A Avó Que Só Tinha Olhos para Um Neto: A História de Katya, Dima e o Amor Partilhado Numa Família Portuguesa

A avó fazia sempre distinção entre os netos

E eu, avó? perguntava ela baixinho.
Oh, Matilde, tu já estás bem criada. Vê só essas bochechas, bem alimentadas.
Nozes são para o juízo, a João faz-lhe falta para os estudos, que ele é rapaz, o futuro da família.
Tu vai lá limpar o pó às prateleiras. Uma menina tem de se habituar ao trabalho.
Matilde, estás a falar a sério? Ela está mesmo a ir-se. Os médicos disseram: dias, talvez horas

João estava à porta da cozinha, a apertar nervosamente a chave do carro na mão. Tinha um ar de quem já estava por tudo.

Estou mesmo, João. Queres chá? Matilde nem olhou para ele, continuando a cortar a maçã para a filha com uma precisão cirúrgica. Senta-te, faço um fresquinho.
Chá agora, Matilde? O irmão aproximou-se incrédulo. Ela ali deitada, cheia de tubos, a arfar…
Ela chamou-te de manhã. Disse: «Matildinha, onde está a Matildinha?» Nem imaginas, fiquei sem ar. Não ias mesmo vê-la?
É a avó! É a última oportunidade, percebes?

Matilde arrumou as fatias de maçã no pratinho, só então olhou para o irmão.
Para ti é avó. Para ela, tu és o Joãozinho, a luz dos olhos dela, o tesouro da família.
E eu… Eu nunca existi para ela.
Achas sinceramente que preciso deste «adeus»?
O que é que eu lhe vou perdoar, João? Ou ela a mim?

Deixa-te dessas mágoas de infância! João atirou as chaves para cima da mesa. Sim, ela gostava mais de mim. E então?
É velha, tinha as suas pancadas. Agora está a morrer! Não podes ser assim… fria.

Não sou fria, João. Simplesmente, não sinto nada por ela. Vai tu. Fica com ela, dá-lhe a mão. Para ela, o teu carinho vale cem vezes mais que o meu.
Tu sempre foste o ouro dela, o sol. Brilha para ela até ao fim.

João olhou-a como se visse um fantasma, deu meia-volta e saiu, batendo com a porta.

Matilde suspirou, pegou no prato das maçãs e foi para o quarto da filha.

***

Naquela família, sempre se dividiram as coisas de forma milimétrica. Não era dos pais: eles amavam tanto o João como a Matilde.
A casa era uma algazarra, sempre a cheirar a bolo acabado de fazer e a passeios pelo campo.

Mas a Dona Alzira, a avó, era feita de outra madeira.

Joãozinho, anda cá, meu passarinho, chamava ela quando lá iam ao domingo. Vê o que eu tenho para ti.
Nozes, descascadas por mim! E ainda rebuçados Regina, fresquinhos, do quiosque!

Matilde, com sete anos na altura, ficava ao lado a ver a avó sacar do saco mágico do velho aparador.
E eu, avó? murmurava, quase sem voz.

A Dona Alzira dava-lhe um olhar mais áspero que calçada velha.

Matilde, tu és forte e despachada. Olha essas bochechas
Nozes são para o juízo. O João tem de aprender, que é o homem cá da casa.
Tu vai mas é limpar aquele pó. Rapariga que se preze tem de saber trabalhar.

João, sempre aflito, apanhava o saquinho e fugia de lado, Matilde ia esfregar as prateleiras.

Não ficava magoada. Verdade mesmo: a pequena Matilde achava que era como chover. Chove, e a avó gosta mais do João. São coisas.

No corredor, lá estava o irmão à espera.

Toma, metia-lhe metade dos rebuçados na mão, junto com mexido de nozes Mas come escondida, senão ela volta a resmungar.

És tu que precisas para o juízo! dizia Matilde a rir-se.

