A família do meu marido apareceu de surpresa na minha quintinha para descansar, mas eu entreguei-lhes pás e ancinhos

A família do meu marido apareceu na minha quinta para descansar, e eu entreguei-lhes pás e ancinhos

Então, Maria do Carmo! Anda lá, abre o portão, temos visitas! A voz da minha sogra, forte e imperativa, abafava até o som do corta-relva do vizinho. Viemos cheios de alegria e presentes, e vocês aí fechados como se esperassem uma invasão!

Lurdes ficou parada entre os canteiros das morangueiras, limpando o suor da testa com as costas da mão. As luvas manchadas de terra deixaram-lhe um risco escuro na cara, mas pouco lhe interessava a vaidade naquele momento. Endireitou-se devagar, sentindo a dor nas costas, e olhou para o alto portão de ferro.

Aquela visita não estava nos planos. Nenhum.

Desviou o olhar para o marido, Manuel, que estava junto da adega com um martelo na mão, tão apanhado de surpresa quanto ela. Ele encolheu os ombros, murmurando, quase sem som: Eu não convidei.

Manoelinho! gritou de novo a sogra, desta feita com mágoa. Adormeceste aí? A mãe chegou, a tua irmã chegou, e vocês escondidos!

O que restava do ânimo das suas férias deu lugar à resignação. Lurdes tirou as luvas e atirou-as para o balde. O fim de semana, que tinha reservado para meter mãos à terra nos seus amados quinhentos metros de quinta, ia por água abaixo. Acenou a Manuel: já não havia volta a dar, abre o portão.

As grades abriram-se de par em par, e pelo terreiro adentro entrou um reluzente carrinho de marca. De lá saltou, com todo o garbo, a família. À frente, como sempre, Dona Maria do Carmo grande, ruidosa, envergando um vestido estampado bastante colorido e um lenço vistoso na cabeça. Atrás, a cunhada Glória, de calções brancos, top à moda e unhas acabadas de fazer. E a fechar o cortejo, o marido dela, Mário, já todo descontraído e piscando à luz do sol.

O porta-bagagens abriu-se, revelando sacos com carvão, grades de cerveja e carne de porco marinada nas tradicionais caldeiradas.

Credo, que calor! Maria do Carmo abanou-se com o lenço. Lurdes, o que é isso, pareces ter fugido da mina! Olha, quisemos fazer-te uma surpresa. Liguei ao Manuel, não me atendeu. Vai daí, decidi fazer-vos uma visita. O tempo está um mimo, a ver se fazemos uns grelhados e vamos até ao rio. Não é longe daqui, pois não?

Lurdes olhava sem dizer palavra para aquele arraial. Por dentro, sentia o incómodo crescer. Aquela quinta herdara-a da avó. Era o seu refúgio, onde cada canteiro lhe era familiar. Desde que casou com o Manuel, pegara nela em ruínas e durante três anos metera ali todo o dinheiro e esforço livres. Ele ajudava, mas sem grande convicção, mais por obrigação familiar. A família de Manuel só lá aparecia pelo verão, quando tudo fervilhava de cor, sedentos de fruta e sombra na rede.

Olá, Dona Maria do Carmo saudou Lurdes, tentando manter a compostura. Uma surpresa, sem dúvida. Mas estamos a trabalhar.

Trabalho, minha filha, não foge riu Mário, tirando a caixa da cerveja do carro. O fim de semana foi feito para se descansar. Manoelito, vá lá buscar o grelhador, está a pedido!

Glória já vasculhava o terreno de alto a baixo.

Lurdes, onde tens as espreguiçadeiras? Quero bronzear-me. Ah, já tens framboesas maduras? Posso apanhar?

Ainda estão verdes respondeu secamente. As espreguiçadeiras estão na caseta, a precisar de limpar.

Então o Manuel apanha-as e dá-lhes uma limpeza! decretou logo Maria do Carmo, rumo à varanda. Lurdes, despacha-te, lava essa cara, parece mal à dona da casa andar assim. Põe a mesa, que viemos esfomeados. Faz aí uma saladinha, pepino da horta, e corta umas ervas. Os homens tratam da carne.

Com ar de comando, Maria do Carmo instalou-se na poltrona de verga da varanda, aquela mesma que Lurdes tinha comprado para ler ao fim do dia.

