Devias ter avisado! Eu não preparei nada! Tu sabes quanto custa receber convidados?! gritava a sogra, com a voz a tremer entre indignação e surpresa.
Eu sou a nora: mulher comum, trabalhadora, sem coroa na cabeça. Eu e o António, meu marido, vivemos no nosso próprio apartamento em Lisboa, puxando tudo pelos cabelos crédito, contas, trabalho sem hora para acabar.
A sogra, Dona Filomena, mora numa aldeia alentejana, ali próxima também vive a cunhada, a Maria do Carmo. Tudo seria mais fácil se elas não tivessem decidido que o nosso apartamento era um resort de fim de semana. Ao início, até parecia simpático:
Passamos aí no sábado, está bem?
Só um tempinho!
Afinal, somos família!
Pois, esse tempinho sempre virava dormida; esse passamos era com bolsas, tachos vazios e olhares ansiosos pelos petiscos cá de casa.
Todos os fins de semana, a mesma rotina esmagadora: depois do trabalho, corria entre supermercados, cozinhava, lavava, punha a mesa, sorria e, terminado o jantar, ainda passava metade da noite entre loiça e limpeza. Dona Filomena sentada, sempre a comentar:
Por que é que a salada não tem grão-de-bico?
Eu gosto do cozido mais forte.
Lá na aldeia não se faz assim.
E a Maria do Carmo ainda acrescentava:
Ui, que canseira esta viagem…
E sobremesa, não há?
Nunca um obrigada, ou queres ajuda?
Até que, um dia, já sem forças, despejei ao António:
Não sou criada de ninguém, nem quero sacrificar todos os meus fins de semana a cuidar da tua família.
Talvez esteja na altura de mudarmos isto, concordou ele, hesitante.
Foi quando me surgiu uma ideia.
No sábado seguinte, toca o telefone:
Vamos aí no sábado, está bem?
Ai, este fim de semana temos planos, respondi, calma.
Planos? Que planos?
Nossos, Dona Filomena. Coisas nossas.
E sabem o que fizemos? Não eram planos nenhuns fomos, de surpresa, à casa dela. Sábado de manhã, lá estávamos eu e António no quintal da sogra. Ela abre a porta, fica espantada:
O que é isto?!
Viemos visitar-vos. Só um tempinho.
Devias ter avisado! Não preparei nada! Tu sabes quanto custa receber visitas?!
Olhei-lhe nos olhos e disse serena:
Vê, é assim que eu vivo todos os fins de semana.
Ah, então vieste dar-me uma lição?! Não tens vergonha!
O barulho foi tal que até os vizinhos vieram espreitar de portadas abertas, e nós voltámos para casa com as emoções aos trambolhões.
Sabe o mais curioso? Nunca mais vi uma visita sem ser convidada. Acabaram-se os passamos aí e os sábados passados à volta do fogão. Às vezes, para sermos ouvidos, só temos de mostrar aos outros o peso do nosso lugar.
Acha que fiz bem? O que teria feito nessa situação?







