Devia ter avisado, eu não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! – gritava a sogra Eu sou a nora: comum, trabalhadora, sem corona na cabeça. Eu e o meu marido vivemos num apartamento próprio em Lisboa, que sustentamos sozinhos – crédito, contas, trabalho de sol a sol. A sogra mora numa aldeia do interior, tal como a cunhada. E tudo seria tranquilo, se não tivessem decidido que o nosso apartamento era um resort de fim de semana. Ao início, até parecia simpático: – Vamos aí no sábado! – É só uma visitinha rápida. – Somos família… Pois… “visitinha rápida” significava dormir cá; “vamos aí” vinha com malas, tachos vazios e olhares a pedir banquete. Todos os fins de semana era igual: depois do trabalho, eu corria aos supermercados, cozinhava, limpava, punha a mesa, sorria e, à noite, lavava loiça e arrumava tudo. Dona Valentina sentava-se a comentar: – Que falta aqui milho na salada… – Eu gosto mais do caldo de cozido mais forte… – Na aldeia não se faz assim… E a cunhada acrescentava: – Ai, estou cansada da viagem… – Não há sobremesa? E nunca ouvi: “Obrigada”, “Precisas de ajuda?” Um dia, não aguentei e disse ao meu marido: – Não sou empregada doméstica, não quero passar todos os fins de semana a servir a tua família. – Se calhar, temos mesmo de fazer alguma coisa… E tive uma ideia. No fim-de-semana seguinte, a sogra liga: – Vamos aí sábado! – Olhe, temos outros planos… – respondi calma. – Que planos? – Nossos… E sabem que fizemos? Fomos sim “aos planos”, mas diretamente à casa da Dona Valentina. No sábado de manhã, lá estávamos à porta. A sogra abriu e congelou: – Mas o que é isto?! – Viemos visitá-la. Só um bocadinho. – Deviam ter avisado, não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! Olhei para ela e disse serenamente: – Vê como é? Eu passo por isto todos os fins de semana. – Quiseste dar-me uma lição?! Que atrevida! Ela gritou tanto que os vizinhos olharam… e fomos para casa. O mais engraçado? Nunca mais houve visita sem convite. Nada de “aparecer” e fim-de-semana na minha cozinha. Às vezes, para sermos ouvidos, basta mostrar aos outros como é calçar os nossos sapatos… O que acha, agi bem? O que faria numa situação destas?

Devias ter avisado! Eu não preparei nada! Tu sabes quanto custa receber convidados?! gritava a sogra, com a voz a tremer entre indignação e surpresa.

Eu sou a nora: mulher comum, trabalhadora, sem coroa na cabeça. Eu e o António, meu marido, vivemos no nosso próprio apartamento em Lisboa, puxando tudo pelos cabelos crédito, contas, trabalho sem hora para acabar.

A sogra, Dona Filomena, mora numa aldeia alentejana, ali próxima também vive a cunhada, a Maria do Carmo. Tudo seria mais fácil se elas não tivessem decidido que o nosso apartamento era um resort de fim de semana. Ao início, até parecia simpático:

Passamos aí no sábado, está bem?

Só um tempinho!

Afinal, somos família!

Pois, esse tempinho sempre virava dormida; esse passamos era com bolsas, tachos vazios e olhares ansiosos pelos petiscos cá de casa.

Todos os fins de semana, a mesma rotina esmagadora: depois do trabalho, corria entre supermercados, cozinhava, lavava, punha a mesa, sorria e, terminado o jantar, ainda passava metade da noite entre loiça e limpeza. Dona Filomena sentada, sempre a comentar:

Por que é que a salada não tem grão-de-bico?

Eu gosto do cozido mais forte.

Lá na aldeia não se faz assim.

E a Maria do Carmo ainda acrescentava:

Ui, que canseira esta viagem…

E sobremesa, não há?

Nunca um obrigada, ou queres ajuda?

