Deixei Entrar de Volta para Minha Vida — Pai, que novidades são essas? Compraste uma loja de antiguidades? — Cristina perguntou, franzindo as sobrancelhas ao olhar para a toalhinha de croché branca sobre o seu cómoda. — Nem sabia que gostavas dessas coisas antigas. O teu gosto está igual ao da avó Zóia… — Olha a Cristininha! O que fazes aqui sem avisar? — Oleg Pimentel saiu da cozinha, meio atrapalhado. — Eu… o que dizer… não estava à tua espera… O pai esforçava-se para parecer animado, mas o olhar dele era de quem escondia alguma coisa. — Pois já vi que não estavas, — Cristina respondeu, com ar reprovador, dirigindo-se à sala onde a esperavam novas surpresas. — Pai… de onde veio tudo isto? O que é que se passa aqui? Cristina mal reconhecia o próprio apartamento… …Quando herdou a casa da avó, o cenário era deprimente. Móveis velhos, televisão gorda sobre uma mesa descascada, radiadores enferrujados, papel de parede a descolar… Mas era seu lar. Nessa altura, Cristina já tinha algum dinheiro guardado. Investiu tudo em obras, nada de remendos. Optou pelo estilo escandinavo: tons claros e minimalismo abriram o espaço. Fez questão de cada pormenor, cortinas à medida, tapetes felpudos… Agora, as cortinas eram só um tule barato que não tapava nada. O sofá italiano sumia debaixo de um cobertor sintético com um tigre estampado. Na mesa de centro, uma jarra rosa de plástico e flores artificiais ainda mais berrantes. E pior: os cheiros. Da cozinha vinha óleo a ferver e cheiro intenso a peixe. Sentia-se tabaco. E o seu pai nem fumava… — Cristininha, vê lá… — balbuciou finalmente Oleg. — A questão é… eu não estou sozinho. Queria ter dito antes, mas… — Como assim, não sozinho? — Cristina ficou espantada. — Pai, isso não era o trato! — Filha, a minha vida não acabou com a tua mãe. Ainda sou novo, nem reformas tenho. Não tenho direito a ser feliz na vida pessoal? Cristina hesitou. Sim, o pai tinha direito a fazer a vida dele. Mas… não naquela casa! …Os pais divorciaram-se há um ano. A mãe levou tudo com leveza, mergulhou em autoaperfeiçoamento. Tinha tantas amigas que nem tempo para tristeza havia. O pai, coitado, desesperou. Voltou para a sua casa de solteiro e apavorou-se. Dez anos de inquilinos, até que um deles adormeceu com o cigarro aceso. Não tinha dinheiro para obras, e esqueceu a casa. Nem vendeu, mas também não pensava em reabilitar. Viver ali era impossível: paredes chamuscadas, janelas partidas, bolor nas ombreiras… Parecia uma tumba de filme de terror. — Ó Cristina, não sei como hei de viver… — lamentou-se o pai, suspirando. — Aqui é perigoso, nem acabo as obras antes do inverno. Nem dinheiro tenho para isto tudo. Se morrer de frio, paciência… Cristina não aguentou. Não podia deixar o pai que a criara naquele estado. E se lhe acontecesse algo? Especialmente agora, que ela já morava com o marido, o apartamento dos pais vazio. Não ia arriscar outro inquilino. — Pai, fica lá em minha casa por agora, — sugeriu. — Está tudo pronto, confortável. Vais fazendo o teu arranjo, depois mudas-te. Só uma condição: nada de visitas. — Posso mesmo? — Oleg, surpreendido, agradeceu imenso. — Salvaste-me, filha. Prometo que será tudo calmo. Pois sim. Calmo… Enquanto Cristina se lembrava da conversa, a porta da casa de banho abriu e surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, envolta no roupão favorito de Cristina, agora a tapar mal as formas da estranha. — Ó Oleguinho, temos visitas? — perguntou a senhora, com voz rouca de fumadora, sorrindo de lado. — Ao menos avisavas, estou em modo caseiro. — E você, quem é? — indagou Cristina, mirando o roupão. — E por que está a usar o meu roupão? — Sou a Joana, a paixão do teu pai. E estás tão nervosinha por quê? Peguei só o roupão, estava ali à toa. Cristina ferveu de raiva. — Tire. Já. — murmurou entre dentes. — Cristina! — pediu o pai, metendo-se no meio. — Não faças cenas! A Joaninha só… — A Joaninha só vestiu roupa alheia, num lar alheio! — cortou Cristina. — Pai, estás bom da cabeça? Trouxeste tua namorada