O coração de um gato negro batia surdo no peito e pensamentos dispersos atormentavam sua alma; por que será que a sua dona resolveu entregá-lo a estranhos? Por que ela o abandonou? Quando a recém-mudada Olívia ganhou de presente, na sua modesta e suada nova casa, um gato britânico todo preto, ficou alguns minutos em choque… O apartamento, simples e comprado com muito esforço, sequer estava totalmente montado e muitos outros problemas tomavam conta da sua rotina. E, de repente, um gatinho! Ao se recompor do susto, olhou nos olhos de âmbar do filhote, suspirou, sorriu e perguntou ao visitante que trouxe o animal: – É gato ou gata? – Gato! – Então, você será o Bartô! – disse ela ao pequeno. Ele abriu a bocarra e respondeu, resignado, um “Miau”… ***** Logo Olívia descobriu que gatos britânicos são companheiros perfeitos. Três anos depois, ela e Bartô viviam em pura sintonia. Mais ainda: Bartô revelou-se dono de uma alma sensível e um coração gigante. Esperava Olívia chegar do trabalho, aquecia suas noites, assistia filmes ao seu lado e a seguia pela casa durante a faxina. A vida com o gato ganhou novas cores. Era tão bom ser esperado em casa, ter alguém com quem rir, chorar, e ser entendido sem nem precisar falar. Parecia que a sorte finalmente estava a seu favor. Porém… Olívia começou a sentir fortes dores no lado direito do corpo. Achou que era só um músculo puxado, culpou a comida gordurosa. Quando piorou, foi ao médico. O diagnóstico foi um choque. Chorou a noite toda, abraçada ao travesseiro. Bartô, percebendo o sofrimento da dona, se encostou nela e ronronou baixinho, tentando consolar. Sem perceber, adormeceu ao som do ronronar do Bartô. De manhã, já conformada, resolveu não contar à família sobre a doença, evitando olhares piedosos e ajuda desconfortável. Restava ainda uma última esperança – tinha fé que os médicos encontrariam uma solução. Indicaram um tratamento que poderia ajudar. Mas e Bartô? Angustiada, decidiu encontrar para ele um novo lar com bons donos, caso tudo terminasse mal. Colocou um anúncio online, oferecendo seu gato de raça em boas mãos. Quando o primeiro interessado ligou perguntando o motivo da doação, Olívia, sem saber explicar, disse que estava grávida e que desenvolveu alergia à pelagem durante a gestação. Três dias depois, Bartô, com todos os acessórios, foi para outra casa, e Olívia internou-se no hospital… Dois dias depois, ligou para os novos donos perguntando pelo Bartô. Cheios de desculpas, disseram que o gato fugiu na mesma noite e que não conseguiram encontrá-lo. Tudo que ela queria era sair do hospital e procurar Bartô. Pediu à enfermeira para liberá-la, mas recebeu uma bronca e foi mandada de volta pro quarto. A vizinha de leito, percebendo o drama, perguntou o que estava acontecendo. Olívia contou tudo, chorando muito. – Não sofra antes da hora, menina – disse a senhora magrinha. Amanhã deve vir uma médica de Lisboa, que meu filho contratou pra me transferir de clínica, mas preferi ficar. Vou pedir pra ela te examinar. Quem sabe não é tão grave assim? – ela afagou Olívia, confortando-a. **** Ao sair da caixa de transporte, Bartô logo percebeu que aquele não era seu lar. Pessoas estranhas tentaram lhe fazer carinho… Bartô perdeu a calma, atacou e correu para o canto mais escuro. – Fábio, não mexe com ele agora, deixa ele se acostumar – ouviu