Olha lá, a erva junto ao muro está pelos ares comentou ela. Não pode ser. Mas nada que o Manoel não resolva depois.

Lurdes lançou um olhar ao marido, que hesitava, envergonhado. Sabia que aqueles dias estavam contados ao minuto: tinham combinado cavar um novo canteiro, pintar o muro e desmontar a velha estufa. Até tinha uma carrinha de estrume encomendada para ao final da tarde. Agora exigiam-lhe que se tornasse cozinheira, enquanto a família goza férias na sua propriedade.

Por dentro de Lurdes algo mudou. Serenamente, cheia de decisão.

Manuel, anda cá, faz favor.

Foram até ao poço.

Sabias que eles vinham? perguntou ela, baixinho.

Não! Juro, Lurdes! sussurrou ele, de relance para a mãe. Só perguntaram onde estávamos. Disse que na quinta. Não disseram nada de visita! Agora não os posso mandar embora são de família, vá lá… Aguenta só um bocado, fazémos uns grelhados, convivemos…

Aguentar? Lurdes sorriu de canto. Manuel, na semana passada não viemos, porque a tua mãe pediu para a levares ao centro comercial. Há quinze dias foi o aniversário da Glória. Agora é o pico da estação. Se hoje não fazemos o que planeámos, perco as mudas e o muro estraga-se antes do inverno.

Oh Lurdes…

Sem mas. Esta quinta é minha. Mandam as minhas regras. Se querem comer e descansar no campo, muito bem: não faz mal nenhum pôr as mãos na terra.

De semblante resoluto, Lurdes dirigiu-se à arrecadação. O barulho do ferro calou a conversa da varanda. Em poucos minutos surgiu de braços cheios: três pás, um ancinho, uma enxada e uma lata de tinta.

Chegou junto da varanda e largou com estrondo as ferramentas aos pés da família estupefacta.

Muito bem, queridos convidados a voz de Lurdes soava nítida e firme como granito. Já que vieram sem aviso, vamos aliar o útil ao agradável. Hoje há jornada de trabalho!

O quê? Glória afastava-se, horrorizada, de uma pá suja. Estás a brincar, não viemos cá para isso!

E eu não sou animadora nem cozinheira de pensão, cortou Lurdes. Tenho a minha vida. Ou ajudam, ou vão passear. Aqui ninguém come sem trabalhar. Diz o povo.

Maria do Carmo, que já ensaiava trincar uma maçã do cesto sem pedir, ficou petrificada.

Mas Lurdes! Que estás tu a fazer? Somos visitas! Viemos ver o filho! Manuel, cala-a! A tua mulher enlouqueceu, quer pôr-nos a trabalhar!

Manuel aproximou-se devagar, mas não disse palavra.

Dona Maria do Carmo, sejamos francos, Lurdes assumiu as rédeas. Esta quinta é minha, herdei-a da avó, antes de casar. A senhora sabe bem disso. Aqui mando eu. O Manuel ajuda porque somos família. E vocês só aparecem quando há fartura. Querem churrasco? Têm aí o que fazer.

Começou a distribuir as ferramentas, ignorando as expressões de horror.

Mário, tu ficas com esta pá. Vais cavar aquele lado junto ao muro, terra dura, precisa de força. Enquanto ali não estiver pronto, não se acende o grelhador.

Mário tossiu com a cerveja.

Eh pá, até estou de férias! Doem-me as costas…

Nada como exercício ao ar livre, vais ver. Pá moderna, não dói. Glória a cunhada encolheu-se na cadeira , leva o ancinho, junta a erva cortada atrás e leva ao composto. E ainda há umas cenouras para mondar. Assim garantes um bronze uniforme, até às costas.

Nem pensar! Guinchou Glória. Acabei de dar quarenta euros nas unhas! Mãe, diz-lhe!

Maria do Carmo ergueu-se, corpulenta, qual nuvem de trovoada.

Basta desta palhaçada. Manuel, tira estes ferros daqui. Vamos mas é preparar o almoço. E tu, espetou o dedo, se não gostas de ter visitas, diz. Obrigar-nos a lavrar para ti é de uma arrogância! Somos pessoas de idade!