e deixas que mexa nas minhas coisas sem pedir?! Joana revirou olhos e foi para a sala, atirando-se para cima do cobertor com tigre. — Que falta de educação, — declarou ela. — Se fosse o Oleg, dava-te era uma palmada, nem que fosses já crescida. A vida íntima do teu pai não te diz respeito! Cristina ficou sem fala. Uma estranha a tratava como criança malcriada, sentada no seu sofá. — Não diz respeito, — concordou ela. — Até o momento em que acontece na minha casa. — Na tua? — Joana arqueou sobrancelha e olhou questionadora para Oleg. Oleg gelou, colado à parede, com olhar assustado da filha para a amante. Rezava para que aquilo acabasse sem ele fazer nada, mas o drama só piorava. — Então… O papá esqueceu-se de contar? — Cristina sorriu friamente. — Eu digo então: ele aqui é hóspede, nada mais. Esta casa é minha, tudo aqui fui eu que comprei. Só lhe emprestei para viver e nunca imaginei visitas assim. Joana corou de fúria. — Oleg?.. — o tom dela virou gelado. — Então não disseste que a casa era tua? Andaste a mentir? O pai murchou de vergonha. — Ó… Joana, não foi assim… Percebeste mal. Tenho casa, só não esta. Não te quis incomodar com detalhes… — Não quis incomodar?! Bonito serviço. Agora tenho que ouvir sermão por tua causa! A paciência de Cristina chegou ao fim. — Fora, — disse baixinho. — O quê? — Joana ficou perplexa. — Fora daqui. Os dois. Têm uma hora. Se ficarem, falamos com a polícia. Isto de deixar entrar estranhos… Cristina dirigiu-se à porta, mas Oleg segurou-lhe o braço. — Filha! Vais pôr teu próprio pai na rua? Sabes como está aquilo! Morro de frio! O pai agarrou-se ao casaco dela. Cristina vacilou. Era o seu pai, quis ter pena. Veio à mente o passado, amor filial, o dever… Mas então olhou para Joana. A mulher, acomodada no roupão, fitava-a com um ódio feroz. Se cedesse agora, amanhã trocaria fechaduras e redecorava tudo. — Pai, é adulto. Arranja-se, — cortou Cristina, libertando-se. — Só você tem culpa. O trato era vive sozinho, mas trouxe mulher estranha, deixou-a mexer em tudo e desarrumou a casa… — Fica então com a tua casa! — gritou Joana. — Anda, Oleg. Nem te humilhes. Criaste uma ingrata… Meia hora depois, tudo resolvido. O pai saiu, calado, curvado, como velho. O olhar de cão desalojado ficou gravado na memória de Cristina, mas ela manteve firmeza. Assim que partiram, abriu as janelas para expulsar cheiro de peixe, cigarros e perfume barato. Recolheu roupão, cobertor, tudo o que Joana tocara. Fora para o lixo. No dia seguinte, chamou a limpeza, mudou fechaduras. Não suportava mais nada que tivesse rasto de invasão. …Passaram quatro dias. Agora o apartamento estava livre. Sem flores falsas ou maus odores. Cristina vivia com o marido, mas sentia leveza ao lembrar. Não falou mais com o pai. No quarto dia, ele ligou. — Alô, — atendeu, hesitante, Cristina. — Então, Cristina… — começou ele, voz embriagada. — Estás feliz agora? Acabou-se. A Joana foi-se embora… — Ai que surpresa — não resistiu a filha. — Aposto que foi depois de ver a tua casa verdadeira, percebeu que ia ter trabalho… O pai fungou. — Sim… Pus aquecedor, dormi num colchão insuflável. Ela aguentou três dias… Disse que sou um pobre e um vigarista, e foi para casa da irmã. Só perdi tempo… E eu gostava dela, Cristina! — Que gosto que nada. Procuravas conforto, ela também. Saíram ambos a perder. Pausa. O pai não se calava. — Estou mal sozinho, filha… — disse, por fim. — Aqui mete medo… Posso voltar? Juro, sozinho! Prometo! Cristina baixou o olhar. O pai estava sozinho, rodeado pelo próprio caos. Mas foi ele próprio que criou tudo: traiu a mãe, enganou a filha, ludibriou Joana. Sim, ela teve pena. Mas essa compaixão arruinaria ambos. — Não, pai. Não deixo. Contrata gente, faz obras. Aprende a lidar com aquilo que criaste. Só te posso dar contactos de bons trabalhadores. Precisares, chama. Cristina desligou. Duro? Talvez. Mas nunca mais quis deixar que sujassem o seu lar, nem a sua alma. Há coisas que não se conseguem limpar; só podemos evitar que entrem na nossa vida…

