O Sabor da Liberdade
Acabámos as obras lá em casa no outono passado começou Maria Eduarda a contar.
Levou meses a escolher os papéis de parede, discutimos até à exaustão sobre o tom dos azulejos da casa de banho e rimos a lembrar como, há vinte anos, sonhávamos em ter aquele tão desejado T3 em Lisboa.
Pronto disse o meu marido, satisfeito, quando celebrámos o fim da epopeia da renovação agora já podemos casar o Rui. Ele traz a esposa, têm filhos, e a nossa casa ganha vida de verdade, fica cheia de alegria.
Só que o sonho dele acabou por nunca ser realidade. A nossa filha mais velha, Beatriz, voltou para casa com duas malas e dois miúdos pela mão.
Mãe, já não tenho para onde ir disse ela, e bastou essa frase para deitar por terra todos os nossos planos.
O quarto do Rui foi entregue aos netos. Felizmente, o Rui não fez caso, apenas encolheu os ombros:
Não faz mal, em breve tenho o meu.
O “meu” era o pequeno T1 da minha mãe, renovado há pouco tempo, que alugávamos a um jovem casal. Todos os meses aquela renda modesta, mas essencial, caía na minha conta a nossa rede de segurança para quando ficássemos velhos ou doentes, e ninguém mais precisasse de nós.
Um dia vi Rui com a Sara, a sua noiva, a passar diante daquele prédio, olhar para cima e conversar animados.
Eu sabia bem ao que aspiravam, mas não disse nada.
Até que ouvi:
Dona Maria Eduarda, o Rui pediu-me em casamento! Já encontramos um sítio para o copo dágua! Imagine! Eles lá têm uma verdadeira carruagem! E uma harpa ao vivo! E um terraço de verão! Os convidados vão poder estar no jardim
E depois de casar, onde vão morar? não consegui evitar. Um casamento assim deve custar uma fortuna!
Sara olhou-me como se eu lhe tivesse perguntado pela meteorologia em Marte.
Vivemos consigo por enquanto. Depois logo se vê.
Já cá mora a Beatriz com os filhos disse eu devagar Isto vai parecer uma pensão de estudantes, não uma casa.
Sara fez beicinho.
Pois, viver aqui nem pensar. Procuramos uma verdadeira pensão. Lá, ao menos, ninguém se mete na nossa vida.
Aquela indireta magoou-me. Terá sido invasão? Na verdade, só queria evitar que cometessem um erro.
Depois veio a conversa decisiva com o Rui. Última tentativa.
Filho, para quê tanta ostentação? Casem pelo civil, guardem o dinheiro para a entrada de uma casa! sentia a voz a tremer.
O Rui olhou pela janela, rosto fechado.
Mãe, porque é que vocês celebram todos os aniversários de casamento no Dragão de Ouro? Ficavam em casa, era mais barato.
Não tive resposta.
Vês? sorriu ele com malícia vocês têm a vossa tradição, nós queremos a nossa.
Comparou o nosso jantar familiar de cinco em cinco anos à festa deles, que custaria quase trinta mil euros!
Vi nos olhos do Rui não um filho, mas um juiz. Um juiz sentenciando: vocês são hipócritas. Permitem tudo a vocês próprios, mas a mim nada. Esquecendo que ainda pagamos a prestação do carro dele. E nunca pensou nessa tal rede de segurança.
Agora queria casamento. E de luxo!
No fim, ambos ficaram ressentidos comigo. Principalmente por não concordar em dar-lhes a chave do T1 da avó.
***
Certa noite, voltava tarde a casa de autocarro e olhei para o meu reflexo no vidro escuro. Vi uma mulher cansada, parecendo bem mais velha do que é. Nas mãos, um saco cheio de compras e nos olhos, medo.
De repente, de uma forma cruelmente clara, percebi que tudo o que fazia era movido pelo medo!
Medo de me tornar um peso. Medo que os filhos me deixem. Medo do futuro.
