Um Sabor Amargo: Por Que Marina Cancelou o Casamento com Ivo por Causa dos Meias Malcheirosas e uma Casa Desleixada – Conversa Honesta Entre Mãe e Filha sobre Amor, Sonhos e a Realidade da Vida a Dois em Portugal

Resquício Amargo

Está tudo acabado, não vai haver casamento! exclamou Filipa, com a voz a tremer, num tom que ecoou pela sala.

Espera, o que aconteceu? Frederico arregalou os olhos, atordoado, estava tudo bem até agora!

Bem? Filipa soltou uma gargalhada irónica. Pois tudo bem. calou-se por um segundo, lutando por palavras. Depois disse a verdade nua e crua, sem rodeios: Os teus peúgos, Frederico cheiram mal! Eu não quero passar a vida a respirar isto!

Disseste-lhe mesmo isso? perguntou, incrédula, a mãe de Filipa, quando a filha lhe contou que tinha desistido do processo na conservatória. Nem acredito!

Porquê? encolheu os ombros Filipa, no papel da quase-noiva. É verdade, não é? Ou vais dizer que nunca reparaste?

Reparar, reparei admitiu a mãe, constrangida. Mas é humilhante, filha. Eu pensei que tu gostavas dele. Ele não é nada má pessoa, sabes. E os peúgos isso resolve-se.

A sério, mãe? Vais-me ensinar a obrigá-lo a lavar os pés? A trocar de peúgos? A usar desodorizante? Ouves-te ao menos?! Não me casei para educar um homem crescido como se fosse um miúdo!

Mas para que foste tão longe? Para que entregaste o formulário?

Por tua causa, mãe! disparou Filipa, com os olhos já a brilharem de raiva e mágoa. O Frederico é tão boa pessoa, tão educado. Gosto tanto dele, Filipa. E ainda isto: Já tens vinte e sete anos, está na altura de pensar em casar e dar-me netos. Vais negar que disseste?

Filipa, filha Eu não imaginava que tinhas dúvidas. Parecia que já estava tudo certo entre vocês retorquiu a mãe, mais suave. E olha, até fico contente por te veres capaz de pensar bem, decidir por ti. Só que essa coisa dos peúgos foi demais. Não te reconheço.

Pois, mãe Eu quis ser clara. Falei-lhe na linguagem dele. Para não haver volta atrás.

***

No início, Frederico pareceu-lhe engraçado, um pouco trapalhão. Sempre com os mesmos jeans e uma t-shirt desbotada. Não falava de arte nem fazia conversa fiada. Mas podia ficar horas a contar histórias de filmes antigos, e os olhos brilhavam-lhe nessas alturas.

Com ele, havia leveza e sossego.

E foi precisamente essa tranquilidade que atraiu Filipa, exausta de relações dramáticas e da procura pelo tal.

Dois meses de idas ao cinema, cafés, e Frederico meio encabulado sugeriu:

Queres ir lá a casa? Faço-te um arroz de polvo à moda da avó. Fui eu que fiz!

O convite tinha calor de lar, e isso tocou Filipa. O fui eu que fiz deixou-a rendida.

E ela foi

***

Mas o apartamento de Frederico, a Filipa deixou-a inquieta.

Não havia lixo espalhado, mas era uma confusão E um desleixo silencioso. Parecia tudo fora do sítio: paredes cinzentas, sem pinturas nem fotografias, um sofá gasto com uma almofada solitária. Pilhas de caixas, livros e revistas amontoavam-se pelo chão. Os ténis à vista no centro da sala. O ar estava pesado, com cheiro a pó e humidade.

Parecia aquela casa de alguém que está sempre a meio caminho de partir, mas nunca parte.

Então, o que achas do meu castelo? Frederico abriu os braços, orgulhoso, sem qualquer vergonha. Nem percebia que podia haver alguém incomodado com aquilo tudo.

Filipa forçou o sorriso. Gostava dele e não queria discutir.

Seguiram para a cozinha. Pior ainda: uma mesa com pó, a loiça suja amontoada, chávenas manchadas de café, o tacho já sem futuro em cima do fogão. E o olhar de Filipa deteve-se na chaleira.

Que cor teria aquilo, antes? pensou ela, já com o humor abalado.

Filipa ouviu Frederico falar, tentava animá-la com piadas, mas quando lhe passou o prato com arroz de polvo, ela recusou. Estou a fazer dieta, mentiu.

Nem pensar em comer naquela cozinha

Já em casa, Filipa reflectiu no encontro.

À primeira vista, tudo aquilo era insignificante. Um homem mora só, não é dado às limpezas E então?

