“‘Vais assumir o empréstimo. Tens obrigação de ajudar!’ — disse a minha mãe. ‘Criámo-te, comprámos-te casa!’ — O dilema de dizer não aos pedidos da família e escolher o meu próprio caminho.”

Vais ficar com o empréstimo da casa. Tens obrigação de ajudar! diz a minha mãe. Nós criámos-te e comprámos-te um apartamento.

Enfim, pareces mesmo uma estranha a minha mãe serve chá, andando entre o fogão e a mesa no seu velho percurso. Vens cá uma vez por mês, e só duas horinhas.

O meu pai está sentado em frente à televisão. O som está baixo, mas não desligado. No ecrã, jogadores correm atrás da bola no relvado, e ele finge que não ouve, mas vai espreitando os golos em repetição.

Trabalho, mãe agarrei a chávena com as duas mãos, só para aquecer os dedos. Até às nove quase todos os dias. Ir e vir chego à meia-noite a casa.

Toda a gente trabalha. A família não se esquece.

Cá fora já anoitece. Na cozinha, só a luz por cima da mesa está acesa, as esquinas ficam na sombra. Em cima da mesa há uma tarte de couve, que a minha mãe faz sempre que eu venho.

É irónico porque desde pequena que não suporto couve cozida.

Mas nunca lhe soube dizer.

Está muito bom menti e bebi o chá.

Ela sorriu satisfeita.

Depois sentou-se à minha frente, com as mãos pousadas na mesa lembro-me desde miúda deste gesto. Assim começavam todas as conversas sérias. Foi assim com o meu primeiro empréstimo, foi assim quando insistiam que eu acabasse um namoro porque não era para mim.

Ontem a tua irmã ligou-me disse a minha mãe.

Está tudo bem com ela?

Anda cansada a residência é barulhenta divide o quarto com mais gente. Diz que não consegue estudar, vai para a biblioteca, mas nem sempre há lugar. Às vezes senta-se no parapeito do corredor

Assenti. Já sabia para onde ia a conversa.

A minha mãe preparava terreno devagar. Pingava devagarinho até chegar ao assunto principal.

Tenho tanta pena dela suspira. Esforça-se tanto, está no curso estatal mas não tem condições.

Eu sei ela já me escreveu.

Fica em silêncio. Baixa a cabeça, como se me fosse confidenciar algo secreto.

Eu e o teu pai estivemos a pensar diz em voz mais baixa. Ela precisava ter uma casa dela. Nem que seja um T0 pequeno. Um canto só dela. Para estudar à vontade. Para dormir em paz. Assim não dá

Aperto mais forte a chávena.

O que é que queres dizer com casa?

Não falo de um apartamento grande gesticula ela Um estúdio. Há baratos. Encontra-se qualquer coisa. Por uns cento e vinte mil euros talvez.

Olhei-a de frente.

E como acham que isso se faz?

A minha mãe olha de lado para o meu pai. Ele tosse e baixa ainda mais o volume da TV.

Fomos ao banco suspira ela. Falámos com um, depois com outro Não temos hipótese. A idade, os salários baixos Não nos aprovam nada.

E então ela diz aquilo que eu já sabia que viria:

Mas a ti aprovam. Tens um bom ordenado. Andas a pagar o teu há seis anos. Nunca falhaste. Histórico limpo. O segundo empréstimo dão-te de certeza. Nós ajudamos pelo menos até a tua irmã ter trabalho. Depois pode pagar ela.

Cá dentro, sinto um nó a apertar-me o peito é como se faltasse ar.

Vamos ajudar.

Esta frase ouvi-a há seis anos. Na mesma mesa. Sob a mesma luz. Com a mesma tarte.

Mãe eu já mal aguento como estou

Vá lá, deixa-te disso. Tens casa, tens trabalho. Que mais queres?

Tenho casa mas não tenho vida murmuro. Seis anos a pedalar sem parar. Todos os dias até tarde. Às vezes ao fim de semana também. Só para dar para as contas. Tenho vinte e oito anos e nem consigo ir a um encontro ou não tenho forças ou não tenho dinheiro. As minhas amigas já casaram, já têm filhos eu estou sempre cansada e sozinha.

Ela olha para mim como se fosse exagero.

És uma dramática como sempre.

