Ai, miúda, não te iludas… esse não casa contigo.
Madalena mal tinha soprado dezasseis velas quando perdeu a mãe. O pai, já há uns sete anos, foi trabalhar para Lisboa e nunca mais se ouviu falar dele. Nem notícias, nem um tostão.
Quase toda a aldeia apareceu ao funeral para ajudar, cada um com o que podia. A tia Fátima, madrinha de Madalena, fazia-lhe companhia frequentemente, ensinando-lhe como dar conta do recado. Assim que acabou a escola, arranjou-lhe trabalho nos Correios, lá na aldeia do lado.
Madalena era rija, como se diz por cásaudável como uma maçã. Cara redonda, corada, nariz arrebitado, mas uns olhos cinzentos que brilhavam. Uma trança loira descia-lhe até à cintura.
O rapaz mais cobiçado da aldeia era o Luís. Já iam dois anos desde que regressou do serviço militar e não tinha mãos a medir com as raparigas. Até as moças citadinas, quando vinham passar o verão, não lhe tiravam o olho.
Trabalhar de motorista na aldeia era pouco para ele; deveria era andar nos filmes a fazer de galã. Luís não queria saber de compromissos e ia vivendo em liberdade.
Foi quando a tia Fátima lhe bateu à porta: Luís, fazes-me um favor? Vai lá ajudar a Madalena com a vedação, está prestes a cair. Sem mãos masculinas, isto não vai lá. Com a horta, Madalena desenrascava-se, mas com o resto da casa era difícil.
Sem muita conversa, ele aceitou. Chegou, viu como estava a coisa e começou logo a dar ordens: Vai buscar isto, corre ali, traz-me aquilo, passa-me, entrega-me. E Madalena, sempre solícita, fazia-lhe as vontades.
Só que as bochechas ficavam cada vez mais vermelhas e a trança balançava de um lado para o outro. Quando Luís se cansava, Madalena servia-lhe um belo prato de sopa e um chá forte. E ela, a olhar fascinada enquanto ele mordia o pão escuro com uns dentes de fazer inveja.
Durante três dias lá andou Luís a consertar a vedação. No quarto dia apareceu de visita, sem justificar o motivo. Madalena fez-lhe o jantar, começaram a conversar e ele acabou por lá ficar a dormir. Depois, tornou-se hábito. Ia-se embora ao nascer do sol para evitar ser visto. Mas em aldeia pequena, tudo se sabe.
Ai, miúda, não te iludas com esse, ele não vai casar. E se casar, vais sofrer tanto que nem imaginas. Quando chegar o verão e vierem as lisboetas todas frescas, o que é que vais fazer? Vais morrer de ciúmes. Tu precisavas era de outro rapaz dizia-lhe tia Fátima, abanando a cabeça.
Mas desde quando a juventude enamorada escuta a sabedoria da velhice?
Mais tarde, Madalena percebeu que vinha aí criança. Primeiro achou que era uma gastroenterite ou uma constipação… Fraqueza, enjoo, e depois caiu-lhe tudo em cima: estava grávida do bonito Luís!
Pensou em acabar com tudo, ainda era nova para ser mãe. Mas depois, achou que melhor assim. Não estaria sozinha. Se a mãe dela conseguiu criá-la, ela também conseguiria. Do pai pouco proveito teve; só sabia beber. E as pessoas? Falam, falam, depois passam.
Na primavera, vestiu pela primeira vez uma blusa leve e toda a aldeia percebeu do que se tratava. Só se viam cabeças a abanar, que a miúda se meteu em sarilhos. Luís, claro, apareceu para saber o que Madalena ia fazer.
E o que hei de fazer? Vou ter o bebé. Não te preocupes, eu cá me arranjo sozinha. Vive como quiseres disse ela, atarefada junto ao fogão, com o brilho vermelho do lume a dançar-lhe nas bochechas e olhos.
Luís ficou impressionado, mas afastou-se. Ela já tinha decidido. Como água em cima de pato. Chegou o verão, vieram as moças da cidade. Luís não apareceu mais.
Madalena foi tratando da horta, e tia Fátima vinha ajudar a mondar. Com barriga grande, não era fácil dobrar-se. Puxava água do poço, meio balde de cada vez. As mulheres faziam previsões de que seria um verdadeiro rapaz.
Que seja o que Deus quiser brincava Madalena.
No meio de setembro, acordou de repente com uma dor tão forte, parecia que a barriga se rasgava. Mas passou depressa. Voltou mais tarde. Lá foi ela ter com tia Maria. Ela percebeu logo pelo olhar da miúda.
Está quase? Fica aí, já volto. E saiu a correr porta fora.
Foi chamar Luís. Tinha a carrinha estacionada perto de casa, já não havia veraneantes para atrapalhar. Mas Luís, para azar, tinha-se embebedado a noite anterior.
Tia Fátima abanou-o até acordar. Luís olhou, estuporado, sem perceber nada. Quando se apercebeu, gritou:
São dez quilómetros até ao hospital! Até lá chegar já ela tem o miúdo nos braços. Vamos já! Prepara-a.
Mas na carrinha? Ainda a desmanchas, e vais ter de apanhar o bebé pelo caminho exclamou a tia, alarmada.
Vais connosco, por precaução decidiu Luís, sem hesitar.
