“E afinal, o que ganhaste com essas tuas lamúrias?” – perguntou o marido. Mas o que aconteceu a seguir deixou-o sem chão Quando mais é que alguém acorda às cinco da manhã, se não quando o peito aperta? Mariana sentava-se na beira da cama, a olhar pela janela. O coração voltava a bater descompassado: dois toques, um vazio, três toques, silêncio. O médico disse ontem – ataques de pânico. Passou uma requisição para exames. Ao fim de dezoito anos, Mariana tinha passado de jovem ambiciosa, licenciada em Economia… a quê, afinal? Um apêndice aos negócios do marido? A contabilista autodidata que trata da papelada dele? A mulher-a-dias que à noite limpa o chão porque o André não repara na sujidade? — Acordaste? — André entrou na cozinha, cara amassada, ar aborrecido. — Outra vez não dormiste de noite? Mariana acenou em silêncio. Serviu-lhe café. Tirou do frigorífico o iogurte do pequeno-almoço — há uns cinco anos que ele só come aquilo. — Olha que hoje vou ao Porto. Três dias. Reunião com fornecedor. Importante. — André. Ela sabia que não devia começar. Sabia que ele ia olhar para ela com aquele ar — como quem diz “outra vez a choramingar”, a tentar arrancar-lhe uma simpatia que ele não sente. Mas mesmo assim, disse: — Não vás agora. Estou mesmo mal. O médico insiste nos exames. Ele ficou parado. Pousou a chávena. E soltou ar pelo nariz — daquele jeito de quem está farto de ouvir sempre a mesma conversa. — E o que é que conseguiste com essa tua choradeira? — Voz quase calma. Nem era irritação, era indiferença. — Tenho de trabalhar, Mariana. Trabalhar. Não me pedir para ouvir todos os dias essas tuas crises, o quão mal estás, o quanto estás cansada. Quem é que não está cansado?! Ele já fazia as malas. Daquela maneira rotineira — sabendo: ela vai calar-se. Vai engolir, culpar-se — “disse outra vez o que não devia, no momento errado”. Mas Mariana, por algum motivo, não se calou. — André,— levantou-se. Devagar. Serena.— Tu ainda te lembras a quem está registada a casa? Ele virou-se a rir. — Que interessa isso? Deve estar em nome dos dois, não? — Em meu nome. Só em meu nome. Pareceu que algo quebrou no ar. Mariana viu-lhe a cara mudar. — Estás a falar do quê? — Na altura, há oito anos, quando comprámos este apartamento, tinhas dívidas. Boas dívidas. O banco nunca te teria dado crédito. Lembras-te? Ele ficou calado. — Pois, o crédito está todo em meu nome. O apartamento também. E sou co-signatária dos teus empréstimos de negócio. Fiadora. Sem a minha assinatura, não renovas nada, não expandes nada — não fazes nada. André sentou-se de novo à mesa. Devagar. Como se as pernas lhe faltassem. — Para que dizes isso? — Só estou a lembrar-te. E mais,— Mariana abriu a gaveta do aparador. Tirou uma pasta. Pousou em frente dele. — Eu sei da Kátia. André olhava a pasta. Parecia pregado à cadeira, com aquela expressão de quem acabou de levar uma pancada pesada na cabeça — ainda não dói, mas já está tonto. — Da Kátia,— repetiu Mariana. Voz serena. Até estranhamente serena, para ela. — A contabilista do teu amigo Valério. Rapariga bonita, por acaso. Doze anos mais nova do que eu. Abriu a pasta. Tirou umas folhas. Uma. Outra. Pousou-as diante dele em leque — quase com solenidade, como se distribuísse cartas num casino. — Movimentos bancários teus. Aqueles que escondias tanto. Vês estas transferências? Quarenta mil. Cinquenta mil. Setenta mil. Todos os meses. Ele calado. — E esta é a troca de mails. — Mariana pousou uma folha. — Achavas mesmo que eu não sabia a senha do teu portátil de trabalho? André, fui eu que a criei, quando esqueceste a antiga, há três anos. André agarrou nas folhas. Leu rápido. Empalideceu. — Onde arranjaste isto?! — Que interessa? — Mariana serviu-se de água. Mão a tremer, mas pouco.— O que interessa é outra coisa. Tu usaste-a para passar dinheiro. Transferiste para o cartão dela. Achas que as Finanças gostavam de saber disso? André levantou-se. E começou a gritar. — Quem pensas que és?! Sempre dependeste de mim! Nunca ganhaste nada! Sempre encostada, a viver às minhas custas! — Encostada? — Mariana riu-se, amarga, meio partida por dentro. — Palavra engraçada. Não é? Encostada… que assinou todos os teus contratos com os bancos. Que tratou da contabilidade enquanto tinhas as tuas “reuniões”. Em meu nome está o apartamento. E sou co-signatária de todos os empréstimos. — Estás a ameaçar-me?! — Não. — Mariana foi até à janela. — Só estou a pôr os pontos nos is. Virou-se. — No último meio ano recuperei o diploma. Fiz formação — à noite, entre ataques de pânico e insónia. Tenho uma proposta de trabalho. Não é luxo, mas chega para alugar casa e sustentar-me a mim e à Clara. — Clara?! — ele estremeceu. — Vais levar a nossa filha?! — Viste-a no último mês? — Mariana chegou-se perto. — A sério. Quando foi a última vez que falaste com ela? André calado. Porque não lembrava, de facto. Mariana pegou ainda noutro documento. — Relatório da neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Recomendado — mudança de ambiente, psicoterapia, acabar com os fatores de stress. Vês esta linha? “Longa exposição a situação de stresse.” Sabes ao que isto te pode levar? — Mariana. — Se avançar com o divórcio agora, o tribunal vai ficar do meu lado. Mariana pousou a última folha. — E mais, sem a minha assinatura para a semana não renovas a linha de crédito no banco. O Valério ligou ontem. Sem mim, nada feito. André voltou a sentar-se. Atordoado. — O que queres afinal? Dinheiro? Mariana riu-se, curta, quase sem som. — Dinheiro? André, quero respeito. Quero que, pelo menos uma vez, admitas — sem mim não tinhas nada. Nem negócio. Nem apartamento. Nem essas viagens de trabalho que tanto estimas. Pegou na mala. — Tens até ao fim do dia. Eu e a Clara vamos para casa da Olívia. Pensa. E quando estiveres pronto a falar — liga. Não esperes é que eu volte a ser aquela Mariana que tudo aguentava sem dizer nada. Seis horas depois, André ligou. Mariana estava na cozinha da Olívia, com chá de hortelã. Sentia-se estranha. Como quem sai de um pântano, limpa o rosto e, de repente, descobre que respirar já não custa. — Alô, — atendeu. Voz firme. — Preciso de falar contigo. — Fala. — Não ao telefone. — Pausa. — Vem a casa. Mariana riu. — Não. Se quiseres falar, vens cá. Sabes o caminho? Uma hora depois, André apareceu. Furioso. Tenso. Com cara de quem está encurralado. A Olívia percebeu logo e levou a Clara para o quarto. Mariana ficou na cozinha. — Quem pensas que és?! — André bateu com o punho na mesa. — Estás a chantagear-me?! — Não. Só estou a pôr os factos em cima da mesa. — Que factos?! Mexeste nos meus papéis! Espreitaste-me o computador! — André,— Mariana suspirou,— achas mesmo que atacar-me agora é a melhor tática? Depois de tudo o que te mostrei? Ele calou-se. Porque sabia que ela tinha razão. — Escuta bem. — Mariana inclinou-se. — Não te quero destruir. Não vou às Finanças nem quero escândalos. Só quero que percebas — sem mim, não te resta nada. — Queres o divórcio? — Ele mal tinha voz. — E tu? André desviou o olhar. Calou-se. Depois exalou: — Com a Kátia, não foi nada. — Não interrompas. — Mariana fez sinal. — Já sabia de tudo há meio ano. Do dinheiro, da ficção das reuniões, das escapadinhas. Sabia… e calei-me. Porque pensei: isto passa. Ele volta a si. Riu amargamente. — Se calhar, só me custava encarar que o nosso casamento morreu há cinco anos. Fingimos sempre que estava tudo bem. — Mariana. — Cansei-me de ser um acessório na tua vida. De cada palavra, cada pedido meu serem postos de lado. Nem reparaste que estava a morrer de ataques de pânico ao teu lado! André estava branco, punhos cerrados. — Tens escolha, — disse Mariana. — Podemos tentar recomeçar. Sem mentiras, sem traições. — Ou vais-te embora e levas tudo. — Não. — Mariana abanou a cabeça. — Só levo o que é meu. O apartamento. A minha parte no negócio. Os teus créditos ficas tu a pagar. E eu começo nova vida. Levantou-se, dando o assunto por encerrado. — Tens três dias. Quando souberes, liga. Mas lembra-te — aquela Mariana, que tudo calava e sofria, morreu ontem às cinco da manhã. Na semana seguinte, André voltou. Desta vez sem pose, sem máscaras. Sentou-se na mesma cozinha, em silêncio. — O Valério disse que sem a tua assinatura o banco não renova nada. O negócio acaba. Mariana acenou. — Sei bem. — O que queres? Ela fitou-o. — Quero o divórcio. Ele empalideceu. — A sério? — Mais do que nunca. — Mariana serviu chá. As mãos já não tremiam.— Vou ao banco. Assino. Mas com uma condição — divorciamo-nos sem guerra. Tu ficas com a empresa, compras a minha parte. O apartamento é meu. A Clara fica comigo. — Mariana. — Decidi, André. — Ela sorria. — Sabes o que é mais incrível? Dormi pela primeira vez sem comprimidos. Dormi mesmo. Sem ataques. Ele ficou em silêncio. — E isso explica muita coisa. Não estou doente. Não preciso de me tratar. Só precisava de sair desta vida, onde eu não era nada. Mariana levantou-se. — Tens escolha. Ou aceitas isto — divorciamo-nos em paz. Ou vou ao tribunal, levo tudo e o resto é contigo. André baixou a cabeça. Sabia que tinha perdido. Aquela mulher, que ele julgava fraca, era afinal mais forte. — De acordo, — disse por fim. — Aceito. Três meses depois, o divórcio foi oficial. Mariana ficou com a casa e um bom montante pela sua parte do negócio. Arranjou novo emprego. André ficou sozinho na empresa e num apartamento novo. E com um vazio estranho que nunca parava… principalmente ao chegar a casa, sem ninguém com quem partilhar o dia, só. A Kátia, por acaso, foi-se embora um mês depois. Descobriu que não queria amor — queria conforto. Quando percebeu que André tinha agora as dívidas todas e não conseguia sustentar uma amante como dantes — perdeu-lhe o interesse. Mariana ficou a saber por Valério. Sorriu. E não sentiu nada. Nem pena, nem alegria. Só… nada. Afinal, será assim tão mau uma mulher envolver-se no negócio do marido? O que acha?

