Foi-se e Ainda Bem — Como assim “o número que ligou está desligado”? Mas há cinco minutos estava ao telefone com alguém! — Natália ficou plantada no meio do hall de entrada, apertando o telemóvel contra o ouvido. Olhou para a cómoda. A caixinha das jóias estava no mesmo sítio. Mas algo não batia certo: a tampa não estava completamente fechada. — Romeu! — chamou para dentro do apartamento. — Estás na casa de banho? Natália aproximou-se devagar da cómoda. Quando tocou na madeira polida, um arrepio percorreu-lhe as costas: lá dentro, não havia nada. Nada de nada. Nem o talão da ourivesaria, que ela usava de marcador de página, restava. As jóias tinham desaparecido… e o dinheiro também. Verdade seja dita, ela própria lho entregara… — Meu Deus… — sussurrou, escorregando até ao chão. — Como é possível? Ontem discutimos sobre o papel de parede… E ele prometeu que íamos ao Algarve em agosto… E tudo começou de forma ridiculamente banal. Em junho do ano passado, o pistão do seu “pópó” encravou-lhe. Na oficina pediram-lhe um balúrdio, por isso, irritada, foi ao grupo “Ajuda Auto Portugal” procurar resposta. “Pessoal, alguém sabe se é possível desbloquear o pistão do travão se ficou preso? — escreveu, com uma foto da roda suja em anexo”. As respostas choveram. Uns diziam “não te metas nisso, rapariga”, outros sugeriam trocar a peça. De repente, apareceu um comentário de um tal Romeo85: “Não ligue, menina. Compre um spray WD-40 e um kit de reparação barato. Tire a roda, empurre o pistão com o pedal, mas atenção, não vá até ao fim. Limpe tudo com líquido de travões e lubrifique. Se o cilindro estiver limpo, o carro vai andar impecável”. Aquilo pareceu-lhe sensato, sem arrogância. “E se o cilindro estiver picado?”, respondeu ela. “Só trocando. Mas pelo aspecto das fotos, o seu carro está bem estimado. Duvido que esteja assim tão mau. Se precisar, mande mensagem privada, ajudo como puder”. E assim ficaram a conversar. Romeu percebia mesmo do assunto. Numa semana explicou-lhe como mudar o óleo, escolher velas e até aconselhou que anticongelante não usar. Natália começou a dar por si à espera das mensagens dele. “Olha, Romeu, vales ouro — escreveu no final de julho. — Se quiseres, um dia destes ofereço-te um café… ou algo mais forte, com o dinheiro que poupei”. A resposta não chegou logo. Demorou três horas até o telefone piscar. “Natália, adorava aceitar. De verdade, mas neste momento estou de serviço, uma missão longa… E estou… fora de Portugal, digamos assim”. “Fora? Onde?” “Mais longe é impossível. Não quero mentir-te. Gosto mesmo de ti, enquanto pessoa. Mas não estou em missão: estou a cumprir pena. EPL-Tires, se isso te diz alguma coisa”. O telemóvel caiu-lhe no sofá. Tudo dentro do peito lhe doeu. Um presidiário? Ela, mulher de bem, contabilista numa empresa importante, há duas semanas a trocar mensagens com um criminoso?! “Porquê?” — conseguiu perguntar, mãos a tremer. “Artigo 217. Burla. Fui parvo, armei-me em esperto, e caí na ratoeira. Falta-me menos de um ano. Se quiseres apagar o chat, compreendo”. Natália não respondeu. Só bloqueou o contacto e andou três dias sem saber de si. Colegas no escritório perguntavam se estava doente. Ela só pensava: “Porquê? Porque é que um homem tão inteligente, tão jeitoso, tem de estar lá dentro?” Passada uma semana, recebeu um email — Romeo tinha guardado o endereço dela. Não o apagou, só fechou o chat. “Natália — escreveu ele. — Não estou chateado. Sabia que ia ser assim. Tu és boa pessoa. Homens como eu não te servem para nada. Quero agradecer-te pelas conversas. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus”. Natália leu aquilo à mesa da cozinha e desabou a chorar convulsivamente. Dava-lhe pena dele, dela própria, e desta vida injusta. — Porque têm sorte todas as outras? Uns são casados, outros uns meninos mimados; e logo o único homem decente, está atrás das grades! — perguntava-se. Mais uma vez, não respondeu… *** Natália tentou ir a encontros, mas não dava certo. Um durante a noite toda só falou dos selos que colecciona, outro apareceu com as unhas pretas e quis dividir a conta do café. Em março, no seu trigésimo quinto aniversário, sentiu-se especialmente sozinha. De manhã, surge uma notificação. “Parabéns, Natália! — escreveu Romeu. — Sei que não devia incomodar, mas não resisti. Que estejas sempre feliz. Mereces tudo. Com pão e fio de cobre fiz um presente… Se pudesse, dava-to pessoalmente. Só quero que saibas que algures no Alentejo há um homem hoje a brindar à tua saúde com um chá horrível”. “Obrigada, Romeu — respondeu ela, cedendo. — Fez-me bem.” “Respondeste! — vinha radiante. — Como estás? E o carrinho? Não te deixou mal nos frios?” E assim recomeçaram a conversar. Agora era todos os dias. Romeu ligava-se sempre que podia. A voz dele era forte, rouca, agradável. Contava-lhe histórias da vida: das traquinices com o irmão, que agora criava os sobrinhos, dos planos que tinha para recomeçar do zero. — Não volto à minha terra, Natália — dizia ele ao telefone, enquanto ela preparava o jantar. — Os velhos amigos só puxam para a má vida. Queria ir para onde ninguém me conhece. Trabalho não me falta. Vou para