Quem precisa disso… João fazia careta. A avó é tolinha. Vá, engole isso rápido.

Sentavam-se a lanchar na escada para o sótão, deliciados com o proibido. João partilhava sempre. Sempre.
Mesmo quando a avó lhe enfiava euros à socapa «para o gelado», ele vinha logo à procura de Matilde.

Olha, isto dá para dois Cornetos e uma pastilha com cromo! Vamos?

O irmão sempre foi o apoio dela, compensando toda a frieza da avó, e tanto compensava que Matilde nunca se sentiu carente daquilo.

Os anos passavam, Dona Alzira envelhecia. Quando João fez dezoito, ela anunciou quase num grito: ia passar-lhe o T2 no centro de Lisboa.

O homem da família tem de ter poiso, decretou, cerimónia de família. Para trazer mulher à casa, que não ande aí perdido.

A mãe só suspirou. Conhecia bem o feitio da avó, discutir era pior. À noite, foi buscar Matilde ao quarto.

Filha, não fiques Nós e o teu pai vemos tudo. O dinheiro que estávamos a juntar para o carro e para arranjar a casa, é teu.
Assim é mais justo.

Oh mãe, deixa lá! Matilde abraçou-a. O João precisa mais, que vai casar com a Vera. Eu fico bem na residência.

Não, Matilde, não pode ser assim. A avó tem as suas coisas, mas nós somos pais. Não há cá filhos de primeira e segunda! Aceita e cala-te.

Matilde não aceitou.

João mudou-se logo para o T2 da avó quando casou, e em casa deles ficou um espaço de sobra.

Matilde ficou com o quarto do irmão, arrumou lá os livros, o cavalete, e pela primeira vez percebeu o que era ter amor a sério, sem dividir por quotas.

Nem a herança estragou a relação com o irmão; se calhar até os uniu mais. João sentia uma culpa danada.

Matilde, aparece lá em casa, dizia ele ao chegar de visita. A Vera fez um bolo de laranja.
E a avó já sabes. Ontem ligou-me para perguntar se eu não tinha gasto o «dinheiro dela» contigo.

E o que disseste?

Que gastei tudo em raspadinhas e vinho do Porto! riu-se João. Ela ficou sem respirar uns segundos e depois: «Isso é culpa da Matilde!»

Só podia ser, Matilde desmanchava-se a rir. A má influência!

***

Quando Matilde casou com Bernardo e nasceu a filha, a questão da casa apareceu em força. A mãe mostrou que a diplomacia portuguesa existe mesmo:

Ouçam lá, disse. Temos um T3 grande. O João já tem o T2 da avó. Tu e o Bernardo na casa arrendada…
Que tal trocarmos isto por um T2 e um T1? O T1 para nós, o T2 para vocês.

Mãe interrompeu João. Eu abdico logo da minha parte do T3. Tenho onde cair morto, não preciso de mais.
A Matilde que fique com tudo, eles é que estão a crescer. Têm a miúda, precisam mais que eu.

Estás doido, João? atirou Bernardo, atordoado. Isso é imenso dinheiro! Tens a certeza?

Claro. Sempre partilhei tudo com a Matilde. Ela já levou com as birras da avó, ao menos que leve isto. Nem discutam. Palavra de irmão.

Matilde chorou. Não pelos metros quadrados, mas porque o irmão era mesmo o melhor amigo que alguma vez teve.

Lá trocaram a casa antiga pela divisão nova, e cada um ficou mais feliz do seu lado.

A mãe vinha sempre ajudar na neta, o João com a mulher e os filhos quase todos os fins de semana.

E Dona Alzira? Sozinha. João levava-lhe compras, arranjava torneiras, ouvia horas a fio a queixar-se da pressão alta e da «desavergonhada da Matilde».

Ela ao menos já me ligou? Perguntou como está a minha tensão?

Ó avó, tu nunca quiseste saber dela respondia João, com toda a calma. Em vinte anos nunca lhe deste uma palavra carinhosa. Como queres que ela ligue?