Foi pior do que imaginei

Pai, o que são essas novidades aqui? Andaste a saquear uma loja de antiguidade? perguntei ao entrar no meu antigo quarto, olhos arregalados a olhar para a renda branca posta pela primeira vez no meu toucador. Nunca pensei que fosses dado a estas velharias. O teu gosto está mesmo a chegar ao nível da avó Dulce…

Oh, Matilde, estás aqui sem avisar? respondeu o meu pai, Manuel Ferreira, saindo apressado da cozinha. Eu Não estava mesmo a contar contigo agora

O meu pai tentava parecer descontraído, mas o olhar traía um remorso qualquer.

É óbvio que não estavas, disse-lhe, já irritada, a caminho da sala, onde mais surpresas me aguardavam. Pai De onde veio tudo isto? O que se está a passar aqui?

Nem reconhecia a minha própria casa.

Quando herdei o apartamento da avó Dulce, o estado era deprimente: móveis velhos, televisão obsoleta em cima de um móvel lascado, radiadores enferrujados, papel de parede a cair Mas era meu. Usei as minhas poupanças, pouco mais de mil e quinhentos euros, e decidi investir num bom restauro. Escolhi o estilo escandinavo: cores claras, poucos móveis, cortinados a combinar, tapetes macios. Com carinho, fui criando um lar.

Agora, onde costumavam estar os meus grossos cortinados cor de creme, havia só uma renda de poliéster transparente. O meu sofá italiano sumia debaixo de uma manta sintética cheia de tigres estampados. No centro da mesa, uma jarra de plástico cor de rosa, cheia de rosas artificiais ainda mais berrantes.

Tudo aquilo ainda era tolerável O que não aguentava eram os cheiros: fritura e peixe da cozinha, tabaco no ar e nem sequer o meu pai fuma!

Matilde, minha filha finalmente, Manuel gaguejou. Olha, eu Não estou sozinho. Devia ter-te avisado, mas confesso, não tive coragem.

Como assim, não estás sozinho? perguntei, confusa. Pai, nós não combinámos isso!

Filha, este apartamento está vazio há anos. Acreditas mesmo que a minha vida acabou com a tua mãe? Ainda sou novo Mal tenho idade para reforma! Não posso ter também direito à minha vida?

Fiquei num silêncio desconfortável. Claro que o pai podia estar com quem quisesse. Mas será que precisava de se instalar logo no meu apartamento?

Os meus pais divorciaram-se há pouco mais de um ano. A minha mãe encarou a traição dele com uma calma quase olímpica, mergulhando nos cursos, nas viagens e nas amigas. Nunca esteve tão livre.

Manuel, por outro lado, perdeu o fio à meada. Voltou à casa onde morara antes de casar onde por uma década viveram inquilinos, até que um deles, fumando à noite, quase pegou fogo ao prédio. Sem dinheiro para reparar nada, o pai esqueceu o apartamento. Nunca vendeu, achando que talvez um dia servisse para alguma coisa, mas viver ali? Nem pensar.

