Foi-se, ainda bem
Como assim «telemóvel desligado»? Mas há cinco minutos estava a falar com alguém! Inês ficou no meio do corredor, com o telefone encostado ao ouvido.
Olhou logo para a cómoda.
A caixinha das suas joias estava no mesmo lugar, mas havia algo estranho a tampa estava mal fechada.
Rui! gritou ela para dentro do apartamento. Estás na casa de banho?
Inês aproximou-se lentamente da cómoda. Quando tocou na madeira envernizada, arrepiou-se de frio lá dentro, a caixa estava vazia. Completamente vazia.
Nem o talão da Ourivesaria, que usava como marcador, ficou.
As joias tinham desaparecido e também o dinheiro. Embora, esse, tinha sido ela mesma a dar
Meu Deus… sussurrou, deixando-se cair no chão. Como é possível? Ontem estávamos a discutir sobre a cor das paredes… E tinhas prometido que em agosto íamos ao Algarve…
E tudo começou de forma tão banal. Em junho do ano passado, o pistão do velho Micra da Inês emperrou.
Na oficina pediram-lhe um preço absurdo, por isso, irritada, foi procurar ajuda no grupo Ajuda Automóvel Lisboa e Margem Sul.
Malta, alguém sabe se posso eu mesma soltar o pistão dos travões, se estiver colado? escreveu ela, anexando uma foto da roda suja.
Os comentários surgiram logo. Uns diziam Não te metas nisso, rapariga, outros sugeriam comprar uma peça nova.
Foi quando chegou uma resposta do utilizador Rui1985:
Não ligues, compra um spray WD-40 e um kit de reparação, não gastas mais de trinta euros.
Tira a roda, empurra o pistão com o pedal, mas não em demasia.
Limpa tudo com líquido de travões, volta a montar.
Se o interior do cilindro estiver bom, fica como novo.
Inês achou o conselho sensato. Estava escrito sem conversa fiada.
E se houver riscos no cilindro? perguntou.
Nesse caso, tem mesmo de ser uma peça nova. Mas pelo que vejo, o carro está cuidado. Se precisares, manda mensagem, vou ajudando.
E foi assim que começaram.
O Rui era um ás da mecânica.
Num instante ensinou-a a mudar o óleo, escolher velas e até avisou sobre um líquido refrigerante de evitar.
Inês dava por si à espera das mensagens dele.
Olha, Rui, és o meu salvador, escreveu-lhe fim de julho. Estava a pensar Se calhar combinávamos tomar café, obrigada pelos conselhos. Pago eu. Ou um copo, já que o orçamento esticou.
A resposta só chegou três horas depois:
Inês, adorava aceitar. Mesmo. Mas estou em trabalho, longe, e no estrangeiro, digamos assim.
Olha que maravilha, escreveu ela curiosa. Tão longe?
Mais longe não há. Olha, não te quero mentir. Gosto muito de falar contigo, a sério. Mas não estou em trabalho… estou a cumprir pena. Estabelecimento Prisional de Alcoentre, se te diz algo.
O telefone escorregou do sofá. O coração dela apertou-se.
Preso? Ela, uma mulher séria, contabilista de uma empresa de prestígio, a trocar mensagens com um criminoso?
Porquê? escreveu, com os dedos a tremer.
Artigo 217. Burla. Fui parvo, fizeram-me a cama, também abusei, confesso. Falta menos de um ano. Se quiseres apagar a conversa, compreendo.
Inês não respondeu. Bloqueou-o e andou três dias em baixo. Os colegas perguntavam se estava doente.
Ela só pensava:
Porquê? Um tipo tão inteligente, despachado, e está ali dentro?!
Depois de uma semana, veio uma notificação no email Rui tinha-lhe pedido o endereço, já nem se lembrava. Não o apagou, só fechou o chat.
Inês, não levo a mal. Sabia que seria assim. Tu és daquelas pessoas boas, não precisas de gente como eu na vida.
Mas obrigado pela companhia. Foram as melhores duas semanas dos últimos três anos. Sê feliz. Adeus.
Inês leu isto na cozinha e desatou a chorar. Teve pena dele, dela e desta vida injusta.
Porque é que todos têm sorte, só me aparecem casados ou meninos da mamã, e quando calha alguém decente, está preso? perguntava-se.
Mas não respondeu…
***
Inês tentou ir a encontros, mas não a entusiasmavam.
Um falava só dos selos que colecionava, outro apareceu com as unhas todas negras e queria dividir a conta do jantar.
