Viúva Negra A bonita e inteligente Lília, prestes a terminar o curso de jornalismo na Universidade de Lisboa, conheceu o Vlad, homem bem mais velho. Naturalmente, foi Vlad que se encantou primeiro por Lília — elegante e delicada — e não hesitou em se aproximar. Vlad Pereira era uma personalidade conhecida em Lisboa: compunha músicas populares e aparecia frequentemente na televisão local, onde era amigo de quase todos. Não demorou para arranjar um emprego na televisão para Lília como apresentadora de um programa próprio. Em pouco tempo, ela estreou o “Conversas de Coração”, recebendo psicólogos e outros convidados para debater questões reais do cotidiano. — Parabéns, Lília! — elogiou Vlad, após assistir ao programa. — Isto merece uma celebração! Vlad, aos quarenta e cinco, já fora casado três vezes. Sua energia incansável, a legião de amigos e o gosto pela boemia faziam dele um péssimo marido. Achava-se praticamente um compositor consagrado, vivia em restaurantes, cafés e saunas. Bebia muito e era querido por toda a gente. Lília tornou-se celebridade em Lisboa, casou-se com Vlad e seu programa era sucesso. Estava sempre impecável, simpática e educada. Por trás dos bastidores, no entanto, o casamento era frustrante. O marido vivia alcoolizado e Lília percebeu que tinha apostado no homem errado. — Vlad, não exageres — alertou o amigo dele, Simão, quando Vlad tentava humilhar Lília estando embriagado. — Esta miúda ainda vai dar-te a volta… Vlad gostava de dizer: — Nunca escolhi mulheres inteligentes para casar. — E beliscava a esposa à mesa do café. Enquanto tentava conquistar Lília, era atencioso, dedicou músicas, ouviu seus sonhos. Mas depois que virou esposa, passou a ignorá-la e tratá-la como mais uma entre os seus animais de estimação. — Que ingénua fui em pensar que com ele seria uma estrela… — lamentava Lília. No Instituto, ela estudava francês, inútil para viajar, e Vlad estava sempre a criticar: — Aprende inglês! Para quê essa ruralice lá fora? Ginásio é perda de tempo, mas inglês, para ti, nunca sobra. Por birra, Lília ignorava o inglês, até que Simão, culto e viajado, afirmou num jantar: — O inglês é tão natural para uma mulher elegante como os saltos altos. No dia seguinte, Lília matriculou-se em cursos de inglês. — Simão, tu influenciaste mesmo a minha mulher. Agora só ouve inglês no carro! — comentava Vlad, divertido. O casal vivia num apartamento elegante, herdado do avô de Vlad, que fora professor de medicina. Tinham uma empregada fiel, Vera, de quarenta e três anos, mulher solitária, invejosa e amarga, mas discreta na presença dos patrões. Vera sabia tudo sobre a vida do casal. Numa manhã, Lília acordou sozinha, Vlad dormira bêbado no escritório. Na cozinha, Vera segurava uma garrafa vazia de bagaço: — A garrafa estava cheia ontem. E agora, como vai ser o pequeno-almoço? — Salmoura. — resmungou Lília, indo para o duche. Depois de sete anos de casamento, Lília nunca teve filhos; Vlad não queria, já tinha um filho do primeiro casamento. Desiludida com a vida a dois, Lília optava pela carreira. Pediu a Vera que acordasse Vlad, que estava desmaiado. Chamaram uma ambulância. Vlad foi direto para os cuidados intensivos. — É complicado, não garantimos nada — avisaram os médicos. À noite, ligaram a Lília: — O seu marido faleceu. — Não acredito, tão jovem ainda… — murmurou, arrasada. O funeral foi digno, Simão discursou, muitos compareceram. — Vlad viveu plenamente, merece agora descanso e liberdade. — Ele teve tudo… — sussurrou Lília, ouvindo o comentário das pessoas. No início, Lília estranhou o silêncio em casa, enquanto Vera aguardava pelo veredito — seria despedida ou não? No trabalho, os colegas diziam: — Lília, não tens com que te preocupar. Ficaste jovem, livre e rica. Vlad deixou contas robustas — divididas entre o filho e ela. Mas Lília também ganhava bem. Procurava companhia, não gostava de ficar sozinha, frequentava cafés de bairro. Um dia, após gravação de programa, parou num café perto de casa. Provava vinho do Alentejo, distraída, quando um homem robusto se aproximou: — Posso sentar? — ela anuiu. — Inocêncio, prazer. Por que tanta tristeza? — Só estou um pouco em baixo. Inocêncio, nos quarenta, moreno, traços fortes. Lília achou-lhe graça, parecia um urso de peluche. — Posso oferecer-lhe algo? Vinho, cocktail, pastel de nata…? — Obrigada, só um pastel. Inocêncio era encantador, cheio de histórias. Lília