O sítio era impróprio para habitação: paredes queimadas, vidros partidos, bolor nos cantos Parecia uma cripta, não uma casa.

Oh, Matilde, não sei como vou viver assim lamentou ele há uns meses, de olhar triste. Perigo em cada esquina. Nem tenho dinheiro para o arranjo. Se passar frio, paciência A minha sina, parece.

Não resisti: não podia permitir que o pai que me criou morasse num lugar daqueles. E como eu tinha acabado de casar e mudado para a casa do meu marido e não pretendia alugar o apartamento depois do que vivi com os inquilinos do pai ofereci-lhe o meu espaço.

Pai, fica lá em casa por enquanto, sugeri-lhe. Tem tudo pronto, confortável. Vai, arranja devagar o teu, depois mudas-te. Só te peço uma coisa: nada de visitas.

A sério que posso? perguntou, surpreso. Matilde, és um anjo! Salvaste-me, filha. Prometo, vai ser tudo calmo e sem histórias.

Pois sim Calmo.

Enquanto recordava esta conversa, a porta da casa de banho abriu-se, deixando escapar uma nuvem de vapor perfumado. Dela surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, de andar lento e triunfante. Vestia o meu robe de algodão felpudo o meu favorito! agora prendendo com dificuldade as curvas generosas da senhora.

Ó Manuel, temos companhia? perguntou, voz grave e rouca, esboçando um sorriso condescendente. Devias avisar-me, assim estou de casa

Quem é a senhora? perguntei, cerrando os olhos. E por que está com o meu robe?

Sou Lurdes, a mulher da vida do teu pai. Que nervos são esses? O robe estava a apanhar pó

Senti as têmporas latejarem.

Tire imediatamente, exigi.

Matilde! implorou o pai, pondo-se entre nós. Não faças drama! A Lurdes só

A Lurdes só anda a usar o que não lhe pertence! interrompi. Pai, estás a ouvir-te? Trouxeste para cá a tua namorada e deixaste-a mexer nas minhas coisas como se fossem dela?

Lurdes revirou os olhos e foi sentar-se pesadamente no sofá, sobre o tigre.

Mas que falta de respeito, declarou. Se fosse eu, daqui não saias sem uma lição. Não tens modos. O teu pai está finalmente feliz e tu aqui a implicar!

Fiquei boquiaberta. Uma completa estranha, de robe alheio, sentada no meu sofá, a dar-me sermão.

Isso não me diz respeito, concordei. Até ao momento em que entram na minha casa.

Na tua? Lurdes ergueu as sobrancelhas e olhou para Manuel.

Ele estava encostado à parede, encolhidinho, olhando apavorado para mim e para Lurdes, desejando desaparecer.

O meu querido pai não contou? sorri. Então conto eu: ele aqui é apenas hóspede. A casa é minha, cada colher. Deixei-o ficar, mas não tinha planos de vê-lo trazer companhia

Lurdes ficou escarlate.

Manuel? a voz dela tornou-se fria. O que ela diz? Pensava que esta casa era tua. Mentiste-me?

O pai queria enfiar-se no papel de parede. As orelhas rubras de vergonha.

Lurdes, não foi isto que quis dizer Não entendeste bem Tenho outro apartamento, só este não estava pronto… Não quis chatear-te com detalhes.

Não quis chatear?! Genial! Agora tenho eu de ouvir ordens da tua filha!

Já sem paciência, fui direta.

Rua, disse suavemente.

O quê? gaguejou Lurdes.

Fora daqui, vocês os dois. Dão-me uma hora. E se ficarem, resolvemos isto pela lei. Bem feito, Matilde só me arranjo sarilhos.

Dirigi-me à porta, mas Manuel finalmente arrancou-se da parede e correu atrás de mim.

Filha! Vais pôr o teu próprio pai na rua? Sabes o estado do meu apartamento! Posso morrer de frio!

Agarrou-se à manga do meu casaco. O coração apertou-me. A infância, o peso do dever, pena por aquele quase idoso Um nó na garganta.