Em março, no dia dos seus trinta e cinco anos, sentiu-se especialmente sozinha.
De manhã, recebeu uma mensagem.
Parabéns, minha querida Inês! escrevia Rui. Sei que não devia incomodar, mas não consegui evitar. Mereces tudo de bom. Que te tratem como rainha.
Aqui com miolo de pão e arame fiz um presentinho… Se pudesse, oferecia-to.
Só queria que soubesses que, algures em Santarém, hoje há um tipo a brindar à tua saúde com chá ranhoso.
Obrigada, Rui, respondeu finalmente. Soube-me muito bem.
Respondeste! parecia exultante. Como tens andado? E o Micra? Aguentou o frio?
Recomeçou tudo.
Agora falavam todos os dias. Rui ligava quando podia.
A voz dele era funda, arranhada mas confortável.
Contava da vida com o irmão, agora a criar os sobrinhos sozinho, e do sonho de recomeçar do zero.
Não volto à minha terra, Inês, dizia ao telefone enquanto ela preparava o jantar. Lá só há amigos do antigamente e é fácil ir pelo mau caminho.
Queria mudar para onde ninguém me conhece. Sei trabalhar, como servente de obras ou mecânico arranjo sempre trabalho.
E para onde pensas ir? ela perguntava, ansiosa.
Para tua cidade, se pudesse. Arranjava um quarto ou um T1 baratinho. Só para respirar o mesmo ar que tu.
Depois logo se via. Não quero pressionar, não te assustes
Em maio, Inês estava apaixonada.
Sabia o horário das inspeções dele, quando tinha ginásio, quando trabalhava na oficina da prisão.
Mandava-lhe encomendas: chá, chocolates, meias quentinhas, peças para artesanato.
Rui, aguenta-te, está quase, pedia. Não entres em brigas.
Por ti sou um anjinho, ria. Em abril sou livre.
Eu espero por ti.
***
Em abril, Inês ficou à porta do Estabelecimento Prisional. Comprou-lhe um blusão novo, calças de ganga e sapatilhas.
O coração quase lhe saltava do peito.
Quando ele saiu, baixo, robusto, com o cabelo cortado rente e grisalho, ficou paralisada.
Na foto era diferente.
Mas depois ele sorriu e disse:
Olá, dona da casa, e ela atirou-se a ele.
Graças a Deus, estás bem, murmurou, encostada à barba picada.
Onde é que eu havia de ir, apertou-a com força. Cheiras bem. Perfume novo?
Foram para casa dela.
A primeira semana foi de sonho. Rui pôs logo mãos à obra: arranjou a torneira a pingar, consertou a fechadura da porta, que emperrava há meses.
À noite, sentavam-se na cozinha, bebiam um tinto e ele contava histórias cómicas da outra vida, sempre a evitar detalhes mais graves.
Olha, Rui, disse ao décimo dia. Tu dizias que querias alugar casa.
Talvez não valha a pena. Tenho espaço, fazes companhia, poupamos e podes comprar ferramentas para começares.
Inês, parece-me estranho, franziu o sobrolho, mexendo o açúcar na caneca. Sou homem, devia ser eu a arranjar casa.
Estou aqui às tuas custas, a comer do teu bolso.
Despacha-te! cobriu-lhe a mão com a dela. Agora estamos juntos. Vais arranjar emprego, isto vai melhorar.
O meu irmão ligou ontem, disse subitamente, desviando o olhar. O meu sobrinho está muito mal, precisa de operação privada.
Pediu-me dinheiro emprestado e eu não tenho nada, estou teso. Tenho vergonha, Inês. Vergonha na cara.
Quanto é que é? perguntou ela com medo.
É bom dinheiro Vinte mil euros. Já conseguiram juntar algum.
Estava a pensar ir para Lisboa trabalhar a recibos verdes, ali pagam bem, ganho em pouco tempo.
Inês ficou muda. Aqueles vinte mil euros estavam guardados na caixinha das joias. Juntara-os durante três anos, abdicando de tudo.
O plano era renovar a casa, trocar azulejos velhos, pôr um duche moderno
Eu tenho esse dinheiro, disse, baixinho.
Rui ergueu logo a cabeça.
Nem penses! Esse dinheiro é teu. Não aceito.
Rui, é pelo sobrinho. É família. Dizias sempre que era sagrado. Leva, depois devolves. Agora somos dois.
Ele resistiu. Ainda andou dois dias sombrio, ia fumar à varanda (coisa que prometera largar).