a construção civil ou oficina. — E para onde ias? — Ia até ti. Arranjava quarto ou T0 baratinho. Era só para saber que respiramos o mesmo ar, que estamos próximos. Só isso… Não faças ideia errada. Em maio, Natália estava apaixonada. Sabia o horário das rotinas dele, quando tinha banho, quando trabalhava no pavilhão. Mandava-lhe caixas com chá, bolachas, meias quentinhas, pequenas peças para inventos. — Romeu, aguenta até ao fim — pedia ela. — Não te metas em chatices. — Por ti, sou um santo, querida — ria-se. — Em abril estou cá fora. — Estou à tua espera. *** Em abril, Natália estava à porta da prisão. Levava para ele um casaco novo, calças de ganga, sapatilhas. O coração batia tanto que parecia querer saltar do peito. Quando ele saiu, não era bem o que ela esperava — baixo, forte, cabelo grisalho já rente. Mas quando sorriu e disse: — Olá, patroa, — lançou-se a correr para o abraçar. — Meu Deus, estás vivo — murmurava ela, aninhada na barba áspera. — Achavas que eu desaparecia? — ele puxou-a com força. — Cheiras a flores, sabias? Foram para casa dela. Na primeira semana, foi como um conto de fadas. Romeu começou logo a arranjar tudo: consertou a torneira, arranjou a fechadura que já emperrava há meses. À noite, ficavam na cozinha, partilhavam vinho verde e ele divertia-a com histórias antigas, sempre tentando evitar os piores episódios. — Ouve, Romeu — insistiu ela ao décimo dia. — Disseste que querias alugar casa. Mas não faças isso. Aqui tens espaço, e é mais divertido estarmos juntos. Assim poupas, compras as tuas ferramentas, começas vida nova. — Natália, não está certo — torceu o nariz, mexendo o açúcar no café. — O homem devia arranjar a casa. Agora vivo à tua custa, estou a incomodar. — Deixa-te disso! — ela colocou-lhe a mão sobre a dele. — Já não somos estranhos. Vais levantar-te, encontrar trabalho, tudo se resolve. — O meu irmão ligou ontem, — disse ele, desviando o olhar. — O miúdo está doente, precisa de uma operação cara. Pediu dinheiro. Eu… como vês, não tenho nada, só vergonha. Vergonha da família. — Quanto é? — perguntou ela, prudente. — Muito… Meio milhão. Eles já conseguiram juntar um pouco. Estava a pensar ir a Lisboa trabalhar em obras. Ganhar rápido. Natália calou-se. Os tais quinhentos mil estavam na caixinha das jóias. Juntou-os durante três anos, poupando em tudo. Era para renovar a casa de banho, trocar o azulejo, pôr aquela cabine moderna de hidromassagem… — Eu tenho esse dinheiro — sussurrou. Romeu levantou a cabeça de rompante. — Nem penses! Esse é o teu pé-de-meia. Não aceito. — Romeu, é família. Tu disseste que é sagrado. Leva, depois devolves. Agora estamos juntos. Ele hesitou e recusou durante dois dias, andou cabisbaixo, até voltou a fumar no varandim, coisa que prometera largar. No fim, Natália pegou nas notas e pô-las em cima da mesa. — Toma. Vai à tua família, entrega. Ou faz a transferência. — Prefiro entregar em mãos — abraçou-a. — Assim aproveito e vejo com ele oportunidades noutros lados. Vou só dois dias, Natália. Vou já e volto já… daqui a pouco. *** Natália estava sentada no chão do corredor há uma hora. As pernas dormentes, sem sentir dor. Recordava a noite anterior. Estiveram a ver uma comédia sem graça, ele riu e abraçou-a nos ombros, e ela sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. — Se calhar depois de amanhã saio bem cedo — disse ele antes de dormir. Mas afinal tinha desaparecido antes. Ela dormia, nem ouviu a roupa. Só de relance sonhou ouvir a porta, mas achou que seria dos vizinhos. Às duas da tarde decidiu ligar ao tal “irmão”. O número que ele escrevera “para uma emergência”. — Estou? — atendeu uma voz áspera. — Quem fala? — Bom dia, sou… sou a namorada do Romeu. Ele foi ter consigo hoje, não foi? Silêncio total. Depois, um suspiro fundo. — Menina, qual Romeu? O meu irmão chama-se diferente e só sai da cadeia em outubro. A cabeça de Natália rodou. — Como… outubro? Mas ele saiu. Em abril. Fui eu que o fui buscar ao EPL-Tires. — Escute — a voz tornou-se agressiva. — O meu irmão, Alexandre, está em Alcoentre. Esse Romeo… É um antigo colega de cela, saiu há dois meses. Roubou-me o telemóvel durante o tempo que estive na limpeza e copiou todos os contactos. Deve ser mais uma das que ele enrolou. Nisso é artista. Tirou o curso no técnico, desenrasca-se em tudo. Natália pousou lentamente o telemóvel no chão. Lembrou-se dele a ensiná-la a trocar as velas do carro. — O essencial é não apertar demais, — dizia ele. — Senão espeta a rosca, e acabou-se. — Pois, estraguei tudo — murmurou Natália. — Meti-me numa bela alhada. Natália de repente percebeu que não sabia rigorosamente nada do “namorado”. Nunca lhe viu o BI, nem o papel de soltura do EPL. E se ele nem sequer se chamava Romeu?! *** Natália, claro, foi à polícia apresentar queixa. Mostrou a foto, e descobriu muita coisa interessante sobre o ex-companheiro. Chamava-se mesmo Romeu — e isso era a única verdade. A pena fora por crime grave, metade da vida passada atrás das grades — conheceu Natália já cumpria o terceiro castigo. Natália benzeu-se, mudou as fechaduras e achou que ainda teve sorte. Porque pelo que se passava com as anteriores…

