Ó Maria das Dores, não faças essa cara, vizinha! Então agora contas os pepinos? Aqueles já estão quase passados, daqui a nada apodrecem! Olha que tenho os netos cá em casa e precisam de vitaminas. Não sejas agarrada. Somos vizinhas de décadas, estas hortas são quase família!
Maria das Dores fitava Teresa por cima da vedação de arame que separava as duas propriedades no Ribatejo. O rosto largo e bronzeado da Maria exibia um sorriso meloso. Numa mão segurava um alguidar esmaltado meio cheio mas não com a sua fruta, e sim com morangos brilhantes do quintal de Teresa. Com a outra, já se esticava para um pé de groselha, mesmo no lado que não lhe pertencia.
Teresa pousou nos joelhos junto à cama das cenouras. Endireitou-se devagar a coluna protestou , limpou o suor da testa com uma mão cheia de terra, e olhou para a vizinha com severidade. Aquela frase, somos quase família, já a ouvia desde que ela e o marido, Joaquim, tinham comprado o terreno e transformado o baldio num exemplar horto português.
Maria, respondeu calmamente, mas firme , então tu também tens morangos. Já vi. Porque não colhes os teus?
Ai Teresa, qual morangos! Aqueles vêm pequenos, ácidos e cheios de bicharada. Eu não tenho jeito para adubos e essas coisas. Tudo natural, como Deus manda. Os teus é que crescem como laranjas, é pecado deixá-los estragar, ainda por cima são só dois aí em casa! Não vão conseguir comer tudo.
Teresa inspirou fundo. Era impossível rebater a lógica da vizinha: para Maria, se alguém tem em abundância, tem obrigação de partilhar. O motivo de não ter? Talvez pura preguiça.
O quintal da vizinha era o retrato do abandono: macieiras tortas, canteiros invadidos de ervas, e dentes-de-leão sopradando sementes por todo o lado. Maria ia ali para descansar o espírito: balouçava-se na rede, assava sardinhas baratas nas brasas e o seu rádio tocava fado a alto e bom som.
Teresa, ao invés, era apaixonada pela terra. Conhecia cada planta. Encomendava sementes raras de tomates pela internet, levantava-se ao nascer do sol para abrir a estufa e fechava a noite arrumando a mangueira de rega. Sabia o valor de cada pepino, cada tomate tudo fruto do seu esforço e muitas vezes das costas doridas.
Maria, pára com isso, insistiu Teresa. Os meus morangos são para fazer doce. Cada um conta.
Olha bem, respondeu Maria, atirando os olhos ao céu como se Teresa fosse ridícula que avareza! Estás a exagerar. Só peguei uns para os miúdos. Vais tirar-lhes da boca, é?
E, antes que Teresa chegasse junto à vedação, Maria meteu logo um morango do tamanho de um ovo na boca e afastou-se para a sua casa, triunfante.
Teresa ficou ali parada, irritada. Joaquim, que vinha da arrecadação com o serrote, testemunhou a cena mas nada disse. Não gostava de discussões.
A Maria já cá anda de novo? perguntou ele.
Anda sim, tal seja dona de tudo isto respondeu Teresa. No fim-de-semana passado levou as curgetes enquanto fomos às compras. Agora, pilha descaradamente os morangos.
Olha, põe uma vedação à séria sugeriu Joaquim. Daquelas altas de chapa.
Não pode ser suspirou Teresa. O regulamento da Junta proíbe, só deixam grades ou ripas, para não fazer sombra. E gastar com na vedação agora não dá, já investimos tudo na nova estufa.
O tempo passava e a colheita desse ano era esplêndida, o que tornava as visitas de Maria mais frequentes. A cada tomate mais vermelho, mais uma aproximação à vedação.
Num sábado, para festejar a visita dos filhos e netos de Lisboa, Maria encheu a casa com convidados e música. Ao final da tarde apareceu à vedação, já bem alegre.
Oh Teresa! Salva-me! Acabou-se o petisco na mesa, dá-me aí tomates desses Coração-de-Boi e um molho de cheiros! A loja já fechou, tenho a casa cheia de boca aberta.
Teresa, de mangueira na mão, respondeu serena:
Maria, ainda estão quase todos verdes os meus tomates. Os que estão maduros vão amanhã para Lisboa, para a minha filha.
Olha-me esta, a queixar-se bufou a vizinha, espreitando por cima do arame. Para gente boa não dás nada?! Eu depois trago-te um chocolate!
Não, Maria. Não disse Teresa firmemente.
A vizinha perdeu a compostura e foi-se embora rabujando, e a noite foi cheia de gargalhadas e bocas viperinas por cima da vedação. Era impossível ignorar frases como tacanha de Lisboa!, o que é bom quer só para ela! ou até os legumes são cheios de químicos!. Teresa subiu o volume do televisor e fechou as janelas. Doía-lhe, sentia-se injustiçada.
Na manhã seguinte, foi o pânico: a porta da nova estufa semicerrada. Teresa correu ao quintal. As melhores pencas dos tomates Coração-de-Boi tinham sido arrancadas à pressa, alguns galhos partidos, pepinos em falta, e buracos nas filas do coentro e salsa tudo pilhado. Fora um roubo e pior: desprezo pelo suor de quem trabalha.
Joaquim! chamou, a voz trémula.
Ele observou a catástrofe. Isto já não é brincadeira, Teresa. Isto é roubo.
Mas quem vai provar? Não temos câmaras. Ela nega tudo! E não era ela a capaz de se fazer de vítima?
Teresa olhou para o quintal alheio: só silêncio e uma travessa de salada esquecida numa mesa, com tomates vistosos e salsa que só podiam vir da sua horta.