divertiu-se, combinaram novo encontro. No dia seguinte, dispensou a empregada: — Vera, podes ir, consigo bem tratar da casa. — Lília, depois de tantos anos… vais pôr-me na rua? — Vais encontrar outra família ou trabalho, Vera. A doméstica chorou. Lília reconsiderou: — Está bem, continua connosco. — Vera ficou radiante, abraçou Lília. — Gosto de vocês como família, sofri com a morte do Vlad, não me tires também a casa… Assim seguiram. Inocêncio, carinhosamente Kiko, passou a visitar Lília frequentemente. Apaixonado, pediu-a em casamento após três meses — ela quis cerimónia simples, mas na lua de mel partiram para as Maldivas. Inocêncio era empresário, podia oferecer luxo. Lília achou que seria apenas mais uma viagem medíocre, mas Kiko surpreendeu: primeira classe, barco privado, hotel VIP. Ficaram numa villa lindíssima com praia exclusiva. — Quanto terá o meu urso de peluche gasto nisto tudo? — pensava Lília. Nunca perguntou sobre fortuna, sabia apenas que não faltava dinheiro. Inocêncio era carinhoso, fazia tudo para ela, preparava pequeno-almoço reforçado. — O Vlad humilhava, implicava, pensava só nele. Já o Kiko vive para mim e escuta sempre. Adoro isso — pensava Lília. Vera também adorou o novo chefe e a mansão nos arredores de Lisboa. Um dia, Lília viu o marido usar uma seringa: — O que é isso?! — Só insulina, sou diabético. Mas levo vida normal. Na praia, Lília divagava: — Será que ganhei o prémio da sorte? Adorou o novo padrão de vida, mas sonhava com um marido atlético, não com um marido desajeitado. Sugeriu dieta e ginásio; Inocêncio entristeceu: — Tenho problemas de metabolismo. Nunca serei um Apolo… — Não faz mal, não precisa… — concluiu Lília. De volta ao trabalho, começou a sentir a ausência de paixão. Queria viver um amor intenso; desejava um homem musculado, não um urso de peluche. Os colegas brincavam: — Vives mesmo fiel ao urso? Tens mesmo essa moral toda? Na verdade, Lília não queria magoar o bondoso do marido. Num jantar da empresa, embebedou-se, e o colega Costa chamou o amigo Artur para ajudá-la a chegar a casa. — Podemos levar-te, Lília? — propôs Costa. Artur guiou-a até seu carro topo de gama, pediu-lhe o telefone. À porta de casa, beijou-a ardentemente. Lília gostou; Artur era seu amante ideal: vigoroso, direto, nada de sentimentalismos. Inocêncio estava sempre ocupado com negócios e não suspeitou das escapadelas. Um dia, Lília foi visitar Artur, mas durante os preparativos ouviram o interfone insistente. Era Inocêncio, que entrou e flagrou a esposa. Em choque, Lília tentou explicar: — Kiko… não foi o que parece… Artur calou-se, Inocêncio ficou pálido, desmaiou. Lília procurou a insulina e aplicou-lhe a dose. — Salvo! — pensava. Mas ele não acordou. Chegou a ambulância. O médico confirmou: — Está morto. A dor foi profunda. Artur levou-a a casa, Vera estranhou: — Que aconteceu, Lília? Estás branca! Lília ainda desconfiou que Vera a tivesse delatado, mas não confirmou. Depois do funeral, a filha de Inocêncio, advogada, apareceu e expulsou Lília da mansão, ameaçando-a com tribunal. Deixou-lhe uma mala cheia de dinheiro e três dias para sair. Lília não quis enfrentar litígios, recusou tudo. Com Vera, voltou ao antigo apartamento herdado de Vlad. Com o tempo, Lília recuperou, Artur apoiou-a, mas não pediu-a em casamento. Num dia triste, Costa ligou: — Senta-te… Artur morreu, acidente, instantâneo… Lília ficou a matutar: — Porque morrem todos os meus homens? Sou uma viúva negra… Vão acabar por me chamar isso. Uns meses depois, um jovem chamado Magno participou no programa de Lília. Após a emissão, convidou-a para um café. — Claro, iniciei nova fase — pensou ela. Magno conquistou Lília, viveram um amor arrebatador. — Afinal, é isto a felicidade. Receio só perdê-lo… — dizia. Magno também apaixonou-se, viviam intensamente. Lília procurou informações sobre ele por curiosidade: Magno era um dos mil portugueses mais ricos! — Não acredito! — riu nervosa, mas inquietou-se: — Espero que não lhe aconteça nada… Consolou-se e foi trabalhar. Até que soube no fim da tarde, por telefone, que Magno fora levado ao hospital por problemas cardíacos. — Vai ficar bem, vai viver, podem visitar — disse o médico. Na visita, Magno prometeu casar-se com ela. — Aceito! — Lília respondeu, beijando-o. — Temos uma vida e uma felicidade verdadeiramente genuína pela frente. Obrigada por ler, seguir o canal e apoiar. Felicidades a todos!