E afinal, o que é que ganhaste com tanta lamúria? perguntou o marido. Mas o resto… deixou-o de boca aberta.

Diz-me lá, quando é que uma pessoa há-de acordar se não for às cinco da manhã, quando sente o peito apertado de ansiedade? Olha, a Mariana estava sentada na beira da cama a olhar pela janela, cheia de pensamentos.

O coração dela batia todo desafinado: batia duas vezes, parava, batia três, ficava em silêncio. O médico ontem disse-lhe são ataques de pânico, Mariana. Passou-lhe logo um encaminhamento para exames.

Sabes, em dezoito anos, a Mariana passou de rapariga ambiciosa de licenciatura em Economia para mas para quê mesmo? Um apêndice do negócio do marido? Uma contabilista improvisada, a tratar da papelada dele e a pôr assinaturas onde era preciso? Uma empregada de limpeza que à noite andava de esfregona na mão porque o André nem reparava que havia porcaria?

Já acordaste? entrou o André na cozinha, com cara de quem levou uma tareia do sono e vontade nenhuma de falar. Outra vez sem dormir, foi?

A Mariana só acenou com a cabeça. Fez-lhe o café, tirou um iogurte do frigorífico sempre aquele de frutos do bosque que ele comia já há uns cinco anos.

Ah, já agora ele bebeu um golo do café hoje vou ao Porto. Três dias, reunião importante com um fornecedor.