Olhei para Lurdes.

Sentada, pernas cruzadas, no meu robe, olhava para mim cheia de ódio. Chega. Se cedesse agora, amanhã mudava a fechadura e punha papel de parede novo.

Pai, és adulto. Arranja outro aluguer, cortei. Violaste o acordo: tinhas de viver sozinho, mas trouxeste outra mulher, deixaste-a usar os meus objetos, e ainda fez da casa um caos.

Fica com a tua casa, disparou Lurdes. Vamos embora, Manuel. Nem te rebaixes a pedir nada a ela.

Meia hora depois, a decisão estava tomada. O pai saiu de cabeça baixa. Ficou-me gravada a expressão como cão expulso à chuva. Controlei os sentimentos, sem ceder.

Abri as janelas, deixei sair cheiro a peixe, tabaco e perfume barato. Recolhi robe, manta, tudo que Lurdes tocou. Foi tudo para o lixo. No dia seguinte chamei limpeza profissional e o serralheiro para trocar a fechadura. Só de pensar nela, sentia nojo.

Quatro dias passaram.

O apartamento estava de novo como gosto: limpo, sem flores falsas nem cheiros desagradáveis. Morava com o marido, mas saber que ninguém sujava o meu canto fazia-me sentir bem.

Não tinha falado mais com o pai. No quarto dia, foi ele quem ligou.

Alô atendi hesitante.

Então, Matilde disse o pai, voz embriagada. Satisfeita? Lurdes foi-se embora. Deixou-me

Que surpresa não contive. Aposto: foi quando viu o teu verdadeiro apartamento e percebeu a trabalheira, não foi?

O pai fungou.

Pois. Dormimos num colchão insuflável, com aquecedor emprestado. Ela aguentou três dias. Chamou-me pobretanas e mentiroso, fez as malas e foi para casa da irmã. Disse que foi tempo desperdiçado E eu amava-a, Matilde!

Que amor, pai Só procuravam conforto. Enganaram-se, só isso.

Fez-se silêncio. O pai não tinha acabado.

Custa-me tanto estar sozinho, filha Dá para voltar? Prometo, fico só! Juro!

Olhei para o chão. Ele ali, num canto escuro e gelado. Mas foi ele próprio que chegou àquele ponto: traiu a mãe, enganou-me, mentiu à Lurdes.

Sim, tinha pena. Mas ajudar agora era só perpetuar o problema.

Não, pai. Não deixo. Contrata gente, repara o apartamento. Aprende a viver na tua escolha. Só te posso indicar bons profissionais. Desculpa. Se precisares, chama.

Desliguei.

Cruel? Talvez. Mas nunca mais quis que alguém deixasse marcas no meu robe nem na alma. Há sujidades que não saem só evitando que entrem na nossa vida.