Foi-se, ainda bem

Como assim «telemóvel desligado»? Mas há cinco minutos estava a falar com alguém! Inês ficou no meio do corredor, com o telefone encostado ao ouvido.

Olhou logo para a cómoda.

A caixinha das suas joias estava no mesmo lugar, mas havia algo estranho a tampa estava mal fechada.

Rui! gritou ela para dentro do apartamento. Estás na casa de banho?

Inês aproximou-se lentamente da cómoda. Quando tocou na madeira envernizada, arrepiou-se de frio lá dentro, a caixa estava vazia. Completamente vazia.

Nem o talão da Ourivesaria, que usava como marcador, ficou.

As joias tinham desaparecido e também o dinheiro. Embora, esse, tinha sido ela mesma a dar

Meu Deus… sussurrou, deixando-se cair no chão. Como é possível? Ontem estávamos a discutir sobre a cor das paredes… E tinhas prometido que em agosto íamos ao Algarve…

E tudo começou de forma tão banal. Em junho do ano passado, o pistão do velho Micra da Inês emperrou.

Na oficina pediram-lhe um preço absurdo, por isso, irritada, foi procurar ajuda no grupo Ajuda Automóvel Lisboa e Margem Sul.

Malta, alguém sabe se posso eu mesma soltar o pistão dos travões, se estiver colado? escreveu ela, anexando uma foto da roda suja.

Os comentários surgiram logo. Uns diziam Não te metas nisso, rapariga, outros sugeriam comprar uma peça nova.

Foi quando chegou uma resposta do utilizador Rui1985:

Não ligues, compra um spray WD-40 e um kit de reparação, não gastas mais de trinta euros.

Tira a roda, empurra o pistão com o pedal, mas não em demasia.

Limpa tudo com líquido de travões, volta a montar.

Se o interior do cilindro estiver bom, fica como novo.

Inês achou o conselho sensato. Estava escrito sem conversa fiada.

E se houver riscos no cilindro? perguntou.

Nesse caso, tem mesmo de ser uma peça nova. Mas pelo que vejo, o carro está cuidado. Se precisares, manda mensagem, vou ajudando.

E foi assim que começaram.

O Rui era um ás da mecânica.

Num instante ensinou-a a mudar o óleo, escolher velas e até avisou sobre um líquido refrigerante de evitar.

Inês dava por si à espera das mensagens dele.

Olha, Rui, és o meu salvador, escreveu-lhe fim de julho. Estava a pensar Se calhar combinávamos tomar café, obrigada pelos conselhos. Pago eu. Ou um copo, já que o orçamento esticou.

A resposta só chegou três horas depois:

Inês, adorava aceitar. Mesmo. Mas estou em trabalho, longe, e no estrangeiro, digamos assim.

Olha que maravilha, escreveu ela curiosa. Tão longe?

Mais longe não há. Olha, não te quero mentir. Gosto muito de falar contigo, a sério. Mas não estou em trabalho… estou a cumprir pena. Estabelecimento Prisional de Alcoentre, se te diz algo.

O telefone escorregou do sofá. O coração dela apertou-se.

Preso? Ela, uma mulher séria, contabilista de uma empresa de prestígio, a trocar mensagens com um criminoso?

Porquê? escreveu, com os dedos a tremer.

Artigo 217. Burla. Fui parvo, fizeram-me a cama, também abusei, confesso. Falta menos de um ano. Se quiseres apagar a conversa, compreendo.

Inês não respondeu. Bloqueou-o e andou três dias em baixo. Os colegas perguntavam se estava doente.

Ela só pensava:

Porquê? Um tipo tão inteligente, despachado, e está ali dentro?!