André

Ela sabia bem que não devia começar. Sabia aquele olhar dele, como quem diz lá está ela a queixar-se, a tirar de mim uma compreensão que não tenho. Mas abriu a boca na mesma:

Não vás já. Sinto-me mesmo mal. O médico quer mesmo que eu vá aos exames.

Ele parou. Pousou a chávena na mesa. Expirou pelo nariz com impaciência, como quem já não tem paciência para ouvir sempre o mesmo.

E o que é que consegues a queixares-te? O tom até era calmo, nem zangado, mais de indiferença. Mariana, eu trabalho. Tenho de trabalhar. Não posso todos os dias ouvir sobre ataques, sobre como estás cansada, como te custa. E quem é que não está?

Já estava a enfiar as coisas na mala tinha o hábito, porque contava que ela ficasse calada. Engolisse a mágoa, ainda se culpasse lá estou eu a falar na hora errada, só digo o que não devo.

Mas a Mariana, por alguma razão, não ficou calada.

André levantou-se. Calmamente, devagarinho. Olha-me nos olhos: sabes em nome de quem está a escritura do empréstimo da casa?

Ele virou-se, fez um sorriso de desprezo.

Que interessa isso? Deve estar nos dois nomes, claro.

Não. Está só no meu.

A tensão cortava-se no ar. E ela via o rosto dele a mudar segundos depois.

Mas do que é que falas?

De que, há oito anos, quando comprámos isto, tu estavas até ao pescoço em dívidas. O banco nunca na vida te ia dar crédito, lembras-te?

Ele ficou em silêncio.

Pois é. A casa está toda em meu nome. Aliás, até sou co-signatária dos teus empréstimos do negócio. Sem a minha assinatura não vais a lado nenhum não renova, não amplia, não faz nada.

O André sentou-se devagarinho, como se as pernas fraquejassem.

Estás a ameaçar-me?

Não, estou a lembrar-te da realidade. E há mais Mariana abriu uma gaveta, tirou uma pasta, pôs-na à frente dele. Eu sei da Vera.

O André ficou a olhar para a pasta.

Sentado, imóvel, com aquela cara de quem acabou de levar com uma telha na cabeça ainda não sente a dor bem, mas já percebeu o que aconteceu.

Da Vera insistiu Mariana. Voz calma, surpreendendo-se até a si própria. Da contabilista do teu amigo Filipe. Miúda gira. Doze anos mais nova que eu, até.

Abriu a pasta e puxou uns papéis. Um, outro. Espalhou à frente dele, como quem põe cartas na mesa.

Olha aqui, extractos das tuas contas. Vês estas transferências? Oitenta euros, cem, cento e vinte. Mês sim, mês não.

Ele não disse palavra.

E isto é a conversa convosco. Mariana depositou as folhas. Pensavas que eu não sabia a tua password do computador do escritório? André, fui eu que a pus, lembras-te? Tu esqueceste-te.

O André agarrou nos papéis, passou os olhos à pressa, ficou lívido.

Onde é que arranjaste isto?

Que importa? O que importa é: estiveste a transferir dinheiro para ela. Achas que as Finanças querem saber disto?

O André levantou-se num salto. Gritou.

Tu achas-te quem?! Sempre estiveste à minha sombra! Nunca ganhaste nada! Sempre foste uma dependente!

Dependente? Mariana ironizou, amarga. Bonito, não é? A dependente que põe assinaturas nas tuas hipotecas, faz a tua contabilidade toda enquanto andas em reuniões, que tem a casa em nome dela e é co-signatária de tudo quanto é dívidas tuas.

Estás a ameaçar-me?

Não. Foi até à janela. Só estou a explicar-te como estão as coisas. Porque acho que esqueceste princípios básicos.

Virou-se para ele.

Nos últimos seis meses recuperei a licenciatura, fiz cursos à noite, entre ataques de pânico e noites em branco, arranjei trabalho. Nada de extraordinário, mas o suficiente para alugar uma casa e cuidar de mim e da Inês.

Inês?! Vais levar a nossa filha?!

E tu tens estado com ela este mês? Vá lá, André, quando foi a última vez que lhe perguntaste por ela?

O André calou-se. Sabia que não sabia responder.

A Mariana pegou num documento.