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Deixei Entrar de Volta para Minha Vida — Pai, que novidades são essas? Compraste uma loja de antiguidades? — Cristina perguntou, franzindo as sobrancelhas ao olhar para a toalhinha de croché branca sobre o seu cómoda. — Nem sabia que gostavas dessas coisas antigas. O teu gosto está igual ao da avó Zóia… — Olha a Cristininha! O que fazes aqui sem avisar? — Oleg Pimentel saiu da cozinha, meio atrapalhado. — Eu… o que dizer… não estava à tua espera… O pai esforçava-se para parecer animado, mas o olhar dele era de quem escondia alguma coisa. — Pois já vi que não estavas, — Cristina respondeu, com ar reprovador, dirigindo-se à sala onde a esperavam novas surpresas. — Pai… de onde veio tudo isto? O que é que se passa aqui? Cristina mal reconhecia o próprio apartamento… …Quando herdou a casa da avó, o cenário era deprimente. Móveis velhos, televisão gorda sobre uma mesa descascada, radiadores enferrujados, papel de parede a descolar… Mas era seu lar. Nessa altura, Cristina já tinha algum dinheiro guardado. Investiu tudo em obras, nada de remendos. Optou pelo estilo escandinavo: tons claros e minimalismo abriram o espaço. Fez questão de cada pormenor, cortinas à medida, tapetes felpudos… Agora, as cortinas eram só um tule barato que não tapava nada. O sofá italiano sumia debaixo de um cobertor sintético com um tigre estampado. Na mesa de centro, uma jarra rosa de plástico e flores artificiais ainda mais berrantes. E pior: os cheiros. Da cozinha vinha óleo a ferver e cheiro intenso a peixe. Sentia-se tabaco. E o seu pai nem fumava… — Cristininha, vê lá… — balbuciou finalmente Oleg. — A questão é… eu não estou sozinho. Queria ter dito antes, mas… — Como assim, não sozinho? — Cristina ficou espantada. — Pai, isso não era o trato! — Filha, a minha vida não acabou com a tua mãe. Ainda sou novo, nem reformas tenho. Não tenho direito a ser feliz na vida pessoal? Cristina hesitou. Sim, o pai tinha direito a fazer a vida dele. Mas… não naquela casa! …Os pais divorciaram-se há um ano. A mãe levou tudo com leveza, mergulhou em autoaperfeiçoamento. Tinha tantas amigas que nem tempo para tristeza havia. O pai, coitado, desesperou. Voltou para a sua casa de solteiro e apavorou-se. Dez anos de inquilinos, até que um deles adormeceu com o cigarro aceso. Não tinha dinheiro para obras, e esqueceu a casa. Nem vendeu, mas também não pensava em reabilitar. Viver ali era impossível: paredes chamuscadas, janelas partidas, bolor nas ombreiras… Parecia uma tumba de filme de terror. — Ó Cristina, não sei como hei de viver… — lamentou-se o pai, suspirando. — Aqui é perigoso, nem acabo as obras antes do inverno. Nem dinheiro tenho para isto tudo. Se morrer de frio, paciência… Cristina não aguentou. Não podia deixar o pai que a criara naquele estado. E se lhe acontecesse algo? Especialmente agora, que ela já morava com o marido, o apartamento dos pais vazio. Não ia arriscar outro inquilino. — Pai, fica lá em minha casa por agora, — sugeriu. — Está tudo pronto, confortável. Vais fazendo o teu arranjo, depois mudas-te. Só uma condição: nada de visitas. — Posso mesmo? — Oleg, surpreendido, agradeceu imenso. — Salvaste-me, filha. Prometo que será tudo calmo. Pois sim. Calmo… Enquanto Cristina se lembrava da conversa, a porta da casa de banho abriu e surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, envolta no roupão favorito de Cristina, agora a tapar mal as formas da estranha. — Ó Oleguinho, temos visitas? — perguntou a senhora, com voz rouca de fumadora, sorrindo de lado. — Ao menos avisavas, estou em modo caseiro. — E você, quem é? — indagou Cristina, mirando o roupão. — E por que está a usar o meu roupão? — Sou a Joana, a paixão do teu pai. E estás tão nervosinha por quê? Peguei só o roupão, estava ali à toa. Cristina ferveu de raiva. — Tire. Já. — murmurou entre dentes. — Cristina! — pediu o pai, metendo-se no meio. — Não faças cenas! A Joaninha só… — A Joaninha só vestiu roupa alheia, num lar alheio! — cortou Cristina. — Pai, estás bom da cabeça? Trouxeste tua namorada e deixas que mexa nas minhas