Depois de uma semana, veio uma notificação no email Rui tinha-lhe pedido o endereço, já nem se lembrava. Não o apagou, só fechou o chat.

Inês, não levo a mal. Sabia que seria assim. Tu és daquelas pessoas boas, não precisas de gente como eu na vida.

Mas obrigado pela companhia. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus.

Inês leu isto na cozinha e desatou a chorar. Teve pena dele, dela e desta vida injusta.

Porque é que todos têm sorte, só me aparecem casados ou meninos da mamã, e quando calha alguém decente, está preso? perguntava-se.

Mas não respondeu…

***

Inês tentou ir a encontros, mas não a entusiasmavam.

Um falava só dos selos que colecionava, outro apareceu com as unhas todas negras e queria dividir a conta do jantar.

Em março, no dia dos seus trinta e cinco anos, sentiu-se especialmente sozinha.

De manhã, recebeu uma mensagem.

Parabéns, minha querida Inês! escrevia Rui. Sei que não devia incomodar, mas não consegui evitar. Mereces tudo de bom. Que te tratem como rainha.

Aqui com miolo de pão e arame fiz um presentinho… Se pudesse, oferecia-to.

Só queria que soubesses que, algures em Santarém, hoje há um tipo a brindar à tua saúde com chá ranhoso.

Obrigada, Rui, respondeu finalmente. Soube-me muito bem.

Respondeste! parecia exultante. Como tens andado? E o Micra? Aguentou o frio?

Recomeçou tudo.

Agora falavam todos os dias. Rui ligava quando podia.

A voz dele era funda, arranhada mas confortável.

Contava da vida com o irmão, agora a criar os sobrinhos sozinho, e do sonho de recomeçar do zero.

Não volto à minha terra, Inês, dizia ao telefone enquanto ela preparava o jantar. Lá só há amigos do antigamente e é fácil ir pelo mau caminho.

Queria mudar para onde ninguém me conhece. Sei trabalhar, como servente de obras ou mecânico arranjo sempre trabalho.

E para onde pensas ir? ela perguntava, ansiosa.

Para tua cidade, se pudesse. Arranjava um quarto ou um T1 baratinho. Só para respirar o mesmo ar que tu.

Depois logo se via. Não quero pressionar, não te assustes

Em maio, Inês estava apaixonada.

Sabia o horário das inspeções dele, quando tinha ginásio, quando trabalhava na oficina da prisão.

Mandava-lhe encomendas: chá, chocolates, meias quentinhas, peças para artesanato.

Rui, aguenta-te, está quase, pedia. Não entres em brigas.

Por ti sou um anjinho, ria. Em abril sou livre.

Eu espero por ti.

***

Em abril, Inês ficou à porta do Estabelecimento Prisional. Comprou-lhe um blusão novo, calças de ganga e sapatilhas.

O coração quase lhe saltava do peito.

Quando ele saiu, baixo, robusto, com o cabelo cortado rente e grisalho, ficou paralisada.

Na foto era diferente.

Mas depois ele sorriu e disse:

Olá, dona da casa, e ela atirou-se a ele.

Graças a Deus, estás bem, murmurou, encostada à barba picada.

Onde é que eu havia de ir, apertou-a com força. Cheiras bem. Perfume novo?

Foram para casa dela.

A primeira semana foi de sonho. Rui pôs logo mãos à obra: arranjou a torneira a pingar, consertou a fechadura da porta, que emperrava há meses.

À noite, sentavam-se na cozinha, bebiam um tinto e ele contava histórias cómicas da outra vida, sempre a evitar detalhes mais graves.

Olha, Rui, disse ao décimo dia. Tu dizias que querias alugar casa.

Talvez não valha a pena. Tenho espaço, fazes companhia, poupamos e podes comprar ferramentas para começares.

Inês, parece-me estranho, franziu o sobrolho, mexendo o açúcar na caneca. Sou homem, devia ser eu a arranjar casa.

Estou aqui às tuas custas, a comer do teu bolso.

Despacha-te! cobriu-lhe a mão com a dela. Agora estamos juntos. Vais arranjar emprego, isto vai melhorar.

O meu irmão ligou ontem, disse subitamente, desviando o olhar. O meu sobrinho está muito mal, precisa de operação privada.

Pediu-me dinheiro emprestado e eu não tenho nada, estou teso. Tenho vergonha, Inês. Vergonha na cara.

Quanto é que é? perguntou ela com medo.

É bom dinheiro Vinte mil euros. Já conseguiram juntar algum.

Estava a pensar ir para Lisboa trabalhar a recibos verdes, ali pagam bem, ganho em pouco tempo.

Inês ficou muda. Aqueles vinte mil euros estavam guardados na caixinha das joias. Juntara-os durante três anos, abdicando de tudo.

O plano era renovar a casa, trocar azulejos velhos, pôr um duche moderno

Eu tenho esse dinheiro, disse, baixinho.

Rui ergueu logo a cabeça.

Nem penses! Esse dinheiro é teu. Não aceito.

Rui, é pelo sobrinho. É família. Dizias sempre que era sagrado. Leva, depois devolves. Agora somos dois.

