Vivo com a minha mãe de 86 anos: Aos 57 anos, sem casamento nem filhos, celebramos juntas as pequenas alegrias da vida em Portugal

Vivo com a minha mãe, Amália. Ela tem 86 anos.

Tudo parece flutuar num estranho nevoeiro de fado; nunca casei, não tive filhos. Eis como se desenrolou a minha existência como quem caminha por ruas estreitas de Alfama sem saber bem onde dá a esquina seguinte. Agora tenho 57 anos. Tive aniversário há pouco. Foi só entre mim e a minha mãe, duas almas numa sala azul disfarçada de noite. Não tenho ninguém a convidar. Não há amigos à vista, e de família só restamos nós.

Partilhamos o teto, amparamo-nos contra o vento frio do destino. Penso muitas vezes no que serei sem ela. No entanto, Amália acorda animada, calça as pantufas de lã e sai para passear sozinha pelas calçadas onduladas, mesmo que a saúde já murmure advertências. Recusa desistir.

Já estou reformada, mas continuo a trabalhar um pouco as reformas por cá não chegam para muita coisa, o euro parece sempre fugir dos nossos bolsos. Apesar disso, recuso desesperar e dou graças à vida pela companhia da minha doce mãezinha. Há quem viva pior: sem casa, família ou dinheiro para comprar sequer uma bica.

Vivemos serenas no aconchego da nossa rotina. À noite, sorvemos chá de limão, crochetamos novelos de sonhos e deixamo-nos embalar pelas novelas portuguesas ou os filmes antigos da RTP Memória. Ao sábado, faço broas ou bolo de laranja e chamo os vizinhos para se juntarem à mesa. Eles contam-nos histórias das suas famílias, gargalham alto, e eu alegro-me pela felicidade deles, pedindo baixinho a Deus que nos poupe às desventuras.

Assim é a nossa vida: leve, quieta, quase suspensa no tempo, como se Lisboa estivesse adormecida à nossa janela. Apenas desejo que este sonho estranho e doce dure ainda muito, para mim e para a minha mãeE assim, entre bules de chá e memórias rendilhadas, aprendi a reconhecer a beleza serena dos dias comuns. Às vezes, penso que o segredo está aqui mesmo: na luz dourada que atravessa a cortina ao entardecer, no cheiro do pão torrado, no riso partilhado à porta com quem bate de improviso. Talvez nunca tenha tido grandes feitos ou amores, mas tenho esta paz suave, certeira como um fado bem cantado. Enquanto a minha mãe adormece ao meu lado, olho para ela e percebo que, afinal, nunca caminhamos verdadeiramente sós. E, quando chegar a próxima esquina de Alfama, saberei aceitar o desconhecido com o coração leve, grata por tudo o que já vivi e pelo que ainda está por vir, mesmo que seja só mais um dia junto ao mar de Lisboa.

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