Bartô uma voz feminina suave, mas não era a de Olívia. O coração do gato batia surdo. Que tragédia fez sua dona entregá-lo a desconhecidos? Por quê o abandonou? Olhos de âmbar varriam o cômodo em busca de escape. Encontrou uma janela aberta e, num salto, disparou para fora. Por sorte, era apenas o segundo andar e havia um gramado bem cuidado. Ali começou a jornada de volta de Bartô para casa… ***** A médica apareceu: uma mulher simpática chamada Maria Paula, examinou cuidadosamente e pediu que Olívia ficasse de lado na maca. Ela apalpou, perguntou das dores, revisou o prontuário, fez novos exames. Olívia não esperava boas notícias. Voltou para o quarto desanimada. – O que disseram, menina? – perguntou a vizinha. – Ainda nada, vão retornar depois. – Já eu não tive sorte, confirmaram o diagnóstico – lamentou a senhora. Olívia tentou confortá-la, ainda sem palavras. Meia hora depois, Maria Paula entrou com outros médicos: – Olívia, tenho boas notícias: sua doença tem tratamento, já indiquei o procedimento, fique aqui duas semanas e sairá saudável! – disse sorrindo. A vizinha comentou: – Que bom! Fico feliz de fazer o bem antes de partir. Seja feliz, menina! ***** Bartô não tinha estrela guia: seguia só a sua intuição de gato. O caminho pela cidade foi tortuoso, cheio de perigos e episódios engraçados. De animal doméstico, virou um felino feroz, aguçado pelos instintos. Evitando os carros, correndo, pulando, escalando árvores, Bartô seguia decididamente para casa… Num quintal silencioso, encarou um gato experiente, que tentou atacar o britânico, mas Bartô, agora guerreiro, não recuou. A briga terminou rápido, com o chefe local fugindo envergonhado e Bartô com uma orelha um pouco rasgada. Bartô foi aprendendo habilidades dos seus ancestrais: dormia em forquilhas de árvore, aprendia a comer dos sacos de lixo e até furtar comida dos gatos de rua alimentados pelos vizinhos. Enfrentou uma matilha de cães, que o encurralou em uma árvore. Moradores espantaram os cachorros e uma senhora tentou adotar Bartô, oferecendo mortadela. Com fome e medo, Bartô aceitou o carinho e ficou num lar temporário. Mas, depois de descansar e comer, se lembrou do seu objetivo, escapou pela porta do prédio e seguiu seu caminho… ***** Recebendo alta, Olívia voltou ao seu apartamento. Lembrava das palavras da vizinha do hospital, desejando felicidade. Estava radiante por estar saudável. Mas o coração doía. E Bartô? Não conseguia imaginar voltar a uma casa vazia. Assim que chegou, ligou para os ex-adotantes de Bartô e pegou o endereço. Indo até lá, soube como o gato havia fugido e decidiu buscar pistas. Diziam que era impossível, que já se passaram duas semanas, e que um gato doméstico jamais sobreviveria na rua, mas ela não desistiu. Caminhou por todos os bairros, olhou cada jardim, garagem, becos. Tentou pensar como um gato, chamou Bartô nas sombras dos porões. Já perto de casa, compreendeu que Bartô estava desaparecido. Seria impossível que ele, sem conhecer a cidade, voltasse até lá após tanto tempo. Chegando tristemente ao seu prédio, com lágrimas nos olhos, avistou um gato preto se aproximando pela calçada. “Um gato preto qualquer”, pensou, mas ao olhar melhor entendeu. Disparou com um grito: “Bartô!” O gato, sem forças para correr, sentou-se, estreitou os olhos de felicidade e sussurrou: “Cheguei!”