A Viúva Negra

A encantadora e perspicaz Matilde, prestes a concluir o curso de Jornalismo na Universidade de Lisboa, conheceu Vítor, um homem bem mais velho que ela. Claro, foi Vítor Correia quem primeiro reparou na silhueta delicada e no jeito doce de Matilde. Vítor era figura conhecida por ali, compunha fados inclusive, alguns davam mesmo para ouvir nos cafés do Bairro Alto.

Vítor era daqueles tipos da casa, no canal local conhecia meio mundo. Por isso, não teve grandes dificuldades para encaixar Matilde como apresentadora do seu próprio programa de televisão. Pouco depois, Matilde estreou Conversas à Volta da Mesa e convidou a psicóloga mais famosa da cidade para a primeira emissão. Era um formato leve, perguntas e respostas, com exemplos tirados do dia-a-dia.

Muito bem, Matilde elogiou Vítor ao ver a emissão Isto merece ser celebrado!

Vítor Correia, aos quarenta e cinco, já tinha casado três vezes. Com aquele ritmo frenético de saídas, amigos, tertúlias e guitarradas, não encontrava sossego para a vida doméstica. Achava-se artista consagrado. Gostava de se encostar às mesas dos restaurantes do Chiado, aparecia nas saunas de vez em quando, era sempre recebido como da família. E, como se fosse pouco, não dispensava um bom copo de tinto.

O tempo passou. Matilde tornou-se uma cara conhecida da cidade, acabou por casar com Vítor. O seu programa tinha audiência garantida. Sempre elegante, sorridente e atenciosa, era adorada pela vizinhança a menina bonita da TV, diziam. Mas o casamento, percebeu ela rapidamente, foi escolha infeliz, ainda mais quando o marido andava mais bêbado do que sóbrio.

Ó Vítor, não abuses lamentava o amigo Simão, quando ele disparava uma boca desagradável para Matilde a meio do jantar.

Simão, mulheres espertas nunca foram a minha praia respondia Vítor, convencido que só ele era classe, enquanto beliscava a bochecha da esposa no café.

No tempo da conquista, Vítor foi um verdadeiro cavalheiro. Flores, prendas, até fados dedicados à Matilde. Ouviu os seus sonhos com atenção. Mas, depois do sim, esqueceu-se de tudo. Matilde passou a receber menos carinho que a gata da casa e quando recebia era em forma de um ralhete.

Ai a minha ingenuidade, achei que com o Vítor ia virar estrela suspirava Matilde.

Aprendera francês na faculdade, útil não era, mas achava chique. Vítor, porém, implicava:

Aprende inglês, Matilde! Não percebes nada lá fora, pareces uma aldeã. Para ginásio até tens tempo, mas para línguas não, pois claro

Depois de ouvir tanto, Matilde fez birra e recusou aprender inglês. Mas, numa jantarada em casa, Simão culto e viajado comentou:

Uma mulher moderna tem de saber inglês como sabe andar de salto alto.

No dia seguinte, Matilde inscreveu-se num curso com professor britânico. Vítor achou graça:

Ena, Simão fez-te correr, agora a casa cheira a manuais de inglês!

