Nunca pensei que cinco minutos de espera pudessem mudar o rumo da minha vida. Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Tudo se passou há muitos anos, talvez há umas três décadas. Lembro-me como se fosse ontem: foi naquela primavera suave de Lisboa que pela primeira vez a vi a aproximar-se da paragem, do outro lado da rua. A correr seria exagero dizer; a idosa movia-se com a ajuda da bengala, arrastando os pés o mais rápido que conseguia, e erguendo o braço como se tudo dependesse desse gesto.
Parei o autocarro. Claro que parei.
Obrigada, meu rapaz disse ela, ofegante, agarrando-se à barra com as duas mãos. Estes ossos já não são o que eram dantes.
Entre, senhora, sente-se à vontade respondi-lhe eu.
Daquele dia em diante, tornou-se presença assídua nas minhas viagens. Sempre à terça e à sexta, apanhava o meu autocarro ora para consultas no Hospital de Santa Maria, ora para visitar a irmã no Lumiar. O problema era sempre o mesmo: chegava ao ponto mesmo quando eu devia arrancar.
Na segunda vez que olhei pelo espelho e a vi a vir devagar, o meu colega ao lado comentou:
Arranca, já estamos atrasados.
Mas olhei para trás. Ela aproximava-se, com o seu casaco verde e a mala pendurada no braço.
Esperamos disse.
Ainda apanhas castigo
Pois que seja.
Subiu, sorriu-me com aqueles olhos clarinhos e sussurrou:
És um anjo.
E foi assim que se tornou hábito. Às terças e sextas, parava naquela paragem. Se ela não estivesse lá, esperava. Trinta segundos. Um minuto. Dois. O tempo que fosse. Ninguém protestava. O pessoal até lhe tinha carinho. Alguns até deitavam a cabeça fora das janelas:
Olha, ali vem ela!
Com o tempo, ela passou a trazer-me bolinhos de amêndoa.
Foi a minha neta que fez dizia, ainda que eu não acreditasse inteiramente.
Numa sexta-feira de julho, ela não apareceu. Nem na terça seguinte. Passou-se uma semana, depois outra. Eu continuava a parar e olhar para o canto da rua, mas nada de a ver surgir.
Talvez esteja doente suspirou uma das passageiras habituais. Já é de idade
Três semanas depois, lá a vi, enfim. Caminhava ainda mais devagar, agora apoiada num andarilho. Saí do autocarro para ir ter com ela.
Está tudo bem, dona?
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
Estive internada… Mas disse à minha filha que queria, pelo menos, mais uma vez, entrar no teu autocarro.
Ajudei-a a subir. Todo o autocarro bateu palmas.
Na última terça-feira, foi o meu último dia naquela carreira. Reformei-me após mais de trinta anos de trabalho. Cheguei à paragem, ela não estava sozinha. Havia dezenas de pessoas utentes de outros tempos, vizinhos, até o senhor Manel da mercearia ali ao lado.
Seguravam uma faixa:
Obrigado. Ensinaste-nos que a bondade nunca chega atrasada.
Saí, sem perceber bem o que se estava a passar. Ela aproximou-se devagar, apoiada à neta, e abraçou-me.
Esperaste por mim tantas vezes disse. Hoje somos nós que esperamos por ti.
Houve discursos, até uma placa. Disseram-me que a paragem ia passar a ter o meu nome a paragem do homem que espera sempre.
A voz tremeu-me.
Eu eu só esperei. Não tem nada de mais.
Alguém gritou lá atrás:
Tem, sim! Nesta cidade todos correm, ninguém espera!
E bateram palmas outra vez.
Nessa noite, ao contar tudo à minha mulher, ela respondeu-me:
É por isso que te amo. Num mundo apressado, tu sempre soubeste quando parar.
Coloquei a placa junto às fotografias dos nossos filhos. Mas o que guardo no coração é outra coisa aquele sorriso dela, cada vez que entrava, e o seu baixinho obrigada, rapaz.
Dizem que fiz algo extraordinário. Eu só esperei.
Às vezes penso que talvez seja isso o mais extraordinário que podemos fazer esperar pelos outros, mesmo quando o mundo todo nos diz para avançar.