Não nego o Rui o apartamento por egoísmo. Nego por receio de ficar sem nada.
Exijo que ele se desenrasque, mas, ao mesmo tempo, corto-lhe as asas, sempre que lhe pago as coisas: Se falhar, o rapaz desanima.
Peço-lhe maturidade, mas trato-o como se fosse incapaz de perceber ou agir.
Só querem, ele e a Sara, começar a vida com beleza. Com carruagem e harpa. É ingênuo, sim, mas é direito deles! Desde que seja por conta própria.
A primeira coisa que fiz foi pedir aos inquilinos para procurarem outra casa, rápido. E um mês depois liguei ao Rui:
Venham cá. Precisamos conversar.
Vieram tensos, preparados para o combate. Pus chá na mesa e uma chave do apartamento da mãe.
Tomem. Mas nada de festas: não é presente. Fica à vossa disposição por um ano. Durante esse tempo decidem: compram casa ou ficam cá, mas com outras condições. O arrendamento deste ano perdi. Paciência. Considero investimento. Mas não na boda. No vosso futuro como família, não como colegas de quarto.
Sara arregalou os olhos. O Rui olhava para as chaves, sem perceber.
E a Beatriz? murmurou ele.
Também temos planos para ela. Já são adultos. Agora é da vossa responsabilidade viverem a vossa vida. Nós deixaremos de ser suporte e carteira. Seremos apenas pais. Que amam, mas não resolvem.
A sala ficou num silêncio ensurdecedor.
E o casamento? perguntou Sara, com voz hesitante.
Pois, não sei. Façam como quiserem. Se arranjarem para uma harpa, então que haja harpa.
***
Rui e Sara saíram e eu senti medo. Um medo que doía. E se falharem? Se nunca mais quiserem saber de mim?
Mas, pela primeira vez em anos, respirei fundo. Porque, finalmente, disse não! Não a eles. Aos meus próprios medos. E deixei o meu filho entrar na vida adulta, difícil, livre.
Seja ela como for
***
Agora, a perspetiva do Rui.
Eu e a Sara sonhávamos com um casamento especial. Mas o divórcio da minha irmã destruiu tudo. Quando a mãe disse que não valia a pena gastar numa boda luxuosa, senti uma ferida.
Então porque vão ao restaurante todos os anos no vosso aniversário? Podiam jantar em casa! disparei, magoado.
Vi a mãe ficar pálida. Queria feri-la.
Sim, deram-me um carro. Mas não pedi nada! E depois cobram todas as prestações. O que tenho eu a ver? Eles decidiram. Eles pagam.
Renovaram o apartamento. Disseram que era para mim. Mas não posso lá viver.
O T1 da avó é sagrado, mais importante do que o casamento do filho!
Agora, o que fazemos? Como mostrar que somos um só?
A Sara disse um dia, envergonhada:
Rui, não tenho como ajudar. Os meus pais estão atolados com a casa.
O que importa é que estás comigo respondi, para a acalmar. Mas por dentro estava zangado. Não com ela. Com a injustiça. Porque tudo recai sobre os meus pais? E por que ajudam com uma cara triste, como se cada euro fosse um prego no caixão deles? Esta ajuda quase que dói mais do que resolve.
Por tudo isso pairou uma nuvem de coisas por dizer. Até que tocou o telefone. A voz da mãe era seca e firme.
Venham a casa. Temos de conversar.
Fomos como quem vai ao cadafalso. A Sara apertou-me a mão.
Ela vai recusar ajudar na boda murmurou.
Talvez assenti.
***
Sobre a mesa, o molho de chaves do apartamento da avó. Reconheci-as logo. Eram do meu tempo de criança.
Levem disse a mãe.
E fez um discurso breve, mas revolucionário. Sobre um ano. Sobre escolha. Sobre deixarem de ser fundo e carteira. O argumento de não temos onde morar perdeu força. A esperança os pais resolvem tudo caiu por terra.
