Diário, hoje acordei com um peso no coração. Não sei se é só cansaço, ou se as palavras que ouvi ontem ainda ecoam na minha cabeça. Disseram que estou arrogante, que o dinheiro me mudou que a Paula já não é a mesma. Não sei bem como cheguei a esse ponto. Sempre achei que fazia tudo pelos outros, especialmente pela família.
Quando olho para trás, vejo dias felizes ao lado do meu marido e dos nossos dois filhos na nossa casa em Braga. Éramos uma família comum, com alegrias e rotinas. Mas tudo mudou num instante, quando o Luís sofreu aquele acidente a caminho do trabalho. Fiquei perdida não sabia se conseguiria seguir em frente. Foi a minha mãe quem me segurou, dizendo que eu precisava ser forte pelos miúdos. Peguei-me em mim mesma e comecei a trabalhar como nunca, só para garantir que não faltava nada ao Ricardo e à Leonor.
Quando cresceram, decidi partir em busca de melhores condições. Primeiro para Lisboa, depois para Londres, uma terra estranha mas com mais oportunidades. Aceitei empregos que muitas vezes ninguém queria, até conseguir juntar um dinheiro digno. Todos os meses fazia questão de enviar euros para os meus filhos. Com o tempo, ajudei-os a comprar apartamento, cuidei da nossa casa, finalmente meti um bom chão de madeira e pintei as paredes com cores que me trazem alegria. Sempre me orgulhei do que consegui. Já pensava em regressar definitivamente a Portugal, quando tudo mudou de novo: conheci o Pedro, português de gema, mas que já vive em Inglaterra há mais de vinte anos. Trocámos palavras, sonhos e medos e senti que podia nascer algo bonito entre nós.
Mesmo assim, são muitas as dúvidas que me atormentam. O Pedro já não quer voltar para Portugal, e eu sinto saudades de casa. Há poucos dias finalmente regressei, reuni-me com os filhos, com os pais só não consegui ainda visitar os sogros. O tempo escasseia, tanta coisa para resolver. Ontem, ao fim do dia, a minha amiga Ana, que trabalha na mercearia, apareceu lá em casa para conversar e trouxe notícias nada boas:
A tua sogra está muito magoada contigo!
De onde tiraste isso, Ana?
Ouvi-a a conversar com aquela vizinha, a Dona Olívia. Diz que estás cheia de manias e que o dinheiro te estragou. Mesmo que nunca ajudaste nada com dinheiro cá em casa.
O que ouvi calou fundo em mim. Foi duro, porque sempre corri atrás da vida sozinho, para criar o Ricardo e a Leonor. Não podia ajudar os sogros; mal dava para mim. Tanta gente acha que é fácil…
Depois disso, perdi a vontade de ir vê-los. Mas não consegui ignorar a consciência. Comprei um saco de compras e fui, cheia de nervos. No início, correram as conversas normais, mas aquela frase que Ana trouxe de volta não me largava. Até que não aguentei e desabafei:
Vocês sabem que não foi fácil para mim estes anos todos. Fiz tudo pelos meus filhos, porque não pude contar com apoio de lado nenhum.
Nós também ficámos sozinhos. Toda a gente por aqui tem filhos que ajudam, só nós, que somos como que órfãos. Devias ter voltado para nos ajudar.
Fiquei a sentir-me culpada. A minha sogra conseguiu realmente fazer-me sentir pequenina. Nem tive coragem de dizer que tenho alguém em Inglaterra. Saí dali triste, vazia. Agora não sei que fazer. Será mesmo que preciso continuar a ajudar os pais do Luís? Será que nunca vai chegar o momento de pensarem também em mim?
Sinto que estou a perder-me…