O coração do gato batia surdo no peito, os pensamentos dispersavam-se, a alma doía. Que poderá ter acontecido para que a dona o confiasse a pessoas estranhas, por que o largou?

Quando a Olívia recebeu de presente uma britânica completamente preta no seu aquecimento de casa nova, ficou vários minutos sem saber o que dizer

O seu modesto apartamento T1, que conseguiu comprar depois de muito esforço, ainda está longe de estar decorado. Existem outras preocupações a ocupar-lhe a cabeça.

E, de repente, um gatinho. Passado o choque, olhou nos olhos âmbar do pequeno animal, suspirou, sorriu e perguntou à pessoa que lhe oferecera o presente:

É gato ou gata?

Gato!

Muito bem, então serás Tobias, disse, dirigindo-se ao gatinho.

O bichano abriu a boquinha e soltou um Miau baixinho
*****
Depressa descobriu que aquela raça de gato era bastante sossegada. Já lá vão três anos desde que Olívia e Tobias vivem em perfeita sintonia. Na verdade, com o tempo, percebeu que Tobias tinha uma alma sensível e um enorme coração.

Recebe-a sempre alegremente quando chega do trabalho, aquece-lhe o sono, vê filmes ao seu lado no sofá, encostado ao corpo dela, e anda atrás dela pela casa durante as limpezas.

A vida com Tobias tornou-se mais colorida. É tão bom chegar a casa e ter alguém à espera, alguém com quem se pode rir ou chorar. E, o mais importante, alguém que a compreende com um só gesto.

Mas a felicidade parecia incompleta

Nos últimos tempos, Olívia começou a notar dores do lado direito do abdómen. Primeiro achou que tinha dormido mal e distendido algum músculo, depois culpou a comida demasiado gordurosa. As dores intensificaram-se e ela decidiu ir ao médico.

O médico fez o diagnóstico e explicou-lhe o que a aguardava. Olívia chorou a noite toda abraçada à almofada. Tobias, sentindo a dor da dona, aconchegou-se baixinho junto dela, tentando acalmá-la com o seu ronronar melodioso.

Sem perceber, ao som do ronronar, adormeceu. De manhã, já mais conformada com o seu destino, decidiu não contar nada à família, para evitar olhares de pena e mal disfarçadas tentativas de ajudar.

Mantinha uma réstia de esperança nos médicos portugueses, que lhe sugeriram um tratamento que podia melhorar a sua situação.

Veio então a difícil questão: quem ficaria com Tobias? No fundo, reconciliada com o risco de um desfecho infeliz da doença, resolveu encontrar-lhe um novo lar e bons donos.

Colocou um anúncio na internet, dizendo que oferecia um gato de raça a quem o tratasse bem.

Quando o primeiro interessado telefonou a perguntar o motivo por que estava a dar o gato adulto, Olívia, sem saber bem porquê, disse que estava grávida e tinha desenvolvido uma alergia ao pelo do gato durante a gestação.

Três dias depois, Tobias, na transportadora e com todos os seus pertences, foi para a casa dos novos donos, e Olívia internou-se na clínica

Dois dias depois, ligou aos novos donos a perguntar pelo Tobias. Pediram desculpa centenas de vezes e confessaram que ele fugiu nessa mesma noite, e não o conseguiam encontrar.

A primeira vontade de Olívia foi sair do hospital para o procurar. Pediu à enfermeira do turno para a deixar sair, mas recebeu uma resposta firme: que voltasse já para o quarto.

A companheira de quarto, ao notar o desassossego da jovem, quis saber o que se passava. Olívia, a chorar, contou-lhe tudo.

Ainda não chores tanto, menina, disse-lhe a idosa magrinha, amanhã chega cá um especialista de Lisboa. O meu diagnóstico também não é bom, e o meu filho, que é empresário, ia mudar-me para outra clínica, mas não quis. Ele bem mexeu influências e conseguiu que este especialista me viesse ver. Peço que ele também te observe, pode ser que não seja assim tão grave, afirmou a senhora, aconchegando o ombro de Olívia com carinho.
****
Saindo da transportadora, Tobias percebeu que estava numa casa estranha. Alguém estendeu-lhe a mão para lhe fazer festas

Nervoso, Tobias não aguentou e deu uma patada na mão desconhecida antes de se encolher num canto escuro.

