outro lado do mundo, no grupo do WhatsApp com António e Dona Leonor (que fez questão de ser incluída), enviou foto: Alice sorridente com sumo de frutas diante do mar azul. Legenda: “Órgãos no sítio. Ninguém tentou comprar-me. Aguardem novidades!” António respondeu com corações. Dona Leonor só viu. E silenciou. Depois, Alice foi a Chiang Mai. Uma senhora local, Nok, ensinava-lhe a fazer pad thai no pequeno alojamento de família. A preocupação materna era igual: Nok tinha a filha a trabalhar em Seul. — Lá está sozinha, frio, comida estranha. Dizem que há radiação, vi na televisão! — lamentava, mexendo a massa. Alice riu às gargalhadas. Pela primeira vez, partilhou a história da Dona Leonor, dos órgãos e dos telejornais sensacionalistas. Nok arregalou os olhos e depois também se riu. — Oh, mães! São iguais em todo o lado! Têm medo do desconhecido. Televisão, aqui e aí, só diz disparates! Nessa noite, Alice ligou por vídeo a Dona Leonor. — Então? Viva? — perguntou logo a sogra. — Inteirinha, Dona Leonor. Quer ver? Mostrou a varanda, doces e chá, e apresentou Nok: — Não se preocupe. Aqui ninguém me vende nem me arranca nada. Até cozinho bem! — disse Nok, rindo, e abraçou Alice. Dona Leonor alternava entre o ecrã e a nora bronzeada. — E… os órgãos? — perguntou, hesitante. — Todos no sítio! E com apetite redobrado. Sabe, aqui dizem que na Coreia tudo é perigoso e frio — porque a televisão assim mostra. Seguiu-se um longo silêncio. — Dá-me essa tal… Nok! — pediu Dona Leonor. As duas falaram pelo vídeo. Não perceberam as palavras, mas entenderam o essencial. Riram-se, acenaram, e no fim, Dona Leonor até esboçou um sorriso torto. Mais tarde, António escreveu: “A mãe desligou a televisão e disse: ‘Chega de pânicos’. Perguntou quando voltas.” Alice, debaixo das estrelas, tirou foto com Nok, braços dados: “Encontrei aliada. Amanhã vou de parapente. Se algo correr mal, os rins continuam cá. Beijinhos!” Na chegada, António esperava-a. Dona Leonor, à parte, com um ramalhete de astrálias coloridas. Não a abraçou, nem fez escândalo. Só passou as flores. — Então, viva? — Como vê. E sem novos donos… — Pronto… — disse a sogra, acanhada. — Depois contas… E essa tua Nok? No caminho, Alice contava das aventuras e da simpatia das pessoas. Dona Leonor escutava, fazia perguntas. E a televisão… ficou muda. Nessa noite, Dona Leonor murmurou entre goles de chá: — Para o ano… se quiserem… eu até ia convosco. Mas não para sítios assim… muito selvagens. António e Alice sorriram à socapa, felizes pela mudança. Mas dias depois, voltou: — Afinal não vou! Alice, tiveste sorte! Vi agora nas notícias, muita gente a ser resgatada do cativeiro. Eu não vou! — Como quiser — respondeu Alice, indiferente. — António, também não tens que lá ir. Portugal tem tanto para ver! — rematou Dona Leonor, com ar de quem sabe tudo. O filho abanou a cabeça. Não valia a pena discutir.
To je teda stretnutie! Vyzeráš ako Zdena Studenková, ale byt máš ako po výbuchu.