Ainda a semana passada dizia a toda a gente como aguentava três horas de zumba, retorquiu Lurdes. Tem muita vitalidade. A senhora vai pintar o gradeamento do jardim. Tinta sem cheiro, pincel novo. Força.

Vamos embora! trovejou a sogra. Mário, pega nas coisas! Aqui nunca mais volto! Manuel, vê lá quem arranjaste para mulher! Até expulsa a própria sogra!

Lurdes cruzou serenamente os braços.

Quem quiser ajudar, fica. Quem não quiser, que não atrapalhe. Não sou criada de ninguém. Tenho horários a cumprir.

Manuel! guinchou Maria do Carmo. Vais deixar isto continuar? Não és homem?!

Manuel olhou para a mãe, para a irmã, para Mário, já a calcular onde deixar a cerveja. Depois virou-se para Lurdes. Havia cansaço, mas também uma calma nova. Lembrou-se dela de planta à mão, feliz com cada rebento, a planear a nova estufa.

Mãe. A Lurdes tem razão.

O quê?! três vozes em coro.

Tem razão, reforçou. Esta quinta é dela. Viemos para ajudar. Querem férias, vão ao parque rural ali a seguir, tem tudo o que precisam. Aqui, temos o que fazer.

Silêncio. Ouvia-se apenas um zangão por entre as peónias. Maria do Carmo procurava ar, mas não lhe saíam palavras. A traição do filho foi um golpe duro.

Muito bem… sibilou, por fim. Obrigada, filho. Foste um apoio. Vamos, Mário! Rápido! Não ficamos a respirar o mesmo ar desses… agarrados à terra.

A debandada foi rápida e ruidosa. Mário carregou a cerveja de volta para o carro. Glória saltava enfadada. Maria do Carmo, antes de bater a porta do carro, lançou a Lurdes um olhar de maldição.

Ai ainda se vão arrepender! Quando precisarem de um favor, não contem comigo!

O carro arrancou, erguendo poeira no portão.

Lurdes e Manuel ficaram sozinhos no pátio. O silêncio à volta era uma paz rara. Lurdes sentiu o peso a desaparecer-lhe dos ombros. Sentou-se nos degraus da varanda.

Manuel sentou-se ao lado e segurou-lhe a mão, quente e suada.

Estás bem? perguntou.

Agora estou, suspirou. Pensei que iam atirar-me à cara um feitiço.

Feitiço sim, mas já passa, riu Manuel. A mãe, quando convém, esquece rápido. A Glória vai resmungar mais tempo.

Eu aguento, Lurdes encostou a cabeça ao ombro do marido. Obrigada por me apoiares. Pensei que fosses fazer como sempre.

Ficar calado? Manuel suspirou. Cansei. Olhei bem para eles todos… Nem um precisas de ajuda? Só queriam festa e mesa feita. Tu a trabalhares tanto… Deu-me vergonha. Isto, afinal, é o teu lar. Conheces cada ervinha cá.

Lurdes sorriu.

Nosso lar, Manuel. Desde que queiras trabalhar com ele, não só comer grelhados.

Faço questão, afirmou. Olha, o Mário deixou cá a pá. Vou já terminar aquele canteiro, como prometi.

Levantou-se, pegou na pá e foi para o muro. Lurdes olhou para ele com um carinho renovado. Finalmente sentia-se numa verdadeira equipa: não apenas marido e mulher, mas parceiros, prontos a defender juntos as suas fronteiras.

Ergueu-se, limpou as calças. O sol ainda ia alto, havia muito por fazer, mas agora o trabalho parecia mais leve.

Uma hora mais tarde, Manuel, a suar mas satisfeito, terminava o canteiro de terra difícil, quando Lurdes chegou com um jarro de limonada caseira.

Hora de pausa, ordenou.

Sentaram-se na varanda, agora tão calma.

Sabes disse Manuel, pensativo, depois de um gole , eles nunca perceberam.

O que não perceberam?

Que não era pelo trabalho. Se ao menos perguntassem precisam de ajuda?, até talvez os deixássemos descansar cedo. Mas como vieram assim, em modo exército…

É uma questão de respeito, Manuel. Ninguém entra em casa de outro impondo as regras. E menos ainda desvaloriza o trabalho dos outros como se não contasse.