Ele resistiu. Ainda andou dois dias sombrio, ia fumar à varanda (coisa que prometera largar).

No fim, foi ela quem pegou no dinheiro e o deixou em cima da mesa:

Leva. Dá ao teu irmão. Ou faz-lhe a transferência.

Prefiro levar eu, disse ele, a abraçá-la. Falo logo com ele sobre trabalho lá para os lados deles, pode ser que arranje qualquer coisa.

Vou dois dias, Inês. Vou e volto. Segunda ou terça estou em casa

***

Inês estava há uma hora sentada no chão do corredor. As pernas dormentes, sem sentir nada.

Recordava a noite anterior. Viram uma comédia parva, ele ria, enlaçava-lhe os ombros e ela sentia-se feliz.

Se calhar depois de amanhã levanto-me cedo, dissera ele, antes de dormir.

Mas fugiu um dia antes. Ela dormia e nem ouviu a porta a fechar.

Acordou com a sensação vaga de ter ouvido uma porta bater achou que eram os vizinhos.

Às duas da tarde, decidiu ligar ao irmão dele. O tal número para uma emergência.

Sim? respondeu uma voz áspera. Quem fala?

Bom dia, sou a Inês, namorada do Rui. Ele foi ter convosco hoje?

Do outro lado, silêncio. Depois, um suspiro longo.

Minha senhora, qual Rui? O meu irmão chama-se António, e ainda está preso, só sai em outubro.

Inês ficou tonta.

Como outubro? Ele saiu em abril. Fui eu que o fui buscar à cadeia de Alcoentre.

Ouça bem, a voz tornou-se seca. O meu irmão, António, está em Leiria, no Estabelecimento Prisional 8.

O Rui O Rui era o meu colega de cela, saiu há dois meses.

Roubou-me o telemóvel quando trabalhávamos juntos e sacou os contactos todos.

A menina é mais uma das que ele engana. Tem curso, fala bem. É artista nisso.

Inês pousou devagar o telefone no chão. Lembrou-se dele a explicar-lhe como mudar velas.

Não apertes demasiado dizia ele. Senão estragas a rosca e depois é um grande filme.

Estraguei murmurou ela. Estraguei-me toda, arranjei problemas sozinha.

Inês apercebeu-se de uma coisa: não sabia nada do homem com quem vivia. Nunca vira o BI dele, nem papel de libertação.

Afinal, será que o nome dele era mesmo Rui?

***
Inês lá foi à PSP apresentar queixa. Mostrou a fotografia, e ficou a saber bastantes coisas sobre o seu Rui.

Chama-se realmente Rui e foi a única verdade que lhe contou.

A pena era por crime grave, metade da vida passou-a preso conheceu Inês durante a terceira condenação.

Inês benzeu-se, trocou as fechaduras e achou que até escapou barata. Se comparasse com as outras mulheresNos dias seguintes, a casa parecia maior, mais fria até o relógio de parede marcava as horas com algum desdém. Inês apanhou-se a fechar as janelas mesmo quando não havia corrente de ar, a verificar se o gás estava desligado, a olhar duas vezes para cada desconhecido que subia no elevador.

Queixou-se do sucedido aos colegas, a alguns amigos, e ouviu todas as frases que se dizem nestes casos. «Tinhas bom coração.» «Ainda bem que não aconteceu pior.» «Da próxima vez, mais cuidado.» «As pessoas são más.»

Por dentro, sentia mais vergonha do que raiva. Tanta prudência toda a vida, contas feitas a rigor, e afinal bastaram umas palavras e olhos escuros para a deitar abaixo.

Um mês depois, ao fazer a limpeza daquela gaveta que nunca arrumava, encontrou um dos presentinhos que Rui lhe fizera na prisão um trevo em arame, tosco, atado com linha azul.

Ficou de joelhos a chorar outra vez, mas não de dor uma espécie de alívio. Era a última lágrima do engano. Depois disso, lavou a cara e atirou o trevo ao lixo, quase a rir da própria ingenuidade.

Nessa noite, abriu conta noutro grupo online. Desta vez, «Aventuras na Serra de Sintra». Sem perguntas de mecânica, só caminhadas e piqueniques. Inventou um nickname anódino.

Quando dois dias depois alguém a convidou para um trilho ao pôr do sol, hesitou, escreveu e quase apagou, mas acabou por aceitar.

Saiu de casa ainda a tempo de sentir o cheiro da terra molhada, pronta a seguir vencendo cada curva do caminho desta vez com os olhos bem abertos, mas sem medo de espreitar o horizonte.