Relatório do neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Aconselhado: mudança de ambiente, psicoterapia, evitar o stress. Vês ali? Situação de stress prolongada. Sabes o que isso significa para ti?

Mariana

Significa que se pedir agora o divórcio, a lei fica do meu lado.

Mariana pousou o último papel.

E principalmente porque sem a minha assinatura semana que vem não tens crédito novo. O Filipe ligou ontem. O banco quer documentos, a minha assinatura tem de lá estar.

O André voltou a sentar-se, abatido.

O que queres? voz rouca Dinheiro?

A Mariana soltou uma risada curta, quase muda.

Dinheiro? Quero respeito, André. Quero, pelo menos uma vez, que admitas que sem mim não tinhas nada disto. Nem negócio, nem casa, nem esta viagem ao Porto de que tanto dependes.

Pegou na mala.

Tens até ao fim do dia. Vou para casa da Sílvia com a Inês. Pensa bem. Quando quiseres conversar, liga. Mas não esperes que eu volte a ser a Mariana que aguentava tudo calada.

Seis horas depois, o André ligou.

Mariana estava na cozinha da Sílvia, chá de hortelã na mão, e sentia-se estranhamente leve. Como se tivesse acabado de sair de um lamaçal e só agora percebesse que afinal respirar pode ser fácil.

Estou, atendeu, a voz estável.

Preciso falar contigo.

Diz.

Não por telefone ficou calado. Vem a casa.

Mariana não se conteve.

Não, André. Se queres falar, vens tu cá. Sabes o caminho.

Chegou uma hora depois. De cara fechada, tenso, como quem foi encurralado e tenta fugir de qualquer maneira.

A Sílvia, percebendo o clima, levou a Inês para brincar ao quarto. Mariana ficou na cozinha.

Quem pensas que és? deu um murro na mesa. Estás a chantagear-me?!

Não. Estou só a explicar-te os factos.

Que factos?! Mexeste nos meus documentos! Foste ver o meu computador!

André suspirou Mariana achas mesmo que atacar-me agora é boa ideia? Depois do que te mostrei?

Ele ficou calado porque sabia que ela tinha razão.

Agora ouve, disse Mariana, inclinando-se um pouco não te quero destruir, nem ir às Finanças, nem fazer escândalo. Só quero que abras os olhos: sem mim não és nada.

Queres divorciar-te? a voz embargada.

E tu?

O André olhou para baixo, silêncio pesado no ar. Passado um bocado:

E com a Vera, não foi nada de importante.

Não me interrompas. Mariana ergueu a mão. Sei disso há meio ano. Sabia como passavas dinheiro para ela, com quem te encontravas em supostas viagens de trabalho. Sabia, e calei-me. Achei que pudesse passar, que fosses mudar.

Ela riu-se, triste.

Se calhar tinha medo era de admitir que já não tínhamos casamento há uns cinco anos. Só fingíamos.

Mariana

Estou farta de ser um extra na tua vida, uma sombra. Farta de ouvires as minhas palavras como se nada valessem. Nem deste conta que me estava a ir embora, novelo de ataques e noites sem dormir!

O André estava lívido, mãos cerradas.

Tens escolha ela continuou. Ou tentamos de novo, sem mentiras nem traições ou acaba.

Ou tu tiras-me tudo.

Não. Mariana abanou a cabeça. Só vou tirar o que é meu. A casa. A minha parte no negócio. Os empréstimos em meu nome pagas tu. E começo finalmente a minha vida.

Levantou-se, deixando claro que acabara.

Tens três dias. Pensa. Quando quiseres, liga. Só que a Mariana que engolia tudo calada morreu ontem às cinco da manhã.

Uma semana depois, o André voltou.

Desta vez, nada daquela postura de sempre. Sentou-se à mesa da cozinha da Sílvia e ficou muito tempo calado.

O Filipe disse que sem tua assinatura o banco não renova o crédito murmurou ele. O negócio pára.

Mariana assentiu.

Já sabia.

Então e agora, o que queres?

Ela olhou-o bem nos olhos.

Quero o divórcio.

O André ficou pálido.

A sério?

Como nunca estive tão certa. Serviu-se de chá, as mãos firmes. Assino no banco, pronto. Mas só se assinarmos o divórcio. À civilizadamente. Tu ficas com o negócio, compras a minha parte. A casa fica para mim. A Inês fica comigo.