Paula, não lhe toques já, deixa-o habituar-se, ouviu Tobias uma voz feminina, mas não era a da sua dona.

O coração do gato continuava a bater surdo no peito. Os pensamentos embaralhavam-se, a alma sofria. Que tinha acontecido, por que foi entregue a gente que não conhecia?

Os olhos âmbar vasculharam a sala, plenos de pânico. Avistaram então uma janela aberta. Como um relâmpago negro, Tobias atravessou a sala e saltou pela janela!

Por sorte, era só o segundo andar e havia relva cuidada lá embaixo. Foi assim que começou o caminho de regresso de Tobias a casa

*****
O especialista revelou-se uma mulher simpática, pouco mais de quarenta anos, chamada Maria Paula. Estudou atentamente os exames de Olívia, pediu-lhe para se deitar de lado e, cuidadosamente, examinou durante algum tempo, fazendo perguntas e ouvindo o seu relato.

Voltou aos exames, fez testes com equipamentos médicos.

Olívia não esperava grandes notícias. Voltou ao quarto, onde a outra já descansava.

E então, menina, que disseram? perguntou.

Por enquanto nada, disseram que ainda voltavam cá.

Pois, eu não tive tanta sorte, confirmou o diagnóstico lamentou-se a senhora.

Que pena obrigada por tudo, respondeu Olívia, sem saber como confortar alguém que vive a contagem dos últimos dias.

Meia hora depois, Maria Paula entrou no quarto, acompanhada de outros médicos.

Olívia, tenho boas notícias para si! A sua doença tem tratamento, já lhe marquei o início do programa, fica cá duas semanas e depois estará recuperada, afirmou sorridente.

Quando os médicos saíram, ouviu:

Que bom! Fico feliz por ainda poder fazer uma boa ação antes de partir. Seja feliz, menina!
*****
Tobias não tinha uma estrela que o guiasse, mas seguiu o seu instinto felino para casa. O percurso foi marcado por perigos e peripécias dignas de contos.

Sem nunca ter conhecido ruas, tornou-se num predador cauteloso e esperto num só dia.

Evitando avenidas e estradas, Tobias rastejava pelos muros, pulava apressado, subia a árvores ou assim achava, quando fugia dos cães. Ia sempre em frente

Num desses pequenos jardins sossegados, assustado com o movimento de uma estrada, cruzou-se frente a frente com um matulão experiente.

Mal se olhou, o gato da zona reconheceu o estranho e lançou-se sobre ele, mas Tobias, de repente arisco e destemido, não recuou.

A luta foi curta. O chefe dos gatos sumiu nos arbustos, deixando uma orelha rasgada para recordar.

Não poderia ser de outra maneira. O gato da rua queria afirmar domínio, mas Tobias só pensava no regresso a casa, e nada o fazia desistir.

Seguiu viagem, aprendendo a dormir nas forquilhas das árvores, como seus antepassados distantes.

Com vergonha, Tobias aprendeu a comer do lixo e a roubar comida às outras gatas alimentadas pelos vizinhos generosos.

Certa vez, encontrou uma matilha de cães vadios. Perseguiram-no até um tronco frágil de árvore, pulando e tentando derrubá-lo para o alcançar.

As pessoas acorreram ao barulho e afugentaram os cães. Uma senhora quis levar Tobias para casa, atraindo-o com um pedaço apetitoso de chouriço.

Cheio de fome e medo, Tobias rendeu-se e deixou-se pegar ao colo. Contudo

Depois de descansar, saciado e aquecido, Tobias lembrou que o seu destino era outro, saiu atrás da senhora pelo prédio, esgueirou-se por uma porta aberta e continuou a sua jornada até casa
*****
Ao sair do hospital, Olívia foi direta à sua casa. As palavras da companheira de quarto ecoavam-lhe na cabeça: Seja feliz. Claro que estava imensamente feliz por estar saudável e o diagnóstico ter sido revertido.

