Sabes, eu precisava mesmo de te contar o que se passou com a minha mãe… Então, imagina só: ela vive numa aldeia pequenina e super acolhedora, encostada ao rio Tejo. Mesmo atrás do seu quintal começa uma zona de pinhal e, na altura certa, dá para apanhar um monte de amoras e cogumelos. Desde miúda que corria por aquelas clareiras, sempre de cesta na mão, a aproveitar o contacto com a natureza.
Depois casei-me com o Rui, que foi meu colega de escola. Os pais dele vivem ali perto da minha mãe, mas na rua de cima, e o terreno deles não dá acesso ao rio nem ao pinhal. Por isso, sempre que íamos passar uns dias fora de Lisboa, ficávamos em casa da minha mãe.
Nos últimos tempos, ela mudou bastante, não sei se por causa da idade ou de uma certa inveja do meu sogro, mas as nossas férias começaram a ser feitas de discussões constantes. Resolver as coisas a bem estava cada vez mais impossível. Quando ficámos umas vezes em casa dos sogros, olha, a minha mãe arranjou maneira de se zangar também com o marido dela: tudo por ninharias. A minha sogra, que já não tem muita paciência, acabou por gritar tanto que até os vizinhos da rua ouviram aquelas dores antigas saírem cá para fora.
Com o tempo, acalmou tudo, e tanto eu como o Rui pensámos: e se construíssemos a nossa própria casa ali perto? Assim, podíamos ter um espaço só nosso, para descansar sem confusões e visitar todos quando desse jeito.
Arranjar terreno foi uma novela, mas lá conseguimos. O meu sogro e a minha sogra ficaram super entusiasmados e ajudaram em tudo ele então estava sempre na obra, sempre de mangas arregaçadas. Só a minha mãe é que foi um desafio: aparecia, dava opiniões, criticava o que já estava feito. Não deixava ninguém em paz. Construirmos a casa foi, sinceramente, um pesadelo.
Um ano depois, finalmente casa pronta! Achámos que íamos poder respirar fundo… mas ilusão! A minha mãe não desistiu das visitas não-invitadas, acusando-nos de sermos egoístas e dizendo que já não lhe íamos dar mais força. Ignorava por completo o facto de o Rui ter feito sempre todos os arranjos na casa dela desde cortar a relva, arranjar telhado e assim.
Até que houve um dia que ela me saiu com esta:
Porque é que ainda vens cá? Fica lá no teu bairro em Lisboa e quando apareces cá, só vens mostrar o que tens.
Foi aí que o Rui perdeu a paciência. Aproximou-se dela com aquele calma de quem sabe o que vai dizer, mas havia qualquer coisa no tom que fez logo a minha mãe pôr-se à porta:
Que vais fazer, Rui?
Nada, mãe! Tens a tua casa, certo? Então fica por lá. Só queremos que venhas se te convidarmos, dá-nos pelo menos um fim de semana tranquilo de vez em quando. Se precisares de nós para alguma coisa, liga, se houver algum incêndio, aparecemos logo!
Incêndio? Mas qual incêndio?
Mal ele disse aquilo, a minha mãe quase saiu a correr porta fora. Eu só não rebentei a rir porque estava mesmo a vê-la procurar as chaves enquanto apressava o passo para o portão. O Rui depois acalmou, levantou os braços e disse:
Pronto, peço desculpa, o do incêndio foi exagerado.
Não, foi mesmo isso.
Rimo-nos os dois a recordar a cara dela. E desde esse dia, silêncio total na nossa casa nova. Ela deixou de aparecer de surpresa, aceita a ajuda do Rui, mas só responde sim ou não. Aposto que ainda se lembra do tal incêndio…







