A Viúva Negra
A encantadora e perspicaz Matilde, prestes a concluir o curso de Jornalismo na Universidade de Lisboa, conheceu Vítor, um homem bem mais velho que ela. Claro, foi Vítor Correia quem primeiro reparou na silhueta delicada e no jeito doce de Matilde. Vítor era figura conhecida por ali, compunha fados inclusive, alguns davam mesmo para ouvir nos cafés do Bairro Alto.
Vítor era daqueles tipos da casa, no canal local conhecia meio mundo. Por isso, não teve grandes dificuldades para encaixar Matilde como apresentadora do seu próprio programa de televisão. Pouco depois, Matilde estreou Conversas à Volta da Mesa e convidou a psicóloga mais famosa da cidade para a primeira emissão. Era um formato leve, perguntas e respostas, com exemplos tirados do dia-a-dia.
Muito bem, Matilde elogiou Vítor ao ver a emissão Isto merece ser celebrado!
Vítor Correia, aos quarenta e cinco, já tinha casado três vezes. Com aquele ritmo frenético de saídas, amigos, tertúlias e guitarradas, não encontrava sossego para a vida doméstica. Achava-se artista consagrado. Gostava de se encostar às mesas dos restaurantes do Chiado, aparecia nas saunas de vez em quando, era sempre recebido como da família. E, como se fosse pouco, não dispensava um bom copo de tinto.
O tempo passou. Matilde tornou-se uma cara conhecida da cidade, acabou por casar com Vítor. O seu programa tinha audiência garantida. Sempre elegante, sorridente e atenciosa, era adorada pela vizinhança a menina bonita da TV, diziam. Mas o casamento, percebeu ela rapidamente, foi escolha infeliz, ainda mais quando o marido andava mais bêbado do que sóbrio.
Ó Vítor, não abuses lamentava o amigo Simão, quando ele disparava uma boca desagradável para Matilde a meio do jantar.
Simão, mulheres espertas nunca foram a minha praia respondia Vítor, convencido que só ele era classe, enquanto beliscava a bochecha da esposa no café.
No tempo da conquista, Vítor foi um verdadeiro cavalheiro. Flores, prendas, até fados dedicados à Matilde. Ouviu os seus sonhos com atenção. Mas, depois do sim, esqueceu-se de tudo. Matilde passou a receber menos carinho que a gata da casa e quando recebia era em forma de um ralhete.
Ai a minha ingenuidade, achei que com o Vítor ia virar estrela suspirava Matilde.
Aprendera francês na faculdade, útil não era, mas achava chique. Vítor, porém, implicava:
Aprende inglês, Matilde! Não percebes nada lá fora, pareces uma aldeã. Para ginásio até tens tempo, mas para línguas não, pois claro
Depois de ouvir tanto, Matilde fez birra e recusou aprender inglês. Mas, numa jantarada em casa, Simão culto e viajado comentou:
Uma mulher moderna tem de saber inglês como sabe andar de salto alto.
No dia seguinte, Matilde inscreveu-se num curso com professor britânico. Vítor achou graça:
Ena, Simão fez-te correr, agora a casa cheira a manuais de inglês!
Viviam numa bela casa herdada do avô médico de Vítor, perto das Amoreiras. Tinha uma empregada, Vera, mulher de quarenta e três, sempre de cara fechada e invejosa, mas sabia esconder o jogo. A Vera, se pudesse, vigiava tudo. Passava o dia servindo cafezinhos e bisbilhotando a vida alheia.
Certo dia, Matilde acordou e percebeu que o marido tinha adormecido no sofá do escritório, vindo tarde e mais para lá do que para cá. Ao dirigir-se à cozinha, encontrou Vera estudando uma garrafa de aguardente vazia:
Ao jantar estava cheia e agora, para o pequeno-almoço, o que é que ele vai querer?
Um copo de água das pedras murmurou Matilde, fugindo para o duche.
Sete anos de casamento e nada de filhos; Vítor já tinha um filho do primeiro matrimónio. Matilde, decepcionada com a vida a dois, dedicava-se à carreira. Depois do pequeno-almoço, pediu à Vera para acordar o marido. Encontrou-o caído, com uma mancha vermelha na almofada.
Matilde gritou Vera Chama o INEM!
O que aconteceu?
Não faço ideia…
Quinze minutos depois, Matilde ia na ambulância. No hospital, Vítor foi para os cuidados intensivos.
À noite, receberam o telefonema fatal:
O seu marido faleceu.
Não não pode ser respondeu Matilde, abalada. Não era velho
O funeral foi digno. Orações, discursos, povo a abarrotar, tal era a fama de Vítor. Simão fez uma saudação especial:
Nada de tristeza. O Vítor viveu tudo o que havia para viver. Merece descanso.
Matilde, nos primeiros tempos, mal conseguia acreditar. O silêncio era ensurdecedor. Vera olhava-a de lado, sem saber se seria despedida ou não. Os colegas arriscaram:
Matilde, já tens motivos para sorrir! Ficou livre, jovem e com uns euros no bolso.