Que segundo empréstimo, mãe eu própria nem me aguentei ainda.

Ela franze os lábios. Endireita a toalha, como se o problema estivesse ali e não nas palavras dela.

Ajudámos-te vendemos a casa da tua avó para dares a entrada. Não és uma estranha.

E ali não aguentei.

Mãe isso era a minha parte da herança.

Vê-se o rosto dela mudar.

Que tua parte?! Isso é tudo da família. Só foi gasto por ti. Nós corremos atrás dos papéis, dos bancos!

Vocês usaram o meu dinheiro e há seis anos repetem que me ajudaram.

O meu pai desvia-se enfim da televisão. Olha com severidade.

Então agora andas a fazer contas? Os teus pais já te são estranhos?

Não faço contas só digo a verdade.

Bate com a palma na mesa, não é forte, mas faz-se silêncio.

Nós é que te pusemos no apartamento, e agora não queres ajudar a irmã. Ela é tua carne, se já não te lembras.

Sinto a garganta apertada, mas obrigo-me a manter a voz calma.

Vocês não me compraram uma casa. O empréstimo está no meu nome. Investiram a minha herança. Os primeiros dois anos ainda deram uma ajuda às vezes mil euros, às vezes mil e quinhentos. Depois pararam. Tenho pago tudo sozinha há seis anos. E agora querem que assuma OUTRO empréstimo.

Nós pagamos! diz a minha mãe com paciência, como se falasse com uma criança. Só tens de assinar.

E eu quando é que vou poder reerguer-me?

Silêncio.

Também o televisor ficou mudo publicidade. O meu pai virou-me as costas.

A minha mãe olha como se tivesse dito uma vergonha.

Vou-me embora levantei-me e peguei na mala.

Espera lá fica mais um bocado fala connosco a sério

Estou cansada, mãe.

Saí sem olhar para trás.

A tarte ficou intacta.

Encostei-me ao muro das escadas, fechei os olhos.

O telefone vibrou uma amiga.

Onde te meteste? Não íamos sair?

Estive em casa dos meus

Então, como foi?

Fiquei um segundo sem resposta.

Um terror. Querem que tire outro empréstimo. Agora para a minha irmã.

Como assim? Nem o teu ainda pagaste!

Pois. Dizem que o banco me dá, que sou fiável. Eles depois pagam, até a minha irmã trabalhar.

É uma cilada diz ela. Vão ser sempre os mesmos. Ficas tu com o peso até ao fim.

Agarrei o telefone com força.

Eu sei

Ela conta-me um caso igual uns parentes prometeram que era só o nome, que não havia perigo quase perderam a casa.

E acaba a conversa:

Tens direito a dizer não. Não é egoísmo. É sobrevivência.

Sentei-me num banco no largo do prédio e respirei.

Há muito tempo que não estava ali parada dez minutos sem correr.

Na cabeça só faziam contas.

O primeiro empréstimo tanto por mês.

Faltam nove anos.

Se fizer outro vai quase duplicar.

Fico sem dinheiro até para comer.

Viver só para pagar.

Não para viver.

Três dias depois, a minha mãe aparece sem avisar.

De manhã cedo. Enquanto me preparava para sair.

Trouxe-te uns pastéis sorri ela. Quero falar contigo com calma. Sem o teu pai.

Deixei-a entrar.

Pus água a aquecer.

Os pastéis ficaram fechados na caixa.

Ela sentou-se e começou:

Não dormi nada esta noite Tu tens de me compreender. A tua irmã é pequena. Não se desenrasca. Mas tu és forte. Em ti podemos confiar.

Olho-a nos olhos e digo aquilo que nunca disse:

Mãe eu não sou forte. Eu não tenho escolha.

Ela faz um gesto de desdém.

Tens tudo. Casa. Trabalho. A tua irmã não tem nada.

Nesse momento tiro o caderno.

Abro na página onde pus tudo até ao cêntimo.

Olha. Ordenado. Empréstimo. Contas. Comida. Transportes. Sobra quase nada. Se fico doente ou há um imprevisto acabou-se.

A minha mãe afasta o caderno com desdém.

Isso são números. A vida é diferente. Arranja-se sempre forma.

Esse arranja-se é o meu dia a dia. Seis anos. Seis anos sem férias verdadeiras. Sem roupa nova. Sem nada. As minhas amigas vão à praia e eu trabalho nas férias para criar uma almofada financeira.

