Foi pior do que imaginei
Pai, o que são essas novidades aqui? Andaste a saquear uma loja de antiguidade? perguntei ao entrar no meu antigo quarto, olhos arregalados a olhar para a renda branca posta pela primeira vez no meu toucador. Nunca pensei que fosses dado a estas velharias. O teu gosto está mesmo a chegar ao nível da avó Dulce…
Oh, Matilde, estás aqui sem avisar? respondeu o meu pai, Manuel Ferreira, saindo apressado da cozinha. Eu Não estava mesmo a contar contigo agora
O meu pai tentava parecer descontraído, mas o olhar traía um remorso qualquer.
É óbvio que não estavas, disse-lhe, já irritada, a caminho da sala, onde mais surpresas me aguardavam. Pai De onde veio tudo isto? O que se está a passar aqui?
Nem reconhecia a minha própria casa.
Quando herdei o apartamento da avó Dulce, o estado era deprimente: móveis velhos, televisão obsoleta em cima de um móvel lascado, radiadores enferrujados, papel de parede a cair Mas era meu. Usei as minhas poupanças, pouco mais de mil e quinhentos euros, e decidi investir num bom restauro. Escolhi o estilo escandinavo: cores claras, poucos móveis, cortinados a combinar, tapetes macios. Com carinho, fui criando um lar.
Agora, onde costumavam estar os meus grossos cortinados cor de creme, havia só uma renda de poliéster transparente. O meu sofá italiano sumia debaixo de uma manta sintética cheia de tigres estampados. No centro da mesa, uma jarra de plástico cor de rosa, cheia de rosas artificiais ainda mais berrantes.
Tudo aquilo ainda era tolerável O que não aguentava eram os cheiros: fritura e peixe da cozinha, tabaco no ar e nem sequer o meu pai fuma!
Matilde, minha filha finalmente, Manuel gaguejou. Olha, eu Não estou sozinho. Devia ter-te avisado, mas confesso, não tive coragem.
Como assim, não estás sozinho? perguntei, confusa. Pai, nós não combinámos isso!
Filha, este apartamento está vazio há anos. Acreditas mesmo que a minha vida acabou com a tua mãe? Ainda sou novo Mal tenho idade para reforma! Não posso ter também direito à minha vida?
Fiquei num silêncio desconfortável. Claro que o pai podia estar com quem quisesse. Mas será que precisava de se instalar logo no meu apartamento?
Os meus pais divorciaram-se há pouco mais de um ano. A minha mãe encarou a traição dele com uma calma quase olímpica, mergulhando nos cursos, nas viagens e nas amigas. Nunca esteve tão livre.
Manuel, por outro lado, perdeu o fio à meada. Voltou à casa onde morara antes de casar onde por uma década viveram inquilinos, até que um deles, fumando à noite, quase pegou fogo ao prédio. Sem dinheiro para reparar nada, o pai esqueceu o apartamento. Nunca vendeu, achando que talvez um dia servisse para alguma coisa, mas viver ali? Nem pensar.
O sítio era impróprio para habitação: paredes queimadas, vidros partidos, bolor nos cantos Parecia uma cripta, não uma casa.
Oh, Matilde, não sei como vou viver assim lamentou ele há uns meses, de olhar triste. Perigo em cada esquina. Nem tenho dinheiro para o arranjo. Se passar frio, paciência A minha sina, parece.
Não resisti: não podia permitir que o pai que me criou morasse num lugar daqueles. E como eu tinha acabado de casar e mudado para a casa do meu marido e não pretendia alugar o apartamento depois do que vivi com os inquilinos do pai ofereci-lhe o meu espaço.
Pai, fica lá em casa por enquanto, sugeri-lhe. Tem tudo pronto, confortável. Vai, arranja devagar o teu, depois mudas-te. Só te peço uma coisa: nada de visitas.
A sério que posso? perguntou, surpreso. Matilde, és um anjo! Salvaste-me, filha. Prometo, vai ser tudo calmo e sem histórias.
Pois sim Calmo.
Enquanto recordava esta conversa, a porta da casa de banho abriu-se, deixando escapar uma nuvem de vapor perfumado. Dela surgiu uma mulher de uns cinquenta anos, de andar lento e triunfante. Vestia o meu robe de algodão felpudo o meu favorito! agora prendendo com dificuldade as curvas generosas da senhora.
Ó Manuel, temos companhia? perguntou, voz grave e rouca, esboçando um sorriso condescendente. Devias avisar-me, assim estou de casa
Quem é a senhora? perguntei, cerrando os olhos. E por que está com o meu robe?
Sou Lurdes, a mulher da vida do teu pai. Que nervos são esses? O robe estava a apanhar pó
Senti as têmporas latejarem.
Tire imediatamente, exigi.
Matilde! implorou o pai, pondo-se entre nós. Não faças drama! A Lurdes só
A Lurdes só anda a usar o que não lhe pertence! interrompi. Pai, estás a ouvir-te? Trouxeste para cá a tua namorada e deixaste-a mexer nas minhas coisas como se fossem dela?