Havia duas contas polpudas, divididas com o filho de Vítor, e ela própria já ganhava bem. Buscava companhia, evitava ficar sozinha em casa, ia bastante aos cafés.
Numa tarde, depois das gravações, entrou num café nos Restauradores para afogar os pensamentos com um copo de vinho do Douro. Aproximou-se um homem de físico imponente, sorriso simpático, pediu licença para se juntar:
Posso? ela acenou. Eu sou Ignácio, e você parece que está a precisar de conversa.
É verdade, estou um bocado em baixo.
Ignácio, perto dos quarenta, robusto, castanho e de feições marcantes, lembra-lhe imediatamente um urso de pelúcia, o que a divertiu.
Deixe-me oferecer-lhe um doce ou prefere algo mais forte?
Um pastel de nata chega!
Ignácio, não sendo bonito, ferveu no carisma. Entre histórias e piadas, rapidamente conquistou Matilde. Gargalharam. Ele acompanhou-a até casa e combinaram novo encontro.
De manhã, Matilde anunciou à Vera:
Dispenso os teus serviços, vou tratar de mim sozinha.
Oh, Matilde, tantos anos fiel, vais agora mandar-me embora? Para onde vou eu?
Vais encontrar outra família ou trabalhar como porteira.
Estás a correr comigo chorou Vera.
Ora, não vou à falência por manter a casa limpa pensou Matilde.
Ao ver a empregada de lágrimas nos olhos, cedeu:
Pronto, fica. Se precisas tanto do trabalho
Vera até lhe deu um beijo na cara.
Já vos tinha como família… e agora o Vítor, já me custou tanto perdê-lo.
E assim continuaram, agora com Ignácio, ou Nacho, como Matilde carinhosamente o apelidou, a visitar frequentemente. Apaixonado pela estrela de TV, casaram três meses depois. Matilde quis cerimónia discreta, mas Ignácio compensou levando-a em lua-de-mel para as ilhas da Madeira. Era empresário, podia e gostava de esbanjar.
Matilde pensou que as férias seriam à moda do Vítor: voo direto, hotel arranjadinho, passeios turísticos. Mas Nacho, seu urso de pelúcia, tinha outros planos. Voaram em primeira classe. À chegada, foram recebidos com fogo de artifício, poncha e folclore madeirense.
A hospedagem era um luxo: vila com piscina privada, quatro quartos, praia privada.
Nem quero imaginar quanto é que Nacho gastou pensava Matilde.
Nunca quis saber do saldo bancário do marido, apenas sabia que dinheiro não faltava. Ignácio era uma ternura, sempre atento, a ajeitar-lhe a manta, acariciar-lhe o cabelo, garantir que comia mais do que uma torrada ao pequeno-almoço.
O Vítor era uma peste, só sabia rebaixar e dizer que me estava a pôr ao nível dele. Nacho, apesar de não ser um Adónis, faz tudo por mim pensava ela.
Vera também adorava o novo patrão, até se mudou com eles para a casa grande nos arredores de Lisboa. Só um pormenor desagradou Matilde: o dia em que viu Ignácio injectar-se com uma seringa fina.
O que é isso?
Só insulina sou diabético explicou ele mas vivo bem com isso.
Na Madeira, entre banhos de sol, pensava:
Será desta que tirei a sorte grande?
Gostou da viagem, embora suspirasse por um marido menos redondo, sonhando com surfistas ou treinadores nórdicos.
Tenho de pôr o Nacho na dieta e levá-lo ao ginásio.
Falou com ele, mas Nacho entristeceu:
Posso tentar, se quisers, mas com este metabolismo… nunca serei um Apolo. O meu destino é a insulina.
Pronto, deixa lá resignou-se Matilde.
De volta ao trabalho, pensamentos inquietos. Questionava-se: será que algum dia vou sentir amor verdadeiro? Com o marido, paixão não havia. Sonhava com noites ao lado de um atleta musculado, não de um urso fofinho. Os colegas brincavam:
Ó Matilde, não nos digas que és fiel ao urso? És mesmo tão virtuosa?
Na verdade, não era um modelo de virtude, só não queria magoar o bom do Ignácio. No jantar de Natal da estação, Matilde abusou do vinho. O colega Tomás chamou o amigo Artur para lhe dar boleia.
Matilde, queres que te deixemos em casa? perguntou meio ébrio Tomás, e Matilde aceitou.
Artur instalou-a no carro de luxo:
Tomás, porquê só agora me apresentas a Matilde? gracejou Artur, e ela olhou para ele como se tivesse visto Ronaldo em pessoa.
Artur, bonitão e cheio de charme, não tirou os olhos dela. Ao deixá-la, pediu-lhe o número de telemóvel. Ajudou-a a sair do carro, encostou-a ao jipe e beijou-a com ardor. Ela gostou da firmeza e da força dele.