Levanta a voz.

Nós prometemos pagar!

Na outra vez também prometeram.

Os olhos dela brilham.

Estás a acusar-me?!

Não. Só estou a dizer o que é real.

Ela levanta-se num salto.

Criámo-te! Educámo-te! Fizemos-te casa!

Não digo que não me criaram. Só que não consigo mais.

A minha mãe responde gelada:

Não consegues ou não queres?

A primeira vez olho-a nos olhos, sem desviar.

Não quero.

Silêncio.

Depois a cara dela fica vermelha, às manchas.

Então é assim então a tua irmã é-te estranha. Então nós não valemos nada. Está bem. Não te esqueças.

Pegou na mala e saiu porta fora.

A porta bateu tão forte que o espelho do hall tilintou.

Fiquei na cozinha.

Os pastéis ali, esquecidos, fechados, como um suborno deixado para trás.

À noite escrevi à minha irmã:

Olá. No sábado posso ir ver-te. Pode ser?

Respondeu logo:

Claro! Aparece!

E fui.

Queria ver com os meus olhos o desespero de que a minha mãe falava.

A residência era normal.

Pequena. Sim.

Barulhenta. Às vezes.

Mas limpa. Organizada.

E a minha irmã não tinha ar de vítima.

Abraçou-me a rir:

Avisa-me da próxima, que arrumo o quarto antes!

Olhei à volta algumas camas, roupeiros, uma mesa. Na parede, fotos e luzes de Natal. Fazia por estar confortável.

Sentámo-nos a conversar.

E então perguntei-lhe:

Falaste com a mãe sobre isto da casa?

Olhou para mim, intrigada.

Sim mas achei que eram os pais a tratar disso. Não tu

Eles não podem. Querem que seja eu.

Ficou séria.

Espera mas ainda estás a pagar o teu crédito

Sim.

Quanto pagas por mês?

Disse-lhe o valor.

Ela ficou aflita:

Não fazia ideia A mãe nunca disse que estavas assim tão apertada

E aí a minha irmã disse o que me libertou:

Eu não insisto, juro. Estou bem assim. Tenho amigas. Até conheci um rapaz agora. Divirto-me. Se precisar, arranjo um trabalho. Safo-me sozinha.

Olhei-a, sem saber se ria ou chorava.

Tanto tempo a fazerem-me crer que ela não se aguentava

E afinal, só servia como desculpa conveniente.

No comboio de regresso olhei pela janela e pela primeira vez não senti culpa.

Ela vai safar-se.

Não é frágil.

E eu nunca mais pago as escolhas dos outros.

Telefonei à minha mãe.

Estive com a mana.

E?! Viste como ela vive?!

Mãe ela está bem. Não insiste nisso.

A minha mãe resmunga:

Ela é uma miúda, não percebe nada! É orgulho, não se quer queixar!

Desta vez respondi, clara:

Mãe não vou pedir empréstimo nenhum.

A voz dela torna-se fria, estranha.

Não confias nos teus pais? Nós pagamos!

Já ouvi isso antes.

Já chega disso!

Não é repetir. Só não quero destruir-me.

Começa a gritar:

que sou ingrata

que sou uma traidora

que família é para sempre

que um dia vou precisar e vou lembrar-me

Acabou a chamada.

O meu pai também não atende.

As mensagens ficam sem resposta.

Fica o silêncio.

E eu, sozinha.

Chorei.

Sim.

Chorei muito.

Chorei de dor, não de culpa.

Porque quando te dizem:

Ou estás connosco ou contra nós

isso não é amor.

É controlo.

E nessa noite, no escuro, percebi uma coisa:

Às vezes dizer não

não é trair.

Às vezes o não é salvação.

A vida é longa.

E se a tenho de viver

quero vivê-la com as minhas escolhas,

não num guião escrito por outros.

E tu, achas mesmo que um filho tem de estar sempre a retribuir aos pais, mesmo que isso o destrua?

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

2 + 16 =

“‘Vais assumir o empréstimo. Tens obrigação de ajudar!’ — disse a minha mãe. ‘Criámo-te, comprámos-te casa!’ — O dilema de dizer não aos pedidos da família e escolher o meu próprio caminho.”
Ficou Só Uma