Todas as terças-feiras
Leonor apressava-se para o metro, apertando na mão um saco de plástico vazio. Era o símbolo do fracasso do dia duas horas gastas a vaguear por centros comerciais, e nem uma ideia decente de presente para a afilhada, filha da amiga. Beatriz, com dez anos, já não queria saber de póneis e agora era apaixonada por astronomia; encontrar um telescópio em conta parecia missão digna da NASA.
Já anoitecia e, lá em baixo, o cansaço pairava no ar, típico do fim de um dia de trabalho. Leonor, deixando passar a onda de gente a sair, esgueirou-se para o tapete rolante. Foi então que, mesmo com a mente longe de tudo, apanhou um fragmento de conversa que se destacava no burburinho.
…nunca pensei que o voltasse a ver, a sério, dizia uma voz jovem e trémula atrás dela. E agora, todas as terças-feiras, é ele quem vai busca-la ao infantário. Mesmo. Vai no seu carro, e levam-na sempre ao parque das diversões…
Leonor parou a meio do percurso do tapete rolante. Chegou a olhar para trás e apanhou um relance da oradora casaco vermelho vivo, expressão agitada, olhos brilhantes. E a amiga, atenta, acenando que sim com a cabeça.
Todas as terças-feiras.
Ela também já tivera um dia assim. Três anos antes. Não era a segunda-feira pesada do arranque da semana, nem a sexta de promessa de descanso. Era mesmo a terça. O dia à volta do qual orbitava o seu universo.
Todas as terças, exatamente às cinco, saía disparada da escola onde ensinava Português e Literatura, correndo para o outro lado da cidade. Para o Conservatório de Música de Lisboa, num casarão antigo com soalho a ranger. Ia buscar o Martim. Sete anos, muito sério para a idade, quase tão alto como a sua viola. Não era filho dela era o sobrinho. O filho do seu irmão António, que morrera num acidente de viação horrível três anos antes.
Nos primeiros meses depois do funeral, aquelas terças eram um ritual de sobrevivência. Para o Martim, que praticamente deixara de falar. Para a mãe dele, Olga, que estava quebrada e mal saía da cama. E para a própria Leonor quem tentava colar os bocados, tornando-se o porto seguro, o pilar, a capitã daquela nave naufragada.
Lembrava-se de tudo. De como Martim saía da aula, cabisbaixo, sem olhar para ninguém. De como ela lhe pegava no estojo pesado da viola, e ele lho passava em silêncio. No caminho para o metro, ela contava-lhe histórias sobre um erro divertido na composição de um aluno, sobre o pardal que lhe rapinara o lanche a um miúdo.
Certa vez, numa chuva de novembro, Martim perguntou: “Tia Nô, o pai também não gostava de chuva?” E ela, com a dor e o carinho a apertar-lhe o peito, respondeu: Detestava. Mal via o céu a escurecer, corria logo para baixo de uma varanda. E ele agarrou-lhe a mão. Forte, à adulto. Não para ser guiado, mas como quem tenta segurar algo que escapa. Não era a mão dela era aquela memória. Apertava-lhe os dedos e naquele calor estava toda a força da saudade de uma criança, misturada com a certeza pungente de que, sim, o pai existira. Que corria para fugir à chuva. Que era mais do que memórias e suspiros da avó era real, naquela rua, naquele ar húmido de novembro.
Durante três anos, a vida dela dividiu-se entre antes e depois. E o centro de tudo era aquela terça-feira. Os outros dias eram apenas prólogo, cenário. Ela preparava-se: comprava o sumo de maçã que o Martim gostava, punha no telemóvel desenhos animados, para o caso de o metro estar impossível, inventava temas para conversas.
Depois… a Olga foi recuperando. Arranjou emprego. Depois, um novo amor. Decidiu recomeçar noutra cidade, longe das memórias. Leonor ajudou nas mudanças, embalou a viola do Martim num estojo novo, abraçou-o com força na estação. Liga-me sempre, disse ela, segurando as lágrimas. Estou aqui para ti, a qualquer hora.
No início, ele ligava todas as terças, certo como um relógio, às seis. E durante uns minutos ela voltava a ser Tia Nô, a tentar saber tudo naqueles quinze minutos: a escola, a viola, os amigos novos. A voz dele era um fio invisível atravessando Portugal inteiro.
Depois as chamadas passaram a ser quinzenais. Ele cresceu. Vieram atividades, trabalhos de casa, videojogos com colegas. Tia, desculpa, na terça passada esqueci-me, tive teste surpresa, escrevia ele no WhatsApp. Ela respondia: Nada, campeão. Como correu o teste? As terças tornaram-se espera por uma mensagem que às vezes nem vinha. Não se aborrecia. Mandava mensagem ela.
Com o tempo, só falavam nos dias de festa: aniversário, Natal. A voz dele ganhou outro timbre. Já não contava tudo, só o geral: Tudo tranquilo, Vai-se andando, A estudar. O padrasto, Sérgio, mostrou-se boa pessoa, tranquilo, sem tentar substituir ninguém apenas presente. Era o essencial.
Agora há pouco nasceu uma mana Madalena. Na foto do Facebook, o Martim segura a bebé como quem segura o universo, meio trapalhão, mas com aquele carinho desajeitado que faz derreter qualquer coração. A vida, ora cruel, ora generosa, avançava. Sarava ou ao menos, tapava velhas feridas com novas rotinas: cuidar da bebé, preocupações da escola, sonhos para amanhã. E ali, para Leonor, havia ainda um espaço, cada vez mais arrumadinho, de tia do antigamente.
E agora, ali, no burburinho do metro, aquelas palavras soltas todas as terças soaram não como um remorso, mas um eco meigo. Como um bilhete da Leonor de há três anos, carregada de uma responsabilidade ardente e silenciosa, e uma dose de amor do tamanho do mundo. Aquela Leonor sabia bem o que era ser necessária: apoio, farol, peça-chave do puzzle de um rapazinho. Era preciso.
A mulher do casaco vermelho tinha o seu próprio enredo, outro equilíbrio difícil entre antigas dores e desafios atuais. Mas aquele ritmo todas as terças era língua universal. A linguagem da presença: Estou aqui. Podes contar comigo. Neste dia, a esta hora, és a prioridade. Leonor, antigamente, era fluente. Agora, quase se esquecera.
O comboio partiu. Leonor endireitou-se, fitando o reflexo no vidro escuro do túnel.
Desceu na sua estação, certa de uma coisa: amanhã iria encomendar dois telescópios não muito caros, mas bons. Um para a Beatriz. E outro para o Martim, entregue em casa. Assim que chegasse, mandava-lhe mensagem: Martim, este é para vermos o mesmo céu, mesmo longe. Que dizes: próxima terça, às seis, se estiver limpo, olhamos juntos para a Ursa Maior? Alinhamos os relógios. Beijinho, da tia Nô.
Subiu pelo tapete rolante rumo à cidade iluminada. O frio da noite batia-lhe bem no rosto. A próxima terça já não estava vazia. Voltava a ter um propósito. Não como obrigação, mas como acordo silencioso entre pessoas que se lembram e agradecem a quem os ajudou a atravessar a noite.
A vida continuava. E havia ainda datas para celebrar. Para marcar. Para aquele pequeno milagre de olhar o céu ao mesmo tempo, separados por quilómetros, ligados por lembranças e por um amor que, mesmo mais baixinho, nunca se apaga.