Como amante, Artur era perfeito. Em casa, Matilde era meiga com o Nacho; com Artur, tudo era fogo. Apanhava-a no seu apartamento de solteiro, sem tempo para ternuras. Depois, esticados na cama, dizia:
És fantástica.
Assim, cada um estava satisfeito com o arranjo. Ignácio, atolado em negócios, mal notava a ausência da esposa. Um dia, Matilde chegou ao apartamento de Artur, já deitada na cama, enquanto ele saiu do banho de roupão. Alguém tocou à campainha com insistência:
Quem é o chato? praguejou Artur ao abrir.
Matilde reconheceu as vozes: Artur e Ignácio! Levantou-se num susto, puxando a roupa. Ignácio estava na porta, calado. Se ao menos tivesse gritado…
Nacho Ignácio Não é o que parece
Artur ficou calado, podia ter fechado a porta. Matilde perguntou:
Quem foi o cabra que me denunciou?
Agora já não interessa Vim verificar, embora custasse a acreditar
Ignácio, cor de cal, suava e caiu ao chão. Ela correu, verificou a respiração difícil.
Chama o INEM, rápido!
Artur ligou. Matilde verificou os bolsos do marido e encontrou a caneta de insulina. Sabia que ele andava sempre com isso. Aplicou a dose.
Já está, vai acordar. Mas Ignácio não reagia. A emergência chegou, e o médico apenas disse:
Ele não resistiu.
Matilde finalmente caiu em si. Artur levou-a a casa. Vera perguntou:
Eh, Matilde, o que se passou? Estás branca…
Matilde pensou consigo:
E se a Vera me tramou? Sempre a bisbilhotar o Artur mas calou-se. Ela nunca admitiria.
Após o funeral, a causa da morte: paragem cardíaca. Documentos entregues. Passado pouco tempo, apareceu a filha de Ignácio do primeiro casamento, advogada de língua afiada. Expulsou Matilde da casa, e avisou que, se tentasse contestar, ficava sem casa, sem negócio, sem tostão. Atirou-lhe um molho de notas e deu três dias para sair, ela e Vera.
Matilde não quis saber de litígio. Deixou tudo. Ela e Vera voltaram ao seu enorme apartamento herdado de Vítor Correia.
O tempo passou. Matilde recuperou, Artur ajudou, continuaram a encontrar-se, mas casamento não vinha à conversa. Percebia, homem para casar, não era Artur, mas afastar-se, não conseguia. Até que um dia Tomás telefonou em tom grave:
Matilde, senta-te O Artur morreu, acidente de carro. Instantâneo.
Matilde pensou:
Porque é que os meus homens morrem todos? Sou tipo viúva negra Daqui a pouco é assim que me chamam. Deve ser do karma!
Mais umas semanas e, num dos programas, apareceu Bernardo, rapaz novo. Sentiu logo um clima. Após as gravações, ele convidou-a para ir tomar um café.
Está bem respondeu ela, já era tempo de recomeçar.
Bernardo conquistou-lhe o coração. Matilde andava nas nuvens, cheia de felicidade.
Afinal, era isto o amor Não respiro sem o Bernardo, quanto mais viver! Mas sinceramente, tenho receio pelo futuro dele
Bernardo também se rendeu. Faziam tudo juntos, era leve e fácil. Matilde nem se preocupava com a vida dele sabia apenas que não tinha irmãos e o pai andava afastado. Bernardo vivia com ela, saiu para trabalhar, sabendo que Matilde só ia à TV à tarde. Curiosa, resolveu pesquisar sobre Bernardo. Digitou no Google e o primeiro resultado deixou-a sem palavras. Bernardo, modesto e familiar, constava do top mil dos mais ricos do país. Património milionário.
Isto só pode ser brincadeira! riu sozinha. Mas e se lhe acontece o mesmo que os outros?
Acalmou-se e foi trabalhar normalmente. No fim do dia, arregalou o telefone; Bernardo não atendia. Chamou à empresa dele.
Boa tarde, posso falar com o senhor Bernardo?
Quem deseja?
Sou a Matilde
Foi levado ao hospital e indicaram o sítio.
Matilde voou para o hospital.
O que aconteceu? perguntou desesperada ao médico.
O médico sorriu:
Calma, não é nada de grave. Vai viver, foi só um susto ao coração. Está controlado.
Posso vê-lo? Por favor
Dez minutos.
Matilde entrou de mansinho, ele sorria para ela. Sentou-se ao lado dele, entrelaçou as mãos com as dela:
Vai correr tudo bem, amo-te, quando sair daqui casamos. Aceitas?
Claro! E deu-lhe um beijo forte. Agora, sim, vem aí uma vida de verdade. E felicidade genuína.
Obrigado pela atenção, pelo carinho e por me acompanharem. Boa sorte na vida!