Estava a educá-la! alardeava a velha, inchada de orgulho. Mulher tem de saber o seu lugar! Agora olha, fez-se à casa, pôs a mãe fora.

João já nem respondia. Inútil argumentar.

***

Matilde estava na cozinha, a memória a pregar-lhe partidas.
A avó a desviar-lhe a mão do frasco de compota. Depois a elogiar o rabisco torto do João e a ignorar o diploma da neta.

E quando foi ao casamento do João toda emperiquitada, mas na boda de Matilde nem apareceu «estava doente».

Mãe, porque não vamos à casa da avó Alzira? a filha espreitou à porta. O tio João disse que ela está muito doente.

Porque ela só quer ver o tio João, querida, Matilde afagou-lhe a cabeça. Assim fica mais descansada.

Ela é má? perguntou a miúda, meio desconfiada.

Não, Matilde pensou, só não sabia gostar de muita gente ao mesmo tempo. O coração dela só dava para um. Às vezes acontece.

À noite, ligou o irmão.

Pronto Matilde. Foi há bocado.

Os meus sentimentos, João. Sei que te custa.

Esperou por ti até ao fim, mentiu ele. Matilde percebeu, mas não desmentiu. Era o jeito dele de remendar as coisas, nem que fosse à última hora. Disse: «Que a Matilde seja feliz.»

Obrigada, João Amanhã passa lá em casa. Jantamos, faço um bolo de maçã.

Vou sim Matilde, tu não te arrependes? De não teres ido?

Matilde não mentiu.

Não, João. Não me arrependo. O que é que adiantava fingir? Nem ela me queria ver, nem eu a ela

O irmão ficou em silêncio um instante.

Talvez tenhas razão, suspirou. Sempre foste a mais sensata. Até amanhã então.

O funeral foi discreto. Matilde apareceu, por causa da mãe e do irmão. Ficou num cantinho, de casaco preto, a olhar para aquele céu cinzento que pesa sempre nos funerais. Quando baixaram o caixão, não chorou.

O irmão chegou ao pé dela e abraçou-a.

Estás bem?

Estou, João. A sério.

Olha, hesitou ele, estive a arrumar a casa dela Encontrei uma caixa de madeira. Fotos antigas.
As tuas estavam lá também. Um monte delas. Tinham todas sido recortadas das fotos de família. Guardava-as separadas.

Matilde levantou as sobrancelhas.

Para quê?

Não sei. Talvez até gostasse de ti, mas não sabia demonstrar? Se te admitisse, tinha medo que gostasse menos de mim? Os velhos são estranhos.

Talvez, Matilde encolheu os ombros. Mas agora já não importa.

Saíram do cemitério de braço dado, ele alto e robusto, ela frágil como sempre.

Olha, disse João ao chegarem ao carro. Vou vender aquela casa dela.
Compro um T3 para mim, abro uma conta para os miúdos, e o resto porque não ajudarmos uma ala pediátrica no hospital? Ou uma associação? Que o dinheiro da «avó» faça alguém feliz, só uma vez, sem favoritos…

Matilde olhou para o irmão e, pela primeira vez em muitos dias, sorriu mesmo de coração.

Era a melhor vingança para a Dona Alzira. A mais meiga e justa de todas.

Então fica combinado?

Combinado.

Cada um foi para seu lado. Matilde ia pela cidade, ouvindo rádio, a sentir finalmente um sossego por dentro, daqueles raros.

Talvez o João tivesse razão. Se calhar a felicidade era mesmo isto: deixar o dinheiro para quem precisa e guardar só o que realmente importa.

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A Avó Que Só Tinha Olhos para Um Neto: A História de Katya, Dima e o Amor Partilhado Numa Família Portuguesa
Наблюдателната Малка: Внимателната Дъщеря Приема Тайнственото Завръщане на Баща си.