Chega! jurou Teresa. Já tentei ser simpática. Agora vamos pela via difícil. Mas sem arranjar problemas com a polícia…
Montou um plano: foi à vila comprar um fato de proteção amarelo, um respirador, um pulverizador, corante alimentar azul e o sabonete mais fedorento do supermercado.
Ao cair do dia, engalanou-se com todo o aparato, chamou Joaquim (também mascarado) e começou o tratamento junto à estufa, à vista de todos. Misturou corante azul na água, meia garrafa de sabonete líquido e começou a pulverizar tomates, pepinos e couves. O cheiro era insuportável.
Maria não resistiu e veio à vedação: Ó Teresa, o que estás a fazer? Ai que cheiro…
Teresa, encenando, respondeu abafada pela máscara: Descobri um vírus nas plantas, dizem que apodrece tudo de um dia para o outro! Tive de comprar um produto novo, fortíssimo. Dizem que só depois de três semanas se pode comer, senão faz mal ao fígado. É tóxico!
Três semanas?! Maria ficou lívida. E se só tocar?
Toca se quiseres. Mas lava logo com álcool. Eu vou deitar o fato fora, só por precaução respondeu Teresa, continuando a regar de azul tudo à vista.
Logo Maria foi avisar a família: Nem toquem na salada! Deita fora, aquilo parece veneno!. Teresa sorriu. O plano anti-chico-esperto resultava.
Na semana seguinte, Maria passou ao largo da vedação e sempre que os netos se aproximavam berrava para longe: Está ali veneno, afastem-se!. Teresa, com calma, lavava aos poucos o corante das alfaces (por pena delas), deixando os tomates a brilhar de azul, afugentando até os pardais.
Mas Maria não desarmou. Uma manhã perguntou: Teresa, então já comes pepinos? Não era só ao fim dessas semanas?
Estes são do supermercado. Os do quintal, nem lhes toco, sabes bem que não arrisco! Os bichos de outros países já nem sabem a terra, mas é o que se pode.
E os tomates continuam azuis? A chuva não limpou?
Não, dizem que entra na fibra, é nanotecnologia! respondeu Teresa, aproveitando o embuste.
Maria resmungou, mas transformou-se: passou a respeitar as fronteiras do próprio e do alheio.
Chegou agosto. O corante quase sumira, mas ficara o aviso: junto ao portão, Teresa pendurou uma placa plastificada: Atenção! Vigilância Vídeo. Zona tratada com agroquímicos experimentais Perigo. Junta de Freguesia informada. Em caso de invasão, é chamada a polícia.
Era um teatrinho não existia câmara nenhuma. Mas o efeito foi imediato. Quando Maria apanhou o presidente da Junta a passar, lançou-se com queixas:
Senhor Presidente, a Teresa está-nos a envenenar! O meu neto esteve mal disposto, tenho a certeza que é dos vapores do lado dela! E tem câmaras, anda a espiar-nos!
O presidente soltou um sorriso quando Teresa explicou: Não usei nada ilegal nem tenho câmaras. A placa serve só para repelir ladrões de legumes. Se ninguém saltar a vedação, nada de mal acontece. E quanto ao menino, se não meterem as mãos nos canteiros, ficam todos bem de saúde.
Maria empalideceu e tentou desafiar: Eu? Nunca pus um pé aí! Não tens como provar!
Mas tenho imagens gravadas mentiu Teresa, olhando Maria nos olhos . Se quiseres, vamos ver juntas. Eu própria faço queixa.
Maria ficou vermelha e fugiu, bradando: Não quero saber dos teus tomates! Vou plantar os meus, sem químicos!
O presidente piscou o olho a Teresa: O melhor pesticida é sempre a imaginação, Teresa.
Desse dia em diante, Maria nunca mais passou da vedação. Durante o inverno, não se cumprimentavam. Mas, na primavera seguinte, uma surpresa: Maria estava ela própria de enxada na mão, a abrir canteiros. As plantas eram magras e as sementeiras do mais barato, mas era tudo seu.
Teresa aproximou-se: Bom trabalho, Maria! Se precisares de estrume, é só pedir. E de areia, aquela zona tem muita argila.
Eu cá faço à minha maneira. É tudo natural!
O que é nosso feito por nós sabe melhor respondeu Teresa.
Pelo verão, Maria mostrava orgulhosamente os primeiros pepinos, pequeninos, e tomates do tamanho de nozes. Já ninguém punha os olhos nas couves de Teresa. Percebeu-se, enfim, que quem trabalha a terra aprende o valor de cada fruto não há vontade sequer de colher do alheio.
Uma noite, Teresa viu Maria a enxotar garotos do seu quintal: Saí daí, isto é semente dura de trabalhar! Aqui não é campo de futebol!
Teresa olhou para Joaquim, que acendia a churrasqueira, e riu-se: Vês? O melhor ensinamento é mesmo a responsabilidade do suor próprio.
No outono, Maria aproximou-se da vedação com um frasco na mão.
Toma lá, murmurou, estendendo-lhe uns pepinos em conserva, da minha safra. Usei receita da minha mãe.
Teresa recebeu o presente com gratidão:
Que maravilha, Maria. Logo troco por sementes cá das de variedade boa. Para o ano, plantas tu. Ensino-te, se quiseres.
Pronto, está bem. Se não te importas…
Quem trabalha, não se importa de partilhar.
Ficaram um pouco em silêncio. A placa do perigo sumira com as chuvas, mas uma linha de respeito invisível permanecia. E era mais forte do que qualquer muro.
Em boa verdade, nesses anos, Teresa nunca teve uma colheita tão rica e nenhum tomate se perdeu.
No fim, aprendeu-se o mais importante: só quem cultiva, colhe. E quando damos valor ao nosso trabalho, passamos também a respeitar o dos outros.