Viviam numa bela casa herdada do avô médico de Vítor, perto das Amoreiras. Tinha uma empregada, Vera, mulher de quarenta e três, sempre de cara fechada e invejosa, mas sabia esconder o jogo. A Vera, se pudesse, vigiava tudo. Passava o dia servindo cafezinhos e bisbilhotando a vida alheia.

Certo dia, Matilde acordou e percebeu que o marido tinha adormecido no sofá do escritório, vindo tarde e mais para lá do que para cá. Ao dirigir-se à cozinha, encontrou Vera estudando uma garrafa de aguardente vazia:

Ao jantar estava cheia e agora, para o pequeno-almoço, o que é que ele vai querer?

Um copo de água das pedras murmurou Matilde, fugindo para o duche.

Sete anos de casamento e nada de filhos; Vítor já tinha um filho do primeiro matrimónio. Matilde, decepcionada com a vida a dois, dedicava-se à carreira. Depois do pequeno-almoço, pediu à Vera para acordar o marido. Encontrou-o caído, com uma mancha vermelha na almofada.

Matilde gritou Vera Chama o INEM!

O que aconteceu?

Não faço ideia…

Quinze minutos depois, Matilde ia na ambulância. No hospital, Vítor foi para os cuidados intensivos.

À noite, receberam o telefonema fatal:

O seu marido faleceu.

Não não pode ser respondeu Matilde, abalada. Não era velho

O funeral foi digno. Orações, discursos, povo a abarrotar, tal era a fama de Vítor. Simão fez uma saudação especial:

Nada de tristeza. O Vítor viveu tudo o que havia para viver. Merece descanso.

Matilde, nos primeiros tempos, mal conseguia acreditar. O silêncio era ensurdecedor. Vera olhava-a de lado, sem saber se seria despedida ou não. Os colegas arriscaram:

Matilde, já tens motivos para sorrir! Ficou livre, jovem e com uns euros no bolso.

Havia duas contas polpudas, divididas com o filho de Vítor, e ela própria já ganhava bem. Buscava companhia, evitava ficar sozinha em casa, ia bastante aos cafés.

Numa tarde, depois das gravações, entrou num café nos Restauradores para afogar os pensamentos com um copo de vinho do Douro. Aproximou-se um homem de físico imponente, sorriso simpático, pediu licença para se juntar:

Posso? ela acenou. Eu sou Ignácio, e você parece que está a precisar de conversa.

É verdade, estou um bocado em baixo.

Ignácio, perto dos quarenta, robusto, castanho e de feições marcantes, lembra-lhe imediatamente um urso de pelúcia, o que a divertiu.

Deixe-me oferecer-lhe um doce ou prefere algo mais forte?

Um pastel de nata chega!

Ignácio, não sendo bonito, ferveu no carisma. Entre histórias e piadas, rapidamente conquistou Matilde. Gargalharam. Ele acompanhou-a até casa e combinaram novo encontro.

De manhã, Matilde anunciou à Vera:

Dispenso os teus serviços, vou tratar de mim sozinha.

Oh, Matilde, tantos anos fiel, vais agora mandar-me embora? Para onde vou eu?

Vais encontrar outra família ou trabalhar como porteira.

Estás a correr comigo chorou Vera.

Ora, não vou à falência por manter a casa limpa pensou Matilde.

Ao ver a empregada de lágrimas nos olhos, cedeu:

Pronto, fica. Se precisas tanto do trabalho

Vera até lhe deu um beijo na cara.

Já vos tinha como família… e agora o Vítor, já me custou tanto perdê-lo.

E assim continuaram, agora com Ignácio, ou Nacho, como Matilde carinhosamente o apelidou, a visitar frequentemente. Apaixonado pela estrela de TV, casaram três meses depois. Matilde quis cerimónia discreta, mas Ignácio compensou levando-a em lua-de-mel para as ilhas da Madeira. Era empresário, podia e gostava de esbanjar.

Matilde pensou que as férias seriam à moda do Vítor: voo direto, hotel arranjadinho, passeios turísticos. Mas Nacho, seu urso de pelúcia, tinha outros planos. Voaram em primeira classe. À chegada, foram recebidos com fogo de artifício, poncha e folclore madeirense.

A hospedagem era um luxo: vila com piscina privada, quatro quartos, praia privada.