coisas sem pedir?! Joana revirou olhos e foi para a sala, atirando-se para cima do cobertor com tigre. — Que falta de educação, — declarou ela. — Se fosse o Oleg, dava-te era uma palmada, nem que fosses já crescida. A vida íntima do teu pai não te diz respeito! Cristina ficou sem fala. Uma estranha a tratava como criança malcriada, sentada no seu sofá. — Não diz respeito, — concordou ela. — Até o momento em que acontece na minha casa. — Na tua? — Joana arqueou sobrancelha e olhou questionadora para Oleg. Oleg gelou, colado à parede, com olhar assustado da filha para a amante. Rezava para que aquilo acabasse sem ele fazer nada, mas o drama só piorava. — Então… O papá esqueceu-se de contar? — Cristina sorriu friamente. — Eu digo então: ele aqui é hóspede, nada mais. Esta casa é minha, tudo aqui fui eu que comprei. Só lhe emprestei para viver e nunca imaginei visitas assim. Joana corou de fúria. — Oleg?.. — o tom dela virou gelado. — Então não disseste que a casa era tua? Andaste a mentir? O pai murchou de vergonha. — Ó… Joana, não foi assim… Percebeste mal. Tenho casa, só não esta. Não te quis incomodar com detalhes… — Não quis incomodar?! Bonito serviço. Agora tenho que ouvir sermão por tua causa! A paciência de Cristina chegou ao fim. — Fora, — disse baixinho. — O quê? — Joana ficou perplexa. — Fora daqui. Os dois. Têm uma hora. Se ficarem, falamos com a polícia. Isto de deixar entrar estranhos… Cristina dirigiu-se à porta, mas Oleg segurou-lhe o braço. — Filha! Vais pôr teu próprio pai na rua? Sabes como está aquilo! Morro de frio! O pai agarrou-se ao casaco dela. Cristina vacilou. Era o seu pai, quis ter pena. Veio à mente o passado, amor filial, o dever… Mas então olhou para Joana. A mulher, acomodada no roupão, fitava-a com um ódio feroz. Se cedesse agora, amanhã trocaria fechaduras e redecorava tudo. — Pai, é adulto. Arranja-se, — cortou Cristina, libertando-se. — Só você tem culpa. O trato era vive sozinho, mas trouxe mulher estranha, deixou-a mexer em tudo e desarrumou a casa… — Fica então com a tua casa! — gritou Joana. — Anda, Oleg. Nem te humilhes. Criaste uma ingrata… Meia hora depois, tudo resolvido. O pai saiu, calado, curvado, como velho. O olhar de cão desalojado ficou gravado na memória de Cristina, mas ela manteve firmeza. Assim que partiram, abriu as janelas para expulsar cheiro de peixe, cigarros e perfume barato. Recolheu roupão, cobertor, tudo o que Joana tocara. Fora para o lixo. No dia seguinte, chamou a limpeza, mudou fechaduras. Não suportava mais nada que tivesse rasto de invasão. …Passaram quatro dias. Agora o apartamento estava livre. Sem flores falsas ou maus odores. Cristina vivia com o marido, mas sentia leveza ao lembrar. Não falou mais com o pai. No quarto dia, ele ligou. — Alô, — atendeu, hesitante, Cristina. — Então, Cristina… — começou ele, voz embriagada. — Estás feliz agora? Acabou-se. A Joana foi-se embora… — Ai que surpresa — não resistiu a filha. — Aposto que foi depois de ver a tua casa verdadeira, percebeu que ia ter trabalho… O pai fungou. — Sim… Pus aquecedor, dormi num colchão insuflável. Ela aguentou três dias… Disse que sou um pobre e um vigarista, e foi para casa da irmã. Só perdi tempo… E eu gostava dela, Cristina! — Que gosto que nada. Procuravas conforto, ela também. Saíram ambos a perder. Pausa. O pai não se calava. — Estou mal sozinho, filha… — disse, por fim. — Aqui mete medo… Posso voltar? Juro, sozinho! Prometo! Cristina baixou o olhar. O pai estava sozinho, rodeado pelo próprio caos. Mas foi ele próprio que criou tudo: traiu a mãe, enganou a filha, ludibriou Joana. Sim, ela teve pena. Mas essa compaixão arruinaria ambos. — Não, pai. Não deixo. Contrata gente, faz obras. Aprende a lidar com aquilo que criaste. Só te posso dar contactos de bons trabalhadores. Precisares, chama. Cristina desligou. Duro? Talvez. Mas nunca mais quis deixar que sujassem o seu lar, nem a sua alma. Há coisas que não se conseguem limpar; só podemos evitar que entrem na nossa vida…
Kradol som mu obed, aby som ho ponížil… až kým som si neprečítal odkaz od jeho mamy, a moje srdce sa zlomilo.