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Foi-se e Ainda Bem — Como assim “o número que ligou está desligado”? Mas há cinco minutos estava ao telefone com alguém! — Natália ficou plantada no meio do hall de entrada, apertando o telemóvel contra o ouvido. Olhou para a cómoda. A caixinha das jóias estava no mesmo sítio. Mas algo não batia certo: a tampa não estava completamente fechada. — Romeu! — chamou para dentro do apartamento. — Estás na casa de banho? Natália aproximou-se devagar da cómoda. Quando tocou na madeira polida, um arrepio percorreu-lhe as costas: lá dentro, não havia nada. Nada de nada. Nem o talão da ourivesaria, que ela usava de marcador de página, restava. As jóias tinham desaparecido… e o dinheiro também. Verdade seja dita, ela própria lho entregara… — Meu Deus… — sussurrou, escorregando até ao chão. — Como é possível? Ontem discutimos sobre o papel de parede… E ele prometeu que íamos ao Algarve em agosto… E tudo começou de forma ridiculamente banal. Em junho do ano passado, o pistão do seu “pópó” encravou-lhe. Na oficina pediram-lhe um balúrdio, por isso, irritada, foi ao grupo “Ajuda Auto Portugal” procurar resposta. “Pessoal, alguém sabe se é possível desbloquear o pistão do travão se ficou preso? — escreveu, com uma foto da roda suja em anexo”. As respostas choveram. Uns diziam “não te metas nisso, rapariga”, outros sugeriam trocar a peça. De repente, apareceu um comentário de um tal Romeo85: “Não ligue, menina. Compre um spray WD-40 e um kit de reparação barato. Tire a roda, empurre o pistão com o pedal, mas atenção, não vá até ao fim. Limpe tudo com líquido de travões e lubrifique. Se o cilindro estiver limpo, o carro vai andar impecável”. Aquilo pareceu-lhe sensato, sem arrogância. “E se o cilindro estiver picado?”, respondeu ela. “Só trocando. Mas pelo aspecto das fotos, o seu carro está bem estimado. Duvido que esteja assim tão mau. Se precisar, mande mensagem privada, ajudo como puder”. E assim ficaram a conversar. Romeu percebia mesmo do assunto. Numa semana explicou-lhe como mudar o óleo, escolher velas e até aconselhou que anticongelante não usar. Natália começou a dar por si à espera das mensagens dele. “Olha, Romeu, vales ouro — escreveu no final de julho. — Se quiseres, um dia destes ofereço-te um café… ou algo mais forte, com o dinheiro que poupei”. A resposta não chegou logo. Demorou três horas até o telefone piscar. “Natália, adorava aceitar. De verdade, mas neste momento estou de serviço, uma missão longa… E estou… fora de Portugal, digamos assim”. “Fora? Onde?” “Mais longe é impossível. Não quero mentir-te. Gosto mesmo de ti, enquanto pessoa. Mas não estou em missão: estou a cumprir pena. EPL-Tires, se isso te diz alguma coisa”. O telemóvel caiu-lhe no sofá. Tudo dentro do peito lhe doeu. Um presidiário? Ela, mulher de bem, contabilista numa empresa importante, há duas semanas a trocar mensagens com um criminoso?! “Porquê?” — conseguiu perguntar, mãos a tremer. “Artigo 217. Burla. Fui parvo, armei-me em esperto, e caí na ratoeira. Falta-me menos de um ano. Se quiseres apagar o chat, compreendo”. Natália não respondeu. Só bloqueou o contacto e andou três dias sem saber de si. Colegas no escritório perguntavam se estava doente. Ela só pensava: “Porquê? Porque é que um homem tão inteligente, tão jeitoso, tem de estar lá dentro?” Passada uma semana, recebeu um email — Romeo tinha guardado o endereço dela. Não o apagou, só fechou o chat. “Natália — escreveu ele. — Não estou chateado. Sabia que ia ser assim. Tu és boa pessoa. Homens como eu não te servem para nada. Quero agradecer-te pelas conversas. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus”. Natália leu aquilo à mesa da cozinha e desabou a chorar convulsivamente. Dava-lhe pena dele, dela própria, e desta vida injusta. — Porque têm sorte todas as outras? Uns são casados, outros uns meninos mimados; e logo o único homem decente, está atrás das grades! — perguntava-se. Mais uma vez, não respondeu… *** Natália tentou ir a encontros, mas não dava certo. Um durante a noite toda só falou dos selos que colecciona, outro apareceu com as unhas pretas e quis dividir a conta do café. Em março, no seu trigésimo quinto aniversário, sentiu-se especialmente sozinha. De manhã, surge uma notificação. “Parabéns, Natália! — escreveu Romeu. — Sei que não devia incomodar, mas não resisti. Que estejas sempre feliz. Mereces tudo. Com pão e fio de cobre fiz um presente… Se pudesse, dava-to pessoalmente. Só quero que saibas que algures no Alentejo há um homem hoje a brindar à tua saúde com um chá