Mariana

Está tudo decidido, André. Sorriu. Sabes o que é curioso? Dormi uma noite inteira, sem comprimidos, pela primeira vez em anos. E isto diz-me tudo. Não estou doente. Só precisava de sair da vida contigo. De sair daquela vida em que não era nada.

Levantou-se.

Tens escolha. Ou aceitas e tudo se resolve, ou vou à tribunal, mostro tudo e não ficas com nada. Decide.

O André baixou a cabeça. Percebeu que estava perdido. Aquela mulher que julgava fraca era afinal mais forte que ele.

Está bem suspirou ele. Aceito.

Três meses depois, divorciaram-se oficialmente.

Mariana ficou com a casa e uma boa quantia pela parte dela no negócio. Começou finalmente o novo emprego.

O André ficou com a empresa e um novo apartamento. E um vazio estranho, sempre pior à noite, quando percebia que não tinha a quem contar como correu o dia, ou simplesmente partilhar um silêncio.

A Vera, por acaso, foi-se embora um mês depois do divórcio percebeu que o André agora pagava tudo sozinho e que não podia manter os luxos antigos. Perdeu o interesse.

Mariana soube disso pelo Filipe. Sorriu. E não sentiu nada. Nem satisfação, nem pena.

Nada mesmo.

Às vezes, se calhar, até pode valer a pena ajudar no negócio do marido. Não achas?