Nem quero imaginar quanto é que Nacho gastou pensava Matilde.

Nunca quis saber do saldo bancário do marido, apenas sabia que dinheiro não faltava. Ignácio era uma ternura, sempre atento, a ajeitar-lhe a manta, acariciar-lhe o cabelo, garantir que comia mais do que uma torrada ao pequeno-almoço.

O Vítor era uma peste, só sabia rebaixar e dizer que me estava a pôr ao nível dele. Nacho, apesar de não ser um Adónis, faz tudo por mim pensava ela.

Vera também adorava o novo patrão, até se mudou com eles para a casa grande nos arredores de Lisboa. Só um pormenor desagradou Matilde: o dia em que viu Ignácio injectar-se com uma seringa fina.

O que é isso?

Só insulina sou diabético explicou ele mas vivo bem com isso.

Na Madeira, entre banhos de sol, pensava:

Será desta que tirei a sorte grande?

Gostou da viagem, embora suspirasse por um marido menos redondo, sonhando com surfistas ou treinadores nórdicos.

Tenho de pôr o Nacho na dieta e levá-lo ao ginásio.

Falou com ele, mas Nacho entristeceu:

Posso tentar, se quisers, mas com este metabolismo… nunca serei um Apolo. O meu destino é a insulina.

Pronto, deixa lá resignou-se Matilde.

De volta ao trabalho, pensamentos inquietos. Questionava-se: será que algum dia vou sentir amor verdadeiro? Com o marido, paixão não havia. Sonhava com noites ao lado de um atleta musculado, não de um urso fofinho. Os colegas brincavam:

Ó Matilde, não nos digas que és fiel ao urso? És mesmo tão virtuosa?

Na verdade, não era um modelo de virtude, só não queria magoar o bom do Ignácio. No jantar de Natal da estação, Matilde abusou do vinho. O colega Tomás chamou o amigo Artur para lhe dar boleia.

Matilde, queres que te deixemos em casa? perguntou meio ébrio Tomás, e Matilde aceitou.

Artur instalou-a no carro de luxo:

Tomás, porquê só agora me apresentas a Matilde? gracejou Artur, e ela olhou para ele como se tivesse visto Ronaldo em pessoa.

Artur, bonitão e cheio de charme, não tirou os olhos dela. Ao deixá-la, pediu-lhe o número de telemóvel. Ajudou-a a sair do carro, encostou-a ao jipe e beijou-a com ardor. Ela gostou da firmeza e da força dele.

Como amante, Artur era perfeito. Em casa, Matilde era meiga com o Nacho; com Artur, tudo era fogo. Apanhava-a no seu apartamento de solteiro, sem tempo para ternuras. Depois, esticados na cama, dizia:

És fantástica.

Assim, cada um estava satisfeito com o arranjo. Ignácio, atolado em negócios, mal notava a ausência da esposa. Um dia, Matilde chegou ao apartamento de Artur, já deitada na cama, enquanto ele saiu do banho de roupão. Alguém tocou à campainha com insistência:

Quem é o chato? praguejou Artur ao abrir.

Matilde reconheceu as vozes: Artur e Ignácio! Levantou-se num susto, puxando a roupa. Ignácio estava na porta, calado. Se ao menos tivesse gritado…

Nacho Ignácio Não é o que parece

Artur ficou calado, podia ter fechado a porta. Matilde perguntou:

Quem foi o cabra que me denunciou?

Agora já não interessa Vim verificar, embora custasse a acreditar

Ignácio, cor de cal, suava e caiu ao chão. Ela correu, verificou a respiração difícil.

Chama o INEM, rápido!

Artur ligou. Matilde verificou os bolsos do marido e encontrou a caneta de insulina. Sabia que ele andava sempre com isso. Aplicou a dose.

Já está, vai acordar. Mas Ignácio não reagia. A emergência chegou, e o médico apenas disse:

Ele não resistiu.

Matilde finalmente caiu em si. Artur levou-a a casa. Vera perguntou:

Eh, Matilde, o que se passou? Estás branca…

Matilde pensou consigo:

E se a Vera me tramou? Sempre a bisbilhotar o Artur mas calou-se. Ela nunca admitiria.