horrível”. “Obrigada, Romeu — respondeu ela, cedendo. — Fez-me bem.” “Respondeste! — vinha radiante. — Como estás? E o carrinho? Não te deixou mal nos frios?” E assim recomeçaram a conversar. Agora era todos os dias. Romeu ligava-se sempre que podia. A voz dele era forte, rouca, agradável. Contava-lhe histórias da vida: das traquinices com o irmão, que agora criava os sobrinhos, dos planos que tinha para recomeçar do zero. — Não volto à minha terra, Natália — dizia ele ao telefone, enquanto ela preparava o jantar. — Os velhos amigos só puxam para a má vida. Queria ir para onde ninguém me conhece. Trabalho não me falta. Vou para a construção civil ou oficina. — E para onde ias? — Ia até ti. Arranjava quarto ou T0 baratinho. Era só para saber que respiramos o mesmo ar, que estamos próximos. Só isso… Não faças ideia errada. Em maio, Natália estava apaixonada. Sabia o horário das rotinas dele, quando tinha banho, quando trabalhava no pavilhão. Mandava-lhe caixas com chá, bolachas, meias quentinhas, pequenas peças para inventos. — Romeu, aguenta até ao fim — pedia ela. — Não te metas em chatices. — Por ti, sou um santo, querida — ria-se. — Em abril estou cá fora. — Estou à tua espera. *** Em abril, Natália estava à porta da prisão. Levava para ele um casaco novo, calças de ganga, sapatilhas. O coração batia tanto que parecia querer saltar do peito. Quando ele saiu, não era bem o que ela esperava — baixo, forte, cabelo grisalho já rente. Mas quando sorriu e disse: — Olá, patroa, — lançou-se a correr para o abraçar. — Meu Deus, estás vivo — murmurava ela, aninhada na barba áspera. — Achavas que eu desaparecia? — ele puxou-a com força. — Cheiras a flores, sabias? Foram para casa dela. Na primeira semana, foi como um conto de fadas. Romeu começou logo a arranjar tudo: consertou a torneira, arranjou a fechadura que já emperrava há meses. À noite, ficavam na cozinha, partilhavam vinho verde e ele divertia-a com histórias antigas, sempre tentando evitar os piores episódios. — Ouve, Romeu — insistiu ela ao décimo dia. — Disseste que querias alugar casa. Mas não faças isso. Aqui tens espaço, e é mais divertido estarmos juntos. Assim poupas, compras as tuas ferramentas, começas vida nova. — Natália, não está certo — torceu o nariz, mexendo o açúcar no café. — O homem devia arranjar a casa. Agora vivo à tua custa, estou a incomodar. — Deixa-te disso! — ela colocou-lhe a mão sobre a dele. — Já não somos estranhos. Vais levantar-te, encontrar trabalho, tudo se resolve. — O meu irmão ligou ontem, — disse ele, desviando o olhar. — O miúdo está doente, precisa de uma operação cara. Pediu dinheiro. Eu… como vês, não tenho nada, só vergonha. Vergonha da família. — Quanto é? — perguntou ela, prudente. — Muito… Meio milhão. Eles já conseguiram juntar um pouco. Estava a pensar ir a Lisboa trabalhar em obras. Ganhar rápido. Natália calou-se. Os tais quinhentos mil estavam na caixinha das jóias. Juntou-os durante três anos, poupando em tudo. Era para renovar a casa de banho, trocar o azulejo, pôr aquela cabine moderna de hidromassagem… — Eu tenho esse dinheiro — sussurrou. Romeu levantou a cabeça de rompante. — Nem penses! Esse é o teu pé-de-meia. Não aceito. — Romeu, é família. Tu disseste que é sagrado. Leva, depois devolves. Agora estamos juntos. Ele hesitou e recusou durante dois dias, andou cabisbaixo, até voltou a fumar no varandim, coisa que prometera largar. No fim, Natália pegou nas notas e pô-las em cima da mesa. — Toma. Vai à tua família, entrega. Ou faz a transferência. — Prefiro entregar em mãos — abraçou-a. — Assim aproveito e vejo com ele oportunidades noutros lados. Vou só dois dias, Natália. Vou já e volto já… daqui a pouco. *** Natália estava sentada no chão do corredor há uma hora. As pernas dormentes, sem sentir dor. Recordava a noite anterior. Estiveram a ver uma comédia sem graça, ele riu e abraçou-a nos ombros, e ela sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. — Se calhar depois de amanhã saio bem cedo — disse ele antes de dormir. Mas afinal tinha desaparecido antes. Ela dormia, nem ouviu a roupa. Só de relance sonhou ouvir a porta, mas achou que seria dos vizinhos. Às duas da tarde decidiu ligar ao tal “irmão”. O número que ele escrevera “para uma emergência”. — Estou? — atendeu uma voz áspera. — Quem fala? — Bom dia, sou… sou a namorada do Romeu. Ele foi ter consigo hoje, não foi? Silêncio total. Depois, um suspiro fundo. — Menina, qual Romeu? O meu irmão chama-se diferente e só sai da cadeia em outubro. A cabeça de Natália rodou. — Como… outubro? Mas ele saiu. Em abril. Fui