Mas o coração sofria por Tobias. Não conseguia imaginar o vazio daquela casa sem ele para a acolher.

Mal entrou no apartamento, Olívia ligou aos donos de Tobias e pediu-lhes a morada exata. Lá, ficou a saber como ele tinha fugido e decidiu seguir as pistas.

Diziam-lhe que não valia a pena, que tinham passado duas semanas, que o gato difícilmente teria sobrevivido nas ruas. Ela recusava acreditar.

Olívia percorreu tudo a pé, espreitando cada quintal, cada jardim, cada garagem. Tentava pensar como pensaria um gato que nunca viveu fora de casa. Chamava por Tobias, perscrutando a penumbra das janelas e caves.

Já perto de casa, percebeu que o gato desaparecera, que era impossível voltar sem conhecer o caminho, ela própria tinha demorado duas horas a pé.

Entrou no seu bairro cabisbaixa, as lágrimas enchiam-lhe os olhos, a alma estava pesada. No meio do nevoeiro do olhar, viu ao longe, na outra ponta da rua, um gato preto a mover-se em sua direção.

Um gato preto qualquer, pensou. Parou, observou e, de repente, reconheceu. Correu, gritando:

Tobias!

E ele não correu para ela, não tinha forças. Sentou-se, semicerrando os olhos de felicidade, e murmurou num miau rouco: Cheguei!.

