Beatriz não consegue acreditar no que está a acontecer-lhe. O seu marido, o único homem em quem confiava e a quem considerava o seu porto seguro, hoje diz-lhe: “Já não te amo.”
A surpresa é tão grande que Beatriz fica paralisada, sentada numa posição desajeitada, enquanto ele circula pela casa, atarefado com as malas, as chaves tilintando e o som dos passos apressados. Como se já não bastassem as dificuldades. Pouco tempo antes, perdeu subitamente o pai e, apesar da sua própria dor, precisa de amparar a mãe envelhecida e a irmã a Mariana, com 18 anos, sofreu um grave acidente e ficou inválida. Vivem na vila ao lado. O seu filho, Martim, começou agora o primeiro ano. Em junho, a fábrica fechou portas. Beatriz está desempregada. Agora também sem marido…
Beatriz apoia a cabeça nas mãos, senta-se à mesa e rebenta em lágrimas de profundo desespero.
Meu Deus, o que faço eu agora? Como se segue a vida assim? Ai, Martim! Tenho que ir buscá-lo à escola!
O peso dos deveres diários obriga-a a avançar, mesmo sem vontade.
Mãe, estiveste a chorar?
Não, Martim, claro que não.
Estavas triste por causa do avô? Mãe, faz-me tanta falta!
Também sinto muito a sua falta, filho… Mas temos de ser fortes. O nosso avô era um homem forte e agora, com Deus, está bem. Merece descansar, nunca descansou em vida.
E o pai?
O pai? Deve ter viajado para trabalhar. E tu, como correu a escola?
A vida tem de continuar. Não ama? Paciência. O amor não se obriga. Ela deixou passar qualquer coisa, talvez por distracção.
Enquanto Martim almoça e brinca com os seus brinquedos, Beatriz abre o computador que o marido deixou. É a primeira vez que o faz. Entra no email facilmente. Ele nem conseguiu apagar a última conversa. Está completamente apaixonado… por outra. E ela, agora, é a “não-amada”. Dez anos foi o seu “raio de sol”, e depois de oito anos a tentarem ter uma criança, foi também nossa querida mãe.
Agora tudo mudou. É preciso adaptar-se.
Mais urgente ainda é encontrar um emprego. O seu nível superior não interessa a ninguém. O subsídio de desemprego do IEFP são poucos euros e não resolvem nada.
O que aconteceu? Como é que o Aníbal, responsável, trabalhador, se tornou alguém tão frio? Tudo faz sentido apenas se ele tivesse enlouquecido. A casa, construída com esforço, ainda nem está acabada. Felizmente, há teto e pelo menos um quarto habitável.
Emprego, como preciso de ti! Quase chora. Não há tempo para lágrimas. O emprego é vital.
Procura e volta a procurar durante vários dias, mas sem sucesso! O filho no primeiro ano e a sua situação reduz todas as hipóteses. Numa noite, recebe uma chamada do seu compadre Renato:
Bea, o teu não voltou, pois não?
Não.
E ser armazenista, queres tentar?
Estás a falar a sério?
Claro. Sei que não estás para brincadeiras depois do Aníbal. É por turnos, podes buscar o Martim ou pô-lo na ATL. Pagam mil duzentos e cinquenta euros pouco, mas melhor do que nada. Amanhã levo-te batatas, cebolas e um frango.
Ó Renato, tenho as galinhas cá em casa. Elas dão os ovos e alimentam-nos.
Deixa-as lá criar. Nunca deites fora uma galinha boa.
Obrigada. E a tua Rosa?
Aguenta-se. É um mulherão, sempre de pé.
Assim era sempre Renato. A sua esposa, Rosa, já fez cirurgia, passa por tratamentos, mas ele nunca se queixou e enfrenta tudo. Nunca perdeu o ânimo. Beatriz agradece: há esperança. Deus está atento, nunca falha. E o compadre é uma bênção.