Após o funeral, a causa da morte: paragem cardíaca. Documentos entregues. Passado pouco tempo, apareceu a filha de Ignácio do primeiro casamento, advogada de língua afiada. Expulsou Matilde da casa, e avisou que, se tentasse contestar, ficava sem casa, sem negócio, sem tostão. Atirou-lhe um molho de notas e deu três dias para sair, ela e Vera.

Matilde não quis saber de litígio. Deixou tudo. Ela e Vera voltaram ao seu enorme apartamento herdado de Vítor Correia.

O tempo passou. Matilde recuperou, Artur ajudou, continuaram a encontrar-se, mas casamento não vinha à conversa. Percebia, homem para casar, não era Artur, mas afastar-se, não conseguia. Até que um dia Tomás telefonou em tom grave:

Matilde, senta-te O Artur morreu, acidente de carro. Instantâneo.

Matilde pensou:

Porque é que os meus homens morrem todos? Sou tipo viúva negra Daqui a pouco é assim que me chamam. Deve ser do karma!

Mais umas semanas e, num dos programas, apareceu Bernardo, rapaz novo. Sentiu logo um clima. Após as gravações, ele convidou-a para ir tomar um café.

Está bem respondeu ela, já era tempo de recomeçar.

Bernardo conquistou-lhe o coração. Matilde andava nas nuvens, cheia de felicidade.

Afinal, era isto o amor Não respiro sem o Bernardo, quanto mais viver! Mas sinceramente, tenho receio pelo futuro dele

Bernardo também se rendeu. Faziam tudo juntos, era leve e fácil. Matilde nem se preocupava com a vida dele sabia apenas que não tinha irmãos e o pai andava afastado. Bernardo vivia com ela, saiu para trabalhar, sabendo que Matilde só ia à TV à tarde. Curiosa, resolveu pesquisar sobre Bernardo. Digitou no Google e o primeiro resultado deixou-a sem palavras. Bernardo, modesto e familiar, constava do top mil dos mais ricos do país. Património milionário.

Isto só pode ser brincadeira! riu sozinha. Mas e se lhe acontece o mesmo que os outros?

Acalmou-se e foi trabalhar normalmente. No fim do dia, arregalou o telefone; Bernardo não atendia. Chamou à empresa dele.

Boa tarde, posso falar com o senhor Bernardo?

Quem deseja?

Sou a Matilde

Foi levado ao hospital e indicaram o sítio.

Matilde voou para o hospital.

O que aconteceu? perguntou desesperada ao médico.

O médico sorriu:

Calma, não é nada de grave. Vai viver, foi só um susto ao coração. Está controlado.

Posso vê-lo? Por favor

Dez minutos.

Matilde entrou de mansinho, ele sorria para ela. Sentou-se ao lado dele, entrelaçou as mãos com as dela:

Vai correr tudo bem, amo-te, quando sair daqui casamos. Aceitas?

Claro! E deu-lhe um beijo forte. Agora, sim, vem aí uma vida de verdade. E felicidade genuína.

Obrigado pela atenção, pelo carinho e por me acompanharem. Boa sorte na vida!