Até que, um dia, já sem forças, despejei ao António:

Não sou criada de ninguém, nem quero sacrificar todos os meus fins de semana a cuidar da tua família.

Talvez esteja na altura de mudarmos isto, concordou ele, hesitante.

Foi quando me surgiu uma ideia.

No sábado seguinte, toca o telefone:

Vamos aí no sábado, está bem?

Ai, este fim de semana temos planos, respondi, calma.

Planos? Que planos?

Nossos, Dona Filomena. Coisas nossas.

E sabem o que fizemos? Não eram planos nenhuns fomos, de surpresa, à casa dela. Sábado de manhã, lá estávamos eu e António no quintal da sogra. Ela abre a porta, fica espantada:

O que é isto?!

Viemos visitar-vos. Só um tempinho.

Devias ter avisado! Não preparei nada! Tu sabes quanto custa receber visitas?!

Olhei-lhe nos olhos e disse serena:

Vê, é assim que eu vivo todos os fins de semana.

Ah, então vieste dar-me uma lição?! Não tens vergonha!

O barulho foi tal que até os vizinhos vieram espreitar de portadas abertas, e nós voltámos para casa com as emoções aos trambolhões.

Sabe o mais curioso? Nunca mais vi uma visita sem ser convidada. Acabaram-se os passamos aí e os sábados passados à volta do fogão. Às vezes, para sermos ouvidos, só temos de mostrar aos outros o peso do nosso lugar.

Acha que fiz bem? O que teria feito nessa situação?

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Devia ter avisado, eu não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! – gritava a sogra Eu sou a nora: comum, trabalhadora, sem corona na cabeça. Eu e o meu marido vivemos num apartamento próprio em Lisboa, que sustentamos sozinhos – crédito, contas, trabalho de sol a sol. A sogra mora numa aldeia do interior, tal como a cunhada. E tudo seria tranquilo, se não tivessem decidido que o nosso apartamento era um resort de fim de semana. Ao início, até parecia simpático: – Vamos aí no sábado! – É só uma visitinha rápida. – Somos família… Pois… “visitinha rápida” significava dormir cá; “vamos aí” vinha com malas, tachos vazios e olhares a pedir banquete. Todos os fins de semana era igual: depois do trabalho, eu corria aos supermercados, cozinhava, limpava, punha a mesa, sorria e, à noite, lavava loiça e arrumava tudo. Dona Valentina sentava-se a comentar: – Que falta aqui milho na salada… – Eu gosto mais do caldo de cozido mais forte… – Na aldeia não se faz assim… E a cunhada acrescentava: – Ai, estou cansada da viagem… – Não há sobremesa? E nunca ouvi: “Obrigada”, “Precisas de ajuda?” Um dia, não aguentei e disse ao meu marido: – Não sou empregada doméstica, não quero passar todos os fins de semana a servir a tua família. – Se calhar, temos mesmo de fazer alguma coisa… E tive uma ideia. No fim-de-semana seguinte, a sogra liga: – Vamos aí sábado! – Olhe, temos outros planos… – respondi calma. – Que planos? – Nossos… E sabem que fizemos? Fomos sim “aos planos”, mas diretamente à casa da Dona Valentina. No sábado de manhã, lá estávamos à porta. A sogra abriu e congelou: – Mas o que é isto?! – Viemos visitá-la. Só um bocadinho. – Deviam ter avisado, não preparei nada! Sabe quanto custa receber visitas?! Olhei para ela e disse serenamente: – Vê como é? Eu passo por isto todos os fins de semana. – Quiseste dar-me uma lição?! Que atrevida! Ela gritou tanto que os vizinhos olharam… e fomos para casa. O mais engraçado? Nunca mais houve visita sem convite. Nada de “aparecer” e fim-de-semana na minha cozinha. Às vezes, para sermos ouvidos, basta mostrar aos outros como é calçar os nossos sapatos… O que acha, agi bem? O que faria numa situação destas?
Ти не си достоен за моя син – не си на неговото ниво!