Recordo aqueles tempos difíceis como se fossem ondulações de um passado longínquo, quando a nossa mãe, a Dona Custódia, ficou na rua com três filhos pequeninos. O nosso pai, António Veloso, vendeu o apartamento onde vivíamos em Lisboa, ficou com todos os escudos da venda e desapareceu sem deixar rasto.
Durante anos, até aos seus trinta e oito, a minha mãe e o meu pai lutaram para terem filhos. Os médicos torciam o nariz, ninguém sabia a razão daquela infertilidade. Houve uma altura em que a mãe quase perdeu a esperança e resignou-se à ideia de nunca ser mãe. O pai mostrava-se apático: “Não te preocupes, não faz mal nenhum”, dizia ele, como se ser pai não fosse para ele.
Mas a minha mãe era teimosa como só as mulheres portuguesas sabem ser e pediu, numa última prece, a Deus, que lhe desse pelo menos um filho. E fosse milagre ou mero acaso, aí nasci eu, Rosalina.
A alegria que a minha mãe sentiu foi desmedida, parecia que o mundo tinha virado só para ela. Só que, por essa altura, o meu pai já lhe respondia torto e não tinha paciência sequer para o meu choro de bebé durante as noites. Um ano depois, a família aumentou com o nascimento dos meus irmãos gémeos, Elias e Gonçalo. A mãe não cessava de louvar Deus, tornara-se finalmente mãe o maior sonho da sua vida. Quanto ao meu pai, os filhos nunca lhe tocaram o coração; a sua utilidade para ele era nula. Foi então que arquitetou uma falcatrua.
Com a desculpa de precisarmos de uma casa maior, convenceu a minha mãe a vender o nosso apartamento. Prometeu que, depois da venda, comprariam um T4 com parte do dinheiro e fariam o resto a crédito. A mãe, confiante, aceitou. Porém, assim que o dinheiro caiu na conta todos aqueles escudos , o meu pai esfumou-se. Nunca mais soubemos dele.
A mãe ficou na rua com três crianças. Para onde haveria ela de ir? Mudámo-nos então para casa dos avós, Amália e José, em Almada. E foi ali, divididos em duas divisões modestas, que sobrevivemos anos a fio. A confiança da mãe nos homens evaporara-se por completo. Trabalhava arduamente, dia e noite; alimentar e vestir três filhos era uma luta diária.
Os anos passaram. Primeiro partiu a avó Amália, algum tempo depois, o avô José. Com isso ganhámos espaço, é certo, mas o vazio também aumentou. Um dia, era verão, a mãe levou-nos ao Jardim da Estrela em Lisboa. Enquanto brincávamos no parque, um senhor simpático, já com os seus quarenta anos, aproximou-se da mãe. Insistia em conhecê-la, mas a mãe era intransigente. Muitas vezes voltámos àquele parque até que, enfim, ela cedeu. Entregou-lhe o número de telefone, começaram a conversar e, pouco depois, foram jantar juntos.
Dois meses passaram e mudámo-nos para um T3 espaçoso, tudo graças ao Sr. Albano. Ele tornou-se o nosso padrasto. Dizer que a nossa infância mudou é pouco; Albano substituiu o pai que fugira, amparou-nos nos momentos difíceis, vibrou connosco com cada conquista, chorou connosco nas derrotas. Crescemos, tornámo-nos adultos e Albano será sempre o nosso pai. Percebemos então: uma mulher portuguesa com filhos não é um fardo, nem está condenada à infelicidade. Sempre há esperança, sempre pode surgir a felicidade onde menos se espera. O nosso pai de sangue fugiu, mas o Albano, homem digno, nunca nos largou e fez de nós uma família feliz.