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Esperava Olívia chegar do trabalho, aquecia suas noites, assistia filmes ao seu lado e a seguia pela casa durante a faxina. A vida com o gato ganhou novas cores. Era tão bom ser esperado em casa, ter alguém com quem rir, chorar, e ser entendido sem nem precisar falar. Parecia que a sorte finalmente estava a seu favor. Porém… Olívia começou a sentir fortes dores no lado direito do corpo. Achou que era só um músculo puxado, culpou a comida gordurosa. Quando piorou, foi ao médico. O diagnóstico foi um choque. Chorou a noite toda, abraçada ao travesseiro. Bartô, percebendo o sofrimento da dona, se encostou nela e ronronou baixinho, tentando consolar. Sem perceber, adormeceu ao som do ronronar do Bartô. De manhã, já conformada, resolveu não contar à família sobre a doença, evitando olhares piedosos e ajuda desconfortável. Restava ainda uma última esperança – tinha fé que os médicos encontrariam uma solução. Indicaram um tratamento que poderia ajudar. Mas e Bartô? Angustiada, decidiu encontrar para ele um novo lar com bons donos, caso tudo terminasse mal. Colocou um anúncio online, oferecendo seu gato de raça em boas mãos. Quando o primeiro interessado ligou perguntando o motivo da doação, Olívia, sem saber explicar, disse que estava grávida e que desenvolveu alergia à pelagem durante a gestação. Três dias depois, Bartô, com todos os acessórios, foi para outra casa, e Olívia internou-se no hospital… Dois dias depois, ligou para os novos donos perguntando pelo Bartô. Cheios de desculpas, disseram que o gato fugiu na mesma noite e que não conseguiram encontrá-lo. Tudo que ela queria era sair do hospital e procurar Bartô. Pediu à enfermeira para liberá-la, mas recebeu uma bronca e foi mandada de volta pro quarto. A vizinha de leito, percebendo o drama, perguntou o que estava acontecendo. Olívia contou tudo, chorando muito. – Não sofra antes da hora, menina – disse a senhora magrinha. Amanhã deve vir uma médica de Lisboa, que meu filho contratou pra me transferir de clínica, mas preferi ficar. Vou pedir pra ela te examinar. Quem sabe não é tão grave assim? – ela afagou Olívia, confortando-a. **** Ao sair da caixa de transporte, Bartô logo percebeu que aquele não era seu lar. Pessoas estranhas tentaram lhe fazer carinho… Bartô perdeu a calma, atacou e correu para o canto mais escuro. – Fábio, não mexe com ele agora, deixa ele se acostumar – ouviu Bartô uma voz feminina suave, mas não era a de Olívia. O coração do gato batia surdo. Que tragédia fez sua dona entregá-lo a desconhecidos? Por quê o abandonou? Olhos de âmbar varriam o cômodo em busca de escape. Encontrou uma janela aberta e, num salto, disparou para fora. Por sorte, era apenas o segundo andar e havia um gramado bem cuidado. Ali começou a jornada de volta de Bartô para casa… ***** A médica apareceu: uma mulher simpática chamada Maria Paula, examinou cuidadosamente e pediu que Olívia ficasse de lado na maca. Ela apalpou, perguntou das dores, revisou o prontuário, fez novos exames. Olívia não esperava boas notícias. Voltou para o quarto desanimada. – O que disseram, menina? – perguntou a vizinha. – Ainda nada, vão retornar depois. – Já eu não tive sorte, confirmaram o diagnóstico – lamentou a senhora. Olívia tentou confortá-la, ainda sem palavras. Meia hora depois, Maria Paula entrou com outros médicos: – Olívia, tenho boas notícias: sua doença tem tratamento, já indiquei o procedimento, fique aqui duas semanas e sairá saudável! – disse sorrindo. A vizinha comentou: – Que bom! Fico feliz de fazer o bem antes de partir. Seja feliz, menina! ***** Bartô não tinha estrela guia: seguia só a sua intuição de gato. O caminho pela cidade foi tortuoso, cheio de perigos e episódios engraçados. De animal doméstico, virou um felino feroz, aguçado pelos instintos. Evitando os carros, correndo, pulando, escalando árvores, Bartô seguia decididamente para casa… Num quintal silencioso, encarou um gato experiente, que tentou atacar o britânico, mas Bartô, agora guerreiro, não recuou. A briga terminou rápido, com o chefe local fugindo envergonhado e Bartô com uma orelha um pouco rasgada. Bartô foi aprendendo habilidades dos seus ancestrais: dormia em forquilhas de árvore, aprendia a comer dos sacos de lixo e até furtar comida dos gatos de rua alimentados pelos vizinhos. Enfrentou uma matilha de cães, que o encurralou em uma árvore. Moradores espantaram os cachorros e uma senhora tentou adotar Bartô, oferecendo mortadela. Com fome e medo, Bartô aceitou o carinho e ficou num lar temporário. Mas, depois de descansar e comer, se lembrou do seu objetivo, escapou pela porta do prédio e seguiu seu caminho… ***** Recebendo alta, Olívia voltou ao seu apartamento. Lembrava das palavras da vizinha do hospital, desejando felicidade. Estava radiante por estar saudável. Mas o coração doía. E Bartô? Não conseguia imaginar voltar a uma casa vazia. Assim que chegou, ligou para os ex-adotantes de Bartô e pegou o endereço. Indo até lá, soube como o gato havia fugido e decidiu buscar pistas. Diziam que era impossível, que já se passaram duas semanas, e que um gato doméstico jamais sobreviveria na rua, mas ela não desistiu. Caminhou por todos os bairros, olhou cada jardim, garagem, becos. Tentou pensar como um gato, chamou Bartô nas sombras dos porões. Já perto de casa, compreendeu que Bartô estava desaparecido. Seria impossível que ele, sem conhecer a cidade, voltasse até lá após tanto tempo. Chegando tristemente ao seu prédio, com lágrimas nos olhos, avistou um gato preto se aproximando pela calçada. “Um gato preto qualquer”, pensou, mas ao olhar melhor entendeu. Disparou com um grito: “Bartô!” O gato, sem forças para correr, sentou-se, estreitou os olhos de felicidade e sussurrou: “Cheguei!”
«Той беше за 50 на 50, докато не спестих за собствен апартамент. Веднага поиска да се оженим и да имаме общо имущество.» Мария, 42 години.