No fim, foi ela quem pegou no dinheiro e o deixou em cima da mesa:
Leva. Dá ao teu irmão. Ou faz-lhe a transferência.
Prefiro levar eu, disse ele, a abraçá-la. Falo logo com ele sobre trabalho lá para os lados deles, pode ser que arranje qualquer coisa.
Vou dois dias, Inês. Vou e volto. Segunda ou terça estou em casa
***
Inês estava há uma hora sentada no chão do corredor. As pernas dormentes, sem sentir nada.
Recordava a noite anterior. Viram uma comédia parva, ele ria, enlaçava-lhe os ombros e ela sentia-se feliz.
Se calhar depois de amanhã levanto-me cedo, dissera ele, antes de dormir.
Mas fugiu um dia antes. Ela dormia e nem ouviu a porta a fechar.
Acordou com a sensação vaga de ter ouvido uma porta bater achou que eram os vizinhos.
Às duas da tarde, decidiu ligar ao irmão dele. O tal número para uma emergência.
Sim? respondeu uma voz áspera. Quem fala?
Bom dia, sou a Inês, namorada do Rui. Ele foi ter convosco hoje?
Do outro lado, silêncio. Depois, um suspiro longo.
Minha senhora, qual Rui? O meu irmão chama-se António, e ainda está preso, só sai em outubro.
Inês ficou tonta.
Como outubro? Ele saiu em abril. Fui eu que o fui buscar à cadeia de Alcoentre.
Ouça bem, a voz tornou-se seca. O meu irmão, António, está em Leiria, no Estabelecimento Prisional 8.
O Rui O Rui era o meu colega de cela, saiu há dois meses.
Roubou-me o telemóvel quando trabalhávamos juntos e sacou os contactos todos.
A menina é mais uma das que ele engana. Tem curso, fala bem. É artista nisso.
Inês pousou devagar o telefone no chão. Lembrou-se dele a explicar-lhe como mudar velas.
Não apertes demasiado dizia ele. Senão estragas a rosca e depois é um grande filme.
Estraguei murmurou ela. Estraguei-me toda, arranjei problemas sozinha.
Inês apercebeu-se de uma coisa: não sabia nada do homem com quem vivia. Nunca vira o BI dele, nem papel de libertação.
Afinal, será que o nome dele era mesmo Rui?
***
Inês lá foi à PSP apresentar queixa. Mostrou a fotografia, e ficou a saber bastantes coisas sobre o seu Rui.
Chama-se realmente Rui e foi a única verdade que lhe contou.
A pena era por crime grave, metade da vida passou-a preso conheceu Inês durante a terceira condenação.
Inês benzeu-se, trocou as fechaduras e achou que até escapou barata. Se comparasse com as outras mulheresNos dias seguintes, a casa parecia maior, mais fria até o relógio de parede marcava as horas com algum desdém. Inês apanhou-se a fechar as janelas mesmo quando não havia corrente de ar, a verificar se o gás estava desligado, a olhar duas vezes para cada desconhecido que subia no elevador.
Queixou-se do sucedido aos colegas, a alguns amigos, e ouviu todas as frases que se dizem nestes casos. «Tinhas bom coração.» «Ainda bem que não aconteceu pior.» «Da próxima vez, mais cuidado.» «As pessoas são más.»
Por dentro, sentia mais vergonha do que raiva. Tanta prudência toda a vida, contas feitas a rigor, e afinal bastaram umas palavras e olhos escuros para a deitar abaixo.
Um mês depois, ao fazer a limpeza daquela gaveta que nunca arrumava, encontrou um dos presentinhos que Rui lhe fizera na prisão um trevo em arame, tosco, atado com linha azul.
Ficou de joelhos a chorar outra vez, mas não de dor uma espécie de alívio. Era a última lágrima do engano. Depois disso, lavou a cara e atirou o trevo ao lixo, quase a rir da própria ingenuidade.
Nessa noite, abriu conta noutro grupo online. Desta vez, «Aventuras na Serra de Sintra». Sem perguntas de mecânica, só caminhadas e piqueniques. Inventou um nickname anódino.
Quando dois dias depois alguém a convidou para um trilho ao pôr do sol, hesitou, escreveu e quase apagou, mas acabou por aceitar.
Saiu de casa ainda a tempo de sentir o cheiro da terra molhada, pronta a seguir vencendo cada curva do caminho desta vez com os olhos bem abertos, mas sem medo de espreitar o horizonte.