O trabalho é acessível, encontra alguns momentos para chorar baixinho e refletir sobre o que perdeu.
Os dias passam, as semanas voam, os meses sucedem-se. Um ano mais tarde, Beatriz volta a sentir fome, consegue dormir, rir e vibrar com os progressos do filho. A dor da traição do marido renasce apenas quando ele vem buscar Martim aos fins-de-semana, mas ela não impede isso: os problemas deles não podem prejudicar o filho. Tem vontade de perguntar, afinal o que faltou nela? Mas sabe que não era por ela, mas por uma paixão súbita do marido por outra mulher. Recorda uma frase de um filme: “O amor dura até à primeira esquina; depois começa a vida.” Para Beatriz, amor e vida fundem-se. E para ele?
O Outono, este ano, parece continuação do Verão: quente, as árvores ainda verdes, as crianças felizes nas ruas, o jardim repleto de dálias e crisântemos. Naquele dia em que ela sentiu o olhar atento de Miguel, parecia igual a todos os outros talvez só o sol brilhasse mais forte, a música da vizinha soasse mais alto pela janela aberta, ou fosse mesmo hora de os destinos se cruzarem.
Menina, deixe-me ajudar. Não se deve andar tão carregada!
Já estou habituada.
É estranho. Não devia ser hábito para alguém tão bonita carregar pesos!
Faz isso por todas as bonitas? Está na esquina à espera?
Estive mesmo à espera. Esperei até encontrar alguém assim.
Impossível não sorrir. E riram juntos, do fundo da barriga, até às lágrimas.
Miguel estende-lhe a mão, os olhos ainda cheios de alegria.
Beatriz.
“Beatriz, Beatriz, mulher alheia,” já ouviu esta cantiga?
Não conheço. Mas não sou mulher de ninguém.
Ótimo! Que sorte a minha… Encontrei finalmente quem sempre sonhei e está livre. Estarão todos tolos por aqui?
Vejo que tem bom humor. E é sério?
Muito! Beatriz, vamos hoje ao cinema, conversar?
Não posso, tenho que buscar o Martim à ATL.
Não acredito! Tem filho? Parece-me tão nova para isso.
Tenho 35.
Eu também! Que coincidência. Mas, a sério, pensei que tinha uns vinte…
Agora já sabe.
E o pai do Martim?
Não quero falar disso agora.
Ok, não falamos mais. Que tal no sábado, num filme infantil?
Ao sábado, o Martim está com o pai.
Beatriz, não quero incomodar. Mas se tiver tempo livre, ligue-me. Aqui está o cartão: sou médico, hematologista infantil.
É das profissões mais sérias!
Não costumo andar à procura de namoradas, pode crer.
OK, Miguel, eu telefono respondeu Beatriz, sincera.
Vou esperar.
Que lindo era aquele Outono! Era mesmo um presente. O sol suave, as cores das folhas pintando o mundo, dias quentes de abrir todos os jardins, e a ternura deles, que limpava as mágoas e embalava Beatriz num novo princípio. Aproximaram-se devagar, e surpreendida, Beatriz quis partilhar um chá com Miguel, semanas depois.
Beatriz, não leves a mal, não vou a tua casa. É muito importante tudo o que me acontece agora, quero cuidar disso antes com calma. Confias?
No fim de semana partiram juntos para o Parque Natural, onde Miguel alugou uma casa que parecia um pequeno castelo. Lá dentro, Beatriz mal reparava: via apenas os olhos de Miguel, fundos e castanhos, e deixava-se envolver. Descobriu um amor intenso, inesperado.
Miguel, onde estou, o que se passa? Parece que morro de amor. Como vivi sem ti? Estou tão feliz contigo!
És perfeita! Sinto-me abençoado!
Mais dois meses e separarem-se tornou-se difícil.
Beatriz, casas comigo?
Miguel, o divórcio é no fim do mês.
Assim que fique livre, casa-te comigo. Antes que me roubem a menina!
