SEM ALMA…
Leonor dos Santos regressou a casa envolta no nevoeiro da tarde, como se flutuasse entre as ruas de Lisboa. Tinha ido ao salão, não obstante seus 68 anos recentemente completados; mimava-se com frequência, cortava o cabelo, tratava das unhas, e nesses pequenos rituais renovava-se, sentia a vida correr-lhe nas veias como rio de primavera.
Leonor, esteve cá uma senhora, disse ser tua parente. Avisei que voltavas mais tarde. Prometeu que regressava informou Manuel, o marido, com voz espessa como sonho interrompido.
Parente?! Mas já não me resta família alguma… Deve ser uma daquelas primas de quarto grau, a pedir favores. Deviam ter dito que viajei para os confins do mundo respondeu Leonor, resmungando, quase perdida no regresso ao lar.
Não me parece… Pra quê mentiras? Achei-a do teu sangue, alta, distinta, lembra até tua mãe, que esteja em paz. Não creio que venha mendigar. Mulher de boas maneiras, com um casaco caro, botas de couro, luvas de camurça, brincos de diamantes miúdos tentou sossegá-la Manuel, os olhos vagando entre a realidade e o insólito.
Quarenta minutos depois, a tal parente tocou à campainha, e Leonor abriu a porta. Era mesmo parecida com aquela mãe que a memoria lhe trazia em ondas: elegante, paletó azul marinho perfeito, botas que cintilavam à luz da sala, brincos que refletiam histórias antigas. Leonor conhecia bem essas pequenas riquezas; sabia ler os detalhes como signos na areia.
Vamos conversar, se somos de família. Sou Leonor, dispense o dos Santos, pois somos de idade próxima. Este é o Manuel, meu marido. De que lado és minha parenta? perguntou Leonor, servindo chá sobre a mesa já posta.
A mulher hesitou, ruborizou-se discretamente.
Sou Sofia… Sofia Veloso. Tenho 50 anos, faço anos a 12 de Junho. Essa data diz-te algo? murmurou, como quem fala à lua.
Leonor empalideceu, sentiu-se, por um breve instante, pairando fora do seu corpo.
Vejo que te recordaste. Sim, sou tua filha. Mas não te inquietes, não quero nada de ti. Só queria ver-te, conhecer a minha mãe verdadeira. A vida toda vivi sem saber… Sempre estranhei o amor distante da minha mãe. Aliás, já lá vão oito anos desde que faleceu. Só o pai me quis. Partiu há pouco, dois meses. Foi ele que, nos últimos instantes, revelou tudo sobre ti, pediu desculpa se puderes perdoar relatou Sofia, nervosa, como se falasse debaixo de água.
Não entendo nada disso. Tens uma filha? estranhou Manuel, atordoado.
Parece que sim. Depois explico-te tudo devolveu Leonor, seca.
Então és mesmo filha… Muito bem. Viste-me? Não esperes que me arrependa ou peça perdão. Não tenho culpa. Espero que o teu pai tenha dito tudo. Se vens cá procurar afeto materno, não vais encontrar. Nem uma centelha, desculpa disse Leonor, como se falasse para o vazio.
Posso voltar a visitar-te? Vivo aqui perto, no Barreiro. Tenho um casarão de dois andares, venham conhecer. Podes habituar-te à ideia de que existo. Trouxe-te fotos do teu neto, da tua bisneta, queres ver? pediu Sofia, com esperança tímida.
Não quero, nem penses. Esquece-me. Adeus cortou Leonor, fria.
Manuel chamou um táxi para Sofia e acompanhou-a à porta. Ao regressar, Leonor já tinha arrumado a mesa e via televisão, absorta.
Tens uma força fria, Leonor. Nascias para comandar exércitos. Não tens mesmo alma nenhuma? Sempre suspeitei, mas não imaginei tamanha ausência disse Manuel, amargo.
Conheceste-me com 28 anos, certo? Pois sabes, meu caro, que a alma me foi arrancada muito antes. Só há vulto e sombra em mim.