Lurdes revirou os olhos e foi sentar-se pesadamente no sofá, sobre o tigre.
Mas que falta de respeito, declarou. Se fosse eu, daqui não saias sem uma lição. Não tens modos. O teu pai está finalmente feliz e tu aqui a implicar!
Fiquei boquiaberta. Uma completa estranha, de robe alheio, sentada no meu sofá, a dar-me sermão.
Isso não me diz respeito, concordei. Até ao momento em que entram na minha casa.
Na tua? Lurdes ergueu as sobrancelhas e olhou para Manuel.
Ele estava encostado à parede, encolhidinho, olhando apavorado para mim e para Lurdes, desejando desaparecer.
O meu querido pai não contou? sorri. Então conto eu: ele aqui é apenas hóspede. A casa é minha, cada colher. Deixei-o ficar, mas não tinha planos de vê-lo trazer companhia
Lurdes ficou escarlate.
Manuel? a voz dela tornou-se fria. O que ela diz? Pensava que esta casa era tua. Mentiste-me?
O pai queria enfiar-se no papel de parede. As orelhas rubras de vergonha.
Lurdes, não foi isto que quis dizer Não entendeste bem Tenho outro apartamento, só este não estava pronto… Não quis chatear-te com detalhes.
Não quis chatear?! Genial! Agora tenho eu de ouvir ordens da tua filha!
Já sem paciência, fui direta.
Rua, disse suavemente.
O quê? gaguejou Lurdes.
Fora daqui, vocês os dois. Dão-me uma hora. E se ficarem, resolvemos isto pela lei. Bem feito, Matilde só me arranjo sarilhos.
Dirigi-me à porta, mas Manuel finalmente arrancou-se da parede e correu atrás de mim.
Filha! Vais pôr o teu próprio pai na rua? Sabes o estado do meu apartamento! Posso morrer de frio!
Agarrou-se à manga do meu casaco. O coração apertou-me. A infância, o peso do dever, pena por aquele quase idoso Um nó na garganta.
Olhei para Lurdes.
Sentada, pernas cruzadas, no meu robe, olhava para mim cheia de ódio. Chega. Se cedesse agora, amanhã mudava a fechadura e punha papel de parede novo.
Pai, és adulto. Arranja outro aluguer, cortei. Violaste o acordo: tinhas de viver sozinho, mas trouxeste outra mulher, deixaste-a usar os meus objetos, e ainda fez da casa um caos.
Fica com a tua casa, disparou Lurdes. Vamos embora, Manuel. Nem te rebaixes a pedir nada a ela.
Meia hora depois, a decisão estava tomada. O pai saiu de cabeça baixa. Ficou-me gravada a expressão como cão expulso à chuva. Controlei os sentimentos, sem ceder.
Abri as janelas, deixei sair cheiro a peixe, tabaco e perfume barato. Recolhi robe, manta, tudo que Lurdes tocou. Foi tudo para o lixo. No dia seguinte chamei limpeza profissional e o serralheiro para trocar a fechadura. Só de pensar nela, sentia nojo.
Quatro dias passaram.
O apartamento estava de novo como gosto: limpo, sem flores falsas nem cheiros desagradáveis. Morava com o marido, mas saber que ninguém sujava o meu canto fazia-me sentir bem.
Não tinha falado mais com o pai. No quarto dia, foi ele quem ligou.
Alô atendi hesitante.
Então, Matilde disse o pai, voz embriagada. Satisfeita? Lurdes foi-se embora. Deixou-me
Que surpresa não contive. Aposto: foi quando viu o teu verdadeiro apartamento e percebeu a trabalheira, não foi?
O pai fungou.
Pois. Dormimos num colchão insuflável, com aquecedor emprestado. Ela aguentou três dias. Chamou-me pobretanas e mentiroso, fez as malas e foi para casa da irmã. Disse que foi tempo desperdiçado E eu amava-a, Matilde!
Que amor, pai Só procuravam conforto. Enganaram-se, só isso.
Fez-se silêncio. O pai não tinha acabado.
Custa-me tanto estar sozinho, filha Dá para voltar? Prometo, fico só! Juro!
Olhei para o chão. Ele ali, num canto escuro e gelado. Mas foi ele próprio que chegou àquele ponto: traiu a mãe, enganou-me, mentiu à Lurdes.
Sim, tinha pena. Mas ajudar agora era só perpetuar o problema.
Não, pai. Não deixo. Contrata gente, repara o apartamento. Aprende a viver na tua escolha. Só te posso indicar bons profissionais. Desculpa. Se precisares, chama.
Desliguei.
Cruel? Talvez. Mas nunca mais quis que alguém deixasse marcas no meu robe nem na alma. Há sujidades que não saem só evitando que entrem na nossa vida.






