E afinal, o que é que ganhaste com tanta lamúria? perguntou o marido. Mas o resto… deixou-o de boca aberta.
Diz-me lá, quando é que uma pessoa há-de acordar se não for às cinco da manhã, quando sente o peito apertado de ansiedade? Olha, a Mariana estava sentada na beira da cama a olhar pela janela, cheia de pensamentos.
O coração dela batia todo desafinado: batia duas vezes, parava, batia três, ficava em silêncio. O médico ontem disse-lhe são ataques de pânico, Mariana. Passou-lhe logo um encaminhamento para exames.
Sabes, em dezoito anos, a Mariana passou de rapariga ambiciosa de licenciatura em Economia para mas para quê mesmo? Um apêndice do negócio do marido? Uma contabilista improvisada, a tratar da papelada dele e a pôr assinaturas onde era preciso? Uma empregada de limpeza que à noite andava de esfregona na mão porque o André nem reparava que havia porcaria?
Já acordaste? entrou o André na cozinha, com cara de quem levou uma tareia do sono e vontade nenhuma de falar. Outra vez sem dormir, foi?
A Mariana só acenou com a cabeça. Fez-lhe o café, tirou um iogurte do frigorífico sempre aquele de frutos do bosque que ele comia já há uns cinco anos.
Ah, já agora ele bebeu um golo do café hoje vou ao Porto. Três dias, reunião importante com um fornecedor.
André
Ela sabia bem que não devia começar. Sabia aquele olhar dele, como quem diz lá está ela a queixar-se, a tirar de mim uma compreensão que não tenho. Mas abriu a boca na mesma:
Não vás já. Sinto-me mesmo mal. O médico quer mesmo que eu vá aos exames.
Ele parou. Pousou a chávena na mesa. Expirou pelo nariz com impaciência, como quem já não tem paciência para ouvir sempre o mesmo.
E o que é que consegues a queixares-te? O tom até era calmo, nem zangado, mais de indiferença. Mariana, eu trabalho. Tenho de trabalhar. Não posso todos os dias ouvir sobre ataques, sobre como estás cansada, como te custa. E quem é que não está?
Já estava a enfiar as coisas na mala tinha o hábito, porque contava que ela ficasse calada. Engolisse a mágoa, ainda se culpasse lá estou eu a falar na hora errada, só digo o que não devo.
Mas a Mariana, por alguma razão, não ficou calada.
André levantou-se. Calmamente, devagarinho. Olha-me nos olhos: sabes em nome de quem está a escritura do empréstimo da casa?
Ele virou-se, fez um sorriso de desprezo.
Que interessa isso? Deve estar nos dois nomes, claro.
Não. Está só no meu.
A tensão cortava-se no ar. E ela via o rosto dele a mudar segundos depois.
Mas do que é que falas?
De que, há oito anos, quando comprámos isto, tu estavas até ao pescoço em dívidas. O banco nunca na vida te ia dar crédito, lembras-te?
Ele ficou em silêncio.
Pois é. A casa está toda em meu nome. Aliás, até sou co-signatária dos teus empréstimos do negócio. Sem a minha assinatura não vais a lado nenhum não renova, não amplia, não faz nada.
O André sentou-se devagarinho, como se as pernas fraquejassem.
Estás a ameaçar-me?
Não, estou a lembrar-te da realidade. E há mais Mariana abriu uma gaveta, tirou uma pasta, pôs-na à frente dele. Eu sei da Vera.
O André ficou a olhar para a pasta.
Sentado, imóvel, com aquela cara de quem acabou de levar com uma telha na cabeça ainda não sente a dor bem, mas já percebeu o que aconteceu.
Da Vera insistiu Mariana. Voz calma, surpreendendo-se até a si própria. Da contabilista do teu amigo Filipe. Miúda gira. Doze anos mais nova que eu, até.
Abriu a pasta e puxou uns papéis. Um, outro. Espalhou à frente dele, como quem põe cartas na mesa.
Olha aqui, extractos das tuas contas. Vês estas transferências? Oitenta euros, cem, cento e vinte. Mês sim, mês não.
Ele não disse palavra.
E isto é a conversa convosco. Mariana depositou as folhas. Pensavas que eu não sabia a tua password do computador do escritório? André, fui eu que a pus, lembras-te? Tu esqueceste-te.
O André agarrou nos papéis, passou os olhos à pressa, ficou lívido.
Onde é que arranjaste isto?
Que importa? O que importa é: estiveste a transferir dinheiro para ela. Achas que as Finanças querem saber disto?
O André levantou-se num salto. Gritou.
Tu achas-te quem?! Sempre estiveste à minha sombra! Nunca ganhaste nada! Sempre foste uma dependente!
Dependente? Mariana ironizou, amarga. Bonito, não é? A dependente que põe assinaturas nas tuas hipotecas, faz a tua contabilidade toda enquanto andas em reuniões, que tem a casa em nome dela e é co-signatária de tudo quanto é dívidas tuas.
Estás a ameaçar-me?
Não. Foi até à janela. Só estou a explicar-te como estão as coisas. Porque acho que esqueceste princípios básicos.
Virou-se para ele.
Nos últimos seis meses recuperei a licenciatura, fiz cursos à noite, entre ataques de pânico e noites em branco, arranjei trabalho. Nada de extraordinário, mas o suficiente para alugar uma casa e cuidar de mim e da Inês.
Inês?! Vais levar a nossa filha?!
E tu tens estado com ela este mês? Vá lá, André, quando foi a última vez que lhe perguntaste por ela?
O André calou-se. Sabia que não sabia responder.
A Mariana pegou num documento.