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“E afinal, o que ganhaste com essas tuas lamúrias?” – perguntou o marido. Mas o que aconteceu a seguir deixou-o sem chão Quando mais é que alguém acorda às cinco da manhã, se não quando o peito aperta? Mariana sentava-se na beira da cama, a olhar pela janela. O coração voltava a bater descompassado: dois toques, um vazio, três toques, silêncio. O médico disse ontem – ataques de pânico. Passou uma requisição para exames. Ao fim de dezoito anos, Mariana tinha passado de jovem ambiciosa, licenciada em Economia… a quê, afinal? Um apêndice aos negócios do marido? A contabilista autodidata que trata da papelada dele? A mulher-a-dias que à noite limpa o chão porque o André não repara na sujidade? — Acordaste? — André entrou na cozinha, cara amassada, ar aborrecido. — Outra vez não dormiste de noite? Mariana acenou em silêncio. Serviu-lhe café. Tirou do frigorífico o iogurte do pequeno-almoço — há uns cinco anos que ele só come aquilo. — Olha que hoje vou ao Porto. Três dias. Reunião com fornecedor. Importante. — André. Ela sabia que não devia começar. Sabia que ele ia olhar para ela com aquele ar — como quem diz “outra vez a choramingar”, a tentar arrancar-lhe uma simpatia que ele não sente. Mas mesmo assim, disse: — Não vás agora. Estou mesmo mal. O médico insiste nos exames. Ele ficou parado. Pousou a chávena. E soltou ar pelo nariz — daquele jeito de quem está farto de ouvir sempre a mesma conversa. — E o que é que conseguiste com essa tua choradeira? — Voz quase calma. Nem era irritação, era indiferença. — Tenho de trabalhar, Mariana. Trabalhar. Não me pedir para ouvir todos os dias essas tuas crises, o quão mal estás, o quanto estás cansada. Quem é que não está cansado?! Ele já fazia as malas. Daquela maneira rotineira — sabendo: ela vai calar-se. Vai engolir, culpar-se — “disse outra vez o que não devia, no momento errado”. Mas Mariana, por algum motivo, não se calou. — André,— levantou-se. Devagar. Serena.— Tu ainda te lembras a quem está registada a casa? Ele virou-se a rir. — Que interessa isso? Deve estar em nome dos dois, não? — Em meu nome. Só em meu nome. Pareceu que algo quebrou no ar. Mariana viu-lhe a cara mudar. — Estás a falar do quê? — Na altura, há oito anos, quando comprámos este apartamento, tinhas dívidas. Boas dívidas. O banco nunca te teria dado crédito. Lembras-te? Ele ficou calado. — Pois, o crédito está todo em meu nome. O apartamento também. E sou co-signatária dos teus empréstimos de negócio. Fiadora. Sem a minha assinatura, não renovas nada, não expandes nada — não fazes nada. André sentou-se de novo à mesa. Devagar. Como se as pernas lhe faltassem. — Para que dizes isso? — Só estou a lembrar-te. E mais,— Mariana abriu a gaveta do aparador. Tirou uma pasta. Pousou em frente dele. — Eu sei da Kátia. André olhava a pasta. Parecia pregado à cadeira, com aquela expressão de quem acabou de levar uma pancada pesada na cabeça — ainda não dói, mas já está tonto. — Da Kátia,— repetiu Mariana. Voz serena. Até estranhamente serena, para ela. — A contabilista do teu amigo Valério. Rapariga bonita, por acaso. Doze anos mais nova do que eu. Abriu a pasta. Tirou umas folhas. Uma. Outra. Pousou-as diante dele em leque — quase com solenidade, como se distribuísse cartas num casino. — Movimentos bancários teus. Aqueles que escondias tanto. Vês estas transferências? Quarenta mil. Cinquenta mil. Setenta mil. Todos os meses. Ele calado. — E esta é a troca de mails. — Mariana pousou uma folha. — Achavas mesmo que eu não sabia a senha do teu portátil de trabalho? André, fui eu que a criei, quando esqueceste a antiga, há três anos. André agarrou nas folhas. Leu rápido. Empalideceu. — Onde arranjaste isto?! — Que interessa? — Mariana serviu-se de água. Mão a tremer, mas pouco.— O que interessa é outra coisa. Tu usaste-a para passar dinheiro. Transferiste para o cartão dela. Achas que as Finanças gostavam de saber disso? André levantou-se. E começou a gritar. — Quem pensas que és?! Sempre dependeste de mim! Nunca ganhaste nada! Sempre encostada, a viver às minhas custas! — Encostada? — Mariana riu-se, amarga, meio partida por dentro. — Palavra engraçada. Não é? Encostada… que assinou todos os teus contratos com os bancos. Que tratou da contabilidade enquanto tinhas as tuas “reuniões”. Em meu nome está o apartamento. E sou co-signatária de todos os empréstimos. — Estás a ameaçar-me?! — Não. — Mariana foi até à janela. — Só estou a pôr os pontos nos is. Virou-se. — No último meio ano recuperei o diploma. Fiz formação — à noite, entre ataques de pânico e insónia. Tenho uma proposta de trabalho. Não é luxo, mas chega para alugar casa e sustentar-me a mim e à Clara. — Clara?! — ele estremeceu. — Vais levar a nossa filha?! — Viste-a no último mês? — Mariana chegou-se perto. — A sério. Quando foi a última vez que falaste com ela? André calado. Porque não lembrava, de facto. Mariana pegou ainda noutro documento. — Relatório da neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Recomendado — mudança de ambiente, psicoterapia, acabar com os fatores de stress. Vês esta linha? “Longa exposição a situação de stresse.” Sabes ao que isto te pode levar? — Mariana. — Se avançar com o divórcio agora, o tribunal vai ficar do meu lado. Mariana pousou a última folha. — E mais, sem a minha assinatura para a semana não renovas a linha de crédito no banco. O Valério ligou ontem. Sem mim, nada feito. André voltou a sentar-se. Atordoado. — O que queres afinal? Dinheiro? Mariana riu-se, curta, quase sem som. — Dinheiro? André, quero respeito. Quero que, pelo menos uma vez, admitas — sem mim não tinhas nada. Nem negócio. Nem apartamento. Nem essas viagens de trabalho que tanto estimas. Pegou na mala. — Tens até ao fim do dia. Eu e a Clara vamos para casa da Olívia. Pensa. E quando estiveres pronto a falar — liga. Não esperes é que eu volte a ser aquela Mariana que tudo aguentava sem dizer nada. Seis horas depois, André ligou. Mariana estava na cozinha da Olívia, com chá de hortelã. Sentia-se estranha. Como quem sai de um pântano, limpa o rosto e, de repente, descobre que respirar já não custa. — Alô, — atendeu. Voz firme. — Preciso de falar contigo. — Fala. — Não ao telefone. — Pausa. — Vem a casa. Mariana riu. — Não. Se quiseres falar, vens cá. Sabes o caminho? Uma hora depois, André apareceu. Furioso. Tenso. Com cara de quem está encurralado. A Olívia percebeu logo e levou a Clara para o quarto. Mariana ficou na cozinha. — Quem pensas que és?! — André bateu com o punho na mesa. — Estás a chantagear-me?! — Não. Só estou a pôr os factos em cima da mesa. — Que factos?! Mexeste nos meus papéis! Espreitaste-me o computador! — André,— Mariana suspirou,— achas mesmo que atacar-me agora é a melhor tática? Depois de tudo o que te mostrei? Ele calou-se. Porque sabia que ela tinha razão. — Escuta bem. — Mariana inclinou-se. — Não te quero destruir. Não vou às Finanças nem quero escândalos. Só quero que percebas — sem mim, não te resta nada. — Queres o divórcio? — Ele mal tinha voz. — E tu? André desviou o olhar. Calou-se. Depois exalou: — Com a Kátia, não foi nada. — Não interrompas. — Mariana fez sinal. — Já sabia de tudo há meio ano. Do dinheiro, da ficção das reuniões, das escapadinhas. Sabia… e calei-me. Porque pensei: isto passa. Ele volta a si. Riu amargamente. — Se calhar, só me custava encarar que o nosso casamento morreu há cinco anos. Fingimos sempre que estava tudo bem. — Mariana. — Cansei-me de ser um acessório na tua vida. De cada palavra, cada pedido meu serem postos de lado. Nem reparaste que estava a morrer de ataques de pânico ao teu lado! André estava branco, punhos cerrados. — Tens escolha, — disse Mariana. — Podemos tentar recomeçar. Sem mentiras, sem traições. — Ou vais-te embora e levas tudo. — Não. — Mariana abanou a cabeça. — Só levo o que é meu. O apartamento. A minha parte no negócio. Os teus créditos ficas tu a pagar. E eu começo nova vida. Levantou-se, dando o assunto por encerrado. — Tens três dias. Quando souberes, liga. Mas lembra-te — aquela Mariana, que tudo calava e sofria, morreu ontem às cinco da manhã. Na semana seguinte, André voltou. Desta vez sem pose, sem máscaras. Sentou-se na mesma cozinha, em silêncio. — O Valério disse que sem a tua assinatura o banco não renova nada. O negócio acaba. Mariana acenou. — Sei bem. — O que queres? Ela fitou-o. — Quero o divórcio. Ele empalideceu. — A sério? — Mais do que nunca. — Mariana serviu chá. As mãos já não tremiam.— Vou ao banco. Assino. Mas com uma condição — divorciamo-nos sem guerra. Tu ficas com a empresa, compras a minha parte. O apartamento é meu. A Clara fica comigo. — Mariana. — Decidi, André. — Ela sorria. — Sabes o que é mais incrível? Dormi pela primeira vez sem comprimidos. Dormi mesmo. Sem ataques. Ele ficou em silêncio. — E isso explica muita coisa. Não estou doente. Não preciso de me tratar. Só precisava de sair desta vida, onde eu não era nada. Mariana levantou-se. — Tens escolha. Ou aceitas isto — divorciamo-nos em paz. Ou vou ao tribunal, levo tudo e o resto é contigo. André baixou a cabeça. Sabia que tinha perdido. Aquela mulher, que ele julgava fraca, era afinal mais forte. — De acordo, — disse por fim. — Aceito. Três meses depois, o divórcio foi oficial. Mariana ficou com a casa e um bom montante pela sua parte do negócio. Arranjou novo emprego. André ficou sozinho na empresa e num apartamento novo. E com um vazio estranho que nunca parava… principalmente ao chegar a casa, sem ninguém com quem partilhar o dia, só. A Kátia, por acaso, foi-se embora um mês depois. Descobriu que não queria amor — queria conforto. Quando percebeu que André tinha agora as dívidas todas e não conseguia sustentar uma amante como dantes — perdeu-lhe o interesse. Mariana ficou a saber por Valério. Sorriu. E não sentiu nada. Nem pena, nem alegria. Só… nada. Afinal, será assim tão mau uma mulher envolver-se no negócio do marido? O que acha?
Boas Intenções