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Viúva Negra A bonita e inteligente Lília, prestes a terminar o curso de jornalismo na Universidade de Lisboa, conheceu o Vlad, homem bem mais velho. Naturalmente, foi Vlad que se encantou primeiro por Lília — elegante e delicada — e não hesitou em se aproximar. Vlad Pereira era uma personalidade conhecida em Lisboa: compunha músicas populares e aparecia frequentemente na televisão local, onde era amigo de quase todos. Não demorou para arranjar um emprego na televisão para Lília como apresentadora de um programa próprio. Em pouco tempo, ela estreou o “Conversas de Coração”, recebendo psicólogos e outros convidados para debater questões reais do cotidiano. — Parabéns, Lília! — elogiou Vlad, após assistir ao programa. — Isto merece uma celebração! Vlad, aos quarenta e cinco, já fora casado três vezes. Sua energia incansável, a legião de amigos e o gosto pela boemia faziam dele um péssimo marido. Achava-se praticamente um compositor consagrado, vivia em restaurantes, cafés e saunas. Bebia muito e era querido por toda a gente. Lília tornou-se celebridade em Lisboa, casou-se com Vlad e seu programa era sucesso. Estava sempre impecável, simpática e educada. Por trás dos bastidores, no entanto, o casamento era frustrante. O marido vivia alcoolizado e Lília percebeu que tinha apostado no homem errado. — Vlad, não exageres — alertou o amigo dele, Simão, quando Vlad tentava humilhar Lília estando embriagado. — Esta miúda ainda vai dar-te a volta… Vlad gostava de dizer: — Nunca escolhi mulheres inteligentes para casar. — E beliscava a esposa à mesa do café. Enquanto tentava conquistar Lília, era atencioso, dedicou músicas, ouviu seus sonhos. Mas depois que virou esposa, passou a ignorá-la e tratá-la como mais uma entre os seus animais de estimação. — Que ingénua fui em pensar que com ele seria uma estrela… — lamentava Lília. No Instituto, ela estudava francês, inútil para viajar, e Vlad estava sempre a criticar: — Aprende inglês! Para quê essa ruralice lá fora? Ginásio é perda de tempo, mas inglês, para ti, nunca sobra. Por birra, Lília ignorava o inglês, até que Simão, culto e viajado, afirmou num jantar: — O inglês é tão natural para uma mulher elegante como os saltos altos. No dia seguinte, Lília matriculou-se em cursos de inglês. — Simão, tu influenciaste mesmo a minha mulher. Agora só ouve inglês no carro! — comentava Vlad, divertido. O casal vivia num apartamento elegante, herdado do avô de Vlad, que fora professor de medicina. Tinham uma empregada fiel, Vera, de quarenta e três anos, mulher solitária, invejosa e amarga, mas discreta na presença dos patrões. Vera sabia tudo sobre a vida do casal. Numa manhã, Lília acordou sozinha, Vlad dormira bêbado no escritório. Na cozinha, Vera segurava uma garrafa vazia de bagaço: — A garrafa estava cheia ontem. E agora, como vai ser o pequeno-almoço? — Salmoura. — resmungou Lília, indo para o duche. Depois de sete anos de casamento, Lília nunca teve filhos; Vlad não queria, já tinha um filho do primeiro casamento. Desiludida com a vida a dois, Lília optava pela carreira. Pediu a Vera que acordasse Vlad, que estava desmaiado. Chamaram uma ambulância. Vlad foi direto para os cuidados intensivos. — É complicado, não garantimos nada — avisaram os médicos. À noite, ligaram a Lília: — O seu marido faleceu. — Não acredito, tão jovem ainda… — murmurou, arrasada. O funeral foi digno, Simão discursou, muitos compareceram. — Vlad viveu plenamente, merece agora descanso e liberdade. — Ele teve tudo… — sussurrou Lília, ouvindo o comentário das pessoas. No início, Lília estranhou o silêncio em casa, enquanto Vera aguardava pelo veredito — seria despedida ou não? No trabalho, os colegas diziam: — Lília, não tens com que te preocupar. Ficaste jovem, livre e rica. Vlad deixou contas robustas — divididas entre o filho e ela. Mas Lília também ganhava bem. Procurava companhia, não gostava de ficar sozinha, frequentava cafés de bairro. Um dia, após gravação de programa, parou num café perto de casa. Provava vinho do Alentejo, distraída, quando um homem robusto se aproximou: — Posso sentar? — ela anuiu. — Inocêncio, prazer. Por que tanta tristeza? — Só estou um pouco em baixo. Inocêncio, nos quarenta, moreno, traços fortes. Lília achou-lhe graça, parecia um urso de peluche. — Posso oferecer-lhe algo? Vinho, cocktail, pastel de nata…? — Obrigada, só um pastel. Inocêncio era encantador, cheio de histórias. Lília divertiu-se, combinaram novo encontro. No