Relatório do neurologista. Esgotamento nervoso crónico. Ataques de pânico. Aconselhado: mudança de ambiente, psicoterapia, evitar o stress. Vês ali? Situação de stress prolongada. Sabes o que isso significa para ti?
Mariana
Significa que se pedir agora o divórcio, a lei fica do meu lado.
Mariana pousou o último papel.
E principalmente porque sem a minha assinatura semana que vem não tens crédito novo. O Filipe ligou ontem. O banco quer documentos, a minha assinatura tem de lá estar.
O André voltou a sentar-se, abatido.
O que queres? voz rouca Dinheiro?
A Mariana soltou uma risada curta, quase muda.
Dinheiro? Quero respeito, André. Quero, pelo menos uma vez, que admitas que sem mim não tinhas nada disto. Nem negócio, nem casa, nem esta viagem ao Porto de que tanto dependes.
Pegou na mala.
Tens até ao fim do dia. Vou para casa da Sílvia com a Inês. Pensa bem. Quando quiseres conversar, liga. Mas não esperes que eu volte a ser a Mariana que aguentava tudo calada.
Seis horas depois, o André ligou.
Mariana estava na cozinha da Sílvia, chá de hortelã na mão, e sentia-se estranhamente leve. Como se tivesse acabado de sair de um lamaçal e só agora percebesse que afinal respirar pode ser fácil.
Estou, atendeu, a voz estável.
Preciso falar contigo.
Diz.
Não por telefone ficou calado. Vem a casa.
Mariana não se conteve.
Não, André. Se queres falar, vens tu cá. Sabes o caminho.
Chegou uma hora depois. De cara fechada, tenso, como quem foi encurralado e tenta fugir de qualquer maneira.
A Sílvia, percebendo o clima, levou a Inês para brincar ao quarto. Mariana ficou na cozinha.
Quem pensas que és? deu um murro na mesa. Estás a chantagear-me?!
Não. Estou só a explicar-te os factos.
Que factos?! Mexeste nos meus documentos! Foste ver o meu computador!
André suspirou Mariana achas mesmo que atacar-me agora é boa ideia? Depois do que te mostrei?
Ele ficou calado porque sabia que ela tinha razão.
Agora ouve, disse Mariana, inclinando-se um pouco não te quero destruir, nem ir às Finanças, nem fazer escândalo. Só quero que abras os olhos: sem mim não és nada.
Queres divorciar-te? a voz embargada.
E tu?
O André olhou para baixo, silêncio pesado no ar. Passado um bocado:
E com a Vera, não foi nada de importante.
Não me interrompas. Mariana ergueu a mão. Sei disso há meio ano. Sabia como passavas dinheiro para ela, com quem te encontravas em supostas viagens de trabalho. Sabia, e calei-me. Achei que pudesse passar, que fosses mudar.
Ela riu-se, triste.
Se calhar tinha medo era de admitir que já não tínhamos casamento há uns cinco anos. Só fingíamos.
Mariana
Estou farta de ser um extra na tua vida, uma sombra. Farta de ouvires as minhas palavras como se nada valessem. Nem deste conta que me estava a ir embora, novelo de ataques e noites sem dormir!
O André estava lívido, mãos cerradas.
Tens escolha ela continuou. Ou tentamos de novo, sem mentiras nem traições ou acaba.
Ou tu tiras-me tudo.
Não. Mariana abanou a cabeça. Só vou tirar o que é meu. A casa. A minha parte no negócio. Os empréstimos em meu nome pagas tu. E começo finalmente a minha vida.
Levantou-se, deixando claro que acabara.
Tens três dias. Pensa. Quando quiseres, liga. Só que a Mariana que engolia tudo calada morreu ontem às cinco da manhã.
Uma semana depois, o André voltou.
Desta vez, nada daquela postura de sempre. Sentou-se à mesa da cozinha da Sílvia e ficou muito tempo calado.
O Filipe disse que sem tua assinatura o banco não renova o crédito murmurou ele. O negócio pára.
Mariana assentiu.
Já sabia.
Então e agora, o que queres?
Ela olhou-o bem nos olhos.
Quero o divórcio.
O André ficou pálido.
A sério?
Como nunca estive tão certa. Serviu-se de chá, as mãos firmes. Assino no banco, pronto. Mas só se assinarmos o divórcio. À civilizadamente. Tu ficas com o negócio, compras a minha parte. A casa fica para mim. A Inês fica comigo.
Mariana
Está tudo decidido, André. Sorriu. Sabes o que é curioso? Dormi uma noite inteira, sem comprimidos, pela primeira vez em anos. E isto diz-me tudo. Não estou doente. Só precisava de sair da vida contigo. De sair daquela vida em que não era nada.
Levantou-se.
Tens escolha. Ou aceitas e tudo se resolve, ou vou à tribunal, mostro tudo e não ficas com nada. Decide.
O André baixou a cabeça. Percebeu que estava perdido. Aquela mulher que julgava fraca era afinal mais forte que ele.
Está bem suspirou ele. Aceito.
Três meses depois, divorciaram-se oficialmente.
Mariana ficou com a casa e uma boa quantia pela parte dela no negócio. Começou finalmente o novo emprego.
O André ficou com a empresa e um novo apartamento. E um vazio estranho, sempre pior à noite, quando percebia que não tinha a quem contar como correu o dia, ou simplesmente partilhar um silêncio.
A Vera, por acaso, foi-se embora um mês depois do divórcio percebeu que o André agora pagava tudo sozinho e que não podia manter os luxos antigos. Perdeu o interesse.
Mariana soube disso pelo Filipe. Sorriu. E não sentiu nada. Nem satisfação, nem pena.
Nada mesmo.
Às vezes, se calhar, até pode valer a pena ajudar no negócio do marido. Não achas?