Peguei nas chaves. Geladas, pesadas nas mãos. E foi aí que percebi, bruscamente: tínhamos exigido tanto, sentido tantos ressentimentos, e nunca conversámos a sério: Mãe, pai, percebemos os vossos receios. Como podemos avançar sem vos despedaçar?
Não. Sempre esperámos que adivinhassem os nossos desejos e os realizassem sem diálogo, sem condições, sorrindo. Como em criança.
E o casamento? perguntou a Sara, insegura.
Vocês decidem respondeu a mãe Se arranjarem dinheiro para a harpa, há harpa.
Saímos. Fui mexendo nas chaves no bolso.
E agora? perguntou a Sara. Não sobre a casa. Sobre tudo.
Sinceramente, não sei admiti. Agora é problema nosso
Neste medo e responsabilidade novos havia algo selvagem, um princípio de liberdade. Primeiro passo: será que precisamos mesmo da carruagem e da harpa? As tradições são boas, mas devem basear-se em algo mais do que um dia extravagante
***
E no final?
A vida adulta começou para nós logo a seguir.
Finalmente juntos! Vivemos no apartamento! Não é nosso, mas parece. É pequeno, confortável, tem obras recentes. E ninguém nos incomoda! Primeiro, recebemos visitas todos os dias. Afinal, liberdade!
Depois, passado um mês, uma vontade partilhada: queremos um cão! Mas não um qualquer, um grande!
Sara sempre sonhou com um, mas nunca teve: a mãe dela não permitia. O Rui tinha tido um, muitos anos antes. Fugiu-lhe. Uma tragédia para um miúdo
Em pouco tempo, entrou pela casa adentro o elo que faltava para a felicidade: um labrador simpático chamado Gaspar.
Com três meses, instalou as regras: roer tudo, arranhar cantos, sujar os tapetes. Por todo o lado.
Quando Maria Eduarda veio visitar os filhos, ficou chocada: ninguém a avisara do novo hóspede.
Rui! Sara! Como é possível?! Nem perguntaram! quase chorou ao ver o apartamento E para quê? Um cão grande precisa de muita atenção, fica sozinho o dia todo! Lógico que estraga tudo. E a quantidade de pelo?! Nem sei se limpam! E o cheiro! Não admito isso! Têm de devolver o cão! Amanhã!
Mãe atalhou o Rui, chateado afinal, deste-nos o apartamento por um ano. E agora queres controlar tudo? Queres que devolva as chaves?
Nem pensar exclamou Maria Eduarda eu cumpro o que prometo. Um ano é um ano. Mas devolvem o apartamento tal e qual como receberam. Está claro?
Combinado concordaram Rui e Sara ao mesmo tempo.
E até lá, não contem comigo. Não quero ver isto.
***
A mãe cumpriu. Não apareceu mais. Raras chamadas.
Quatro meses depois, Rui voltou para casa: ele e a Sara separaram-se.
Durante semanas, contou como ela era má dona de casa. Não cozinhava bem. Não cuidava do Gaspar. Não passeava com ele. Tiveram de devolver o cão ao criador. E não foi fácil. Uma semana a negociar.
Compraram ração para três meses, como exigiu o criador. E a ração custa dinheiro!
Não foste precipitado com a Sara, filho? perguntou Maria Eduarda, segurando o riso Queriam um casamento de carruagem e harpa
Que casamento, mãe?! Por amor de Deus! Podes alugar o apartamento da avó à vontade.
Porquê? Não preferes lá ficar?
Prefiro em casa abanou a cabeça ou és contra?
Sempre a favor disse Maria Eduarda sorrindo até porque, com a Beatriz e os miúdos fora, voltou a reinar o silêncio por aqui
***
Hoje percebo que os filhos precisam de espaço para cair, aprender, levantar-se. E que ao enfrentarmos os nossos medos, damos-lhes a oportunidade de encontrar o sabor da verdadeira liberdade.