Fui uma rapariga de aldeia, sempre a sonhar com a cidade. Estudava melhor que todos, entrei na Universidade de Lisboa sozinha. Tinha 17 anos quando conheci o António. Amava-o loucamente. Era doze anos mais velho, mas nada disso me importava. Depois do meu passado pobre, tudo me parecia um conto de fadas. A bolsa estudantil nunca bastava. Tinha sempre fome, por isso aceitava de alma leve convites do António: um pastel de nata, um gelado à beira-rio.
Ele nada prometia, mas eu acreditava: com amor assim, iríamos casar. Uma noite, convidou-me para a quinta, e fui sem pensar. Sentia que agora tudo estava decidido, ele seria meu por inteiro. As visitas à quinta tornaram-se constantes; logo ficou claro que acidentalmente eu seria mãe de seu filho.
Contei-lhe. Ele ficou radiante. Com o tempo, percebi que a gravidez não ia esconder-se por muito tempo, e perguntei sobre o casamento. Já tinha 18 anos, podia ir ao registo civil.
Eu disse que casava contigo? devolveu António, indiferente.
Não prometi nada, nem vou casar. Aliás, já sou casado… continuou com frieza de pedra.
E quanto ao filho? E eu?!
Tu és nova, forte. Dava para fazer escultura para o parque. Vais pedir licença na faculdade, estudas enquanto podes. Depois eu e a minha esposa levamos-te para casa.
Não conseguimos ter filhos. Ela já é bem mais velha. Depois de nascer, ficamos com o bebé. Trato de tudo com secretismo. Apesar de jovem, não sou ninguém pequeno na câmara municipal. Ela dirige uma ala do hospital. Não te preocupes, vais receber dinheiro.
Na altura, ninguém sabia de maternidade de substituição. Fui, sem querer, a primeira mãe de aluguer em Portugal. Que podia fazer? Voltar à aldeia e pôr toda a família em vergonha?
Antes do parto, vivi na casa deles, em Sintra. A mulher do António nunca me falou, talvez ciúmes. Pari em casa, trouxeram parteira. Não amamentei, levaram logo a bebé. Nunca mais a vi. Uma semana depois, despediram-se de mim com delicadeza. O António deixou-me dinheiro.
Regressei à faculdade. Depois fui para uma fábrica. Deram-me quarto no bairro dos operários. Fui mestra, depois supervisora de qualidade.
Tive muitas amizades, mas ninguém quis casar. Até apareceres. Já tinha 28 anos, nem queria casar, mas devia.
Vivemos bem, três carros trocados, casa cheia, quintinha arranjada. Férias todos os anos. A fábrica sobreviveu ao caos dos anos noventa, porque fazíamos peças para tratores só num setor, segredo bem guardado. Até hoje cercada por arame farpado e torres de vigia.
Já com a reforma, temos de tudo. Não precisamos de filhos. Olho as crianças de agora… terminou Leonor, exausta mas fria.
Vivemos mal, Leonor. Amei-te, sempre tentei aquecer-te o coração, falhei. Não é só não termos filhos; nunca te vi acariciar um gato ou um cão. Nem a sobrinha deixaste dormir cá uma semana. Hoje veio tua filha… E tu? Uma filha! Teu sangue, tua história. Juro, se fosse há anos, pedia o divórcio. Agora é tarde. Está frio ao teu lado, um frio sem fim lamentou Manuel, ferido.
Leonor estremeceu, o inquieto eco das palavras do marido a rondar-lhe a mente. A filha baralhou toda a sua paz.
Manuel mudou-se para a quinta. Tem lá três cães, todos adoptados da rua, e tantos gatos que ninguém conta. Raramente aparece em casa. Leonor sabe que ele visita Sofia, conheceu toda a família, adora a bisneta.
Sempre foste um sonhador distraído. Viva como quiser pensa Leonor.
O desejo de conhecer a filha, o neto, a bisneta nunca lhe nasceu. Prefere viajar sozinha pelo Algarve, repousar na areia, sentir a maresia, e para ela a vida está completa assim, leve, suspensa, sem raízes nem saudade.