A menina faz por si e só tem olhos para quem ama. E não quero festas, só o casamento, só nós e o castelo.
Como quiseres, meu amor.
Renato e Rosa foram só testemunhas. A mãe e Mariana enviaram telegrama de parabéns. Mudaram-se para o novo apartamento alugado por Miguel: dois quartos, ambos a renová-lo para criar conforto. Especial cuidado para o espaço do Martim. Eles já se conhecem há meses, mas Martim, que vê a mãe e o pai como duas metades da laranja, não se mostra fácil com Miguel.
Bea, não te assustes, precisamos ver o sangue do Martim. Está muito pálido.
Miguel, é da preocupação. Custou-lhe aceitar o nosso divórcio. Li que o divórcio de pais magoa mais os filhos que a morte de um deles.
Tens razão, minha sábia. Eu também vivi o divórcio dos meus pais e foi devastador. Mas vamos analisar o sangue, está bem, Martim?
Nesse dia Miguel regressa a casa cabisbaixo. Beatriz percebe logo: algo está mal.
Bea, não te preocupes. Há alterações no sangue do Martim. A minha intuição não falhou. Amanhã levo-o comigo.
É doloroso. Como se tivesse de pagar pelo seu novo amor e a moeda é alta. Leucemia. Que palavra horrível.
Tudo muda. Beatriz pede licença sem vencimento, incapaz de deixar o filho enfrentar sozinho as agulhas, os tratamentos, as análises. Segura-lhe a mão, só pede: Força, Martim! Sempre foste o meu amigo, estamos juntos, prometo.
Quando já não aguenta, Miguel manda-a dormir e fica com Martim. Dormir é raro. Mais vezes, deita-se só a olhar para o teto.
O ex-marido liga, exige que ela abandone a casa inacabada.
O Martim vem cá, eu trato dele. Ele pode vir cá a casa.
Vai vê-lo!
Agora não. Tenho trabalho fora.
Ouvindo Beatriz, Miguel afaga-lhe o ombro:
Bea, não te prendas ao passado. Arranjaremos juntos tudo, do início.
Tenho pena. O dinheiro que ganhei investi ali. Será agora momento de pensar nisso?
Esquece isso. Só pensa no Martim. Eu dou conta do resto. Sempre quis uma família. Deus sabe. Ele não vos vai tirar de mim.
E os exames, Miguel?
Fazemos de tudo. Ainda não melhoram.
Beatriz chora em silêncio. Martim não pode perceber.
Tio Miguel, o que se passa com o meu sangue?
Imagina que na nossa corrente há barcos vermelhos e brancos. Os teus estão numa batalha.
E quem ganha?
Por agora, os brancos.
E depois?
Torce pelos vermelhos!
Mãe, leva-me daqui. Estou fartinho.
Bea, é isso que ia sugerir. Vamos ao nosso castelo, o tempo está bom. Passeamos no mato e o Martim descansa.
A primavera enche o jardim de flores e árvores em flor. Passeiam, alegres com cada flor, cada relva. Em alguns momentos, o Martim parece concentrado e pára.
O que tens, filho, sentes-te mal?
Não interrompas, mãe. Estou num jogo de batalha naval.
Aquela pequena pausa acaba depressa. O filho ganha cor, até as bochechas ficam rosadas.
Mãe, onde está o pai?
Em trabalho, filho.
Outra vez? Pronto.
De regresso ao hospital, novos exames. A diretora do laboratório aparece pessoalmente.
Dr. Miguel, para onde levou o Martim?
Só para o parque ali perto, porquê? O que se passa?
Os exames estão ótimos. Ele entrou em remissão. O sangue está limpo.
Miguel corre, radiante para o quarto.
Martim, que fizeste? Estás melhor, filho! Não chores, Beatriz! Ele está a recuperar. Que fizeste?
Pai, lembras-te dos barcos? Ganhei todas as batalhas com os vermelhos.