O telemóvel de Manuel soou. Ele leu a mensagem de cara torta.

Da mãe. Estamos na pousada rural. Quarto caro, comida ruim. Não tens vergonha.

Lurdes riu.

Pelo menos estão a descansar, como queriam. Sem pás e ancinhos.

E sem os nossos grelhados retorquiu Manuel. Temos carne a jeito?

Levaram tudo. Mas temos batatinhas novas, coentros e carapaus. E sossego.

A noite desceu suave sobre a aldeia. Os grilos cantavam, um cão ladrava ao longe. Lurdes e Manuel acabaram de pintar o muro já com o lusco-fusco. Cansados e borrados de tinta, jantaram batatas cozidas com azeite, que soube melhor que qualquer iguaria.

Sabes murmurou Lurdes, molhando o pão no azeite. Foi uma boa lição.

Para eles?

Para eles e para nós. Aprendemos a dizer não. Não custa tanto quanto parece.

Ainda me custou, confessou Manuel mas valeu o resultado. Diz, Lurdes no próximo fim de semana, ficamos só nós? Nem pás, nem visitas. Só nós.

Combinado sorriu ela. Mas a estufa tem mesmo de sair.

Nesse instante, ouviram o ronco de um motor. Lurdes prendeu a respiração, garfo no ar. Teriam voltado? Manuel foi à janela.

Ufa, são só os vizinhos, a família do Zé.

Lurdes soltou uma gargalhada e todo o aperto desapareceu. Esse sábado mostrou-lhe que o marido estava do seu lado e que a sua quinta podia resistir a qualquer invasão de família desconvidada.

Mas a história não acabou. Uma semana depois, numa noite de quarta, quando Lurdes e Manuel estavam no apartamento da cidade, tocaram à porta. Lá estava Maria do Carmo, sem lenços, sem Glória, com um pequeno saco.

Posso…? perguntou, hesitante.

Lurdes afastou-se. Entre, faça favor.

A sogra sentou-se à ponta da mesa da cozinha, pousando o saco.

Trouxe uns folares de couve. Fui eu que fiz.

Manuel apareceu, surpreso.

Olá, mãe. Passa-se alguma coisa?

Passa, suspirou Maria do Carmo. Tenho tido vergonha. Não me encontro desde esse sábado. A minha vizinha, a Elsa, contou-me que a nora a pôs porta fora porque foi lá mandar bitaites. E eu… Fui igual. Cheguei aí a armar aos cágados. E vocês a trabalharem. A quinta parece um postal, bem melhor do que no meu tempo.

Ficou ali mexendo na carteira, sem jeito.

Pronto, peço desculpa. Velha é teimosa, sabe como é. Sempre vi o Manuel menino, obediente. Cresceu. E escolheu uma mulher de pulso. Isso é bom. Hoje é preciso ter pulso.

Lurdes olhou para Manuel. Não esperava um pedido de desculpas. Uma discussão, sim, mas aquilo não.

Ora, Maria do Carmo, respondeu ela, pondo água a ferver não há problema. O passado fica atrás. Só pedimos respeito pelos nossos planos.

Aprendi, aprendi sim. Daqui para a frente, só com aviso. E nada de meter o bedelho… quer dizer, não me meto. A Glória ainda está amuada. Diz que as unhas eram caras demais para mexer em terra. Mas passa-lhe. É da idade.

Ficaram à mesa naquela noite, devagar, a comer folar e a beber chá. A conversa foi lenta, hesitante, mas o gelo quebrou. As fronteiras que Lurdes tinha posto firme naquele sábado não demoliram a família; trouxeram-lhe saúde. Respeito conquistado com o ancinho vale bem mais que tolerância muda e ressentida.

Desde então, as pás ficaram à vista na arrecadação, uma lição bem visível. E quando, um mês depois, a família quis ir à quinta, ligaram primeiro: Em que podemos ajudar? Lurdes sorriu a defesa tinha valido a pena, vitória sua.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

nineteen − 3 =

A família do meu marido apareceu de surpresa na minha quintinha para descansar, mas eu entreguei-lhes pás e ancinhos
„В кухнята, сега!“ изръмжа мъжът. Нямаше представа какво ще последва.