Mas atrás da desarrumação, Filipa viu algo muito maior, algo difícil de ignorar: Como é possível alguém viver assim? Não por preguiça ou descuido. Mas porque para ele, aquilo era normal!

E o resquício amargo ficou

***

Mais tarde, Frederico foi a casa dela. Pediu-a em casamento, oficializou tudo com um anel simples. Entregaram a papelada, os pais começaram a organizar o casamento.

Ser noiva tem o seu encanto. Mas, nas noites calmas, quando Filipa pensava em Frederico que fazia arroz de polvo e tentava tudo para agradá-la a imagem da chaleira voltava sem dó.

E Filipa sabia: não era só uma chaleira. Aquilo era uma pista! Dizia tudo sobre o modo de viver de Frederico. Sobre a casa, sobre ele, e quem sabe até sobre como seria com ela.

Um dia, imaginou as manhãs juntos: acordar, entrar na cozinha e ver chá frio, migalhas pelo balcão. Se pedisse Querido, arruma isto, por favor ele olharia espantado, como quando olhou para a própria casa, sem perceber. Não discutiria, não se zangaria. Apenas não percebia. E Filipa teria de repetir todos os dias, arrumar, repetir de novo. E o amor dela morria aos poucos, picado por milhares de feridas pequenas, que para ele seriam invisíveis.

Mas a mãe estava radiante. Uma filha casada.

***

Casamento

Toda a leveza de estar com Frederico foi-se esfumando, dando lugar a uma angústia lenta e pegajosa.

Filipa perguntava ele, quase todos os dias, a olhar aflito para ela nós estamos bem? Ainda gostas de mim?

Claro murmurava ela, sentindo no peito a dor de alguma coisa a partir-se.

No fim, Filipa reuniu coragem e procurou a amiga, Inês, debulhando todas as dúvidas.

E então? Inês estranhou. Pó? Uma chaleira? O meu marido deixa a cozinha a parecer um circo e nem nota. Homens não ligam a essas coisas!

Precisamente! sussurrou Filipa. Ele nunca vai reparar. Mas eu vou. Todos os dias! E isso vai matar-me, devagar e sem remédio.

***

Filipa não culpava Frederico. Ele nunca a enganou. Era honesto. Vivia num mundo próprio. Um mundo onde um prato sujo passa despercebido. Mas para Filipa, era sinal de desinteresse, de distância.

E percebeu que não era só sobre limpeza. Era sobre visão de vida. Ele a via de um jeito, ela de outro. E a fissura que nasceu na cabeça dela só ia alargar-se, até não sobrar ponte possível.

Era melhor terminar já, antes que tudo desabasse de vez, lá mais à frente.

Só faltava a oportunidade

***

Filipa e Frederico foram convidados para uma festa.

Chegaram, despiram os casacos, tiraram os sapatos

Entraram na sala

Aquele cheiro insuportável não largava, perseguia-os como uma sombra.

Filipa demorou uns segundos, mas quando percebeu de onde vinha, viu que não era só ela Toda a sala já franzia o nariz.

Foi-lhe tal vergonha, tal humilhação, que só queria desaparecer. Sem dizer nada, correu para o corredor, vestiu-se depressa e saiu porta fora.

Frederico foi atrás dela. Apanhou-a na rua, agarrou-a pelo braço. Filipa fito-o, e atirou-lhe ao rosto, com um misto de raiva e dor:

Acabou! Não vai haver casamento!

***

E não houve casamento.

Filipa acredita que fez o certo. Não se arrepende.

Já Frederico ainda hoje não entende. Só por causa dos peúgos?, pensa. Se fosse preciso, nem os tinha vestidoA vida seguiu. Filipa regressou à sua rotina, devolveu o vestido de noiva e comprou novas plantas para a varanda. No trabalho, as colegas murmuravam, os vizinhos especulavam, mas ela caminhava leve, por fim sem expectativa de transformar ninguém, apenas aberta ao que viesse.

Numa tarde de domingo, cruzou-se com Frederico no supermercado. Ele acenou, hesitante, e ela respondeu com um sorriso gentil. Seguiram caminhos distintos pelo corredor das massas, cada um com o seu carrinho, palavras presas, mágoas atenuadas pelo tempo e pela distância.

Filipa escolheu o arroz, pensou no prato que nunca provou, e sentiu um vestígio doce: o alívio de ter dito não ao que não queria, a coragem de admitir que, por vezes, o resquício amargo é só o sinal mais claro de que ainda é possível desejar o sabor inteiro da vida.

Ao sair, viu o céu azul, respirou fundo e percebeu que finalmente conseguia, de verdade, respirar.

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