Levaram dois quilómetros a andar devagarinho pela estrada esburacada. Mal contornavam uma vala, caíam noutra. Tia Fátima foi no fundo da carrinha, sentada num saco. Quando chegaram ao alcatrão, ganharam velocidade.
Madalena contorcia-se no banco, a morder os lábios para não gritar, agarrada à barriga. Luís ficou logo sóbrio.
Olhava de relance para ela, trincando os dentes, os ossos dos dedos brancos de tanta força. Pensava na vida.
Chegaram a tempo. Deixaram Madalena no hospital e voltaram para casa. Tia Fátima, o caminho todo, deu sermão ao Luís:
Podias ter pensado melhor! A miúda sozinha, sem pais, ainda mal crescida, e tu arranjaste-lhe mais um problema. Como vai ela criar um bebé sozinha?
Nem tinham regressado à aldeia e Madalena já era mãe de um saudável rapazinho. Na manhã seguinte, trouxeram-no para ela o alimentar. Não sabia como pegar nele, nem pô-lo à mama.
Madalena olhava aterrorizada para a cara encarnada e enrugada do filho. Trincando os lábios, fazia o que mandavam.
Mas o coração dela pulava de alegria. Observava-o, soprava-lhe a testa de penugem fina, ria, meio atrapalhada.
Alguém vem buscar-te? perguntou, seco, o médico antes de a dar alta.
Madalena encolheu os ombros e abanou a cabeça:
Duvido.
O médico suspirou e saiu. A enfermeira embalou o bebé num cobertor, só para o levar até casa. Mandou que o devolvesse.
O António leva-te de ambulância até à aldeia. Não vais tu apanhar o autocarro de carreira com um recém-nascido! resmungou ela, com ar crítico.
Madalena agradeceu, corada, e lá seguiu hospital fora de cabeça baixa.
Ia Madalena na ambulância, filho ao peito, a pensar como ia ser agora a vida dela.
O subsídio de maternidade era coisa pouca, dava para um pardal. Tinha pena dela própria e do filho, que não tinha culpa de nada. Olhou para a cara enrugada do bebé, e um calor suave tomou conta dela, afastando os pensamentos pesados.
De repente, a ambulância parou. Madalena olhou ansiosa para António, homem baixo, uns cinquenta anos.
Que foi?
Choveu dois dias de seguida. Estas poças parecem lagos, não passo, nem por cima nem por baixo. Só numa camioneta ou num tractor.
Desculpa. Não falta muito, talvez dois quilómetros. Vais ter de ir a pé disse, apontando para a estrada, com uma poça enorme à frente.
O bebé dormia nos braços dela; de tanto o segurar, já mal sentia os músculos. Um verdadeiro rapaz. Agora, como fazer o caminho assim?
Madalena saiu devagarinho, ajeitou melhor o filho e seguiu pela beira da poça. Os pés enterravam-se no lamaçal até aos tornozelos. Qualquer descuido e escorregava.
Os sapatos velhos chapinhavam. Se soubesse, teria levado botas de borracha ao hospital. Um dos sapatos ficou preso. Madalena parou, tentou puxar, mas com o filho no colo não conseguia. Seguiu com um só sapato.
Chegou à aldeia ao cair da noite, já quase sem sentir os pés, de tanto frio. Já não tinha forças para estranhar que as luzes em casa estivessem acesas.
Subiu os degraus da entrada, duros e secos. Os pés frios, suor no corpo da força. Abriu a porta de casa e ficou petrificada.
Ao pé da parede, estava um berço novo, um carrinho com roupas lindas para o bebé. Na mesa, Luís com a cabeça deitada nos braços, a dormir.
Sentiu-a ou notou o olhar, levantou a cabeça. Madalena, toda vermelha, desfeita, com o filho nos braços, mal se aguentava em pé. O vestido todo molhado e as pernas cheias de lama dentro dos sapatos.
Quando viu que faltava um sapato, correu até ela, tirou-lhe o bebé e pô-lo no berço. De seguida, foi ao fogão, buscar uma panela de água quente.
Ajudou-a a sentar, despir, lavar os pés. Enquanto Madalena trocava de roupa perto da lareira, já estava a mesa posta: batatas cozidas, uma caneca de leite.
O bebé começou a chorar. Madalena correu até ao berço, pegou nele, sentou-se, e sem vergonha começou a alimentá-lo.
Já escolheste nome? perguntou Luís, voz rouca.
Sim, chamei-lhe Tiago. Não te importas? Madalena olhou-o com os olhos brilhantes.
Tinham tanta tristeza e amor, que Luís ficou com o coração apertado.
É bonito. Amanhã vamos registrá-lo e casamos logo.
Não é preciso… começou Madalena, olhando o menino mamar.
O filho precisa de ter pai. Já brinquei o suficiente. Não sei se sou bom marido, mas não deixo o meu filho.
Madalena assentiu, de cabeça baixa.
Dois anos mais tarde, nasceu uma menina. Deram-lhe o nome Esperança, homenagem à mãe de Madalena.
E pronto, quem nunca errou no início da vida? O importante é que dá sempre para corrigir.
Esta foi a história da nossa aldeia. Digam aí nos comentários o que acham! Deixem um gosto!







