O dia em que descobri que a minha irmã vai casar com o meu ex-marido.
Fui casada durante sete anos. Vivíamos juntos desde novosfizemos aquele caminho típico: juntámos os trapinhos, comprámos algum mobiliário no Conforama, e demos uma de família tradicional portuguesa, cheia de rotinas, frango assado ao domingo e séries da RTP. Tudo parecia normal, pelo menos até ao dia em que dei de caras com umas mensagens que não eram para mim, agendas esquisitas, desculpas demais para quem nunca foi bom a inventá-las. Quando o confrontei, lá surgiu o já não estou feliz contigo. Resultado? Divorciámo-nos. Eu fiquei um caco de tão triste e, à boa maneira portuguesa, afastei-me de tudo e todos família incluída. Decidi que precisava de ar e fui para fora do país, cortar relações com todos os conhecidos, até com a senhora que vendia bolos no café da esquina.
Durante esse tempo, mantive-o bloqueado nos meus contactos. Não perguntava por ele, ninguém me dava novidades, e eu preferia nem saber. E, honestamente, pensei mesmo que a minha família também já tinha apagado aquele capítulo.
Anos depois, resolvi voltar. Pouco a pouco, fui retomando o contacto com a família uns telefonemas aqui, uns almoços de domingo ali, aniversário de primos mais novos. Nada que denunciasse a tragédia grega que se aproximava. Parecia tudo a rolar normalmente, achei até que podia finalmente respirar de alívio.
Com a minha irmã, a Andreia, sempre tivemos aquela relação de pronto, é família, mas de confidências nem vê-las. Falávamos do habitual receitas de arroz de marisco, queixas do trânsito na ponte 25 de Abril, nunca nada íntimo. Até há uns três meses, quando me liga e diz: precisamos de conversar, podes encontrar-me num café? Lá fui, sem grandes expectativas, mas ela chegou com o ar mais nervoso do que eu num exame de código.
Senta-se e larga logo: vai casar e queria que eu fosse sua madrinha. Olho para ela, desconfiada, e pergunto quem é o noivo. Ela hesita e, com um silêncio de dar medo, diz-me o nome. O meu ex-marido, Luís Mendes. Aquilo ficou-me entalado na garganta.
Desculpa?, perguntei. Ela confirmou, daquele jeito meio sem jeito, como quem pede desculpa mas não quer, e explicou: Estamos juntos há dois anos. Dois anos! Ou seja, logo depois do meu divórcio, o Luís saltou da minha vida direitinho para a dela, sem grandes escalas. Isto não é trocar de canal, é trocar de sofá na mesma casa!
Perguntei se toda a família sabia e ela, com o maior dos descaramentos, diz que sim. Que ao início foi estranho, mas com uns pastéis de nata, uns licores de ginja e conversa fiada, tudo se resolveu. Que o Luís já faz parte da mobília, só que agora a mobília é dela. Não me disseram nada, porque não sabiam como abordar os meus momentos tristes. Diziam-no como se eu fosse daquelas senhoras dramáticas das telenovelas da TVI.
Obviamente, tentei falar com a minha mãe. Confirmou tudinho: toda a gente sabia, decidiram manter segredo para evitar chatices. Pediu-me que fosse madura e não criasse dramas familiares. Afinal, o casamento já está organizado vestido comprado, DJ garantido, bacalhau já encomendado para a boda. Não compliques! foi o discurso.
Recusei ser madrinha. Aliás, nem disse se ia aparecer no casamento ou não.
Agora, só falo o essencial com a família. O casamento avança, a minha irmã continua radiante ao lado do Luís, como se nada fosse.
E para cúmulo, agora sou a menina imatura e problemática da família. Estarei mesmo a ser a má da fita? Será que em Portugal há alguma receita para digerir estas situações com humor ou, pelo menos, com umas boas rabanadas e um copo de vinho do Porto?