eu que o fui buscar ao EPL-Tires. — Escute — a voz tornou-se agressiva. — O meu irmão, Alexandre, está em Alcoentre. Esse Romeo… É um antigo colega de cela, saiu há dois meses. Roubou-me o telemóvel durante o tempo que estive na limpeza e copiou todos os contactos. Deve ser mais uma das que ele enrolou. Nisso é artista. Tirou o curso no técnico, desenrasca-se em tudo. Natália pousou lentamente o telemóvel no chão. Lembrou-se dele a ensiná-la a trocar as velas do carro. — O essencial é não apertar demais, — dizia ele. — Senão espeta a rosca, e acabou-se. — Pois, estraguei tudo — murmurou Natália. — Meti-me numa bela alhada. Natália de repente percebeu que não sabia rigorosamente nada do “namorado”. Nunca lhe viu o BI, nem o papel de soltura do EPL. E se ele nem sequer se chamava Romeu?! *** Natália, claro, foi à polícia apresentar queixa. Mostrou a foto, e descobriu muita coisa interessante sobre o ex-companheiro. Chamava-se mesmo Romeu — e isso era a única verdade. A pena fora por crime grave, metade da vida passada atrás das grades — conheceu Natália já cumpria o terceiro castigo. Natália benzeu-se, mudou as fechaduras e achou que ainda teve sorte. Porque pelo que se passava com as anteriores…
Moja nevesta sa na mňa urazila kvôli bytu a začala štvať môjho syna proti mne Môj syn sa zaplietol s falošnou dievčinou, ktorá si ho točí, ako chce. V poslednom čase ho začala napúšťať proti mne. Tvrdí mu, že mi na ich šťastí nezáleží, vraj myslím len na seba. Na tieto závery prišla preto, lebo som odmietla vymeniť si s nimi byt. Môj manžel zomrel pred pár rokmi, syn je moje jediné dieťa. Vychovávala som ho s láskou, zabezpečila som mu dobré vzdelanie. Pred svadbou býval so mnou. Už na vysokej začal pracovať a po štúdiu si našiel slušnú prácu. Syn je mojou pýchou, je šikovný a v práci sa mu darí. S manželom sme nikdy nemali na to, aby sme mu kúpili byt – celý život sme žili skromne. Vlastný byt sme si kúpili až po štyridsiatke, predtým sme bývali v podnájme. Druhý byt pre syna sme si dovoliť nemohli – no veď aj ja s manželom sme si naň museli zarobiť sami. Keď mi Marek oznámil, že má novú známosť, bola som šťastná. Snažila som sa s nevestou vychádzať – nikdy som ju nekritizovala, nezaujímalo ma, kto bude nevesta, hlavné bolo, aby bol syn šťastný. Najprv sa mi Sandra páčila, bola milá a slušná. No po svadbe ukázala svoju pravú tvár. Po svadbe Marek a Sandra odišli na svadobnú cestu a po návrate dala nevesta výpoveď. Vraj ju v práci šéfovia šikanujú a chce si nájsť niečo lepšie. Ale zotrvala na krku synovi už dva roky a nechystá sa nikam ísť pracovať. Bývajú v jej jednoizbovom byte na okraji Bratislavy. Keďže Sandra sedí doma, syn si nemôže dovoliť nový byt, pretože všetko minie na kozmetiky a oblečenie od najdrahších značiek. Nechápem, ako si za dva roky nemôže nájsť prácu. Myslím si, že len klame, keď tvrdí, že chodí na pohovory. Najradšej vyžíva manžela a užíva si pohodlný život. Raz som sa jej spýtala, či chcú dieťa. – O akom dieťati sa môžeme baviť, keď žijeme v takto malom byte? – odvrkla. – Čo tak skúsiť šetriť na hypotéku? – navrhla som. – Nemáme z čoho šetriť, ledva vyžijeme do konca mesiaca, – odbila ma Sandra. Zdržala som sa poznámky, že keby pracovala, mohli by dávno šetriť. Keby chceli naozaj bývať lepšie, určite by som im pomohla – mám niečo našetrené. Ale momentálne nechcem nič dať, lebo dobre viem, že Sandra by všetko minula na hlúposti. Nedávno začala nevesta hovoriť o dieťati, že čas beží a treba myslieť na potomka – no dá sa v takých podmienkach vychovávať dieťa? Syn sa prikláňa na jej stranu. – Vieš, mami, so Sandrou sme sa rozprávali, či by si bola ochotná si s nami vymeniť byty. Nechceme nič na papieri, len sa dohodneme. Nemali by sme starosti s hypotékou a Tebe bude stačiť naša garsónka. Veľmi ma to zabolelo. Viem, že by to syn navrhol len na nevestino nahováranie. Odpovedala som, že staré stromy sa nepresádzajú a že chcem ostať vo svojom. – O pár rokov pôjdeš do dôchodku a dáš nám vnúčatá, – usmiala sa nevesta. Ich „výhodnú ponuku“ som odmietla, nič také sa mi nepáči – nechcem opustiť svoj byt. Syn sa ešte párkrát pokúšal k tomu vrátiť a jeho slová ma ranili ešte viac. Nikdy predtým nechcel profitovať na úkor iných, teraz ho do toho ženie manželka. – Poď, ideme domov. Hovorila som ti, že mame je jedno, či budeme mať deti alebo nie. Ani prstom pre nás nepohne! – povedala nevesta synovi naposledy, čo u mňa boli. Odvtedy sa mi syn neozýva, nedvíha mi telefón a nevolá späť. Nechápem, prečo sa takto správa – nie je hlúpy, ale ak je Sandra nablízku, akoby rozum stratil.