dia seguinte, dispensou a empregada: — Vera, podes ir, consigo bem tratar da casa. — Lília, depois de tantos anos… vais pôr-me na rua? — Vais encontrar outra família ou trabalho, Vera. A doméstica chorou. Lília reconsiderou: — Está bem, continua connosco. — Vera ficou radiante, abraçou Lília. — Gosto de vocês como família, sofri com a morte do Vlad, não me tires também a casa… Assim seguiram. Inocêncio, carinhosamente Kiko, passou a visitar Lília frequentemente. Apaixonado, pediu-a em casamento após três meses — ela quis cerimónia simples, mas na lua de mel partiram para as Maldivas. Inocêncio era empresário, podia oferecer luxo. Lília achou que seria apenas mais uma viagem medíocre, mas Kiko surpreendeu: primeira classe, barco privado, hotel VIP. Ficaram numa villa lindíssima com praia exclusiva. — Quanto terá o meu urso de peluche gasto nisto tudo? — pensava Lília. Nunca perguntou sobre fortuna, sabia apenas que não faltava dinheiro. Inocêncio era carinhoso, fazia tudo para ela, preparava pequeno-almoço reforçado. — O Vlad humilhava, implicava, pensava só nele. Já o Kiko vive para mim e escuta sempre. Adoro isso — pensava Lília. Vera também adorou o novo chefe e a mansão nos arredores de Lisboa. Um dia, Lília viu o marido usar uma seringa: — O que é isso?! — Só insulina, sou diabético. Mas levo vida normal. Na praia, Lília divagava: — Será que ganhei o prémio da sorte? Adorou o novo padrão de vida, mas sonhava com um marido atlético, não com um marido desajeitado. Sugeriu dieta e ginásio; Inocêncio entristeceu: — Tenho problemas de metabolismo. Nunca serei um Apolo… — Não faz mal, não precisa… — concluiu Lília. De volta ao trabalho, começou a sentir a ausência de paixão. Queria viver um amor intenso; desejava um homem musculado, não um urso de peluche. Os colegas brincavam: — Vives mesmo fiel ao urso? Tens mesmo essa moral toda? Na verdade, Lília não queria magoar o bondoso do marido. Num jantar da empresa, embebedou-se, e o colega Costa chamou o amigo Artur para ajudá-la a chegar a casa. — Podemos levar-te, Lília? — propôs Costa. Artur guiou-a até seu carro topo de gama, pediu-lhe o telefone. À porta de casa, beijou-a ardentemente. Lília gostou; Artur era seu amante ideal: vigoroso, direto, nada de sentimentalismos. Inocêncio estava sempre ocupado com negócios e não suspeitou das escapadelas. Um dia, Lília foi visitar Artur, mas durante os preparativos ouviram o interfone insistente. Era Inocêncio, que entrou e flagrou a esposa. Em choque, Lília tentou explicar: — Kiko… não foi o que parece… Artur calou-se, Inocêncio ficou pálido, desmaiou. Lília procurou a insulina e aplicou-lhe a dose. — Salvo! — pensava. Mas ele não acordou. Chegou a ambulância. O médico confirmou: — Está morto. A dor foi profunda. Artur levou-a a casa, Vera estranhou: — Que aconteceu, Lília? Estás branca! Lília ainda desconfiou que Vera a tivesse delatado, mas não confirmou. Depois do funeral, a filha de Inocêncio, advogada, apareceu e expulsou Lília da mansão, ameaçando-a com tribunal. Deixou-lhe uma mala cheia de dinheiro e três dias para sair. Lília não quis enfrentar litígios, recusou tudo. Com Vera, voltou ao antigo apartamento herdado de Vlad. Com o tempo, Lília recuperou, Artur apoiou-a, mas não pediu-a em casamento. Num dia triste, Costa ligou: — Senta-te… Artur morreu, acidente, instantâneo… Lília ficou a matutar: — Porque morrem todos os meus homens? Sou uma viúva negra… Vão acabar por me chamar isso. Uns meses depois, um jovem chamado Magno participou no programa de Lília. Após a emissão, convidou-a para um café. — Claro, iniciei nova fase — pensou ela. Magno conquistou Lília, viveram um amor arrebatador. — Afinal, é isto a felicidade. Receio só perdê-lo… — dizia. Magno também apaixonou-se, viviam intensamente. Lília procurou informações sobre ele por curiosidade: Magno era um dos mil portugueses mais ricos! — Não acredito! — riu nervosa, mas inquietou-se: — Espero que não lhe aconteça nada… Consolou-se e foi trabalhar. Até que soube no fim da tarde, por telefone, que Magno fora levado ao hospital por problemas cardíacos. — Vai ficar bem, vai viver, podem visitar — disse o médico. Na visita, Magno prometeu casar-se com ela. — Aceito! — Lília respondeu, beijando-o. — Temos uma vida e uma felicidade verdadeiramente genuína pela frente. Obrigada por ler, seguir o canal e apoiar. Felicidades a todos!
Бедна баба приюти и храни две гладни деца месеци наред… после те изчезнаха без следа. Двадесет години по-късно истината излезе наяве.